Dark - Segunda Temporada
9 Capitulo 7
Notas iniciais
*leiam a nota acima gente*

CAPITULO VII
Depois de exato sete dias após o começo das aulas na universidade dos Jones, tive tempo suficiente para colocar meus pensamentos em ordem. Não tinha estado com Andrew da forma como eu queria, de acordo com o Caleb, ele estava ocupado demais tentando manter-se imparcial comigo para que o triarco pudesse confiar nas suas intenções. No fim, isso queria dizer que Andrew estava fingindo não ter nenhum tipo de relacionamento comigo – o que refletia que ele estava fingindo não ter sentimento algum por mim, a não ser a imparcialidade — e para que isso funcionasse, ele não podia me ver, não podia me sentir ou muito menos ouvir a minha voz, Andrew não conseguiria fingir tão bem se ainda mantivesse contato comigo.
Além de saber que eu não podia vê-lo, fazendo com que a saudade fosse ainda pior, mais devastadora, Lauren nos contou que o prazo dos irmãos Laudox na cidade iria se prolongar, eles ficariam por mais tempo que imaginamos. Só não sabiamos quanto. Damian passava a maior parte da tarde vindo visitar Lauren em saídas estratégicas e particulares, enquanto Suzanna tentava manter o mínimo de contato com Matt, depois do jantar que teve com ele a uma semana atrás.
– Ele estava diferente. – ela disse naufraga na minha cama enquanto eu dobrava as roupas limpas que Isobel me entregou e as colocava no meu guarda-roupa.
No horario, Lauren certamente estaria com Damian.
– Diferente como?
Houve uma longa pausa.
– Fisicamente. Ou por todos os lados, bem eu não sei.
– Mas pelo menos você se divertiu? – perguntei, achando que isso fosse algo da cabeça de Suzanna.
– Bem, sim, me divertir, mas quase não nos tocamos, e as conversas eram sempre superficiais, ele estava tentando ao máximo me ouvir falar e não conversar comigo. – ela estava impaciente.
Dobro as roupas no guarda-roupa e sento ao seu lado.
– Estranho. – murmuro. – O que você notou de diferente, mesmo?
Ela enruga a testa enquanto pensa.
– Ele está mais magro.
– Deve ser a correria do trabalho. – suspeito.
– Pode ser. – ela dá de ombros. – Mas tem os olhos dele, os olhos azuis, estão mais cinzas e profundos e eles eram tão rasos, como piscinas.
Encosto minhas costas na parede ao lado da minha cama e continuou a pensar enquanto ela fala.
– Ele está diferente Nina, o jeito que ele se comporta, sempre tão ereto, o Matt era relaxado, divertido, contava-me piadas toscas e eu ria mesmo assim, agora, bem, ele está... Rígido, sério, está pálido e recuava quase todo o tempo contato, mesmo ele cedendo algumas vezes.
Eu não a olhei porque estava paralisada. Milhares de possibilidades pairavam pela minha mente, entre uma delas, levei a pensar que isso poderia ser apenas uma fase com o Matt, não sabiamos que tipo de serviço ele tinha encontrado, talvez ele esteja mais amadurecido que o normal, talvez a responsabilidade de morar sozinho agora esteja dando efeito. Ou, na pior das hipoteses, a pior que eu poderia acreditar firmimente – e eu estava – era que Matt tinha se tornado um vampiro.
Espantei a ideia da cabeça, mas quanto mais Suzanna dividia suas angustias comigo sobre Matt, mais eu confiava nas minhas suspeitas.
– O que você acha que é?
– Sobre o quê? – eu a olho perdida.
– Sobre o Matt, Nina, sobre o que ele tem. – Suze responde impacientemente.
– Ah, sim, ahm, não sei Suzanna, — encarei meus dedos caminhando pelo lençol roxo da minha cama, tentando escolher o que eu diria para ela.
A pior parte de desconfiar do Matt, era que não havia maneiras de abrir os olhos de Suzanna, porque ela não sabia nada sobre este mundo, sobre meu mundo e tudo de sobrenatural que acontecia nesta cidade.
