Dark Nights
2 A Primeira Noite
Notas iniciais
Oliver levantou-se quase como num pulo, seus joelhos pareciam vacilar ao sustentá-lo conforme andava para longe do Pirate’s Cove.
A noite estava tomando conta do lugar lentamente, como se abraçasse cômodo por cômodo, transformando a pizzaria num local ainda mais sombrio, sendo assim, o mais sábio a se fazer seria encontrar a chave de força e acioná-la.
As chaves pareciam todas exatamente iguais nas mãos de Oliver, sendo que mesmo que houvesse algum tipo de etiqueta o escuro não permitiria que seus olhos se ajustassem para a difícil leitura, o que ajudou a manter o coração do blogger agitado enquanto seus dedos trêmulos tentavam encaixar as inúmeras chaves na fechadura da porta da sala do zelador, a última que fora trancada pelo homem que havia abandonado a pizzaria naquela tarde.
Quando a porta finalmente se abriu, Oliver passou a usar a luz fraca e quase insuficiente que a câmera digital –que não era equipada com a visão noturna- emitia ao filmar para iluminar o pequeno cômodo; a chave de força não se encontrava naquela sala.
–Droga! –Oliver sussurrou para si mesmo, amaldiçoando o quarto enquanto deixava o lugar –Onde está esta merda dessa chave?
Voltando para o único lugar em que poderia buscar sem precisar de chaves, Oliver caminhou pelo salão de jantar, guiando-se ao tatear as inúmeras cadeiras firmemente fixas ao chão por velhos, porém fortes parafusos. O corredor que os assentos formavam parecia infinito no escuro, e o silêncio, junto da escuridão, instigaram a imaginação de Oliver, que andava receoso pelo lugar, imaginando inúmeras possibilidades – e o mais importante, escassas formas de escapar deles.
Finalmente, ao estender a destra –coisa que fizera durante todo o percurso, incontáveis vezes –Oliver pôde sentir o que parecia ser a beirada do palco, onde os animatronics realizavam os shows noturnos.
“Certo...” –Pensou consigo mesmo enquanto deslizava suas mãos pelo semi-círculo formado pelo palco, caminhando lentamente para a esquerda. –“Apenas preciso das escadas.”
O fato aqui é: Tudo parece ter uma proporção diferente quando se está no escuro, então presume-se que Oliver tenha demorado o dobro do tempo que levaria para chegar aos degraus se tudo estivesse claro. Contudo, ele finalmente o fez, chutou o primeiro degrau para em seguida poder suspirar aliviado.
A pequena escadaria fora um obstáculo e tanto para Oliver, considerando-se não havia lugar algum para que o rapaz se apoiasse ao subir, contudo, após certo esforço, o rapaz conseguiu que ela o deixasse sobre onde se iniciava o palco de madeira, diante das pesadas cortinas. Ainda utilizando do tato, Oliver alcançou a fresta entre as duas partes da cortina e empurrou o corpo lateralmente entre elas, adentrando o lugar onde sua visão pode reconhecer três figuras imóveis, algo de orelhas grandes e finas, uma figura contorcida de bico aberto e finalmente, um grande urso portando um microfone na pata direita; tratavam-se de Bonnie, Chica e Freddy, respectivamente.
A câmera voltou a iluminar o lugar empoeirado, o cheiro ali era de algo que apodrecera há muito tempo. Oliver encontrou a chave de energia na parede colorida desgastada atrás dos animais, aparentava como quase tudo no lugar: Mais um objeto intocado há muito tempo, que demorou a ceder nas mãos do rapaz.
Oliver fora recebido com a decepção cedo demais, as luzes demoraram a se acender e o lugar, que o blogger esperava ver criando vida, mais se assemelhou com uma vítima de tentativa de ressurreição. Ele ainda estava virado para a parede quando as luzes se ligaram e o som de máquinas estalando em músicas eletrônicas ruins de jogos tomaram conta dos ouvidos de Oliver; ele analisava sua canhota –mão que usara para acionar a chave – vermelha e irritada onde o metal do instrumento velho havia se forçado contra ela.
