Notas iniciais
Era sábado e eu tive que levantar cedo, mas de todo modo tinha dormido mal. Eu tive um sonho ruim, que me lembrava em pequenos fragmentos que me fez ficar arrepiada com o pouco que lembrava. O casal, o mar, a morte. Era os pais de Roger, eu pensei. Mas era só um sonho, eu tinha que me levantar e me preparar para a festa à noite. A noite de sexta-feira foi uma noite abafada, acabei suando em meio ao pesadelo, assim que me levantei da cama fui para o chuveiro.
Quando sai do chuveiro vi algo inusitado, ou nem tanto. A porta do quarto de hospedes que ficava na frente do meu estava aberta, e era nesse quarto que Roger estava hospedado. Quando passei pelo corredor eu o vi cheirando uma coisa, e eu não era nenhuma idiota para não saber o que ele estava inalando. Mas as coisas estavam tão ruins assim para ele usar drogas? Ou ele já era usuário antes da morte dos pais? Era difícil saber, assim como todas as outras coisas relacionadas à minha família.
O café da manhã foi um típico café da manha de comercial de manteiga, com a família inteira. Fazia tempo que não via algo como isso. Vovó Margarete estava reclamando de sua dor nas costas devido ao colchão duro. Vovô Hefesto estava lendo o jornal enquanto meu pai e o tio Clark estavam discutindo sobre o mercado de ações. Minha mãe e a mãe da Jhynn estavam discutindo, discutindo realmente sobre alguma coisa, mas ninguém fora das duas parecia entender o que era. Vona estava lendo uma revista de fofoca enquanto Jhynn estava comendo seu pão com Nutella quieta. Roger desceu alguns minutos depois, mas não tive tempo de reparar se ele estava chapado, logo meu celular tocou.
– Pronto, pode falar.
– Daia, é a Nicki. Você ficou sabendo do professor de literatura? – Disse Nicole com a voz apreensiva.
– Não me diga que ele marcou uma prova de ultima hora?
– Não, pior. Ele morreu.
Fiquei alguns minutos sem falar nada. Eu não gostava dele, ele era um típico professor que vivia reclamando do salário, não socializava com os alunos e suas provas eram difíceis. Mas eu não imaginava que uma coisa dessas poderia acontecer a ele. – Nicole, o que aconteceu exatamente?
– O Rick me falou pelo facebook, ele só disse que encontraram o corpo do sor no apartamento dele. Ainda não sabem direito, mas parece que ele se matou.
Mas por que um professor de literatura teria se suicidado? Isso não estava certo, até onde eu sabia ele tinha família e tudo mais.
– Eu acho que vou ligar para o Rick, para ver o que ele sabe mais.
– Daiana, eu já perguntei. Vamos esperar até a festa, aposto que todo mundo vai só fofocar disso.
– Ta tudo bem. Até mais tarde.
E então Nicole desligou. Eu já não queria ir nessa festa, agora mais isso. Ele poderia não ser o meu professor preferido, mas ele me deu aula desde... sempre! Ele sempre esteve na minha vida, pelo menos na vida da escola.
– O que aconteceu Daiana? – Perguntou Jhynn, aparentemente ela teria ouvido minha conversa ao telefone.
– Parece que o meu professor de literatura se suicidou.
– Ah, que triste. Mas ainda vai ter a festa hoje à noite?
– Vai sim. – Infelizmente eu quis dizer, nem mesmo a morte de um professor iria impedir a festa de 15 anos da Matilde.
Fiquei um bom tempo lutando para não ligar para o Rick e tentar descobrir o que ele sabia, mas logo estava no horário do salão. Eu, Jhynn e Nicole marcamos horário no salão às 14 horas. Duas horas depois estávamos prontas e voltamos para casa para colocar nossas roupas. Eu iria usar na festa um vestido azul, de calda longa, mas curto na frente. Meu cabelo estava preso para trás e liso, diferente do normal que é ondulado. Nicole foi a que mais mudou o cabelo dramaticamente, fazendo dreads. Nick era um pouco mais baixa do que eu e que Jhynn, mas aparentava ter nossa idade( eu e Jhynn tínhamos 14 anos e Nicole 13), tinha a pele morena, como uma argila clarinha e cabelos escuros feito a noite e lisos. Seu vestido era prateado com branco, curto e justo e extremamente brilhante. Jhynn fez um grande coque no cabelo e usava um vestido vermelho até os joelhos. Seu vestido caia perfeitamente ao corpo dela, não justo como o vestido de Nicole, e nem largo como o meu. E com um pouco de brilho dourado, nada excessivo como o de Nicki. Notavelmente ela era a que mais estava elegante e bonita entre nós.
