Dark Nights
3 A Segunda Noite
Notas iniciais
Deveria haver alguma outra saída, Oliver imaginou, alguma saída de emergência ou ao menos uma porta escondida em algum lugar, entretanto, as chances de que estas saídas estivessem interditadas ou trancadas foram consideradas pelo rapaz. Os olhos de Oliver miraram o grande salão após uma meia-volta, conforme o rapaz indagava-se por onde deveria começar a procurar pela saída.
A luz diurna fraca emitia algumas sombras por entre as mesas enquanto Oliver passava, os tênis surrados ecoaram alto pelo salão até que o blogger alcançasse uma enorme porta-dupla, da qual a tinta verde-escuro que deveria cobri-la descascava, dando a ela a aparência de um ser ferido e moribundo. As mãos de Oliver hesitaram em tocá-la, como se o objeto fosse lhe corroer os dedos, mas como o rapaz já imaginara, a porta não se abriu ao ter a maçaneta enferrujada girada.
–Merda...-O salão fez com que a voz ecoasse por toda a sua extensão, e pela primeira vez desde que pisara naquele lugar, Oliver sentira-se só e indefeso, trazendo de volta as memórias que tinha da infância, de quando perdia-se de seus pais em algum estabelecimento.
Espantou rapidamente o pensamento de sua mente e passou a tentar encaixar as chaves na fechadura estreita da porta, contudo, após duas tentativas a realização o atingiu: Aquelas chaves pareciam poder abrir qualquer uma das inúmeras portas de Freddy’s Fazbear, com exceção das portas de saída. A teimosia, porém, martelava a cabeça do rapaz incessantemente: Deveria haver uma saída.
As portas mais próximas seriam as da cozinha, portas típicas que se viam em restaurantes daquela época: Duplas, com rodapés metálicos e janelas redondas; Oliver as empurrou com o ombro até que as dobradiças antigas cedessem sonoramente, como se estivessem queixando-se da entrada do rapaz. O odor enraizado na cozinha lembrava abandono e putrefação, o local tinha pilhas de louça suja e panelas amontoadas sobre os balcões, como se os funcionários tivessem parado o que faziam para deixar o lugar. Com o estômago embrulhado, Oliver localizou a porta na parede oposta a si, porém esta estava selada –pelo lado de dentro, fato que Oliver passou a questionar – por barras grossas de madeira, que diferindo-se do restante do lugar, pareciam estar novas.
Tentar remover as tábuas apenas resultaria em um grande esforço em vão, sendo assim, Oliver deixou a cozinha após menos de dois minutos em seu interior. As portas que restavam daquele lado do salão seriam a da entrada para os banheiros e, mais além, uma porta que Oliver ainda não havia tentado abrir; Tratava-se de uma porta de madeira escura, que trazia consigo uma plaqueta dourada, sem palavra alguma gravada. Encontrar a chave para a porta não fora difícil, sua maçaneta era distinta, assim como a fechadura e a chave para abri-la: Todas eram de um dourado queimado, como tinta spray velha, desgastada a ponto de se assemelhar à cor de cobre.
Oliver teve de forçar a porta para desemperrá-la após tê-la destrancado, o tempo fizera com que o assoalho de madeira da sala se deslocasse do chão de modo a impedir que a porta deslizasse sobre ele; O cômodo que se revelou por trás da madeira escura parecia ser o melhor que o estabelecimento teria quanto a iluminação, –Isso se as janelas não houvessem sido cobertas com grossas camadas de tinta negra – as paredes vestiam-se em um papel de parede pêssego floral manchado pela infiltração. No interior da sala, pessimamente acomodados, haviam gabinetes, estantes vazias, armários para arquivos e uma escrivaninha de madeira maciça, que aparentava necessitar da força de cinco homens para ser removida.
“A sala do dono da Freddy’s Fazbear.” –Oliver pensou consigo ao retirar apressadamente a câmera digital do bolso de seu moletom, mostrar os registros da sala seria uma ótima forma de impulsionar seu blog, caso não houvesse atividade sobrenatural alguma no local.