–HE-HE-HEY BUDDIES! WELCOME-WELCOME-WELCOME TO FREDDY’S FAZBEAR PIZZA... *
Um grito estridente preencheu o lugar juntamente de um estalo alto: O sistema do urso Freddy havia falhado tão subitamente quanto fora iniciado, agora, havia fumaça e algumas faíscas escapando da boca e olhos do animatron. Oliver levou a mão ao próprio peito, como se desejasse se certificar de que seu coração não havia parado quando o grito escapou de sua garganta, ao que verificava se Bunnie ou Chica haviam iniciado junto de Freddy para evitar prováveis futuros sustos.
–Urso filho de uma... –Oliver exclamou consigo mesmo enquanto tirava a pequena câmera digital do bolso. – Vamos então registrar, agora com luz, o estado da tão “medonha” pizzaria.
A lente da câmera fora voltada para a grande cortina, que foi manualmente aberta após alguns empurrões da mão livre de Oliver, revelando por trás do tecido fétido, as mesas empoeiradas e os pôsteres rasgados na parede danificada pela infiltração das águas da chuva. O lugar parecia realmente sujo, abandonado e macabro.
–Parece que o zelador não tem feito um bom trabalho –Oliver exclamou consigo enquanto se debruçava na beirada do palco para pular. Os pés alcançaram o chão com um estrondo. –Vamos ver se consegui ligar as câmeras de segurança ou os computadores que controlam os animatrons, ver se temos um pouco de... Diversão, nesta primeira noite.
Oliver segurava a câmera na altura de seu peitoral, o que daria ao espectador uma visão quase parecida com a sua enquanto caminhava pelo longo salão de jantar até a sala de segurança, a qual demorou para destrancar, novamente devido a falta de identificação em cada chave. A sala revelou o que o rapaz já esperava: Várias telas pequenas aparentemente fixas em uma das paredes, onde tinha a visão de cada uma das câmeras um tanto quanto mal posicionadas em cada cômodo — A não ser pela tela que sinalizava a cozinha, que apresentava apenas chiados monocromáticos. – Na parede oposta, Oliver localizou os computadores que deveriam animar os mascotes, quatro deles, um ao lado do outro em telas negras que se assemelhavam às de Prompt. de comando**, sendo que cada uma delas indicava o nome de um personagem:
–Foxy, Freddy, Bonnie e Chica... – Oliver indicou tela por tela para a câmera, uma após a outra lentamente. – E olhem só, como podem ver, o boato de que as máquinas caminhavam livres durante a madrugada, isto é, quando funcionavam, é verdadeiro... -O polegar de Oliver apontou para as duas palavras escritas em branco logo abaixo do nome de Freddy “Free Roaming”.*** -A não ser pelo pobre Foxy, é claro –O indicador agora mostrava um espaço vazio na tela abaixo ao nome da raposa.
Não havia nada mais a ser visto na sala do segurança, embora Oliver pudesse ter imaginado ali inúmeras possibilidades, o que o deixou ainda mais entusiasmado com toda a idéia de passar a noite na “pizzaria assombrada”. O que lhe captou a atenção agora foi o som que as máquinas antigas emitiam na sala de jogos, era um som arrastado e terrível de se ouvir, como se os equipamentos se lamentassem pelos anos parados e mal-usados.
Não haviam portas para a sala de jogos, já que esta era um cômodo largo que ligava a área de espera –Situada entre as entradas, a sala de segurança e o salão de jantar- à Pirate’s Cove. Haviam ali poucas máquinas desligadas, o que chamou a atenção de Oliver para a câmera novamente:
–Não é incrível como este tipo de coisa sobrevive a tanto tempo sem pifar?
