Notas iniciais
Depois de muito, muito tempo de bloqueio e ideias que tive que lançar ao lixo eletrônico, cá estou eu novamente, escrevendo de novo. Espero que gostem do capítulo e da história como um todo.

Ainda guardo em minha mente as vozes firmes dos repórteres, hipócritas que mal possuíam capacidade de construir o falso envolvimento com as tragédias que narravam.

“Mordida causada por um dos animatrons pertencentes à Freddy’s Fazbear Pizza, deixa seqüelas ao dilacerar parcialmente face e lóbulo frontal de criança, mais detalhes serão apresentados hoje...”

“Duas crianças foram dadas como desaparecidas por seus pais esta noite, durante visita à pizzaria temática “Freddy’s Fazbear Pizza Place, onde câmeras de vigilância registraram-nas na companhia de um homem suspeito ainda não reconhecido pelas câmeras.”

“Atualmente, já são cinco os casos de desaparecimento no restaurante temático do urso Freddy Fazbear; presume-se que há possibilidade de que as crianças perdidas estejam mortas. O suspeito, um homem vestido nas roupas douradas de Freddy, permanece não identificado.”

“Pizzaria local é ameaçada de desligamento para saneamento: A pizzaria local Freddy’s Fazbear Pizza Place foi ameaçada novamente pelo departamento de saúde nesta tarde, após queixas de clientes sobre um odor fétido originado dos tão amados animatrons. A polícia foi contatada quando pais notaram o que aparentava ser sangue e muco acerca dos olhos e boca das mascotes. Um dos pais se referiu ao animal como ‘Uma carcaça animada’.”

“Pizzaria temática Freddy’s Fazbear declara-se oficial e permanentemente fechada após longos esforços para manter sua reputação devido a escândalos em que se envolvera anos atrás. ‘Os personagens sempre viverão. No coração das crianças, estes personagens viverão para sempre.’ – Declarou o C.E.O.”

Todos os que participaram da tragédia que acercou o anopassaram por 1987 como se fosse um amuleto de puro azar, um presságio para a própria desgraça e danação. Entretanto, com o passar dos anos, as ocorrências mórbidas foram deixadas de lado para então caçarem o interesse de curiosos que mais se assemelhavam a urubus, sentindo o odor podre do macabro, de boatos e lendas que se espalharam tão rápido quanto poeira ao vento; e foi logo após o senso de investigação dos jovens despertar, que notícias –tanto falsas quanto reais- começaram a aparecer.

“Amigos de jovem desaparecido ligam seu desaparecimento a uma suposta invasão feita à Freddy’s Fazbear Pizzaria. As buscas pelo jovem foram encerradas devido a falta de evidências.”

“Três jovens desaparecem três noites após anunciarem visita à Pizzaria temática local, entretanto, evidências que os ligassem ao local não foram encontradas.”

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“Leitores!” –Oliver parou de digitar para suspirar consigo mesmo “Ok, leitor... Talvez.” Pulou uma linha. –“Não consigo acreditar que exista alguém que ainda não conheça o misterioso caso da ‘Mordida de 87’ e tudo o que envolve a Freddy’s Fazbear Pizzaria. (A não ser, é claro, os que nunca procuraram pelo mais macabro ano para esta minha pequena cidade). Aproveitando-me da conveniente proximidade que tenho de um dos mistérios mais antigos e questionáveis das proximidades, lanço um desafio a mim mesmo: Sobreviver as cinco noites na casa do urso Freddy e seus queridos companheiros, para a fim de destruir o boato e desmembrar a lenda. Partindo nesta mesma tarde (16/ 09/xx) inicio a supostamente perigosa –risos- aventura pela pizzaria assombrada.”

Tudo fora excepcional e milimetricamente planejado por Oliver e, em sua mente, não havia chances de sua investida pela fama (e pela verdade, é claro) falhar. Ao que a tarde passava, o tempo parecia deslizar por entre os dedos de Oliver, enquanto este apressadamente buscava pelos itens que precisaria para aquela noite – preparar os itens para uma noite era mais difícil do que Oliver imaginara, mas considerou a possibilidade de que tudo se tornaria mais fácil após a segunda ou terceira noite, onde já saberia exatamente o que levar para a pizzaria. – Por mais que fosse passar a noite em claro numa pizzaria supostamente perigosa, o blogger não viu motivos para que deixasse um bilhete ou nota no interior do apartamento solitário, já que este seria endereçado a ninguém e, de qualquer maneira, Oliver retornaria ao apartamento na manhã seguinte... Certo?

O sol poente podia ser visto pela janela do carona enquanto Oliver estacionava sua caminhonete antiga em frente à estrutura feia descuidada que Freddy’s se tornara; o motor calou-se e deu espaço ao som dos passos de Oliver nas pedras que preenchiam o chão do grande estacionamento, que antigamente parecia abrigar uma quantidade absurda de carros. Quando o silêncio reina em lugares assim, cada mínimo e discreto ruído aparenta ser super-valorizado.