– Você não ajudou em nada. – ela cruza os braços, irritada. – Estou perdida, não sei o que dizer e não sei se falo com ele.
– É melhor não! – respondo rápido demais.
– Por quê?
– Porque isso pode ser só uma fase, Suzanna. Espere por mais alguns dias, talvez tudo volte ao normal. Você conhece o Matt melhor do que eu. Apenas dê uma chance a ele.
Tudo que eu queria dizer, na verdade, era que mesmo se o Matt tivesse tido este fim, de se tornar um vampiro, eu não queria que Suzanna se afastasse, mesmo correndo os riscos, eu sabia que Matt a amava e não estava pronto para contar a verdade. Ele não é um monstro e eu estava convencida disso.
– Ok... você tem razão.
E terminamos por ali.
Desde que Clarice se transferiu totalmente para a cidade, venho estado com ela a maior parte do meu dia, quando não estou com Suzanna ou Caleb, já que Lauren parece ocupada demais para sentir saudade do Damian.
– Ela está no clã. – Caleb me disse, enquanto andávamos pela vegetação escorregadia da floresta depois da universidade.
– No clã? É perto daqui? – se ele não percebeu, mas eu estava nervosa com a ideia de um clã repleto de vampiros.
– Alguns quilometros daqui, mas não se preocupe Nina. Apenas continue andando.
Reconforto-me no meu casaco preto e agradeço por ter vestido jeans preto e botas de cano alto para poder conseguir me locomover aqui. Caleb tem o cabelo caído para os lados, talvez por causa da umidade, os ultimos dois dias choveu tranquilamente, como se não avisasse nenhum transtorno, como se os planetas, o universo voltassem a se alinhar.
Tenho meu cabelo negro preso em um rabo de cavalo alto e lustroso, alto o suficiente, mas ainda sim sinto os fios tocarem até metade das minhas costas. Ele ainda cresce muito rapidamente, apesar de eu cortá-lo uma vez por mês. Na ultima vez que prestei para exames, como comportamento do meu corpo, a minha massa muscular e a minha altura, eu tinha crescido três centímetros e eu não podia acreditar que isso fosse realmente real. Mas estava acontecendo. E agora apesar de ter emagrecido alguns quilos, eu tinha ganhado estes em massa muscular. Era um tipo de desenvolvimento que nem Langdon e nem Maison podiam explicar.
Deveria fazer quinze graus no centro, mas aqui, enfurnados na floresta, poderia baixar consideravelmente. Deslizei e quase tropecei por causa de algumas samambaias, mas consegui me manter equilibrada enquanto andava cuidadosamente atrás do Caleb. O silêncio que se prosseguiu queria dizer que ele estava com os pensamentos longe daqui, desde a nossa ultima reunião na biblioteca onde ele me contou o que sabia sobre a maldição que todos temiam.
E eu não podia julgá-lo. Eu também estava apavorada, desde quando ele me prometeu que contaria sobre a maldição. E o fez.
– Antes da morte do meu pai, eu o acompanhava sempre que podia para o grande palácio do triarco, era uma construção europeia mística com anjos angelicais desenhados pelas paredes, uma ironia se tratar um local para vampiros com um salão dedicado às forças divinas.
– É onde Andrew está, certo?
Caleb concordou.
– Ele deve estar se aproximando aos poucos, o que não será muito difícil se ele seguir as regras. – Caleb manuseia um livro de capa negra com luas desenhadas na capa. – Quando um triarco é adicionado ao poder do ministério, ele recebe um livro desse.
Eu observo novamente a capa, as dobras que aparecem referem que o livro já é bem velho. Existem linhas douradas nas curvas até formarem, acima das luas surradas, o nome Arcum Trium, retas douradas e brilhantes formam o nome desenhadamente, puxando nas extremidades. Não acho que tenha sido os primeiros druidas a confeccionarem o livro, mas creio que ele deve ter mais de cinquenta anos.
– São as primeiras anotações do primeiro triarco. Muitas décadas depois da primeira irmandade.
– O que tem escrito nele? – pergunto transbordando de curiosidade.
