Dark Horse
2 Florescendo
O cheiro de comida fazia meu estômago vazio se contrair. Conforme eu e Adelina íamos passando, os vendedores ambulantes e alguns senhorios que carregavam pesadas lapas de pele paravam tudo que estavam fazendo para enrugar suas testas em nossa direção.
– Não deixe se intimidar — Seus dedos gordinhos e curtos encontraram meu pulso com tal precisão que fez meu braço latejar. Sua barraca de caldos estava ao fundo, justamente nos limites da feira. Não passava de alguns toneis de madeira com cumbucas bem escovadas e algumas torradas. Eu sempre a ajudava quando era possível, tomando o cuidado de não perder um medalhão de ouro sequer. E hoje não seria diferente. Adelina estava sentada sobre um toco, descascando algumas raízes quando os primeiros homens da cavalaria apareceram. Lancei lhe um olhar preocupado, mas ela apenas sacudiu a cabeça em negação, como se não houvesse com o que nos preocupar. Algumas risadas eclodiram do bar mais próximo, seguindo de dois homens barbudos que caminhavam, testando os limites da gravidade, os corpos vacilando de um lado para o outro. Ambos cantavam como piratas bêbados, erguendo canecos de latão e colidindo-os antes mesmo de terminar o refrão da música. Seus olhos pousaram em mim e numa questão de segundos eles estavam escolhendo a sopa do dia.
– Hugo! – O mais alto pôs- se a gritar. Tinha o cabelo castanho comprido, bigode bem feito e olhos severos.
Um rapaz alto como um carvalho e corpulento como um camponês pareceu ouvir seus clamores, abrindo um sorriso largo e covinhas generosas em ambas as bochechas. Ele tinha a pele queimada de sol, apesar do frio, amendoados e infantis olhos escuros como manchas de café e o cabelo preto, cortando rente ao crânio. Ele caminhava com elegância, uma capa preta sobrepondo os trajes caros, as botas escavando fossas contra o solo barrento. Todos os olhavam como se ele fosse a representação de uma entidade na Terra ou alguém muito influente. Uma senhora raquítica, de esvoaçantes cabelos brancos e mãos trêmulas, jogou-se aos seus pés.
– Perdão, meu senhor – Seus olhos cobertos por cataratas tentaram focalizar o rosto do rapaz. – Vida longa ao Rei!
Bufei, enquanto furtava uma torrada e a levava até aos lábios. Meu estômago rugiu, em forma de agradecimento. Hugo sussurrou algo para a mulher, colocando alguns medalhões dentro de sua mão e fechando-a antes de dar um beijo. Ela deu um sorriso sem dentes, ainda gritando que os céus haveriam de abençoá-lo.
– O que temos por aqui? – Sua voz era grave e despreocupada. Eu estava me sentindo um animal perto daquele homem. Meu cabelo estava sujo, foligem cobria minhas feições e minhas roupas não passavam de trapos, mas diferente do que eu pensava ele pareceu gostar de me observar. – Eu conheço você.
– Não, você não a conhece – A voz doce e bondosa de Adelina surgiu atrás de mim. – Vá dar uma volta, meu bem, deixe que eu assumo a partir daqui.
Limpei minhas mãos na blusa improvisada, dando um leve aceno de cabeça para os senhores diante de mim. Hugo ainda me esquadrinhava, com a mesma testa enrugada que eu já havia visto tantas vezes naquela aldeia. A última olhada que dei para aquela maldita banca de sopas quase me fez voltar, ele ainda me olhava, enquanto os outros ainda conversavam com Adelina.
Algo floresceu dentro de mim.
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