Dark as night.
17 Família.
Notas iniciais
Assim que a adrenalina se esvaiu de meu corpo, foi quando realmente comecei a sentir todas as dores que realmente deveria sentir.
Lael sobrevoou a cidade fácil e rapidamente enquanto eu me permiti descansar em suas costas. Devo dizer que, a sensação de olhar o céu, dali, era uma experiência única. Suspirei longa e profundamente. Minhas pálpebras pesavam e eu ouvia Lael cantarolar propositalmente em minha cabeça, suave. Queria ficar acordada, mas estava se tornando uma tarefa árdua.
O vento batia em mim e agitava meu cabelo mesmo quando deitada, meu dragão farejava o ar e assim eu também era capaz de sentir todos os odores que lhe invadiam as narinas.
Não dormi, tal como queria, e logo podia observar alguns vilarejos nas mais diversas direções. Íamos baixo, quase podia tocar as folhas das copas de algumas árvores. Neah se divertiria em meu lugar, supus. Bufei, impaciente, a saudade e preocupação apertando meu peito ao me lembrar da pequena e de meu pai, e até mesmo dos outros.
Algo passou rapidamente ao me lado. Não sabia há quanto tempo estávamos no ar. Mais uma vez algo passou por nós.
– Que merda é essa? – Resmunguei ao me sentar.
– Estamos sendo caçados.
Notei a terceira flecha passar por nós.
– Eu não passei por tudo aquilo pra morrer por uma flecha! – Disse ao ver uma quarta flecha passar. – Vamos descer. Diminua.
Rolei até cair de meu dragão rumo à mata abaixo de nós. A sensação era de liberdade e a cada segundo eu me sentia mais rápida.
Desviei de alguns poucos galhos, outros, simplesmente quebrei. Minha cabeça ia de encontro com o chão, pude ver o dragão negro ao meu lado, como uma bola de canhão. Uni as mãos ao corpo e rapidamente girei no ar.
Finquei os pés no chão com um estrondo. Lael pousou exatamente ao meu lado e riu, foi divertido.
– Fareje, Thena. Aspire o ar. – Instruiu-me.
Fechei os olhos e senti o aroma de todo o ambiente. Grama verde e úmida, flores diversas, folhas secas, madeira e.. suor. À esquerda.
Instintivamente, nos abaixamos.
Agachada, caminhei na direção daquele aroma salgado e irritante. Senti-o se aproximar e uma flecha passou raspando ao meu lado. Pulei, ficando visível aos olhos do garoto. Com o susto, ele largou o arco e as flechas. Eu prendi seus braços com minhas pernas e resmunguei.
– É só um menino, Lael.
– Papai! Papai, socorro!
– Jura? – O dragão segurou-se numa árvore e me encarava.
Diante de mim, tochas surgiram na mata e uma dezena de homens surgiu, lembrando bárbaros tamanha selvageria que usaram ao se aproximar, gritando e brandindo facões, espadas e demais armas junto ao fogo. Saltei para trás, ficando ao lado de meu dragão. O garoto levantou e recuou até ficar junto do homem que supus ser seu pai. Fitei ambos e permaneci imóvel e em silêncio, percorrendo com os olhos todos os rostos que me eram visíveis.
– Criatura asquerosa. Garota, não se mova.. – Disse outro homem num sussurro; não entendi o que estava havendo.
Arqueei as sobrancelhas e engoli em seco, sem saber realmente como agir. Estufei o peito e dei um passo na direção deles.
– Ouçam... – Comecei.
– Abaixe-se! – Gritou o homem e jogou uma lança em minha direção.
O fiz rapidamente, Lael desviou e a madeira da árvore onde ele estava ficou levemente lascada.
– Ei, o que estão fazendo?
– Peguem a criatura. – Disse um velho.
– Parem com isso! – Exigi, mas não me ouviram e começaram a correr até a árvore onde Lael estava.
O dragão subiu e desviava das flechas, lanças e machados. Ninguém me ouvia e alguns até tentavam subir na árvore.
Até então o garoto não havia dito nada, parecia se divertir com a cena enquanto eu me irritava a cada novo segundo.
– Eu mandei pararem. – Bufei, caminhando pesadamente até os homens.
Puxei-os indelicada e brutalmente por suas vestes e membros, até que todos estivessem estatelados no chão, fitando-me surpresos.
– Lael, pode descer. Se alguém der um passo até aqui, pode ter certeza, não vai poder andar mais.
– A mulher, papai. – Resmungou o garoto, por fim.
– A criatura é um dragão. O dragão é meu. E quem chegar perto, morre.
Todos se afastaram e passaram a me fitar com curiosidade, a única iluminação vinha das tochas.
