Dark as night.
5 Cedo para morrer.
Notas iniciais
— Aconteceu alguma coisa com ele?— Inclinei-me para frente.
— Eu estava prestes a te perguntar o mesmo.
Não compreendi o que significava aquilo, observei mais atentamente o rosto do homem: seus cabelos eram castanhos e curtos, quase que sem corte, o nariz era grande e fazia uma curva para baixo, o maxilar era bem marcado, assim como os traços masculinos. Seus lábios foram curvados num sorriso, havia um dente de ouro, não gostei do que vi.
— Então, o que quer? – Sentei-me numa melhor postura, sustentando seu olhar.
— Conhece a história d’O Nascido?
— Pouco. Não me interessam velhas histórias como essa que causam inúmeras mortes de inocentes todos os dias.
— Você tem alguma noção do perigo que ele representa?
Eu não estava com paciência para aquilo.
— O que meu pai tem a ver com isso? – Fui direto ao ponto.
— A cada cinco anos um novo Nascido vem a este mundo, a cada cinco anos um deles nasce.
— Não é só um Nascido esperado por todos?
— Velhas histórias distorcidas através do tempo para salvar vidas. Mas não adianta muito, sabemos a verdade..
Não estava me agradando o rumo da conversa, Conei havia passado duas vezes ao meu lado e o clarão do lado de fora começava a iluminar o interior daquela espelunca. Voltei a focar minha atenção no homem.
— Crianças com um mínimo de poder são levadas para os magos do rei, os melhores já encontrados. Lá eles separam os que podem ou não ser um Nascido. É uma espécie de peneira, compreende? – Disse ele.
— E onde meu pai entra nisso? – Forcei novamente a pergunta.
— Seu pai está sendo acusado e procurado por manter informações sobre um Nascido.
— Isso é ridículo. – Me coloquei de pé e esmurrei a mesa. — O que realmente quer com meu pai? Ele é um homem simples e honesto, vivemos de sua caça. E você me vem com uma conversa ridícula dessas? Me poupe.
O homem segurou meu pulso e me puxou, forçando-me a inclinar o tronco sobre a mesa. Ele fez o mesmo.
— Os Nascidos têm grande poder, um tipo tão grande que nem eles mesmos sabem que possuem. Todos são poderosos, mas apenas um exercerá o supremo, é por isso que os pegamos antes que descubram.
— Me solta. – Exigi.
— Eu sou um Nascido, porém nunca segui o caminho esperado por todos à minha volta. Não há mais diversão por aí.
Não gostava dele, não gostei desde o primeiro contato visual, mas algo me dizia que já era tarde demais. Eu queria correr e buscar Neah, levá-la embora comigo e procurar por meu pai para irmos a qualquer lugar longe daquele homem.
— Se é um Nascido, o que faz aqui?
Ele riu com escárnio.
De repente a porta do Hellore foi aberta: dois Gors traziam meu pai inconsciente. Senti minhas pernas bambearem.
— Veja só quem chegou. Bom trabalho, rapazes.
Eu não sabia exatamente o que sentir, estava sendo dominada por diversos sentimentos: raiva, medo, repulsa, desespero..
— Pai! – Tentei ir até ele, mas o homem ainda segurava-me pelo pulso, seu aperto foi mais forte e me fez resmungar pela dor.
— Mestre. – Rosnou um Gor.
— Soltem-no. – Ordenou e virou-se para mim. — Eu sou Hyth, o 74º Nascido. Muito prazer. – Ele sorriu, exibindo mais uma vez o dente de ouro.
Cuspi no rosto de Hyth e puxei meu pulso. Pude finalmente correr até meu pai. Após ter sido solto pelos Gors, ele quase caiu no chão, mas cheguei a tempo de sentir seu peso em meus braços e cair com ele por cima de mim. Onde estava Conei? Olhei em volta e todo o lugar estava vazio, exceto por nós. Tentei manter-me atenta, mas ainda segurando meu pai.
— O que você quer, Hyth? – Perguntei mais uma vez, a voz o mais firme que eu conseguia.
Hyth começou a gargalhar, então comecei a notar as diferenças repentinas no homem. Seus caninos começaram a crescer e tomar espaço em sua boca. Não era uma visão muito agradável. Eu não sabia o que fazer, aquilo não era algo que eu já tivesse visto uma vez sequer, ou até mesmo ouvido falar. Era normal? Jamais.
— Mas o que diabos é você? – Gritei, Conei surgiu ao meu lado segurando Neah, ela chorava e se debatia enquanto chamava meu nome.
Senti-me indefesa e vulnerável. Por que tudo parecia estar dando errado em tão pouco tempo?
— Tia Thena! – Ela me chamou mais uma vez.
Eu havia prometido que cuidaria dela, eu havia prometido a mim mesma que ajudaria meu pai e que tudo ficaria bem, que seguiríamos em frente e enfrentaríamos o que fosse necessário para ter um pouco de paz.