– Nas primeiras páginas, você observa como o povo vivia. Tribos inimigas preparando ataques, escassez de alimento, inundações, pragas e a anexação dos vampiros a sociedade dos primeiros druidas. Os primeiros ataques, a nova geração de bruxas que substituíam suas famílias na irmandade. É uma sequência de fatos.
– O que eram os druidas... Tecnicamente?
Caleb finalmente me passa o livro e espera que eu mesma folheei as páginas.
Eu franzo a testa, as páginas não estão em inglês, as palavras se formam estranhamente em outra língua, mas mesmo assim passeio os dedos por ela, sentindo o papel áspero nos meus dedos e empoeirado, sentindo sensações mágicas saindo dele, como se eu pudesse me conectar, sentindo que isso já parou nas mãos de Meredith. Ou alguém bem próximo a ela.
– Eram pessoas encarregadas de uma função espiritual na maior parte, elas desenvolviam um papel importante à sociedade que serviam, como conselheiros, curandeiros, sábios e guardiãs. Além disso, possuam um direito muito imponente entre as pessoas da tribo, como por exemplo, julgar e condenar alguém. Tudo que eles faziam, havia um fundamento, eram pensamentos naturais, eles buscavam equilíbrio ligando a vida espiritual à natureza, é por esses motivos que eles possuem muitos conhecimentos sobre arvores.
– Como o carvalho. – completo, começando a compreender.
Olho novamente para o livro, tentando me esforçar para traduzir qualquer palavra, mesmo que seja um nome, talvez eu esteja procurando por algo mais direto. Como Meredith. Ou Edmund.
– Tem alguma coisa sobre Meredith? – esforço-me a olhar.
– É a parte mais importante. – Caleb se aproxima fazendo-nos tocar os ombros. – Não se fala sobre Edmund em nenhuma das páginas, é como se ele não tivesse existido, mas sempre descreve Meredith como uma alma bondosa que protegia seu povo o quanto podia.
– O que pode ter acontecido com Edmund? – eu o olho dessa vez.
– Eu não sei. Embora a maldição esteja bem detalhada ai, não fala sobre Edmund, muito pelo contrário, os vampiros não são bem vistos aos próprios olhos do primeiro triarco.
– Por que não?
– Porque não eram formados por vampiros. – Langdon reaparece e quase me assusto por me esquecer completamente dele.
– É verdade. – Caleb acenou para mim, concordando.
– Os Druidas fizeram parte do primeiro triarco e as bruxas puras das famílias fizeram a primeira irmandade, O’Connel, Acker, Reichert, Klaus, Lietch e Dalpiaz. Desde que Aura foi banida, toda sua linhagem foi destruída, eles acreditavam que o espírito traidor e sombrio de Aura pudesse se prosseguir por todas suas linhagens.
Eu faço que sim com a cabeça.
– Ela sumiu depois que foi banida?
– Pelos registros, sim, aos poucos, longe de suas irmãs, a quem jurou fidelidade, começou a perder os seus poderes, a sua força.
– Ela então... morreu? – ergo as sobrancelhas e encaro o professor Langdon.
– Não diz diretamente com essas palavras, então não posso ter certeza.
Eu concordo, compreendendo o que elequer dizer.
– Mas por que motivos os vampiros não estariam na história, afinal, toda a confusão com Aura já havia acabado?
– Porque houve complicações, Nina. – Caleb me respondeu. – Desde o momento que deram total liberdade aos vampiros quando Meredith decidiu unir-se a um, por entregar-lhe seu coração a Edmund. A situação fugiu dos planos da irmandade e do triarco, as terriveis ameaças que os vampiros causavam tornou a próxima geração de bruxas vingativas. Houve uma guerra, e todos culpam a decisão de Meredith de ligar uma bruxa ao vampiro uma maldição, ligando um ser puro a um pecador.
– Mas ela não era uma má pessoa.
– Por isso acusavam Edmund. – Langdon trouxe consigo outro livro de capa negra. – Diante das revelações dos druidas, acreditavam que os vampiros eram criaturas cheias de pecado e sombras, levavam consigo a escuridão e que eles nunca seriam capazes de amar, mesmo possuindo o poder.