O primeiro passo ali foi abrir as gavetas dos gabinetes, um local óbvio para se procurar por algo que, se levado a público, traria apenas desagrados ao proprietário – e por este exato motivo, Oliver não encontrou nada além de registros financeiros e papéis tratando de admissões e demissões. O único móvel ali que poderia oferecer algo ao blogger seria a escrivaninha, que acomodava em sua estrutura três gavetas, sendo que duas delas encontravam-se vazias.
A terceira gaveta a ser aberta estava recheada com dois envelopes amarelo-torrados, um deles exageradamente maior que o outro. Oliver rasgou primeiro o menor, que trazia recortes de jornal e documentos marcados com o selo da polícia local, ambos tratavam dos desaparecimentos ocorridos no estabelecimento, o mais recentemente datado registrava o desaparecimento de um funcionário, algo que Oliver teve certeza de que nunca fora levado à público.
–Michael Schmidt, registrado como segurança contratado pela Freddy’s Fazbear Pizza Place na data de 05/xx/1988 –Oliver lia alto sem que a lente da câmera que trazia se focasse no documento- visto por último no local anteriormente citado. Dado como desaparecido por familiares no dia 11/xx/1988. O proprietário do estabelecimento nega responsabilidade pelo desaparecimento.
O documento foi dobrado com descuido para ser guardado no bolso largo do moletom, para que assim o envelope restante fosse rasgado, revelando que seu conteúdo tratava-se nada mais nada menos do que uma fita cassete, etiquetada com os dizeres “Bite of ’87 – Security Tape” *.
Não havia lugar algum em que a fita pudesse ser executada, ao menos que Oliver se lembrasse, sendo assim, apenas restaria guardá-la para que pudesse ser executada em outro local, após as aparentemente longas quatro noites seguintes.
A tarde já caía sobre a pequena cidade, acompanhada pelo mormaço de dias nublados, onde o sol se esgueirava por entre as nuvens, deixando certo “calor úmido” preencher os cômodos mal ventilados. A brisa que escapava por entre as vidraças das janelas do banheiro masculino fazia com que os cabelos negros e compridos de Oliver dançassem em frente a seus olhos, que forçavam-se contra a luz artificial da tela do celular.
Oliver equilibrava-se sobre as pias de louça do banheiro a fim de alcançar algum sinal, porém o lugar aparentava conspirar contra toda e qualquer chance do rapaz manter contato com o mundo exterior. Foram necessárias algumas dezenas de minutos para que o blogger pudesse enviar uma única mensagem, mesmo que não pudesse obter a certeza de que a ajuda estaria mesmo à caminho.
–-
O reflexo no lago revelava uma garotinha de cabelos negros e repletos de cachos, que faziam com que seu par de olhos azuis se sobressaísse às sobrancelhas naquela expressão angustiada, às bochechas rosadas e lábios adoravelmente vermelhos. Havia algo na água, algo aparentemente inalcançável, mas que a criança simplesmente precisava ter em mãos.
Os pequenos braços se esticaram, a grama seca arranhava impiedosamente os joelhos delicados, mas apenas até que a dor tomasse conta do pequeno corpo. Estava frio, muito frio. O desequilíbrio mal pode ser sentido, a criança caíra rápido demais, a água já a sufocava, seus pequenos membros já haviam se cansado devido ao debater, seus pulmões invadidos pela água já haviam se cansado de gritar:
–Oliver! Oliver... OLIVER!?
O rapaz fora arrancado de um sono pesado para a realização que demorou a chegar, Oliver a princípio mal sabia onde estava. Se situar não foi mais difícil do que obter a percepção de que seu nome não fora chamado apenas no sonho, mas sim, por alguém que parecia aguardar impacientemente no lado oposto da parede.
–Já vou... –A resposta veio abafada pelo par de mãos que deslizava de cima a baixo pela face sonolenta e assustada. –Inferno!
Os pés voltaram a se apoiar na pia para alcançar a janela a fim de que Oliver alcançasse a visão que tanto esperara: A jovem baixinha e mal-humorada, de rosto pontilhado por sardas e cabelos verde-escuros.