– O que está fazendo? – Indagou um homem.
– Não somos ameaças, desde que não nos ameacem. – Respondi de prontidão.
Lael desceu e ficou ao meu lado. Todos pareciam ter fome e ao mesmo tempo me lembravam os fugitivos do castelo do rei, o que era improvável já que alguns vilarejos ficavam não muito longe dali.
– Por que você tem um dragão? – Perguntou alguém.
– Ela é uma nascida. – Respondeu um moreno logo atrás, passando por todos os outros; reconheci sua voz, para minha surpresa.
Tentei ver melhor, mas só fui capaz de enxergar seu rosto pouco depois.
– Aposto que uma pequena garota chamada Neah ficará muito contente em te ver. – Ele sorriu, eu não me lembrava de ter visto seu sorriso desde que o conhecera.
– Rehr! O que faz aqui? – Estava surpresa.
– Sobrevivendo. Cyen e os outros também estão noutros grupos, estamos em um vilarejo próximo.
– Estão todos bem?
– Lena foi perseguida por um Gor, mas conseguiu fugir com apenas ferimentos leves.
– Papai..?
– Todos bem. – Garantiu-me o moreno.
– Ei, vocês! – Chamou outro homem. – Ela é velha demais para ser uma Nascida, ainda mais uma que não sirva ao rei.
A imagem de Dieo Merno me deu repulsa, tive certeza que minha careta foi o que me denunciou quando Rehr comentou:
– Parece que ela conheceu o rei pessoalmente. Thena foi levada há poucos dias por outro Nascido, o qual trabalhava para o rei. Refioh. – Explicou ele aos outros, tranquilo, e logo voltou-se para mim. – Algo me diz que você não saiu de lá calmamente, com autorização e tudo..
Todos pareciam estar desconfiados, eu abaixei a cabeça e encarei Lael, que se posicionou à minha frente, acariciei sua cabeça.
– Foi quase um pesadelo, mas com pessoas. Pessoas de verdade. Nada de Gors, Berenes ou sereias. – Comentei rapidamente. – Tive uma pequena ajuda dele, então.. – Indiquei o dragão.
Os olhares de todos eram voltados para mim, ainda era um incômodo, mas já estava me acostumando. Tentei não me focar naquilo, Rehr demonstrou alívio, mesmo que fosse pouco notável.
– É muito longe daqui? – Encarei os rostos curiosos voltados para mim.
– Alguns bons minutos. – Disse o moreno.
– Certo. Quero vê-los o quanto antes.
– Não temos comida suficiente.. – Começou um jovem entre os homens, mas o interrompi.
– Vou recompensar. Sou boa na caça, e Lael vai me ajudar.
– Não fale por mim, garota. – Resmungou meu dragão.
Achei que estavam olhando para mim até então, mas Lael era o real centro das atenções. Ainda não entendia ou sabia como ele mudava de tamanho, mas agora era apenas uma miniatura andando em meu ombro, sobre minha nova marca no ombro.
– Lael! – Bufei.
– Essa coisa é curiosa. – Comentou o pai do garoto. – Lembra um Berene.
Lael e eu nos encaramos brevemente, incrédulos. Nunca um dragão seria assemelhado a uma criatura como aquela; ambos fizemos caretas.
– Definitivamente não. – Disse Rehr, em concordância à minha reação.
– Podemos ir? Digamos que eu esteja com um pouco de fome. – Murmurei.
– Vou levar Thena até o vilarejo, continuem ou venham conosco, a decisão é de vocês. – O mago me estendeu a mão logo depois.
– Estou bem, obrigada.
– Você não confia nele. – Disse Lael.
– Não.
Todo o grupo voltou conosco. Minhas pernas doíam. Onde estavam todas as tais vantagens de ser Nascida? Só vinham quando queriam?
O vilarejo lembrou minha antiga caravana. Havia poucas árvores e várias casas improvisadas e malfeitas. Era muito para quem não tinha nada, supus.
Muitas crianças corriam, o que me surpreendeu. Olhei cada rosto como se fosse encontrar Neah por ali. Por que estavam todos acordados àquela hora? Risadas eram ouvidas e até mesmo animais andavam por ali.
– Está amanhecendo, Thena. – Comentou Lael.
Não vi o sol começando a surgir no horizonte.
Caminhamos bastante e eu queria muito dormir, mas, antes, precisava ver minha família. Mesmo cansada e com sono, ainda consegui me manter bem acordada até chegarmos numa pequena casa de madeira, algo bem improvisado; as duas únicas janelas eram cobertas por panos velhos e a porta era um grande casco de árvore.