– É por isso que ele não está na história. O que quer dizer? Mataram Edmund? – eu perguntei, aflita. – Ele era imortal, mas mesmo assim o mataram? E Meredith?
– Pelo o que meu pai descobriu, Meredith de alguma forma viveu imortal ao lado de Edmund até a maldição.
Eu olhei de Caleb para o professor Langdon.
– E os druidas?
– Muitos deles eram de origem celta, mas não tenho certeza sobre a nacionalidade de cada um, porque existem muitos documentos escritos por eles variando entre a língua gaulesa, britônica e lusitano.
– Lusitano? – pergunto. – É latim também, certo?
Langdon concorda comigo.
– É a única que temos conhecimento para traduzir. – Caleb o interrompe.
– Nos documentos, eles usam vários sinônimos de maldição, Nathalie, para se tratar dos vampiros. Como pestilentia para definir como praga, condemnare para condenação. Acreditavam que os vampiros eram um pecado da própria natureza e isso começou com os McDowell, a família de Edmund. Os familiares foram perseguidos até serem obrigados a fugir para locais distantes, é por isso que ligam a família aos reinos britânicos, da Inglaterra, para onde foram forçados a ficar.
– Por isso todo mundo conhece um McDowell. – Caleb disse, apoiado na mesa de madeira próximo a mim. – O povo de Meredith estava se revoltando contra a pessoa que ela mais amava, era uma escolha entre ao que ela era, a quem ela pertencia, sobre seu povo e sobre quem ela amava, sobre o que ela achava certo.
– Então o sangue derramado onde Vinum cresceu relembrando, era a dos vampiros? A cidade foi feita para relembrar os vampiros mortos e não o povo de Meredith?
Caleb e Langdon acenam para mim, concordando. Meus pensamentos estavam conturbados, enquanto eu tentava assimilar, imagens se formavam na minha cabeça de Edmund sendo atacado pela irmandade, a família de Meredith, vendo seu corpo já sem vida, e tudo que posso ver são os olhos escuros de Andrew, orbitas negras que perdem o brilho e o calor aos poucos, assim que uma guerra que parece não ter fim finalmente chega nos seus objetivos, acabando com o McDowell responsável. A minha pele esfria e me vejo como Meredith, vestida com tecidos simples cor de areia, o cabelo encaracolado e grande tocando a desenvoltura da minha cintura, vejo meu corpo debruçado sobre o de Edmund, chorando como se eu pudesse sentir que uma parte minha já não estivesse mais viva.
– Que lado Meredith escolheu?
– Os livros Arcum Trium dos Druidas falam da vitória do povo de Meredith, mas não cita a morte de Edmund ou a sua participação.
– Isso quer dizer que não sabemos, então?
Langdon faz que sim com a cabeça.
– Temos mais línguas para aprender e livros para traduzir. – ele dá um sorriso pequeno, e a temperatura que tinha esfriado mais do que o normal desde que Caleb tocou no nome da maldição, estava voltando ao normal.
Tropeço em outra samambaia e quase sou atirada ao chão, mas Caleb me resgata a tempo.
– Está tudo bem?
Eu desperto. Tinha entrado num mundo paralelo, relembrando nossa ultima reunião sobre a maldição escrita no Arcum Trium. Ergo bem os calcanhares e me levanto, já em equilibrio.
– Desculpe. Estava apenas pensando.
– Pensando bem longe daqui. – Caleb dá um sorrisinho.
Ajeito-me e começo a andar, agora emparelhada com ele.
– Estava pensando sobre o Arcum Trium? – ele desvenda meus pensamentos.
– É.
– Eu também. – ele dá de ombros. – Tecnicamente Nathalie, seu povo é inimigo do meu. E sua família é inimiga dos McDowell.
Sinto minha pele esfriar.
– Não acho que isso vá se repetir. – olho para ele. – Não é? Essa guerra.
– Claro que não, foi a muito tempo.
– Espero, porque não me vejo tentando escolher entre salvar vocês, salvar o Andrew e traindo uma irmandade a quem minha família pertence.
Depois do que disse, ficamos em silêncio.
