Dark as night.
4 O estranho.
Notas iniciais
Minhas pernas doíam, assim como minha coluna. Neah estava dormindo agarrada ao meu pescoço e eu a segurava pelas pequenas pernas enquanto caminhávamos. Meu pai pouco falava comigo há quase três dias, desde que saímos da caverna e retomamos nosso caminho para encontrar qualquer sinal de Serna ou quaisquer outras pessoas de nossa caravana. Eu era sempre otimista, mas dessa vez não estava mais tão certa de que as coisas teriam um bom final. Algo me dizia que não os encontraríamos assim tão fácil e rapidamente.
— Pai, não podemos parar para descansar um pouco? – Pedi, reduzindo meu ritmo de caminhada.
— Não podemos, Thena. Eu conheço essa parte da floresta, logo estaremos em uma pequena cidade. Lá poderei trocar alguns desses esquilos e peixes por um lugar para dormir. – Respondeu-me meu velho, fazendo-me abaixar a cabeça, relutantemente conformada com nossa condição.
Estava quase anoitecendo quando enfim notei algumas tochas iluminando um caminho para a pequena cidade mencionada por meu pai. Não era algo grandioso, ou talvez fosse, se comparando com a caravana que estivéramos. Minha boca estava rachada e minha garganta tão seca quanto um deserto. Neah acordou pouco depois de entrarmos na cidade e recebermos olhares curiosos de pessoas por todos os lados. A loirinha, agora ao meu lado, segurava minha mão enquanto andávamos e parecia perdida.
— Onde estamos, pai?
— Dentro do reino de Kernevath, numa pequena cidade chamada Leorea. É uma das mais pobres, mas será o suficiente para nos acolher por algum tempo.
Pessoas com as vestes tão sujas quanto as nossas nos encaravam conforme caminhávamos. Meu pai olhava todos os letreiros de cada construção do lugar. Eu nunca havia visto construções como aquelas, com pedras e muros altos e fortes, até então só vira algumas feitas de madeira e palha, além do barro que algumas vezes havia usado em certas caravanas pelas quais passei.
— Fique por perto.
Encolhi-me para mais perto de meu pai, Neah ao meu lado, sem nem mesmo afrouxar o aperto em minha mão. Papai e eu tínhamos a mesma altura, eu sendo alta para uma mulher, e ele sendo mediano para um homem, era engraçado pensar em algo como aquilo naquele momento, mas tive certeza que muitos dos curiosos que nos observavam não se aproximavam por sermos, provavelmente, maiores que parte deles, apesar da aparência desesperadora que certamente tínhamos.
Toda comida que meu pai trouxera nos dias de caminhada eu havia dado a Neah, sentia-me tão responsável pela menina que simplesmente passara a ignorar minha própria vida pela dela. Talvez aquilo fosse ser mãe, em parte.
Havia bares, restaurantes e vendas de todos os tipos, de alimentos, de suprimentos gerais, ervas medicinais e até mesmo locais onde magos atendiam pessoas. Perguntei-me como seria um lugar daqueles, mas limitei-me à minha própria imaginação.
— Ali. – Meu pai apontou uma 'casa', de três andares, estranha e retorcida, parecia pender para o lado, como se fosse desmoronar a qualquer momento. — Já dormi ali algumas vezes em caçadas.
— É seguro, pai?
— Você sabe se cuidar, Thena. Nossa única e real preocupação é Neah. – Disse-me ele enquanto me guiava até o lugar.
Era de uma madeira velha e que cheirava a podridão, o letreiro no alto da entrada principal dizia “Hellore te dá as boas vindas”. Não entendi o que aquilo significava, mas entrei atrás de meu pai.
De certo modo fiquei surpresa com o que vi: inúmeras mesas compunham o interior do local, essas rodeadas por homens e mulheres que bebiam e riam como se não tivessem qualquer tipo de preocupação. Senti uma pontada de inveja, assim como passei a me perguntar o porque de estarem festejando como pareciam estar, ainda mais com tudo que se via do lado de fora, no meio da mata, com monstros e criaturas à solta.
Quis esmurrar cada um que estava ali, mas meu pai segurou meu braço, notando o quanto estava impaciente.
— Você já foi mais tranquila, Thena. Por que isso tão de repente? – Indagou ele.
— Acabamos de perder amigos, família.. e eles aqui, festejando a sabe-se lá o que. – Bufei.
— Eles não sabem, filha. Eles festejam como se não houvesse um dia seguinte, pois é assim que se deve viver. Nunca se sabe o que vai acontecer. – Seu tom de voz era calmo e transmitia compreensão.
Respirei fundo, não ganharia nada me irritando. Realmente, já havia sido mais paciente.
— Bem vindos ao Hellore! – Gritou um homem do fundo do lugar.
