Dark Heart

7 Lei de Talião


Notas iniciais
"Eu preciso matar você Esse é o único jeito de tirar você da minha cabeça Oh, eu preciso matar você Para silenciar todas as pequenas coisas que você disse Eu realmente quero te matar Apagar você da face da minha Terra E enterrar sua pulseira Enterrar sua pulseira Seis pés abaixo da terra"

Não há barulho, não sinto nada. Parece que o ocorrido tinha causado uma sobrecarga no meu pobre cérebro e o coitado resolveu me abandonar, os cinco sentidos de nada valiam mais. O que eu tinha feito não merecia perdão. Eu não queria perdão. Precisava pagar, precisava fazer algo. Entregar-me para a polícia não seria o suficiente. Minha punição tinha que ser justa. Necessitava lavar minhas mãos imundas enterradas no caos criado por ninguém além de mim. Algo me ocorreu, das minhas aulas de história, a bendita lei de Talião. Na minha medíocre concepção era o certo a ser feito "Olho por olho, dente por dente..." Estava decidido, pagaria com a minha vida.

Saí ainda atordoada, pensando em como faria. Observei a pequena cabana de madeira, construída com pedras em sua base. Então, pousei os olhos no lago fundo. Eu não sabia nadar. Não pensei duas vezes. Caminhei até lá.

Senti a água gelada bater em meus pés, um arrepio percorreu todo meu corpo, enriçando meus pelos. Ignorei. Avancei. Meus dentes tremiam violentamente. A água já em minha cintura. Avancei. Minha boca rachando, podia sentir o gosto de sangue em meus lábios. Avancei. A água estava em meus ombros. O frio tão cortante como verdadeiras facas cravadas em todo o meu corpo. Fechei os olhos fortemente. Avancei. Não sentia mais a areia sobre meus pés.

Meus braços começaram a se debater desordenadamente. Instintivamente prendi a respiração. Involuntariamente aspirei uma grande quantidade de água. Meus pulmões, incansáveis buscavam por oxigênio. Meus pés teimosos insistiam em procurar apoio. A batalha estava travada e felizmente eu perdia. Minha visão começou a ficar turva. Pensei avistar um movimento na água, mas já não confiava mais em meus olhos. Senti algo agarrar minha cintura, braços firmes e fortes me puxavam. Ouvia vagamente o meu nome. Até que as trevas prevaleceram.

Senti algo doce tocar meus lábios, uma pressão em meu peito. Estava deitada em pequenas pedras a beira do lago. Sentando em um susto, comecei a cuspir água. Deparei com lindos olhos cor de âmbar me encarando, gotas prendiam em seus cílios destacando-os. Seus lábios nunca estiveram tão avermelhados. Seu cabelo encharcado. Dylan pega sua inseparável jaqueta preta e coloca sobre meus ombros que tremiam violentamente. E logo, me abraça, numa tentativa desesperada de me aquecer. Quando comecei a processar o que tinha acabado de acontecer, fiquei rapidamente de pé cheia de uma fúria irracional.

— O que você fez?- esbravejei.

— Como você foi parar lá?- perguntou confuso.

— Com os meus pés. Não era pra você aparecer. Estragou tudo — gritei.

—O que você tem na cabeça? Tá ficando maluca?- retrucou.

—Vá embora, vá embora — exigi, enquanto esmurrava seu peito com toda a força que conseguia reunir.

Dylan agarrou meus dois braços. Tentei me debater, mas minhas forças quase não existiam. Fui forçada a encará-lo. Ele me fintava intensamente. Parei de lutar.

—Por favor, vá embora. Eu sou uma assassina, em mereço morrer. Sou uma assassina igual ao meu pai — sussurrei com esperança de que não ouvisse. Claramente ele ouviu.

—Presta atenção, me conta o que aconteceu. Se você for tão ruim quanto diz e não consegue conviver consigo mesma, prometo que eu mesmo meto uma bala rápida em sua cabeça- falou com um sorriso nos lábios tirando a arma da minha cintura delicadamente e colocando em sua própria.

—Jura de mindinho?- disse, levantando minhas mãos.

—Juro- respondeu, juntando seu dedo ao meu.

Sentei no chão e Dylan começou a fazer uma fogueira para me aquecer. Aproveitei para ficar lhe observando sem ser notada. Vestia uma calça skinny escura, uma camiseta roxa, ambas encharcadas. Seu corpo era alto e hábil, seu rosto hexagonal com a lateral reta, suas sobrancelhas grossas, seus olhos grandes e profundos, seus cílios longos e grossos. Seu nariz era fino, perfeitamente esculpido. E sua boca. Ah! Sua boca era larga e cheia, a curvatura da base superior bem definida. Ele me pegou observando e calmamente sentou ao meu lado.

— Comece me contando, por que você acha que seu pai é um assassino? _tocou no assunto.

—Por que eu vi tudo _respondi fitando o chão. As memórias vieram em um turbilhão de imagens, que por muito tempo tentei esquecer. De repente, ao contar ao Dylan, me vi revivendo aquele dia como se estivesse acontecendo novamente.

Eu tinha por volta de 14 anos de idade, havia acabado de chegar da escola. Meus pais não estavam em casa ainda. Ouvi barulho de passos, com certeza eram eles. Acabei tendo uma ideia brilhante, ia assustá-los. Me escondi debaixo do balcão da pia na cozinha, as portas desse armário continham várias frestas. Fiquei observando os dois. Minha mãe parecia um anjo, com seus lindos cabelos loiros e ondulados, olhos azuis iguais aos meus. Uma silhueta esbelta, seu nariz fino, um rosto bondoso, lábios vermelhos e o sorriso mais lindo do universo.

