Notas iniciais
O banheiro estava inundado com aquela água escura e onde deveria ficar um ralo se formou um pequeno redemoinho pegajoso. Onde que pudéssemos entender algo, vimos duas garotas serem sugadas para dentro do redemoinho e depois vimos Matilde agarrada a pia do banheiro, se segurando para não cair na água negra.
– Me ajudem! Rápido! – Ela gritou e ficou pendurada com apenas uma mãe na pia. A água estranha criou espécies de tentáculos pegajosos que se enroscaram na perna de Matilde e então Jhynn soltou uma espécie de rajada brilhante verde, que sumiu ao tocar o liquido, como uma lâmpada que foi apagada. – Façam alguma coisa! – Ordenou Nicole, que como humana sabia que não podia fazer nada. Roger subiu na pia e correr até perto da Matilde, se ajoelhou no mármore e agarrou o braço dela enquanto seu corpo já estava quase todo coberto daquela coisa pegajosa. Ouvimos um barulho como de uma cachoeira e Matilde gritou. Seu corpo estava sendo puxado pelo redemoinho negro e Roger foi puxado junto. – Não, Roger!
Ouvi Jhynn gritar. Tudo estava acontecendo tão rápido e eu não sabia o que fazer. Minha prima correu em direção ao redemoinho e seu corpo brilhava enquanto a água se enroscava nela e a puxava para dentro, mas de toda forma Jhynn parecia estar mergulhando por vontade própria no redemoinho. Foi quando eu percebi que ela estava indo salvar Roger.
– Precisamos salvá-los. Nicole chame ajuda! – Gritei enquanto corria em direção daquela coisa que rodopiava no chão lambuzado de óleo ou água negra, quando ouvi Nick dizer. – Você está louca, se você vai entrar nessa merda aí eu vou junto!
Quando eu fui olhar para trás Nicole passou por mim e se jogou no redemoinho. Só deu tempo de eu olhar nos olhos de Rick e pular junto. Então tudo ficou escuro, molhado e nojento. Queria vomitar, gritar e correr, mas não podia fazer mais nada.
Com dificuldade eu abri os olhos, que apreciam estar colados. Demorei a entender onde eu estava. Era como uma gruta funda que parecia estar submersa no mar. Quando fui tentar me levantar que me dei conta que estava amarrada... por algas. Soltei um grito alto que ecoou pelas paredes da gruta. – Daiana, para de gritar. Minha cabeça esta doendo.
Olhei para o lado e vi Nicole deitada do outro lado da gruta, também presa por algas que pareciam duras feito metal. – Nicole, cadê os outros?
– Eu não sei, eu acordei e estava presa a essas plantas e com a cabeça dolorida. Onde estamos?
– Eu não sei. Parece uma caverna ou gruta marítima. Não sabia que tinha isso nos mares de Kendall.
– Mas você é uma sereia! – Nicole estava quase gritando.
Mas ela tinha razão, eu era uma sereia e se aquilo fosse realmente uma gruta no mar eu poderia fazer alguma coisa. Arrastei-me sobre o chão de pedra até os as algas se esticaram. Mas ainda não era o suficiente para meus pés tocar na água. Puxei os braços e senti as algas cortarem os pulsos, mas consegui mergulhar as pernas na água gelada. Em poucos segundos me transformei em sereia, mas mesmo assim não conseguia me soltar das algas. Puxava os braços com força, mas nada acontecia e então me senti forte como um tubarão. Estava me sentindo um tubarão, antes que esse momento psicótico passasse, eu puxei meus braços com toda a minha força e senti as correntes de algas se arrebentarem.
– Ai meu Deus, você conseguiu. Agora me solta, vamos.
– Já vou, te aquieta. – Tentei fazer a sensação estranha (me sentir como se eu fosse um tubarão) e me senti forte novamente, o suficiente para libertar Nicole.
Puxei ela pelo braço e andamos pela gruta, eu já estava novamente na forma humana, em procura de uma saída. Parecia que a única saída era água. – Nick, é melhor você ficar aqui enquanto eu procuro os outros.
– De jeito nenhum! Eu vou com você.
– E por acaso a senhorita sabe respirar por de baixo d’água?
Nicole não respondeu e eu assenti com a cabeça e me atirei na água. Ela estava fria como nunca. Nadei por alguns segundos e logo encontrei Rick, que estava uma cela de pedras.
– Rick! Como você foi parar aí?