Tudo estava dando errado.
— Conei, seu maldito! Solte-a. – Gritei, ajeitando meu pai e deitando-o no chão enquanto me levantava.
Ia correr até Neah, mas Hyth se colocou à minha frente. Suas feições haviam mudado drasticamente. Os olhos estavam completamente negros e todos seus dentes pareciam lâminas. Ele esticou a mão e agarrou-me pelo pescoço, as unhas transformadas em garras sendo pressionadas contra minha pele, cortando-me e fazendo-me gemer de dor. Fui tirada do chão e erguida pelo homem, ou monstro, pois era o que ele realmente era. Tentei furiosamente tirar sua mão de meu pescoço, mas foi em vão.
Meus pés agitavam-se e eu comecei a sufocar. Eu não choraria diante de Neah, eu não deixaria meu pai ser levado, e muito menos morreria ali, mas simplesmente não via solução alguma para me desfazer daquela situação.
— Um Nascido reconhece outro, Thena. – Rosnou Hyth, o hálito quente alcançando meu rosto.
— Me solte.. – Disse em um engasgo, minha voz soou tão fraca que nem mesmo eu reconheci.
Aquele seria o momento de minha morte e não haveria nada que eu pudesse fazer. Os olhos escuros focados em mim a todo instante, as garras cortando minha pele e fazendo-me praguejar cada vez mais por um pouco de oxigênio.
— Você tem que reagir, Thena. Você tem poder, desperte-o. – Hyth apertou ainda mais meu pescoço, meus olhos arderam quando as lágrimas vieram repentinamente. Ouvi Neah gritar em meio ao choro.
— Neah.. – Choraminguei sem conseguir me controlar, já estava ficando sem forças. Minha visão começou a embaçar.
— Não sei o que fizeram com você, seu poder está suprimido, mas você pode trazê-lo de volta. Eu posso sentir, é por isso que me mandaram até você..— Sua voz era distante, como se estivesse a metros longe de mim.
Eu era fraca, concluí. Não poderia proteger Neah, nem meu pai, nem a mim mesma. Não sabia que fim teria tudo aquilo.
Ouvi um grito, algo que deixaria qualquer um surdo. Minhas mãos, antes na mão de Hyth, foram até meus ouvidos na tentativa de evitar aquele som terrível. Senti meu corpo cair e bati contra o chão do Hellore. O grito ainda podia ser ouvido, consegui recuperar minhas forças e abri os olhos a ponto de perceber todos ali com as mãos nos ouvidos tal como eu. Mas demorei a perceber que quem gritava era eu.
Minha garganta doeu quando parei de gritar. Todos caíram e mais uma vez me senti confusa. Tentei me colocar de pé, mas o máximo que consegui fazer foi engatinhar até Neah e puxá-la para perto de mim. Conei estava encolhido em um outro canto distante de nós, tentando defender a si mesmo com seu egoísmo. Abracei Neah o mais forte que pude e ignorei a breve dor que sentia em meus tímpanos. Arrastei-me para perto de meu pai com a menina ainda em meus braços.
Algo apanhou-me pelo tornozelo e me puxou, acabei batendo a cabeça no chão. Hyth me arrastava pelo chão do Hellore e repentinamente jogou-me contra uma mesa. Todo meu corpo doeu quando a madeira quebrou com a força que havia sido lançada nela, gemi de dor. O homem apanhou uma cadeira e riu pouco antes de jogá-la em mim. Rolei para o lado, percebendo tarde demais um corte em minha perna e alguns arranhões em meus braços e rosto. A cadeira quebrou assim que atingiu a parede. Não sabia como, mas teria que conseguir fugir dali, e levaria Neah e meu pai comigo. Foi difícil levantar, mas o fiz e encarei os olhos escuros.
— Parece que está se descobrindo, garota. – Hyth ria.
— Eu sou uma mulher normal, simples e como qualquer outra vítima de coisas como você. – Disse, recuperando o fôlego.
Olhei de soslaio para Neah. A pequena estava ao lado de meu pai. Os Gors haviam sumido, aquilo me preocupou.
— Eles logo voltarão. São um pouco medrosos, esses Gors.. – Riu. — Somos eu e você, Thena. Não quero ter de matá-la, você pode ser uma grande aquisição...
— Não serei aquisição alguma a nada.
— Uma pena, devo dizer. – Hyth rosnou e saltou, tão alto que recuei alguns passos.
Assim que ele atingiu o chão, a madeira do local tremeu e rachou aos poucos até quebrar de modo que algumas estacas voltadas para cima fossem formadas. Paralisei, ele começou a andar em minha direção. Corri até Neah e a fiz levantar.