Nossa família foi antes de nós, disseram que não era elegante chegar depois da hora, tirando o fato de serem puxa sacos da família de Matilde. Roger ficou para nos levar, e espantosamente ele estava elegante, de terno e gravata. Chegamos alguns minutos antes da entrada de Matilde, e ficamos confusos entre quem chamava mais atenção: a valsa desajeitada da Matilde ou o vestido horrendo da sua mãe.
– Vamos logo ver o que tem para comer. – Disse Nicole já me puxando para perto da mesa do buffet.
– Nick, para já aí. Ninguém ainda se levantou para comer.
– Ainda bem, por que eu não sou ninguém. – Assim que chegamos a mesa dos comes e bebes, Nicole só faltou berrar no meio do salão. – Que merda é essa? É isso que eles chamam de comida? Agora eu sei por que eles são tão ricos, se recusam a dar um docinho para os convidados.
– Pare de fazer escândalo Nicole! – Eu dei um tapa de leve em seu ombro, esperando ninguém notar-nos.
– Deixe ela. Vamos comer também, viemos aqui para que? – Disse Jhynn enquanto já pegava um dos salgados minúsculos que estavam nas bandejas. – Ah, eu acho que estou preste a explodir. Esse risole é maior que meu estomago.
Apesar de Jhynn ser tão rica quanto Matilde, ela estava tirando sarro da situação “mão de vaca chique”. Não pudemos comer muito, se não alguém notaria a falta dos pouquíssimos e minúsculos comes. Para a nossa sorte, eles não se importavam com a idade de quem estava bebendo álcool, mas para meu azar tive que ficar cuidando de Nicole para que ela não ficasse babada como todas as festas.
– Jhynn, fica de olho nessa praga, não deixe ela beber de mais. Vou falar com alguém.
– Hey, eu não preciso de babá. – Nicole parecia já estar mais tonta que Matilde após rodopiar na valsa.
Fui até a pista de dança, que estava contaminada por senhores e senhoras que não tinham noção do ridículo da forma que dançavam. Em uma parede perto dos banheiros estava uma espécie de bonde dos garotos. Tanto meninos da escola como parentes de Matilde, por algum motivo eles tinham a necessidade de ficar isolados. Não foi difícil achar Rick, em meio a todos os tipos de garotos, com seus cabelos descolados( ou pelo menos pensavam que eram descolados), Rick Nevers usava corte militar, quase raspado. Não era muito alto e já estava sem terno e gravata, estava com a camiseta abarrotada, com alguns botões em cima e em baixo desabotoados e a gravata solta no pescoço.
Ele sorriu a me ver aproximar, reparei alguns olhares de outros garotos ao meu chegar. Logo puxei Rick pelo pulso para longe daquela fila da testosterona. – Daiana Maicoom quer dançar com um garoto não popular? É isso ou é o fim do mundo?
– Deixa de drama Rick. Em primeiro eu já dancei contigo, na festa de formatura da oitava série – apesar de que eu dancei com quase todos os garotos – e em segundo eu não quero dançar.
– Então quer dar uns pegas aqui no Rick? – Rick aproximou o rosto, já quase fechando os olhos quando eu o empurrei para trás.
– Rick Nevers, pare de bobagens. Eu quero conversar.
– O que aconteceu, Daia?
Eu o puxei para uma área mais reservada, onde tinha apenas alguns bêbados deitados sobre os sofás.
– Eu fiquei sabendo do professor de literatura. Nick me contou que você falou para ela que ele se suicidou. Foi isso que aconteceu mesmo?
Rick ficou um tempo quieto, olhou para o chão e depois me olhou nos olhos. Por um momento pareceu desapontado com algo e então falou.
– Olha é isso que estão dizendo por aí, que ele tinha umas dividas e não conseguia pagar e então ele – e Rick puxou a gravata, como se estivesse se enforcando e depois ficou quieto novamente.
– Mas? – Eu disse na esperança de ter algo mais.
– Mas eu tenho um amigo que o pai dele é policial, e ele disse que encontraram o corpo encharcado, só que ele estava na sala, no tapete.
– Se ele estava no seco, como que ele ficou com o corpo molhado de água.