Alguns metros depois, chegamos finalmente em um encontro natural de arvores, que formam um circulo de vegetação gramínea, os galhos se abraçam como se fossem ma intervenção humana, como a ideia de fazer disso fosse propositalmente feito por homens. Mas era totalmente natural.
– Não é um campo McDowell com gardênias, nem nada, mas é o suficiente para o nosso trabalho de hoje.
Desde que escolhi ficar na livraria traduzindo livros com o professor Langdon, Caleb achou justo que a nossa proxima saída fosse de sua escolha. E eu estava temendo o que podia vim. Caleb tirou o casaco que el cobria, paenas para fingir que aqui fazia menos de quinze graus. Enquanto eu me negava a tirar o meu.
– Você tem um sorriso ridículo nos lábios. – eu disse, já sentindo meus músculos tremerem por causa do frio.
– Estou animado. Hoje vamos fazer algo diferente.
Eu sabia que sua animação era fora do comum.
– Ok, então me diz o que estamos fazendo aqui?
– Estive relatando todas as suas mudanças Nathalie. – ele não está tão longe, mas começa a andar em círculos. – Você ganhou massa muscular e altura, nós já treinamos todos seus fortes, como por exemplo, sua força nas pernas e os saltos, o que está definitivamente ótimo. Exceto pelas lições de firmeza, você fica nervosa muito rápido.
Esfrego os dedos na minha calça, um pouco suada, talvez porque eu esteja com vergonha de admitir que ele tem razão.
– Então decidi que hoje vamos testar sua velocidade.
Abro bem os olhos e o encaro.
– O quê?
– Quero ver você correndo. – disse-me. – É um trabalho bem complicado porque além de você tentar se manter longe do seu inimigo, tem que estar atenta a qualquer aparição dele, você sabe, nós vampiros somos muito traiçoeiros, nos movimentamos num piscar de olhos.
– Isso é... reconfortante. – murmuro.
– Não estou te intimidando, Nina. Só mantenha o foco, entendeu?
– Sim, eu entendi. – me movimentei. – Então, o que eu tenho que fazer?
Caleb se aproximou.
– Vou te dar uma vantagem. Plantei uma bandeira vermelha num raio de três quilômetros, lá será sua base de segurança, nosso limite, se você chegar até lá salva, em segurança, você ganha, se eu consegui te alcançar antes, você perde.
Balancei a cabeça, compreendendo.
– O que você quer dizer com alcançar? – pergunto. – Me impedir por completo ou tentar chegar até mim?
– Impedi-la. Como se o jogo terminasse quando eu te capturasse.
– Então quer dizer que eu posso tentar me livrar de você se conseguir o jogo ainda estará rolando?
– É.
Eu faço que sim com a cabeça e dou alguns passos para trás.
– Feito. – suspirei. – Só me dê um tempo.
– O tempo que quiser. – Caleb deu de ombros, me observando.
Examinei o restante da vegetação depois do circulo natural de arvores. Eu não conseguiria afirmar qual seria o melhor caminho, é bem como se fosse um labirinto, as arvores eram próximas demais e cheias de obstáculos, eu poderia seguir por um caminho contrario a bandeira vermelha sem nem sequer dar conta disso. Então eu tinha que ter a maior consciência possível sobre caminhar reto e ereto, evitando desviar se possível, ou retornando quando isso acontecer.
Estiquei as pernas e dei uma ultima olhada pelo lugar.
– Está pronta? – Caleb me perguntou.
Acenei com a cabeça.
– Estou.
– Tudo bem. – ele se manteve quieto ao meu lado esquerdo. – Caso aconteça algo inesperado, você realmente se machuque, temos que ter um sinal.
– Que tipo de sinal? – olho para ele dessa vez.
– Não sei... – Caleb mordeu o lábio inferior enquanto pensava. – Se comunique comigo por pensamento, como havíamos treinado, ok?
Faço que sim com a cabeça.
– Ótimo. Quando quiser começar, pode ir.
