Dark Nights
4 A Terceira Noite
Notas iniciais
Por maior que houvesse sido seu esforço, Oliver não pôde se lembrar dos acontecimentos da noite anterior, entretanto, lembrava-se da voz do animatron ecoando em sua mente como se a ocupasse por completo, fazendo-o estremecer. A luz do sol havia surgido como um despertar, mesmo que sua memória não conseguisse registrar o momento em que fora dormir, se é que Oliver dormira naquela noite.
O jovem passou as mãos pelo rosto numa tentativa falha de espantar o cansaço que parecia pesar em seus olhos de forma incômoda, enquanto se punha em pé de forma desajeitada. O sol que invadia o banheiro masculino era diferente do sol fraco e sutil do início das manhãs, era um sol forte que fazia o cômodo ficar abafado e a água que Oliver agora deixava desenrolar sobre sua garganta, um tanto quente.
A sacola que Amelia trouxera no dia anterior carregava consigo algumas bolachas salgadas, que Oliver julgou serem as melhores que já havia provado – “A fome é o melhor dos temperos.” – Pensou consigo.
–Certo... –A voz de Oliver ecoou pelo banheiro, tal qual o som do zíper da mochila, que foi aberta de uma única vez para que o rapaz alcançasse sua câmera. O som que indicava que o aparelho estava ligado falhou algumas vezes, como este teimasse em iniciar. –Então... Eu não gravei tudo o que aconteceu ontem à noite, o que admito não ter sido muito esperto da minha parte. –Oliver precisou de uma pausa, como se amaldiçoasse a si mesmo – Mas eu consegui uma fita muito perturbadora e... Fui ameaçado,a credito, pelo animatron Chica. Talvez eu esteja enlouquecendo.
A câmera ainda estava ligada quando Oliver deixou banheiro, um tanto quanto hesitante. Pela primeira vez durante todo o tempo no estabelecimento o rapaz sentiu o “vazio”, a sensação de estar sendo observado se extinguiu por completo, de forma a apenas se fazer notada naquele momento, após duas longas noites. A lente e os olhos de Oliver voltaram-se para o palco, onde a carcaça de Bonnie deveria prosseguir em seu descanso eterno, porém, a estrutura de madeira coberta em camadas de cera velha estava vazia.
A cozinha estava a poucos passos, a porta velha parecia reprimir Oliver, ao mesmo tempo em que a consciência do rapaz o convidava a ver o que havia ali dentro. A imagem um tanto distorcida de Chica voltou a assombrar sua mente conforme se aproximava do local em que a havia visto pela última vez, suas mãos estremeceram e hesitaram em contato com a porta antes de empurrá-la para dentro.
Oliver deixou que seus olhos mirassem o piso xadrez monocromático da cozinha enquanto a adentrava, a sola de seus sapatos pareciam grudar no linóleo manchado por alguma substância fétida numa cor mista entre vermelho-desbotado e amarelo, de forma a cada passo exigir certo esforço para que o rapaz tirasse os pés do chão. As manchas formavam uma trilha que terminava no que aparentava ser uma grande poça da mesma substância que as formavam, localizada exatamente onde o animatron permanecera parado por mais tempo na noite anterior.
–Meu Deus! – O braço desocupado de Oliver cobriu suas narinas, entretanto, o odor já havia embrulhado seu estômago. Naquele momento sair da cozinha seria a única opção aconselhável, e assim foi feito.
O ar do salão parecia mais leve, mais “respirável”, embora o local cheirasse a poeira e antiguidades mal conservadas. O blogger deixou os ombros apoiados na parede ao lado da porta da cozinha enquanto insistia nas tentativas para que as bolachas que havia comido não fossem em vão.
No outro lado do salão, uma porta aberta chamou a atenção de Oliver, a mesma porta que revelava a sala onde antes se havia visto a pelugem antiga e surrada de Golden Freddy, a mesma porta que o rapaz estava certo de não ter destrancado. Não parecia sábio entrar num lugar misticamente destrancado, mas Oliver nunca fora um rapaz muito esperto, sendo que se deixava levar pela curiosidade.
A sala de manutenção dos animatrons era, de longe, um dos cômodos mais bizarros de toda a estrutura da Freddy’s Fazbear Pizza, perdendo apenas para Pirate’s Cove e o interior do palco onde deveria tocar a banda do urso Freddy. Haviam pedaços de esqueletos robóticos espalhados por prateleiras mal postas nas paredes, assim como fantasias em estado próximo ao pútrido. A parede onde a fantasia de Golden Freddy deveria estar carregava apenas uma marca de sujeira formando algo como uma silhueta desajeitada, onde a cabeça do personagem pendia para o lado como se este houvesse sido enforcado.
Passando pela segunda porta destrancada diante de si, esta dentro da sala de manutenção, Oliver chegou ao que aparentemente seria um galpão pequeno, uma junção de quatro paredes de concreto que não carregavam consigo janela alguma. Havia uma luz fraca sendo emitida de uma lâmpada amarela pendendo do teto alto, uma luz que permitia que Oliver enxergasse quatro silhuetas escuras, porém, livres de desconhecimento: Foxy, a raposa vermelha tinha as orelhas baixas como um cão a ser repreendido, tendo Chica e Bonnie parados diante de si com seus olhos eletrônicos sem brilho como se o estivessem fitando; atrás dos três personagens, o urso punha-se sentado sobre uma caixa de madeira apodrecida que mal parecia poder suportar seu peso; seus olhos possuíam um brilho fraco, quase passando-se por tão apagados quanto os olhos dos animatrons diante de si.