A pizzaria era mais um destes lugares que faz com que o coração bata mais pesado, praticamente cheirava a tragédia e tristeza, era como ver uma daquelas fotos onde são mostrados os soldados recém-retornados de guerras: Olheiras grandes, marcas extras e rugas na face, fazendo-os aparentarem mais velhos do que realmente são e finalmente, olhos cansados e profundos, olhos que viram tudo o que nunca imaginaram ver, nem em seus piores pesadelos.

A arquitetura do lugar parecia decadente, restos de uma tintura azul sobreviveram ao efeito dos ventos e das chuvas, que deixaram o que restava das paredes nuas, com os tijolos cor de laranja também desgastada a mostra; as portas pareciam a única coisa nova ali, tratando-se estas de estruturas constituídas de metal e vidro coberto por um insulfilm tão escuro que mal se podia ver sombras no interior do lugar – uma medida tomada para decepcionar os curiosos, talvez-.

Com uma pequena câmera digital ligada em mãos, após registrar bem a fachada da pizzaria, Oliver declarou quase que para si mesmo:

–É isso aí, pessoal! Desejem-me sorte na minha primeira noite. –Fez uma careta, quase como se quisesse expressar medo – Espero que Foxy não me morda.

Com o início do vídeo feito, a câmera foi colocada cuidadosamente dentro do moletom velho de Oliver, a lente fora deixada como um olho escondido que espiaria e registraria a invasão.

Por menos provável que fosse as chances de a porta de um restaurante abandonado estar destrancada, Oliver forçou a maçaneta metálica para dentro de tal forma que a força que aplicara o fez se desequilibrar no que parecia ser o vazio; a porta estava aberta. Com a vermelhidão que dominava seu rosto devido ao constrangimento fantasma que passara por sua mente, Oliver pôs-se de pé diante do que deveria ser a entrada leste da pizzaria, naturalmente mal iluminada, pequena –mas não estreita – e empoeirada; na realidade, o lugar em si cheirava a mofo, poeira e descuido. A câmera registrou uma lenta e desnecessária volta –que não mostrou nada mais do que parecia ser um cômodo velho vazio, com uma pequena janela que mostrava o interior do que parecia ser a sala destinada ao segurança – feita por Oliver, antes que este tomasse rumo para um grande salão aberto, repleto de mesas cujos intervalos pareciam formar um extenso corredor até o palco antigo, de cortinas vermelhas fechadas, imundas e empoeiradas.

Oliver caminhou tomou a direita, em direção a uma porta de madeira branca que não cedeu aos inúmeros esforços do rapaz para abri-la; sendo assim, apenas restava a Oliver caminhar em direção ao enorme palco ou ao que de longe aparentava um palco em forma de um navio pirata.

“The Pirate’s Cove” – Pensou consigo –“Foxy, a mordida!” – Suas pernas mal pareciam acompanhar a velocidade de seus pensamentos; o quão incrível poderia ser registrar o exato local onde um animatron causou o primeiro acidente da história de Freddy’s Fazbear? Oliver esperava ingenuamente rastros de sangue seco, cadeiras tombadas, pôsteres rasgados — todos os fatores dignos de um cenário de filme de terror. –Contudo, ao alcançar o que parecia uma pequena sala de jantar diante do palco, tudo o que viu de assustador fora um senhor corcunda, de olhos castanhos profundos delineados por olheiras escuras que eram quase cobertos pelos cabelos longos grisalhos e aparentemente sujos e descuidados, que aparecia diante de uma pequena fresta por trás das cortinas roxas e da placa que declarava que Pirate’s Cove estava “FORA DE USO”.

–Meu jovem, o que pensa que está fazendo aqui? – O senhor tinha a voz tão áspera quanto lixas –Não sabe que isto aqui é propriedade privada?

Oliver recuou um ou dois passos, mas por fim manteve-se firme, quase de uma maneira desrespeitosa, diante do homem:

–O senhor vai fazer o quê? Denunciar-me?

–Saia daqui –Declarou ainda mais firme o zelador ao sumir na escuridão.

–Velho louco...

Os segundos de silêncio e a pequena demora pareceram quase propositais, pois assim que Oliver deu as costas ao navio abandonado de Foxy, a voz vinda da escada lateral direita do palco fez com que um arrepio percorresse a espinha do rapaz:

–Eu ainda não estou surdo, moleque — O senhor passou por Oliver com um molho de chaves soando como pequenos sinos em suas mãos. –Sabe onde fica a saída.

Com toda sua teimosia e vontade reunidas, o rapaz acompanhou o senhor que agora, num ambiente mais claro, aparentava usar seu uniforme antigo de zelador, sem nome algum onde deveria estar a identificação, a final, esta seria a chance perfeita de, pelo menos, ganhar algumas imagens inéditas da Freddy’s abandonada.

–O senhor pode pelo menos me mostrar o lugar? Me dizer o que aconteceu aqui? O senhor viu?