Arranquei meu casaco negro e o deixei em qualquer lugar por aquela vegetação, deixando a mostra uma blusa azul escuro de mangas compridas que colava na minha pele quase como uma segunda pele, diferenciando-se por algumas elevações do tecido e seu tom. Suspirei firmemente e tentei equilibrar meus pensamentos e minha respiração. Coloquei um pé para trás e empurrei meu corpo, ganhando velocidade e saindo milésimos de segundos depois, ultrapassando, em um salto, galhos presos entre si, como um ring de Boxe.
Meu cabelo estava bem preso no rabo de cavalo e me agradeci por ter feito isso antes de me encaminhar com Caleb para nossas atividades fora da universidade. Desviei de um ninho de samambaias e pedras no caminho, saindo pelo lado oposto de uma arvore que se encontrava com outra, impedindo minha passagem reta. Emitia inspiração e expiração no tempo ideal para que eu não sentisse falta disso quando eu começasse a me cansar. Pulei galhos baixos e armadilhas naturais da floresta, mas sempre me certificando de alguma movimentação do Caleb. Ele já deveria ter saído da sua zona e vindo atrás de mim.
Enquanto passávamos tardes com Langdon na biblioteca, vendo-o tentar traduzir alguns livros de druidas para a nossa língua, eu ajudava Caleb a passar o tempo formando algumas chaves de segurança, como um ataque corpo a corpo. Eu consegui me defender da maioria de suas investidas, o que queria dizer que caso ele fosse esperto o suficiente para tentar me atacar, eu poderia usar seus truques contra si mesmo. Além desse fato, eu me recordo abertamente do seu cheiro, creme de barbear e colônia, sem contar sabonete de lavanda e chá verde., caso ele estivesse perto, eu iria conseguir sentir a diferença do aroma da floresta com o dele.
Não houve sinal algum.
Contei os minutos que se passaram, no total seis minutos. Senti meu peito arder um pouco, talvez por causa da frieza do ar, estava muito frio aqui e a cada respirada pesada, podia sentir meus canais arderem rapidamente, mas a dor passava na mesma velocidade que chegava. Comecei a me acostumar com isso.
Deslizei por baixo de um galho alto demais para tentar desviar e acidentalmente rasguei metade da manga da minha blusa do braço esquerdo. Senti meu braço arder alguns segundos depois, até que percebi que havia arranhado a pele ali também. A imagem do sangue no meu pulso fez sentir a dor com minha intensidade, me deixando frágil demais para não perceber que eu estava perdendo a noção para onde eu corria. Ergui os olhos a tempo para desviar de uma arvore e me arremessar em outra. A dor poderia ter sido demasiadamente forte, caso isso tivesse acontecido. Meus membros estavam inteiros e além do fato de estar com o braço arranhado, nada havia me acontecido, mas eu me lembro muito bem de me jogar em algo que aparentava ser uma arvore, até que percebi que eu não poderia sentir dor alguma porque eu não fui arremessada, eu fui fisgada.
Sem que eu pudesse piscar para retomar a consciência, suas pernas vacilaram e rolamos os dois no chão até pararmos em lado opostos. Prendi-me num emaranhado de samambaias enquanto tentava ao mesmo tempo formar um plano de ataque. Eu não conhecia o homem. Ele tinha a pele morena feito mármore e vestimenta negra. Eu nunca tinha o visto por essa região, por isso me assustei.
Quando consegui me livrar das samambaias, arrastei minhas mãos já machucadas no chão e me coloquei de pé, perdendo o equilibro muito pouco até ganhar firmeza. O homem se ergueu na mesma rapidez, me mostrando um par de dentes caninos afiados, com certeza se tratava de um vampiro. Um vampiro de verdade, nada parecido com as minhas atividades hipoteticas com Caleb. Dessa vez, eu não corria o risco de ser reprovada da aula dele, eu corria o risco de vida.
– Quem é você? – decidi me impor, eu não queria demonstrar medo.
– Eu poderia fazer a mesma pergunta.
– Tenho certeza que você sabe quem eu sou, se não soubesse, já teria me atacado. – murmurei, surpresa por não perceber nenhuma falha na minha voz.
O vampiro mostrou um sorriso irônico.
– É uma ótima dedução, Nathalie O’Connel.