–É sério que o cara te trancou aí? –Amelia parecia realmente preocupada, as sobrancelhas escuras ergueram-se por cima de seus óculos. –Eu trouxe o que você me pediu – Ela ergueu algumas sacolas de plástico com certo esforço até a janela.
–Ele me trancou aqui, sim... E não achei nenhuma outra saída além das portas da frente. –As sacolas foram apanhadas e postas no chão antes que o rapaz pudesse se equilibrar nas pias novamente –Preciso que volte aqui todos os dias, até que o desafio termine.
–Se eu já não soubesse o quão retardado você pode ser, perguntaria se está realmente falando sério sobre ficar aqui... –Amelia olhou para os lados cautelosamente antes de falar, como se tivesse tido a súbita impressão de que estava sendo observada –É perigoso.
–Fala dos animatrons? Acha que eles vão me matar? Pelo amor de Deus, Amelia.
Oliver recebeu apenas um suspiro longo em resposta, quase como se a garota expulsasse de si o objetivo de fazer com que o rapaz mudasse de ideia.
–Tome cuidado, de qualquer forma. Volto amanhã no mesmo horário, não vou acordar cedo por sua causa. –Um sorriso quase malicioso riscou a face da menina delicadamente – Boa noite.
As luzes já haviam sido acesas, o lugar havia retornado à condição de “morto-vivo”, os sons dos equipamentos voltaram a encher os ouvidos de Oliver e atiçar sua curiosidade, principalmente quanto a fita que encontrara. O vídeo cassete encontrado após certo esforço na sala de segurança parecia bastar, desde que ao menos uma das telas dedicadas às câmeras de segurança fosse ligada a ele. Oliver empurrou a fita cuidadosamente para dentro do aparelho, acomodando-se em seguida na cadeira quase despedaçada do antigo segurança.
A qualidade do vídeo era horrível, contudo, o áudio parecia cristalino... Assustadoramente cristalino para uma fita que por tanto tempo foi abandonada. A câmera de segurança pela qual a fita fora originada gravava o enorme palco, Freddy movia suas orelhas mecânicas para frente e para trás conforme seu maxilar inferior se aproximava e se afastava de seu focinho.
–Hey amigos piratas! Vamos ao Pirate’s Cove, porque o show está prestes a começar! É o nosso bom e velho companheiro Foxy! -O urso inclinou-se para frente, a imagem do palco muda subitamente para a Pirate’s Cove vazia – FOOOXY!?
A voz do urso podia ser ouvida ao longe, mas algo além dela chamou a atenção de Oliver, um sussurro dificilmente audível: “Sempre solitário”. Freddy prosseguiu a entreter as crianças, não havia reação alguma sobre os sussurros.
–Nós precisamos chamá-lo! Fooooooxy! Me ajudem aqui, crianças! Fooooxy!? –Por entre a voz do animatron, o sussurro insistiu “Deixe-os!” –Uma última vez, crianças, bem alto para que possamos trazê-lo aqui. FOXY! – A voz do urso ao chamar a raposa pela última vez, insistente e irritada, fez com que a pele de Oliver se arrepiasse.
A figura de Foxy finalmente preencheu os holofotes, os passos pesados lembravam as batidas de um tambor devido ao peso do metal que compunha a raposa, sua voz não se assemelhava em nada ao que soara na última noite, na sala de jogos:
–Yaar! Olá, sou eu Foxy, e bem vindos ao Pirate’s Cove...
Naquele momento, o áudio falhou por cerca de um minuto enquanto a raposa se movia sobre o palco, até que pela última vez, a voz do urso soou de longe:
–Divirtam-se crianças! E vamos...
“Matá-los” –O sussurro preencheu a sala.
–Manter-nos a salvo enquanto exploramos Pirate’s Cove –O urso terminou.
–Enquanto estiverem na Pirate Cove, lembrem-se de se aventurar a salvo. E nada de correr por aí, caso contrário você vai -“Se perder para sempre” – andar na prancha. Agora, todos os piratas me dêem um “aaar” – “Por favor, me ajude”. – O que um pirata marinho faz? Ora, nós cantamos uma velha canção do mar!