Um suspiro melancólico e ao mesmo tempo impaciente veio do homem que não parou de andar, agora caminhavam pelo antes citado salão de jantar do Freddy’s, o homem trancava a porta do que parecia ser o camarim dos personagens, onde uma pelugem velha e sem esqueleto mecânico de Golden Freddy jazia pendurada em um cabide na parede, mole e desajeitada como um cadáver.

–Sim, eu vi –A frase ecoou pelo salão vazio como se fosse um grito, embora o zelador tenha elevado minimamente o tom de sua voz – E não foi bonito... Está aqui por causa das lendas, não é? Por causa das mortes... Tudo parece muito divertido quando não é você quem limpa a bagunça.

–Estou aqui para provar que tudo isso não passa de uma mentira e...

Oliver foi interrompido bruscamente pela voz do homem que nem ao menos o fitava para falar, apenas prosseguia com a lenta caminhada pelo lugar, permitindo o registro de grande parte do lugar pela pequena câmera.

–Mentira? Não parece os jovens de hoje podem discernir o que é fato ou o que é ficção... Menino, escute o que eu falo, este lugar não é bom.

O rapaz agora tinha o velho mirando-o diretamente em seus olhos azuis, eles haviam parado diante as portas duplas da cozinha por um longo momento, e assim prosseguiram até que o homem bufasse e se virasse para trancar as portas.

–“O lugar não é bom”, realmente... Isto aqui parece uma espelunca, o senhor tem limpado o lugar direito desde que começou a trabalhar como zelador? O que de pior pode me acontecer aqui em cinco noites? Uma crise alérgica causada pela poeira?

As mãos do senhor se cerraram, trêmulas, em volta dos próprios dedos ressecados e velhos, sua voz soava mais grave nesta sentença do que em qualquer outra das anteriores:

–Você vai acabar se matando se continuar assim.

Após dizê-lo, o velho sumiu novamente para dentro de uma última porta antes de retornar ao palco-navio, de onde saiu usando um boné velho e uma jaqueta por cima do macacão azul-marinho. A partir daí, o silêncio prosseguiu até o momento em que ambos haviam retornado ao Pirate’s Cove, Oliver havia acompanhado o homem até o lugar por trás das cortinas, onde Foxy permaneceria em seu desligamento eterno sentado num banco de madeira.

–Foda-se, se eu morrer ou não, acredito que não seja problema do senhor... É só mais um desses velhos supersticiosos que passaram a muito da data de validade... O que o senhor pode saber?

O velho virou-se subitamente para Oliver, seus olhos o atingiram como dois tiros certeiros no alvo e, por mais que o homem desse passos apressados para trás –afinal, estava escurecendo e agora mais do que nunca ele precisava sair daquele lugar, o garoto já o havia atrasado demais – seus olhos permaneceram mirados nas orbes azuis, se aquela troca de olhares pudesse ser descrita de outra forma, seria como um monólogo: Os olhos quase negros do orador penetrando a alma do rapaz das orbes que se esquivavam de seu olhar.

Felizmente, para Oliver, esta troca durou pouco menos de alguns segundos, cessando quando a perna esquerda do homem enroscou-se na perna mecânica de pelos nunca lavados de Foxy, o que causou a queda tanto do animatronic quanto do zelador, deixando um som de baque alto e surdo ecoar pelo ambiente.

–MALDITO ANIMAL, DESGRAÇA! DESDE QUE ESSES MALDITOS BONECOS ANIMADOS CHEGARAM... DESGRAÇA!

O homem se pôs de pé impacientemente e com certa dificuldade, ao que um feixe de luz permitiu que Oliver visse perfeitamente o brilho do molho de chaves que caíra quase junto do homem no chão –Poderia passar a noite ali, afinal... Apenas precisava daquelas chaves.

–Me deixe ajudar o senhor a levantar... –Oliver novamente fora interrompido pela voz áspera do homem enquanto aproximava-se deste.

–NÃO ENCOSTE EM MIM!

O homem saiu do lugar com Oliver caminhando apressadamente atrás de si, torcendo silenciosamente para que o velho não se lembrasse das chaves subitamente.

–Cinco noites, huh?Pois bem...

O clique metálico da porta fez com que Oliver sorrisse, o homem cedera facilmente a ele e finalmente estaria só para tomar o molho de chaves e explorar o lugar onde passaria suas próximas noites.

Oliver retornou ansioso à Pirate’s Cove –temendo que o zelador retornasse e mudasse de ideia, quase como se o visse dar meia volta pelas pedras do estacionamento- onde subiu ao palco, encheu suas mãos com as diversas chaves, abriu as cortinas empoeiradas e finalmente sentou-se no banco antes ocupado pela raposa-pirata.

–A parte mais difícil já foi, não, Foxy...Ora...

Um arrepio tomou a espinha de Oliver quando o rapaz finalmente voltou seus olhos ao lugar onde o animatronic havia despencado; o corpo inanimado havia sumido sem deixar vestígio algum na poeira que acinzentava o palco de madeira.