Dark as night.

18 Algo novo.


Notas iniciais
Demorou, mas saiu. Boa leitura!

Lael se escondeu em um dos cômodos fora do banheiro e me deu um pouco de liberdade e privacidade. Após limpar Neah e tomar meu próprio banho, consegui sentir-me realmente tranquila, ou ao menos em partes, já que só conseguiria ficar realmente tranquila quando visse meu pai e o restante do grupo.

Não demorou, para ser sincera.

Bastou sair do banheiro para que pudesse ver Cyen, Lena e meu pai sentados no chão. Meu velho se levantou e parecia tão chocado quanto Serna ao me ver, seus olhos ficaram marejados e eu sorri quando recebi-o com os braços abertos.

– Você está bem, Thena! Como conseguiu? – Indagou.

– Digamos que eu tenha tido uma pequena ajuda. – Respondi, percorrendo o lugar com os olhos à procura de Lael.

Onde ele havia se enfiado?

– De quem?

– Ah, longa história.. – Ri baixo, olhando para o chão.

– Certo. Vamos comemorar! – Meu pai disparou.

Cyen e Lena haviam levantado e me encaravam. A mulher tinha a perna esquerda enfaixada e mancava, vez ou outra pulando para poder se aproximar.

– Não se esforce, eu vou até aí.

Ela parou e eu sorri ao abraça-la. Cyen parecia ansioso por sua vez, então logo o abracei também. Procurei por Moune, mas não o vi, e duvidava muito que ele estaria interessado em um abraço.

Todos voltaram a se sentar e suspiravam com mais tranquilidade. Joko passou pela porta ladeado por Moune, mas ambos estavam sérios. O velho me encarou e eu tive a imediata reação de recuar, embora não soubesse exatamente o porquê.

– Parece que o rei não está contente. – Anunciou sério. – Alguém brincou de destruir seu castelo e não teve muita dificuldade para fazê-lo.

– Como assim, pai? – Indagou Cyen.

– O castelo de Dieo Merno está caindo aos poucos, torres foram derrubadas e paredes destruídas, os restos estão terminando de cair sozinhos. Os outros estão voltando e disseram que o rei mandou guardas atrás de uma garota.. Thena, tem algo a dizer? – Joko me encarou e todos os outros fizeram o mesmo.

– É, pelo visto eu vou ter que contar algumas coisas.. – Murmurei, suspirando e sentando-me ali mesmo com as costas na parede. – Lael, cadê você? – Disse em tom alto, olhando em volta.

– Não precisa gritar, garota. – Disse ele em minha mente, mas ainda não sabia onde ele estava.

Todos me olhavam como se eu fosse louca.

– Quem é Lael? – Indagou Joko.

Rehr estava calado em um canto do cômodo, fiquei contente por ele não ter dito nada sobre meu dragão e tivesse me dado a oportunidade de fazê-lo. Seria complicado caso ele tivesse contado.

– Bom, eu não saí tão facilmente do castelo. Dieo Merno é um monstro, tanto como um Gor, um ser desprezível que eu teria o prazer de fazer sumir desta terra, mas sou só uma.. – Comentei, abaixando a cabeça. – Ele foi.. asqueroso. Me entregou a dois magos, seus dois magos: Zaaer e Voil. Eles te conhecem, Joko.

O velho não pareceu contente com aquilo e retraiu os lábios, fazendo careta. Continuei.

– Fizeram algo comigo, queriam saber o porquê de eu não ter sido encontrada antes. E acho que descobriram algo não muito agradável a eles, já que me prenderam e, tenho certeza, me deixariam para morrer se não tivesse surgido um buraco no meio da minha cela.

– Como assim surgiu um buraco no meio da sua cela? – Meu pai cruzou os braços, desconfiado.

– Pois é. Pergunte ao Joko, ele que entende de magia, não eu.. – Bufei, querendo continuar. – Lael, cadê você? – Gritei. – Maldita lagartixa!

– Quem você chamou de lagartixa? – O dragão bufou em minha mente, não estava contente.

O dragão surgiu na porta principal, em tamanho médio, como se do meu tamanho quando sentada. Todos recuaram enquanto Lael caminhava por entre eles até parar frente à mim.

– Você é a lagartixa! Eu te chamei antes, por que a demora?

– Eu fui me distrair um pouco. – Disse-me ele.

– Enquanto eu me enrolava aqui, né? Dragão chato. – Havia me esquecido de todos ali enquanto discutia brevemente com Lael, foi quando me dei conta dos olhares de total surpresa. Neah foi a única com um certo brilho no rosto, eu sabia que ela seria diferente. – Certo, um buraco abriu no meio da minha cela e eu acabei caindo lá, e encontrei ele. – Apontei para Lael.

– O que ele estava fazendo num buraco? – Joko pareceu mais interessado com aquilo.

– Pelo que entendi que ele mesmo me contou, estava esperando por mim ou algum nascido. Bom, eu fui a azarada.

– Azarada, Thena? – Lael resmungou.

