Dark Horse

1 O alvorecer


Era a segunda vez naquele dia que Luna se pegava rondando os arredores do lugar temido por tantos homens que não pensavam duas vezes em travar uma batalha com os estardantes inimigos. A Floresta Negra era um lugar intocável, com solos lamacentos e pregadores de peça, árvores com copas tão altas que funcionavam como barreiras para impedir que qualquer resquício de luz entrasse ou saísse, tornando o lugar sombrio e úmido. Corvos planavam sobre o lugar, como se realizassem algum tipo de ritual ou apenas testassem a inércia do ar. Pelos poucos dias em que havia montado acampamento no vilarejo, Luna já tinha ouvido sobre homens que nunca mais saíram com vida daquele lugar, ouvira até que alguns ainda agonizavam em busca de algum tipo de ajuda. Ela sentiu uma sensação gélida contra o seu pescoço, como se alguém despejasse um jato de ar frio contra sua coluna. A manta grossa e suja roçava em seus quadris, mas não era esse tipo de sensação, era algo sombrio. Algo que faria qualquer um sair gritando, mas não ela. Luna fechou os olhos, agachando-se sobre os joelhos, antes de pegar um punhado daquela terra negra e sem vida e pressionar contra as unhas longas e sujas. Ela respirou fundo, sabia que veria algo não tão agradável, mas sabia que sua curiosidade era maior. Sempre fora. Uma sombra negra e espessa como a névoa que pairava sobre a Inglaterra surgiu diante dela, uma não, na verdade milhares, como um exército sem nome e sem rosto. Sombras tão escuras quanto à meia noite ou as asas daqueles corvos que agora emitiam sons agudos. Luna brandiu a adaga guardada em sua cintura, fazendo um sinal com os dois dedos no peito, antes de levantá-la na altura dos olhos e murmurar palavras em uma língua que ela não conhecia. As sombras sempre a perseguiram, como pequenos lembretes incômodos de que ela não era uma pessoa normal, mas assim como elas surgiram, um jeito de bloqueá-las também. Enquanto era guiada pelo cheiro de pão quente, uma Luna de seis anos acabou se perdendo no vilarejo. Uma mulher com capuz preto e nariz adunco lhe ensinou algumas palavras e lhe entregou uma adaga que jurou ser de prata, além de ser o objeto que a manteria viva. Dez anos depois, ela ainda não se lembrava do que acontecera nos anos anteriores. Ela não tinha nenhum problema de memória ou algo do gênero, era apenas como se sua memória tivesse sido sugada. Luna sentiu uma presença atrás de si, o familiar cheiro de abóbora assada fez com que sua postura amenizasse um pouco.

– Quantas vezes eu terei que lhe dizer que não quero que desobedeça minhas ordens? – Ela não precisaria virar para saber que Adelina estaria estática como uma estaca atrás dela, com as mãos apoiadas nos quadris e um pano alvo alojado em seu ombro.

– Eu estava apenas dando uma volta – Ela soltou um pigarro, tentando limpar a terra que estava entranhada em seus dedos.

– Você está invocando sombras, Luna – Ela estava séria. Adelina não era uma pessoa comum, vivia de modo cigano. Sua moradia era precária. Viviam de mês em mês procurando por um vilarejo que não tivesse tanta repudia a viajantes como elas. Adelina cuidara de Luna desde o primeiro dia, ela disse que não falharia e que esperava ser designada pra isso desde que nasceu. A garota nunca entendera o significado, mas sempre a respeitara como uma mãe.