O rapaz continuaria a falar se não tivesse escutado algo vindo do lado oposto ao Pirate’s Cove, algo como o som de ligamentos robóticos movimentando-se lentamente em sua direção, juntamente da uma voz falha e extremamente alta, que lhe causou arrepios e pareceu lhe congelar a espinha:
–A-A-A-AARRRR, PIRATES! COME WITH ME — WITH ME — WITH ME TO THE PIRATE’S – PIRATE’S COVE! YOU DON’T – DON’T – DON’T WANT TO WALK THE PLANK!****
Oliver encolheu-se nas sombras entre duas máquinas e prendeu a respiração –Por mais que aquilo fosse uma máquina, estava programada para encontrar crianças pelo estabelecimento e isto fora o suficiente para aterrorizar o garoto.O animatron caminhou em silêncio e sem desviar-se de seu caminho até Pirate’s Cove, e foi apenas quando Oliver o viu alcançar o lugar e parar diante do palco que teve coragem de correr para fora do fliperama.
Agora Oliver se viu diante do salão de jantar, seus joelhos pareciam ser feitos de gelatina e a extensão do lugar aumentara três vezes mais em sua cabeça. Dali ele pode localizar o único lugar que não poderia ser trancado por fora, o único lugar onde poderia estar a salvo de qualquer dano –A área dos banheiros, situada no lado oposto do salão.
Apenas lhe restava correr, entretanto, por mais rápido que corresse, não seria o suficiente. Oliver não olhou para trás uma vez sequer antes das palmas de suas mãos encontrarem as portas do banheiro masculino –Poderia sim, ter sido o banheiro feminino, o fato é que Oliver entraria no primeiro lugar que lhe cedesse á força que empregara nas palmas das mãos-. O lugar fedia a urina, mesmo que não fosse um cheiro forte como dos bares da cidade, o rapaz trancou a porta do banheiro e empurrou o interruptor de luz para cima antes de analisar o local onde passaria a noite.
Haviam três cabines e nenhum espelho, os dois mictórios estavam em perfeito estado, mesmo que ninguém pudesse afirmar que estavam tão limpos que “podia-se comer neles”.
–Pois é, pessoal...Depois dessa, é aqui que passarei a noite –A imagem que a câmera revelaria naquele momento seria um Oliver sem foco e ofegante devido a tremedeira de suas mãos. – Boa noite e mando notícias amanhã de manhã.
A câmera foi finalmente desligada e conectada a uma tomada de difícil acesso numa das paredes azuis de pastilhas do banheiro. Oliver retirou da mochila que levava nas costas um saco de dormir, que posicionou o mais distante da porta que pôde; o sono demorou a chegar naquela noite, mas o cansaço o envolveu como num abraço para um sono sem sonhos.
A manhã veio subitamente com os raios de sol atingindo os olhos de Oliver por trás dos fios cor de ouro de seus cabelos, despertando-o para o que seria sua partida daquele lugar.Não demorou muito para que o rapaz guardasse tudo o que tinha retirado do lugar e comesse um dos sanduíches que havia colocado na mochila, ainda estava trêmulo, mas desta vez devido ao lapso enorme que havia deixado entre uma refeição e outra.
A câmera registrou o que deveria ser o primeiro e último vídeo daquela manhã:
–É isso aí, galera! Sobrevivi a primeira noite, nos vemos mais tarde!
Com a despedida feita, Oliver destrancou a porta do banheiro e pôs-se para fora deste, caminhando um tanto quando inseguro pela extensão do salão de jantar –Por mais que o sol agora brilhasse, o lugar ainda era macabro e Foxy ainda poderia estar à solta. – Desligou a chave de energia que havia deixado ligada durante a noite e, em seguida, dirigiu-se à porta Leste do estabelecimento (já que esta era a única que lhe havia restado, sendo que a porta ao lado havia sido selada com tijolos).
Oliver puxou a porta sem muita força na primeira vez –Não muito surpreso por ela não ceder –Na segunda vez, usou mais força, aumentando-a gradativamente na terceira e na quarta, porém a porta não se moveu em momento algum.
–Maldito...-Oliver riu consigo mesmo – Me trancou aqui.
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