– Ele me mordeu, me marcou, me machucou, tudo isso pra podermos partilhar do mesmo sangue, sensações, pensamentos e afins. – Fingi insatisfação, mostrando a cicatriz em meu ombro, mas acabei sorrindo ao final. – Mas foi por causa dele que consegui sair com vida. Refioh e seu dragão, Cardo, tentaram nos impedir. Acabamos destruindo aos poucos o castelo do rei, talvez eu tenha feito isso um pouco propositalmente.. Enfim, conseguimos derrota-los e voltar para cá, até sermos supostamente atacados por flechas.. – Não mencionei Rehr, mas o encarei de onde estava e voltei meus olhos aos demais. – Encontrei Rehr e viemos para cá.

– Tia Thena.. Posso tocar nele? – Neah parecia não ter escutado nada que eu havia dito, apenas se aproximava aos poucos, arriscando com a mãozinha estendida na direção do dragão.

– Lael, esta é Neah. Estes são meu pai, Joko, Cyen, Moune e Lena, minha família. – Indiquei um a um, o dragão acompanhou com os olhos conforme eu dizia os nomes.

Em cumprimento, a criatura abaixou a cabeça e eu pude sorrir um pouco mais tranquila, passando a acariciar suas costas.

– Tia, posso?

– Ela pode, Lael? – Indaguei.

O dragão parecia refletir antes de murmurar um “tanto faz” em minha cabeça, ainda estava aborrecido pelo desagradável apelido que eu havia dado para chamar sua atenção.

– Pode, Neah, ele deixou. Venha.

Ninguém disse absolutamente nada, apenas observavam para ter a certeza de que era seguro, ou apenas para saber se aquilo era real. Aliás, até eu duvidava sobre a existência de dragões até Lael entrar em minha vida e piorar tudo, ou melhorar, ainda não tinha certeza sobre isso.

Meu dragão se abaixou, deitando, enquanto Neah se aproximava até enfim colocar a mão sobre a cabeça da criatura. Vi o quanto estava receosa, mas logo ficou mais confiante e começou a rir tamanha alegria que sentia. Ri ao ver a pequena.

– O que aconteceu desde que o encontrou? – Joko perguntou.

– Como assim? – Olhei-o.

– Mudanças?

– Me sinto melhor, mais forte.. Ele me ensinou algumas coisas. – Respondi rapidamente.

– Temos que ter cuidado daqui em diante, mais do que antes. Dieo virá atrás de você, com Zaaer e Voil. Não são pessoas com quem se deva brincar, e você os agitou. Disse que os magos do rei descobriram algo, mas não sabe o que, eu também não sei. Teremos que descobrir se quisermos nos manter vivos por mais alguns anos. Tenho certeza de que não nos deixarão sair livres e vivos por muito tempo.

– O que quer dizer, Joko? – Rehr deu um passo adiante.

– Thena foi vista vindo para cá, não podemos confiar muito nas outras pessoas. Nos entregarão fácil por um pouco de dinheiro e comida.

Era compreensível e fazia total sentido o que quer que Joko dizia. Ele tinha razão, e eu não era a única a pensar daquela maneira, estava claro como água para todos.

Joko estava pensativo, supus que estivesse planejando algo, ou somente refletindo sobre quais passos seguiríamos dali em diante agora que eu estava de volta. Neah ainda estava perto de Lael e parecia se divertir com o mesmo, enquanto ele apenas a encarava e murmurava em minha mente, mas não consegui ouvi-lo, meus pensamentos eram distantes.

Eu estava colocando todos em risco desde o início, desde sempre. Queria dizer que seria fácil deixa-los, mas era mais complicado que isso. Caso fossem apanhados, eu rapidamente surtaria e voltaria para salvá-los, ou quaisquer coisas semelhantes. Não seria agradável.

Ou eu ficava por perto e os ajudava, ou ia embora sozinha e os deixava por conta própria, com segurança, mas não tanta.

Decisões, escolhas, algo que eu odiava ter que fazer em situações críticas. Era péssima. Costumava ser mais confiante e certa do que queria, mas desde que havia me descoberto as coisas mudaram drástica e rapidamente, sem me permitir sequer refletir decentemente a respeito. Era torturante, minha mente ficava cada vez mais perturbada. Duvidava que fosse capaz de dormir bem, não que antes eu dormisse bem. Minha responsabilidade só aumentou conforme as coisas aconteciam.

Os olhares foram voltados para mim, até mesmo Neah parara de acariciar Lael para me olhar, até mesmo Lael tirou sua indiferente atenção de Neah para me encarar. O que estava havendo?

Meu corpo já não tocava mais o chão e o local estava mais que iluminado, como se o sol estivesse dentro daquela pequena casa. Instintivamente, cobri parcialmente os olhos e tentei enxergar o que estava havendo, sem muito sucesso.

Eu estava brilhando.

– Mas que merda é essa? – Indaguei, surpresa.

Até mesmo meu dragão parecia não saber o que estava acontecendo.