Amelia parecia perturbada naquela tarde, distraída, mas Oliver não havia sido capaz de dar-se conta do fato; recebeu mais uma das sacolas recheadas de alimentos e deixou que a garota dos cabelos verdes partisse com o sol a se pôr diante de si.
O azul escuro era turvo de onde a menina o observava, tão distante quanto as estrelas nos parecem estar. Seus pulmões doíam, pesavam como se tivesse inalado pedras inteiras. Ela já havia desistido de gritar, esforçar-se em vão daquela forma parecia horrível agora que pôde pensar. A água estava ficando mais turva agora, o que a fazia feliz, a percepção de que o pior já havia passado a dominou e a fez ver que tudo ficaria bem se parasse de lutar, de se debater, de gritar; tudo ficaria bem se simplesmente se entregasse ao azul tão belo que a cercava, a reprimia e parecia prensá-la contra si mesma. Viu seu vestido amarelo favorito flutuar tão belo e delicado diante de si, como os das princesas em suas fantasias, viu seu corpo delicado e pequeno contra as pedras e a sujeira do chão ao redor de suas costas, era como mármore envolto em pixe.
“Está tudo bem agora”
...
–Bianca! –Oliver despertou com sua própria voz, buscando por fôlego quase incessantemente. Não tinha sonhos como aqueles desde os treze anos e a muito não pensava na morte de sua irmã, ao menos, não daquela forma.A culpa tomou conta de Oliver por apenas alguns segundos, antes que o rapaz pudesse espantá-los de sua mente.
Agora era a luz artificial a iluminar todo o ambiente num tom amarelo queimado –as luzes aparentavam estar se dissipar noite após noite, Oliver notara – e caminhar sob elas dava a silhueta do rapaz um ar de distorção. A curiosidade o chamou para a sala onde se situavam as câmeras de segurança, saber o que acontecera na noite anterior era quase uma necessidade.
O corpo de Oliver pareceu congelar diante da porta do destino desejado, o odor de carne em decomposição invadiu as narinas do rapaz assim que a porta fora aberta. As telas que deveriam ter em si os cômodos dos estabelecimentos tinham apenas chiados monocromáticos, assim como as telas dos monitores que indicavam as atividades dos animatrons. No lado oposto da sala, encostado a uma parede, pendia o corpo de Golden Freddy, agora preenchido pelo que pareciam pedaços desiguais de carne decomposta; a pelugem manchada de sangue sustentava vermes que devoravam a carne.
Aproximar-se do cadáver de Golden Freddy não fora fácil, a distância entre Oliver e o urso parecia não diminuir, até que subitamente a figura moribunda estava lá, perto o suficiente para ser tocada. Os dedos de Oliver foram encobertos pelo que parecia ser sangue -entretanto o líquido aparentava ser mais espesso e escuro- enquanto o rapaz removia a parte superior da fantasia.
–CARALHO! –Os pés de Oliver perderam a sustentação e seu corpo veio ao chão, caíra sentado diante de ossos, carne podre e pedaços de tecido que antes deveriam formar um uniforme azul.
Tentar se levantar naquele momento seria inútil, suas mãos pareciam não ter força e suas pernas pareciam teimar em sustentá-lo, sendo assim, Oliver arrastou-se para fora da sala, ofegando enquanto o fazia, não apenas pelo esforço que aquilo lhe cobrava, mas pela necessidade de inalar o ar que parecia lhe faltar.
Foi apenas quando um som gutural veio da sala de segurança que Oliver decidiu correr, mesmo que não sentisse suas pernas o sustentarem e nem o chão apoiando as solas de seus pés, decidiu correr, quase que por instinto, muito mais do que apenas por necessidade. Tudo a sua volta era turvo enquanto corria sem rumo, até que se viu em Pirate’s Cove, diante dos animatrons que formavam um semi-círculo ao redor da raposa; agora seus olhos brilhavam num ardor intenso que dava a face de Foxy um efeito multi-colorido.
–It’s not my fault...* — Um sussurro originou-se na voz da raposa. – It’s not my fault, It’s not my fault, It’s not my fault...
Oliver não pode dar as costas aos animatrons, seus passos foram lentos e retrógrados a caminho da porta, até que foram interrompidos subitamente. Foi como cair no nada, como quando se desce uma longa escadaria e se cria um degrau imaginário, mas desta vez, o estrondo fora inimaginavelmente maior.
O blogger estava no chão novamente, as cabeças dos animatrons partiram em sua direção em um movimento tão rápido que Oliver instantaneamente duvidou que partissem apenas de seus mecanismos enferrujados. Bonnie fora o personagem a se aproximar mais rápido e abaixa-se diante do rapaz; havia pus em seus olhos e sangue seco na pelugem próxima a sua boca, sua voz soava como um misto de duas vozes infantis distintas, sem falha alguma:
–HEY! WANNA PLAY?*
As luzes se apagaram, e a iluminação restante originava-se dos olhos coloridos dos animatrons que dispararam atrás de Oliver assim que o rapaz pôs-se de pé. A porta do banheiro masculino estava ali, mas a maçaneta teimava em ceder para a mão trêmula de Oliver.
Uma pata pesada apoiou-se no ombro direito do rapazantes que este pudesse abrir a porta.
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