– Eu não sei... eu simplesmente acordei aqui. Estou muito fraco para me transformar, e você sabe que me dou melhor em águas doces.
– Tudo bem, vou tentar te tirar daí.
Me transformei novamente em sereia, mas não sabia se conseguia fazer de novo o que eu fiz na gruta. Fechei os olhos e agarrei firme as estacas de pedras que formavam a cela. Dessa vez não me senti como um tubarão, mas sim com um peixe normal... mas perigoso. Mordia as pedras da cela e elas quebraram como se eu tivesse mordido batatas-fritas crocantes. Após arrebentar a cela em segundos eu percebi.
– Piranha!
– O que? Aliás, como fez isso?
– Deixe para lá, vamos tentar encontrar Matilde, Roger e Jhynn.
Nadamos por longos minutos e nada, o mar parecia vazio, sem ondas, sem peixes, sem nenhum ser vivo além de mim, Rick e Nicole na gruta. Nadamos para cima, em busca da superfície, mas não a encontramos.
– É uma armadilha. – Disse Rick.
– Não brinca, e como iremos escapar, espertinho?
– Se eu soubesse do que estamos fugindo.
– Daquele óleo,água suja, sei lá o que era aqui.
– Mas nenhum óleo ou água faz coisas sozinho.
– E o que sugere?
– Que você faça algo com esse seu poder novo.
– Não é um poder novo, é algo esquisito.
– Tanto faz, só faça algo Daiana.
Como aquele mar poderia não ter fim. E como estava tão claro? Tinha que vir luz de algum lugar. Fechei meus olhos e imaginei todos os animais que deveriam estar ali. Me concentrei em um animal rápido, que pudesse verificar a área rapidamente. Um golfinho. Me senti diferente,com uma magia diferente. Gritei e durante um tempo nada aconteceu. Rick me olhou estranho, mas depois senti algo mágico entrar em mim. Era como um radar sonar, e com o mesmo percebi que o mar possuía barreiras, como paredes.
– Eu acho que sei o que esta acontecendo.
Comecei nadar rapidamente em direção ao nada. A água estava fria, mas agradável, meus pensamentos estavam perdidos nos outros e no que aconteceu a eles e por isso não percebi até me chocar de cabeça em alguma coisa. UM VIDRO! Gritei na minha mente e depois soquei o mesmo, era realmente um vidro. Como iria quebrar aquilo?Teria que ser um animal grande e forte... uma baleia. A magia tomou o meu corpo novamente, e eu não me sentia mais como um pequeno golfinho, mas sim como uma enorme baleia jubarte. Fui para trás e nadei de volta em direção ao vidro, e senti como um sopro que tocava minha cabeça. Mesmo estando mais forte ao ponto de mal sentir o empaque, o vidro não cedeu. Nadei até perto do Rick que continuava sem entender nada, e voltei, nadando mais rápido em direção à barreira.
A água começou a diminuir junto ao som de vidro quebrando. Rick se aproximou e ficou ainda mais espantado com o rombo aberto no vazio, como um vácuo no mar.
– Vamos ter que passar por isso?
– Pelo jeito sim. – Eu disse fria, estava com tanto medo quanto ele. Ele passou na frente, entrou no rombo e sumiu. Não conseguia ver pelo outro lado e nem ele. Respirei fundo e me atirei no vácuo.
Caí por cima de algo, que gemeu em seguida, mas não me preocupei no que era, por que estava seca. Como estava seca após pular de um buraco de dentro da água? Me levantei e vi que tinha caído em cima do coitado do Rick, depois de ajuda-lo a se levantar ele apontou para uma coisa. Um objeto, um aquário quebrado.
– Acho que saímos daquilo?
– Mas é tão pequeno. – Era um aquário médio para peixes, mal cabiam nossas cabeças ali.
– Foi aqui que estávamos sim. - A água ainda estava escorrendo do buraco no vidro. – Deve ser mágico, enfeitiçado, sei lá.
Olhei para os lados e parecia uma loja de aquários. Estava cheia de aquários vazios e outros cheios. Uns continuam peixes pequenos e bonitos, com diversas cores e formas, mas outros aquários mais ao fundo pareciam ter estranhas criaturas.
– Mas se foi enfeitiçado, quem nos colocou ali? – Eu perguntei ao Rick, mas já esperando que ele não respondesse, pois nós não tínhamos como saber. Mas então ouvi uma voz rouca e áspera, como se não estivesse presente conosco.
– Fui eu. – Alguém disse.
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