Estava quente, tão quente que eu poderia me despir sem pensar duas vezes, mas não havia como fazê-lo. Abracei-me sem saber o porquê enquanto ouvia o choro de uma criança em meus ouvidos. Aquilo me fez arrepiar dos pés à cabeça enquanto meu coração começava a bater mais rápido, cada vez mais rápido. Sentia-me leve, flutuando. De repente eu via o céu claro, as nuvens baixas e densas, a claridade me cegando. Via Lael rir de mim enquanto voava ao meu redor. O rosto de Dieo Merno, Zaaer e Voil surgiram nas nuvens, furiosos. Vi sangue, morte, dor. Meus braços e pernas pareciam estar sendo arrancados de mim, então comecei a sufocar. Levei as mãos até minha garganta, tentei respirar, buscando pelo ar que meus pulmões tanto precisavam.

Então caí no chão novamente e as palavras saíram de minha boca automaticamente, embora eu sequer tivesse pensado.

– Uma nova criança no mundo. Um novo Nascido.

– Thena?

– Precisamos encontra-lo. Precisamos encontrar os Nascidos desaparecidos, os que estão vivos... Eu sei que há outros vivos, como eu.. Outros que conheceram pessoas como você, Joko. Eu sei.

– Como sabe disso?

– Eu só sei. Eu sinto.

Lael levantou e parou à minha frente, encarando-me com seus olhos negros. No reflexo de seus olhos, os meus eram igualmente negros, sem qualquer parte que fosse de outra cor. Apoiei-me com as mãos. Eu via o que se passava em sua mente, nada me disse, apenas mostrou. Algo estava acontecendo com ele, como aconteceu comigo. Ele via o bebê, não apenas o ouvia, como eu.

Uma mulher chorava ainda suando deitada em uma grande cama, muito bem planejada e com bonitos tecidos ao redor. Mulheres a amparavam após o parto e enrolavam o recém-nascido em uma manta azul. Um homem entrou no recinto em desespero, era alto e robusto, com ombros largos e cabelos louros que iam lisos até seus ombros. A mulher tinha os cabelos, também louros, presos em um grande coque, alguns fios estavam grudados em seu rosto. Ela sorriu, enfim, tomando o filho nos braços.

Pisquei algumas vezes antes de cair deitada, fitando o teto.

– É um garoto. Mas não reconheci o lugar. Parece ser de uma família rica. Qual o reino mais próximo de Kernevath? – Olhei para os outros.

– Baeshi. – Respondeu Cyen, e estava sério, o que eu consideraria raro. – É um reino pequeno, não tão rico como creio que supôs ser, mas ainda assim.. Há outros, mas este é o mais próximo. Aliás, se for lá.

– Precisamos alertar a família.. Nascidos sentem outros Nascidos, lembram? Se os subordinados de Dieo pegarem essa criança, céus. – Sentei.

– O que pretende fazer, Thena? – Perguntou Lena.

– Primeiro, avisar à família. Tentar convencê-los...

– Filha.. – Começou meu pai, o encarei. – A diferença são de cinco anos, certo? De um Nascido para outro, lembra?

– Sim, o que tem?

– O ciclo só está se cumprindo. O dia de seu nome é daqui três dias. Daqui cinco anos, outra criança virá. Não tem fim.

– Não importa o dia de meu nome. Temos outras preocupações agora. – Estava aflita, preocupada com o que pudesse acontecer ao bebê, embora sequer soubesse quem eram seus pais, ou como eram. – Quando tempo até Baeshi? Alguém sabe?

– A pé, uma semana. – Respondeu Joko. – Isso se pararmos apenas um ou duas vezes ao dia.

– Lael, acha que pode ficar grande o suficiente para carregar todos nós? – Voltei-me ao dragão.

– Posso tentar, mas vocês são muitos. – Estava inseguro, notei.

– Consigo alguns cavalos, isso pode adiantar um pouco as coisas. – Rehr disse, virando-se e saindo da casa.

– Vocês tem certeza de que querem ir? É perigoso. – Eu sempre tentava mantê-los em segurança, mas já sabia a resposta.

– Thena, não sejas ingênua, criança.. – Joko riu, aproximando-se e pousando a mão em minha cabeça.

Um choque percorreu todo meu corpo e eu gritei, sem conseguir me mover, enquanto uma dor terrível me tomava e me fazia gritar enquanto chorava.

Meu pai se levantou e correu até mim, eu estava agonizando no chão. Senti seus braços à minha volta.

– Joko, maldito, o que fez com ela?

O velho estava em choque.

– Joko! Me responda!

– Eu não fiz nada. A toquei, não fiz nada.

Não sentia meus membros, nem mesmo sentia meu pai me abraçar, nem suas lágrimas quando caíram em meu rosto. Meus olhos não tinham foco, eu olhava para todas as direções sem saber o que fazer. Não havia o que fazer, eu não sentia meu corpo, apenas a dor.

– Alguém faça alguma coisa! Ajudem minha filha.

Lael estava paralisado ao meu lado, sem reação. Neah começou a chorar enquanto acompanhava meu pai agora ao me abraçar. A pequena começou a soluçar. Então a dor começou a diminuir, e com um breve agir inconsciente, fiquei sentada e estendi a mão no momento em que um raio foi disparado na direção da porta por meus dedos.

– O que foi isso? – Desta vez eu também estava sem reação.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.