Foxy passou a cantar, as mãos de Oliver seguravam tensas os braços da cadeira enquanto o rapaz mordia os próprios lábios.
–Mamãe! –Uma voz infantil soou alta no vídeo, uma voz quase familiar que fez com que o coração de Oliver parecesse congelar – Olhe... O Foxy está estranho... — Algo inaudível interrompeu a voz antes que ela prosseguisse. – Foxy, eu quero ser uma pirata!
–Garotinha... Você não pode subir no palco. – A voz jovial masculina ordenou educadamente até que fosse rudemente interrompida.
–Você não é minha mãe.
O sussurro retornou pela última vez, como se declarasse diretamente a Oliver:
–“Fora de controle”.
–Senhora, por favor, diga a sua filha que desça!
–Mamãe, veja só quantos dentes Foxy...
–“FORA DE CONTROLE.”
A câmera registrou a mordida embora a imagem fosse precária, o sangue pode ser visto inundando o palco e manchando os pelos de Foxy; os gritos não tardaram a ser ouvidos, tal qual o som do crânio ser rachado. A última imagem revelada pelo filme da fita era composta pela cena em pausa das mandíbulas de Foxy firmemente presas a cabeça da criança, ao que a raposa curvava-se em sua direção tal qual um animal curva-se sobre sua presa.
A respiração pesada de Oliver parecia ser agora o único som que preenchia sua mente, seus olhos perderam o foco enquanto a última cena da fita se repetia inúmeras vezes em sua memória.
–Fora de controle – Repetiu, enquanto deixava as pontas dos dedos da canhota deslizaram sobre os lábios entreabertos. –Meu Deus...
Os minutos agora pareciam uma pequena eternidade ao que a alma de Oliver parecia encaixar-se novamente em seu corpo, trazendo consigo o despertar para a realidade. A atenção de Oliver voltou-se quase casualmente para as telas diante de si; seus olhos percorreram cada uma delas devagar, até que encontrassem Pirate’s Cove, de onde Foxy parecia observá-lo através de uma fenda entre as cortinas, onde seu único olho brilhava, indicando a atividade do animatron. O próximo lugar a se observar foi o palco diante do salão de jantar, onde apenas Bonnie repousava com a enorme boca aberta.
“Freddy e Chica” – Um calafrio percorreu a espinha de Oliver enquanto seus olhos se desviaram das telas para as janelas de vidro da sala do segurança, que o mostravam nada além do vazio do exterior.
Um estrondo quebrou o silêncio noturno, algo como o som de diversas peças de metal chocando-se uma contra a outra, fazendo com que o rapaz se colocasse em pé quase imperceptivelmente. O chão parecia ter sumido, era como se Oliver se apoiasse apenas nas solas de seus pés em uma superfície instável, seus dedos tremiam incessantemente, acompanhados de suas mãos, tão tensas quanto seu maxilar; o rapaz tivera plena consciência sobre a origem do som desde que se colocara em pé, entretanto, necessitaria de coragem para ter consciência de sua causa.
Em passos lentos, Oliver seguiu até as portas duplas da cozinha, onde não havia fonte alguma de luz a não ser pelos olhos púrpura de Chica, que brilhavam tão fracos quanto soava sua voz falha.
–C-Crianças! Vamos –Vamos –Vamos comer!
O animatron passou a mover-se entre dois balcões, aproximando-se cada vez mais de Oliver. Seus movimentos já não emitiam apenas o som de juntas e ligamentos metálicos, era quase como se houvesse algo em seu esqueleto de ferro, algo que parecia se partir mais e mais a cada passo.
–Hey... Deixe-me –Deixe-me –Deixe-me... –O que pareceu ser um defeito surgiu no corpo do animatron, sua cabeça passou a inclinar-se diversas vezes para a esquerda e retornar ao lugar rapidamente enquanto a luz de seus olhos piscava – Deixe-me devorar sua alma!
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