Eu esperava ver um velho gordo e barbudo, fedendo e carregando canecas de vinho ou quaisquer outros tipos de bebidas que deixassem as pessoas caindo por aí de tão bêbadas, porém, o que veio até nós foi um baixinho e magrelo, careca e sem qualquer sinal de barba, ele era menor que meu pai. Mas a parte em que trazia uma caneca era verdade. Ele provavelmente estava bêbado.
— Conei, boa noite. Há algum quarto disponível? – Perguntou meu pai ao homem.
— Hmmmm, parece que se arranjou, Callec. Quem é a jovem e a criança? – Os pequenos e apertados olhos de Conei voltaram-se para mim, ele segurou uma mecha de meu cabelo e me encarou.
— Sou Thena, filha de Callec. Você não precisa saber sobre ela. Há ou não há um quarto disponível, Conei? – Disse seriamente; estava cansada, mas ainda não o suficiente para falar grosso com um qualquer.
— Parece que a criou bem, não é? – Ele virou para meu pai.
— Sim. Nos responda.
— Tenho um quarto, sim. Como irão pagar?
— Tenho alguns animais e posso oferecer meus serviços. – Disse meu pai ao homem, ele pareceu contente com a proposta.
— Pai.. – Murmurei, não muito contente.
— Thena, por favor, agora não.
Fiquei quieta. Neah se agarrou à minha perna e puxou levemente minha calça, quando a olhei, ela apontava para um homem rodeado de mulheres, ele as beijava fervorosamente e passeava com as mãos pelos corpos esguios e seminus.
— Ah, droga! – Apanhei-a no colo e fiz com que me olhasse. – Fique aqui comigo, olhando para mim, certo, Neah? – Ela assentiu e escondeu o rosto em meu ombro.
Perdi parte da conversa de meu pai com Conei, mas logo estávamos subindo as escadas para nosso suposto novo quarto.
A cama era no chão, algo feito com muita palha, feno e pele de animais. Havia uma pequena banheira coberta por um muro com baldes em volta e uma torneira ao lado, supostamente era onde iríamos tomar banho. Bom, já era melhor que nada.
— Lavem-se, vou buscar algo para comerem. – Meu pai disse e se retirou com Conei, apenas suspirei.
— Somos só nós duas agora, Neah. Vamos lá. – Tirei a roupa da pequena e a coloquei na banheira. Não demorei muito e logo eu mesma havia tomado meu banho.
Estava terminando de me vestir quando uma das mulheres seminuas que Neah e eu vimos quando chegamos entrou no quarto carregando roupas.
— Tomem. São trapos velhos, mas servirão melhor que suas roupas sujas. – Murmurou, a cabeça baixa. Perguntei-me o porque de agir daquela maneira, há pouco parecia contente com o homem.
— Obrigada. – Limitei-me a agradecer. Ela recuou e saiu do quarto.
Vestimo-nos e sorri ao ver Neah rodar com a saia que havia ganhado. Dei-lhe um beijo no topo da cabeça e baguncei suavemente seus cabelos molhados, deixando seus pequenos cachos dourados caindo diante dos olhos.
— Thena liiiiiiinda. – Disse a pequena, rindo e segurando a própria saia.
Não contive o sorriso, muito menos a risada. Eu pusera um vestido. Não era acostumada a vestidos, mas se era o que a mulher pôde me oferecer, eu não faria desfeita. Sequer esperava conseguir roupas.
— Posso entrar? – Ouvi alguém dizer do outro lado da porta.
— Sim.
Era Conei.
— Pois não?
— Seu pai foi caçar alguns animais para mim. Gostaria de saber se não gostaria de ajudá-lo, mas aqui.. O que acha?
— O que quer que eu faça? – Arqueei uma de minhas sobrancelhas e segurei a mão de Neah.
— Ajude-me servindo os clientes, é o máximo que peço. – Respondeu Conei.
Olhei-o de cima, notei em seu olhar que ele não me temia. Faria temer se fosse preciso.
— Certo. Ajudo, mas Neah ficará comigo o tempo todo. Se algo acontecer a ela, se ela não estiver em meu campo de visão, ou até mesmo se meu pai não estiver em segurança, garanto que nos acertaremos perfeitamente.
Suas mãos subiram em sinal de rendição.
— Como quiser, Thena. Pode começar agora mesmo.
— Mas acabamos de chegar, creio que é melhor descansarmos.. – Retruquei.
— Neah pode ficar aqui, mas você é minha empregada agora, mesmo que temporária. Dou-lhe a chave do quarto e pode deixar a pequena aí dentro e vir vê-la em intervalos. – Conei sorriu, lhe faltavam dois dentes na boca, um em cima e outro em baixo.
— Você pode ficar aqui, Neah, e esperar a Tia Thena voltar? – Me agachei para ficar da altura da loirinha.