Pela primeira vez, consegui sentir o medo percorrer meu corpo, mas soube ignorá-lo, pelo menos para que o vampiro não percebesse.
– Já que me conhece, deve saber que não tenho nada a oferecer, como não tenho nada que eu queria de você. É melhor cada um seguir seu caminho agora, o que acha?
O vampiro rio.
– Por que acha que você não pode ser uma recompensa? – o homem ergueu as sobrancelhas volumosas. – Sabe o que eu poderia ganhar com você?
– Certamente, uma encrenca. – dei um meio sorriso para não mostrar fraqueza.
Ele riu que tremia os ombros.
– Algo que posso enfrentar. Mas estava falando de Andrew McDowell.
Minha pulsação acelerou e quase perdi a noção, por um rápido segundo achei que ele iria conseguir perceber minha falha.
– O que você quer dizer com isso?
– Quero dizer que Andrew me trouxe muitos problemas. A maioria dos vampiros da região não possuem muita simpatia com ele, sem querer ofender. Mas fiquei sabendo que ele está numa fase diferente agora, desde que você apareceu.
Engoli secamente.
– Andrew foi embora, não tem nada que queira aqui.
– Você tem razão. – o vampiro se mexeu, andando em círculos, mas sem manter muita proximidade. – Ele não está aqui, mas se souber que estou com você ele certamente voltará.
Antes que eu tomasse consciência sobre suas palavras, o vampiro de pele morena, que deveria ter dois metros de altura se lançou até mim desfazendo toda a encenação de ataque que eu estava planejando. Nos chocamos no chão, sentindo todo o peso do seu corpo sobre o meu, a rigidez que eu antigia o chão e a rápida complicação de puxar o ar. O vampiro segurou firme meus pulsos e tentei escapar, mas sentia muito tonta, os pulmões ardiam e sentia o choque percorrendo meu corpo, tudo em mim ardia e por um segundo eu havia esquecido que eu era completamente humano. Mortal. Frágil.
– O que faremos para o Andrew acreditar? – o vampiro sussurrou com os lábios perto do meu ouvido. – Talvez possamos fazer um vídeo intimo. Ou, que tal ser mais convincente, qual é seu tipo sanguíneo, Nathalie?
Senti meu corpo tremer com o tom de sua voz, não pude acreditar, mas estava prestes a chorar, iria mostrá-lo toda a minha fraqueza porque eu estava me borrando de medo, meus membros tremiam e eu sabia que ele podia observar as minhas feições, ele podia ver nos meus olhos, eu estava com medo. Com muito medo.
Não seja fraca, Nathalie, não seja! Gritei mentalmente comigo, segurando firme minhas angustias.
Tentei procurar outras maneiras, pensei em me conectar com Caleb, pensei que poderia pedir ajuda se eu me concentrasse o suficiente. Nada aconteceu. Nada iria acontecer, porque eu estava em pânico, se eu soltasse qualquer suspiro, se eu ousasse a piscar iria destruir minha armadura e iria chorar, iria gritar, iria me debater, me tornaria frágil e patética. De novo. E esta não podia ser eu, eu não podia esperar que alguém estivesse sempre aqui para me salvar, não podia esperar que houvesse um herói. Pela primeira vez, eu tinha que ser meu próprio herói.
Respire Nina, seja forte.
Enquanto eu me debatia e tentava tornar a minha prisão mais difícil para o vampiro, tentei colocar meus pensamentos em ordem e planejar meu ataque. Nesses últimos dias passamos nossas atividades na biblioteca com o professor Langdon, tentando encontrar qualquer registro sobre Edmund O’Connel e sobre o que poderia ter acontecido com ele, desde que os bruxos resolveram se rebelar contra os vampiros. Caleb e Langdon estavam ocupados demais para perceber que eu passava a maior parte das reuniões traduzindo alguns diários de bruxas que estavam perdidos por ali, embora eu não tenha conseguido nenhum da minha família, os O’Connel. Havia decorado e aperfeiçoado muitos feitiços que eu lia naquelas paginas amarelas e grossas empoeirados e tudo que eu estava fazendo neste exato momento era me conectar com eles.