Àquela altura éramos somente Rehr e eu. Todos foram para suas casas.
– Serna, Joko, voltamos. – Disse o mago.
Ouvi barulhos vindo de dentro como uma grande bagunça sendo feita.
A porta rangeu ao ser aberta e arrastou no chão de madeira de modo que me deu gastura. Lael teve a mesma reação que eu.
Serna surgiu com uma vela, aos resmungos.
– Esses homens não ajudam em nada, como pode isso? – Foi então que ela pareceu me notar. – Céus, Thena! Como você está horrível!
– Obrigada!? – Disse irônica.
– Quem é? – Lael estava curioso.
– Serna, uma quase mãe. – Respondi mentalmente.
– E esse resto de pano que está vestindo? Tem sangue, sujeira, argh! Vá tomar um banho!
A loira estava frenética e parecia não raciocinar perfeitamente. Olhei para Rehr e ele segurou a mulher pelos ombros.
– Serna.. É a Thena. Ela está viva e bem. Acalme-se.
Vi-a olhar para Rehr, mas era um olhar distante e cansado. Notei suas olheiras e rapidamente ela se acalmou, respirando fundo enquanto seus olhos enchiam-se de lágrimas.
– Não é um sonho, nem uma alucinação, Serna. – Rehr sussurrava, então a soltou.
Tentei sorrir, mas estava preocupada.
– Thena, é mesmo você? Você sumiu, foi levada, achei que estava morta e.. – Serna me abraçou e começou a chorar, deixando a vela cair no chão. – Callec e Neah ficarão felizes. A menina.. Ela sujou o cabelo com lama várias vezes e fingiu ser você para nos animar, mas também chorava chamando seu nome.
– Foi por pouco.. Onde ela está? – Indaguei, não demonstrando o que realmente sentia. Não iria chorar ali.
– Quem é Neah? – Lael perguntou, havia se escondido em minha nuca, debaixo do cabelo.
– Depois te apresento todos, Lael. Como não os vê em minha mente? – Bufei mentalmente.
– Estou cansado.
Serna ainda estava em choque quando entramos, eu podia ver suas mãos tremendo. Caminhei desviando de objetos e móveis estranhos. Queria saber como haviam conseguido tudo aquilo em apenas poucos dias.
Como se lesse minha mente, Joko surgiu no cômodo.
– Uma família foi encontrada morta, nos deixaram ficar com a casa. Tivemos um pouco de sorte, não é?
Rehr assentiu com a cabeça.
– Certo. – Sussurrei.
– Callec e os outros devem voltar em breve, por que não toma um banho, Thena? Sem rios, lagos e afins. Temos água por aqui.
– Ótimo. – Quieta, ainda analisava o lugar. Cheguei a me perguntar como eles estavam dormindo nos lugares.
Estava impaciente, isso era mais que um simples fato. Eu não tive muito tempo para pensar no que fazer, sentia-me mais leve quando enfim percebi que Lael estava dormindo, e profundamente. Eram apenas meus pensamentos e eu conseguia formulá-los sem muitos problemas.
Serna guiou-me até o banheiro e eu analisei os baldes d’água.
– Tem alguma roupa que eu possa usar, Serna?
– Sempre, meu anjo, sempre. – A mulher estava mais calma e já chegava a esboçar um leve sorriso.
Esperei diante da porta do cômodo enquanto ela ia buscar as vestes. Nesse meio tempo, a porta principal da casa se abriu e fitei a pequena figura suja de lama adentrar o recinto.
– Tia Seeeerna! Olha só, eu sou Thena e vou contar uma história pra você! – Disse Neah com as mãos na cintura, os cabelos sujos e num marrom que mesclava com os fios dourados.
– Neah? – Cruzei os braços e arqueei as sobrancelhas, contendo o riso e tentando parecer séria.
Ela não havia me notado, mas quando o fez paralisou, sem crer no que via. As pequenas mãos caíram ao lado do corpo e, dentro de alguns segundos, ela correu até mim. Me abaixei e a loirinha agarrou meu pescoço enquanto eu a girava no ar, rindo. Não sabia ao certo o que sentia, mas era um misto de alívio com alegria. Lael acordou com aquilo e resmungou algo em minha cabeça, não dei ouvidos.
– Menina, o que está fazendo suja desse jeito? – Indaguei.
Serna voltou.
– Ela volta assim o tempo todo durante o dia. Toma banho, não dá muito tempo e se suja de novo.
– Eu sou você! – Me disse a menina.
– Você é Neah, minha pequena grande menina. Ande, venha tomar um banho.
Apanhei a roupa com Serna e voltei ao banheiro com Neah nos braços.
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