– Mas eu não disse que era água. Disseram que era um liquido preto, pegajoso como óleo.
O que? Só pode ser brincadeira. Será que isso teria alguma coisa a ver como o meu sonho? Eu preciso perguntar, preciso saber.
– Óleo? Tipo petróleo? Uma água bem escura?
– É, tipo isso. Mas você sabe de alguma coisa?
Rick também era sereia, sua família era dona de uma transportadora de barcas, mas não tinham muito dinheiro, poucas pessoas usavam barcas na cidade, mais os turistas que decidiam ir morar ali. Conhecia o Rick desde a sétima série e ele era meu colega de classe, e na sétima série ele pediu para ficar comigo, mas eu não aceitei por que Nicole tinha uma paixonite por ele. Hoje nenhum dos três fala disso, mas desde o ano passado Rick se afastou um pouco de mim e de Nicole, única humana que sabe a verdade sobre mim e Rick.
– Rick, é estranho o que eu vou dizer.
– Pode falar Daia, você sabe que pode confiar em mim. – Inesperadamente ele pegou a minha mão e segurou firme.
– Meu primo Roger, o que veio comigo. Hã, os pais dele morreram há seis meses, no mar de uma forma sem explicação. E na noite passada eu tive um sonho estranho, primeiro tinha um casal que estavam nadando na praia daqui de Kendall e uma água negra, como petróleo os pegou e os sufocou até a morte e depois vi um garoto nadando.
No momento que eu disse aquelas coisas meu corpo estremeceu. Rick colocou sua outra mão por cima da minha e se aproximou.
– Que loucura Daiana. Quero dizer, pode ter sido só um sonho, ou pode ter alguma relação com a morte do psor ou dos seus tios. Mas os pais do seu primo eram daqui de Kendall? Teria alguma relação os pais dele com o professor.
Engraçado que eu ainda não tinha pensado nesse fato. – Não, eles nunca moraram aqui,só fizeram algumas vizitas a muito tempo atrás. E não, o professor era um centauro expulso do clã não era? E eles eram sereias como nós.
Percebia uma careta no rosto de Rick, ele gostava de ser chamado de sereio, mas o termo certo era sereia, tanto para homens como para mulheres. – Hm, então deve ter sido apenas um sonho. Vamos nos juntar a Nicole, aí você já me apresenta aos seus primos.
– Esta bem. – Eu disse já me levantando e indo em direção a Nicole, Jhynn e Roger, que estavam rindo de algo e nem notaram a nossa aproximação.
– Do que estão rindo?
– Nicole derrubou ponche no vestido da avó da Matilde. A mulher quase lançou uma maldição sobre nós.
– Pelo jeito o gene vem de família.
– Hm,e quem é você? – Jhynn perguntou ao Rick. Rick sorriu e pegou a mão dela e beijou, como se ele importava-se em ser cavaleiro. Virei para o lado para não ver aquilo.
– Sou Rick Nevers, guardião da Daiana e da Nicole, sou eu que impeço que elas saiam da linha. Você deve ser a belíssima Jhynn, prima da Daia.
Jhynn soltou uma risada charmosa, como se não estivesse acostumada a ser bajulada por babacas. – Sim, sou eu. Guardião? Não sabia que minha prima era uma princesa ou algo do tipo.
– Está brincando? Ela é a princesa dos mares de Kendall. Quando ela entre na água todos os peixes saem correndo.
Todos riram da piada de Rick e eu tive que rir junto, para não parecer incomoda com aquilo.
– E ae Rick, eu sou Roger. O belíssimo primo da Daiana, eu presumo que era isso que iria dizer. – Ótimo, dois engraçadinhos para ficarem fazendo piadas a noite toda.
Antes que Rick pudesse responder com algum comentário construtivo, ouvindo um grito e todos pararam de fofocar, comer e alguns segundos depois a musica parou. E todos sabiam por que, aquele grito era inconfundível, era da Matilde. Todos olharam para os lados e ninguém a achava. – Eu acho que eu a vi indo para o banheiro há alguns minutos atrás. – Disse Nicole, mas antes que eu pudesse olhar para que lado ficavao banheiro Rick já estava me puxando e todos estávamos correndo em direção. Uma velha quis impedir que Roger e Rick entrassem no banheiro feminino, talvez não tivesse notado o que estava acontecendo, mas entramos mesmo assim. Assim que entrei eu paralisei.
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