— Ande, venha e me ajude com meu pai. – Pedi a ela quando segurei os braços de meu pai. Eu sabia que Neah não poderia realmente me ajudar, mas era uma maneira de trazê-la comigo.
Arrastei meu pai o mais rápido que pude para fora do Hellore e pedi a Neah que ficasse lá com ele. Voltei correndo para dentro do lugar, não havia pensado em nada, mas não estava disposta a deixar que Hyth se aproximasse mais de minha família. Dei de cara com ele quase na porta.
Ao me ver, ele gargalhou alto. Sua voz era uma mistura horrenda de várias vozes, uma rouquidão irritante e gutural que fez-me tapar os ouvidos.
— Realmente, uma pena. – Ele me atingiu na barriga com o braço, fui jogada para longe.
Eu não sabia se minhas costelas haviam aguentado aquilo. Levantei com dificuldade e concluí que no mínimo havia fraturado alguma delas assim que fui atingida. Crispei os lábios e mordi o inferior para tentar ignorar a dor que sentia.
Andei até Hyth e vi-o preparar-se para o próximo ataque, aproveitei-me e respirei fundo, esquivando e desviando também de algumas estacas no chão. Ele rodou ao meu lado e eu corri como pude para o fundo do Hellore. Aquele lugar não ficaria de pé por muito mais tempo se dependesse da estrutura já falha agora parcialmente destruída. Apanhei uma cadeira e atirei-a contra Hyth, não foi difícil para ele destruí-la, mas foi o tempo certo para que eu pudesse apanhar uma das estacas e correr até ele. Plano falho.
Hyth balançou a cabeça de um lado a outro e riu assim que segurou a estaca. Começou a dar curtas e fortes passadas em minha direção, forçando a estaca contra mim e fazendo-me recuar a cada passo que ele dava. Senti a parede contra minhas costas e o sorriso do homem esticou em seu rosto. A estaca tocou meu peito e engoli em seco, Hyth começou a força-la contra mim e eu tentava com todas as minhas forças tirá-la dali. Meus braços doíam e eu começava a sentir meu ar faltar novamente, dessa vez pela pressão que sentia contra meu peito.
O segundo seguinte me foi mais instinto que qualquer outra coisa: chutei a perna de Hyth e ele cambaleou, mesmo que por um breve segundo, e consegui tirar a estaca de meu peito. Ela caiu no chão e pulei rapidamente no homem, fazendo-o cair contra uma outra estaca ainda presa ao chão. Hyth foi perfurado na barriga e eu fui atingida, ignorei o corte em meu braço e encarei-o, empurrando-o pelos ombros até que ele estivesse no chão com a estaca atravessada completamente. Seus olhos voltaram à coloração natural e os dentes e garras sumiram. Sangue começou a sair de sua boca, mas não tanto quanto o que escorria por sua barriga. Sua mão correu até meu braço e tentou alcançar meu pescoço, mas me pus de pé, ofegando.
Cambaleei e pus a mão em minha costela. Hyth cuspiu sangue algumas vezes e engasgou com a mão erguida em minha direção até parar completamente e fazer-me suspirar de alívio ao vê-lo morto. Escorei-me na parede e observei o corpo tornar-se um punhado de areia, como as das praias às quais meu pai me levara uma vez quando pequena. A areia foi levada misteriosamente por uma leve ventania até fora do Hellore e sumiu no ar.
Quando saí Neah me olhou e correu até mim, abraçando-me e chorando desesperadamente. Afaguei seus cabelos e olhei para o céu, cansada. Ouvi um gemido e notei meu pai já acordado.
— Tio Callec.. Tio!— A loirinha correu até ele e eu escorreguei até atingir o chão. Conei saiu repentinamente do recinto.
— Meu Hellore! Meu Hellore está desmoronando! A culpa é sua! – Ele me segurou pelo vestido e ergueu-me.
Eu já não tinha forças para falar ou fazer nada, então apenas gemi com a dor em minha costela e com os cortes no braço e perna.
— Deixe minha filha em paz! – Gritou meu pai, eu já quase não enxergava nada.
Pelo pouco tempo que consegui me manter atenta, vi meu pai chutar Conei para dentro do recinto pouco antes de tudo começar a ranger e desmoronar de vez. O homem careca já não estava mais ali para gritar e resmungar, nem mesmo para me irritar.
— Thena! – Ouvi meu pai dizer meu nome não muito longe de mim.
Meus olhos começavam a se fechar.
— Papai, o senhor está bem.. – Forcei um sorriso, meu rosto doía.
— Thena, temos que cuidar dos seus ferimentos.
— Neah, vem cá na tia Thena. – Chamei, sem nem mesmo saber o porque.
A pequena menina correu até mim e me abraçou forte, ignorei a dor, mas logo tudo escureceu e eu não sentia mais nada, não pensava e não falava. Os pequenos braços da loirinha me acolheram, e eu já estava longe dali.
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