O druidismo procurava buscar o equilíbrio ligando a vida pessoal à fonte espiritual presente na Natureza.
Veio-me a cabeça um dos pensamentos de Langdon sobre os druidas, em de nossas reuniões. Eu não sabia sobre minha qualidade de sobrenatural, a quem eu pertencia, se eu poderia me considerar pura, mas eu podia confiar que havia algo me conectando aos druidas nesse momento. Olhei em volta, sentindo meus pulsos arderem nas mãos do vampiro mulato e seus dentes quase perto o suficiente da minha veia no âmbito do pescoço, pulsante de pavor.
Abro bem os olhos e não sei o que estou fazendo, mas sigo meus extintos sobrenaturais, sinto minha visão arder, como se pegasse fogo e no mesmo momento, dito:
Seu corpo se enrijece e treme ao mesmo tempo. Aos poucos consigo empurrá-lo para o outro lado, um pouco tonto. Deslizo meu corpo tremer enquanto rolo para o outro lado, agarro firme no chão e me levanto, me sentindo menos impotente. Coloco-me de pé até que sinto o ápice do meu corpo, não há dor, não há pânico e apesar de minhas mãos estarem repletas de arranhões como nos meus braços, eu não sinto nada.
– Água! – o vampiro de repente fala, rolando de um lado a outro. – Por toda parte. Tem água, o que eu faço? Elas me cobrem.
– Você tem medo de água? — digo-lhe sentindo o sarcasmo arranhar minha garganta quase numa risada.
Meus olhos ainda ardem como se pegassem fogo e sinto meus músculos contraídos, sinto-me mais poderosa, meu corpo todo arde, eu não sinto dor e nenhum tipo de calafrio. Empurro com força as costelas do vampiro com a ponta do pé rolando de volta deixando livre seu peito.
– Água, me ajude, elas me cobrem, água, me tire daqui!
Eu o ouço gritar, mas ignoro como se não sentisse nenhuma superfície de piedade.
– Serei boa com você. – murmurei. – Antes que se afogue mentalmente, eu te pouparei a tortura.
Empunho um galho espesso do chão e o quebro ao meio, a ponta propositalmente afiada. Aproximo do vampiro e o observo em pânico, os olhos foscos, negros e sombrios, suas expressões remetem medo, ele está completamente apavorado. Antes que eu me mova, ele me percebe e se ergue, assustado, agarra-me as pernas e se ajoelha, implorando com um olhar fragilizado.
– Por favor, me ajude, não consigo, há agua por toda parte! – ele se desepera, agarra-me mais fortemente e antes que ele tente se defender, empurro a ponta da madeira no seu peito com força, até atravessar o outro lado.
Seu sangue mancha meus dedos e quando sinto sua peito enrijecer no meu toque, eu o empurro para trás e ele cai, as mãos presas na estaca antes dele finalmente perder a única chance de vida que ele tinha. A imortalidade. Como se fosse pedra, empurro com força a estaca com meu pé e seu corpo se despedaça, virando milhares de partículas cinzas no chão.
No mesmo segundo, ouço o bater de pernas, saindo de trás de uma arvore alta igual as outras. Caleb tem a expressão indefinida, os olhos bem abertos e seguem do vampiro já destruído até mim. Ele tropeça, um pouco assustado. Por um segundo eu me senti como se não estivesse ali, sentindo que havia algo de errado. Pisco algumas vezes até estar totalmente de volta a mim, a ardência nos olhos havia passado e meu corpo parecia puramente humano e cansado como antes.
– Você está bem? – Caleb me perguntou, se aproximando.
Abro bem os olhos e vejo meu pé direito sobre a estaca e os pedaços que sobraram do vampiro. Sinto-me nauseada, como se uma parte de mim não soubesse exatamente o que eu estava fazendo e por um segundo prolongado, eu realmente não sabia o que eu estava fazendo.
– Acho que sim.
– Por que está me olhando assim? – viro-me para ele.
Caleb não parece ter mudado a expressão, mas agora parece curioso.
– Seus olhos. – ele aponta para minha face. – Eles estavam dourados, Nathalie.
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