— Posso, tia Thena. – Disse-me a pequena. Sorri em resposta e dei-lhe outro beijo na cabeça.
— Vou fazê-la dormir e logo desço. Não demoro, Conei.
— Esperarei, então. A madrugada é sempre movimentada.
O homenzinho saiu do quarto e então carreguei Neah até a cama. Felizmente ela dormiu tão rápido que pude sair do quarto aliviada e sem muita preocupação.
Desci as escadas, agora havia uma mulher cantando no fundo do lugar. Mais pessoas haviam chegado e continuavam a farra e a bebedeira. Corri até Conei e ele me indicou as canecas e barris onde estavam as mais diversas bebidas.
Homens gritavam e erguiam os braços pedindo mais bebidas e mulheres. Comecei a correr de um lado para outro, ignorando o sono e cansaço que sentia e servindo todos o mais rápido possível.
Eram rostos distintos, jovens e velhos. Cheguei até mesmo a ver um garoto na faixa dos quinze anos com duas mulheres. Parecia tão experiente quanto qualquer outro velho no lugar.
Não era o tipo de cena que me agradava ver. Quase todas as mulheres já estavam nuas. Aquele era um lugar deplorável, comecei a me questionar se não teria sido melhor dormir numa caverna à dormir ali. Não.. era melhor ali. Neah merecia uma cama decente para dormir, ou quase isso.
Elas eram apalpadas sem qualquer pudor ou vergonha. Eu corria por entre as mesas com canecas nas mãos e encarava homens deslizando as mãos pelos corpos das mulheres, do pescoço aos seios, fazendo caminho até sua virilha. Eu desviava o olhar sempre que sequer notava o início de qualquer toque ousado e pervertido dos vermes que haviam ali.
— Você está bem? – Indagou um homem na faixa dos quarenta anos que tinha uma mulher consigo, um sorriso travesso dançava em seus lábios. Ele segurou meu braço com uma mão, com a outra apertava o seio da morena que se tocava ao lado dele.
Conei me olhou do outro lado do ambiente e formou um sorriso com os dedos em frente ao rosto. Entendi o recado.
Forcei um sorriso após respirar profundamente.
— Estou bem, obrigada. O que deseja? – Tentei soltar meu pulso de sua mão, mas ele a manteve firme.
— O que acha de se juntar a nós? – Ele apertou forte o seio da mulher, ela gemeu.
— Não, obrigada. Não estou no cardápio de hoje. – Disse rapidamente.
— E quando está?
— Nunca. – Puxei meu pulso, não estava com muita paciência para um porco como aquele.— Opa, perdoe-me, senhor. O que deseja?
Ele me olhou desconfiado, mas entendeu que não deveria mencionar mais nada além do que realmente queria comigo, que se limitava a uma bebida.
— Uma mistura. – Ignorou-me no segundo seguinte.
Conei segurou-me com a mão em meu ombro quando caminhava para os barris. Eu quis dar-lhe um chute nas costelas, mas respirei fundo. Meu pai não gostaria que eu agisse por impulso.
— Sim? – Indaguei.
— O que foi aquilo?
— Não sou uma delas.
— O que foi aquilo, Thena?
— Me deixe fazer meu trabalho, que é somente servir as bebidas. Com licença.
Sua expressão não foi de agrado, mas ele sabia que era a mais pura verdade.
Eu não sabia por quanto tempo teria que ficar fazendo aquilo, e pela enésima vez fiquei apreensiva ao me dar conta de que estava me perguntando, mesmo que sem querer, como estaria meu pai fora dali, o que estaria fazendo, e quando e como voltaria.
Passei a noite toda servindo bebidas, correndo de um lado a outro. Descobri que os quartos que haviam no andar de cima serviam para os clientes e as mulheres que estavam com eles. Aproveitei para ver Neah algumas poucas vezes quando me foi permitido, felizmente ela estava dormindo profundamente.
Quando começou a amanhecer, o Hellore começou a esvaziar e Conei veio até mim.
— Ele quer falar com você. – Apontou para um homem sozinho com uma caneca de bebida, eu o havia servido, mas não prestei atenção nele, assim como não o fiz com os demais homens no recinto.
— O que ele quer comigo? – Perguntei.
— Não sei, apenas disse que quer falar com você.
— E por que ele mesmo não disse isso quando o servi?
— Acha mesmo que ele quer vê-la falar e agir como fez com Gero? Não, não.
— Certo. – Suspirei, caminhando até o tal homem. — O que deseja?
— Olá, Thena. Gostaria de se sentar? Quero tirar algumas dúvidas sobre seu pai.
— Meu pai? – Sentei-me à mesa e apoiei os braços sobre a mesma, os olhos escuros do homem focaram em mim tal como eu o focara com os meus.
— Exato.
— Ele está bem? – Minha preocupação falou mais alto.
— É sobre isso que gostaria de falar com você.
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