Meu pai não fica atrás em beleza, possuía cabelos pretos, olhos verdes, corpo alto e forte. Seu rosto normalmente calmo possuía uma expressão exaltada agora. Na cidade, meus pais eram vistos como o casal perfeito, éramos a família perfeita. Eles se conheceram durante a faculdade e desde então não se desgrudaram mais. Apesar de lindo, as mulheres sempre se mantiveram afastadas do meu pai, suas alterações de humor eram constantes, sempre ao extremo. Se estava feliz, sua euforia chegava a níveis tão altos que se tornava quase palpável, mas se estava triste, parecia carregar o peso do mundo nas costas. Uma vez cheguei a vê cicatrizes em seus pulsos, perguntei o que tinha acontecido e ele me respondeu que era uma simples queimadura. Quando conheceu minha mãe, parece que tudo isso tinha ficado no passado, até esse dia infeliz.

— Eu descobri tudo, como pode fazer isso?- gritou meu pai.

— Do que você está falando?- respondeu minha mãe cautelosamente.

— Não se faça de desentendida, não ouse mentir na minha cara. Não outra vez. Não depois de me enganar todos esses anos- afirmou angustiado.

— Desculpa, desculpa. Eu era idiota, uma adolescente estúpida. Estava tentando ajudar minha melhor amiga- falou firmemente.

— Que tipo de ajuda é essa?- dizia exasperado-Eu vou lá agora com eles.

— Não pode fazer isso- respondeu em desespero.

Minha mãe se prostrou em sua frente bloqueando a passagem, os braços abertos nos batentes da porta, a fúria nos olhos do meu pai era assustadora. Meu pai deu um empurrão nela que escorregou caindo de costas no chão, batendo a cabeça fortemente, o sangue escorria por seus cabelos de ouro. Ele pareceu voltar a si e rapidamente ficou de joelho ao seu lado, checando sua respiração.

— Por favor, Deus, não! Isabel fica comigo, me perdoa, me perdoa. Não me abandona- suplicava chorando.

Em desespero saí correndo do armário, abraçando o corpo inerte dela, mas foi quando foquei em seus olhos vidrados que tive certeza que era tarde demais. Meu pai não me olhava, não focava em nada. Começou a bater a cabeça na parede, com força. Em desespero o agarrei, pedindo que parasse, mas não demostrava qualquer sinal que tinha me ouvido. Liguei para a emergência em desespero.

A notícia se espalhou pela cidade, meu pai achou melhor para mim que eu dissesse que estava na escola durante ocorrido, assim eu fiz. Ele foi julgado e considerado “louco” indo para um hospício fora da cidade. Foi diagnosticado com transtorno de personalidade borderline. É uma condição mental grave, e seus pacientes sofrem de grande instabilidade emocional, sentimentos intensos polarizados, seja lá o que tenha acontecido, parece que ativou o vulcão e ele entrou em erupção. Depois disso meu pai foi internado, e meu avô se mudou para Enthralled, afinal alguém tinha que cuidar de mim. Todos esses anos e eu nunca fui visitá-lo.

Dylan ouviu tudo atentamente, absorvendo os detalhes, sem emitir som algum. Não me interrompeu sequer uma vez. Contei-lhe sobre a rosa que roubei, contei do parque de diversões e do telefonema, contei do que acabará de acontecer. Contei tudo. Sentia-me mais leve que o ar por compartilhar tudo com alguém, mas também com medo de que me achasse um monstro e culpada, por está me sentido melhor, nem que seja só um pouquinho. Ele se ajoelhou na minha frente e segurou meu rosto entre suas mãos.

— VO-CÊ NÃO TE-VE CUL-PA DE NA-DA- afirmou com veemência cada sílaba.

—Claro que tive, não ouviu nada do que falei?-indaguei em desespero.

—Ouvi e te afirmo novamente VO-CÊ NÃO TE-VE CUL-PA DE NA-DA- falava como se eu fosse uma criança de 03 anos de idade.

—Sabia que não ia entender- tristemente sussurrei tirando suas mãos.

—Eu entendi que tem um pai maluco, um perseguidor maluco. Tendo roubado ou não aquela rosa, não pode ser tão ingênua em acreditar que os motivos dele para fazer o que fez foi por causa disso. Ele tem que ser punido, não você- disse medindo suas palavras.

Olhei para baixo, sim eu tinha sido ingênua a esse ponto. Porém, não mudava o que tinha acabado de ocorrer.

—O que eu faço agora?

—Prometo que juntos vamos pegar esse assassino, reunir as provas e levar para a polícia.

—Por que vai me ajudar?- indaguei curiosa.

—Você é especial- naturalmente respondeu. Imediatamente ruborizei. — Agora, infelizmente temos que esconder o corpo. Não acreditaram em nós sem provas, mas quando tivermos achado quem é, falamos onde está o corpo.

—E a família dela?- questionei.

—Am, entenda. Não podemos espantá-lo e dar a chance de fugir. — explicou. Concordei lentamente com a cabeça.

Ele virou em direção à cabana, avistando pás na lateral de suas paredes. Com certeza o sádico havia deixado para mim. Dylan pegou uma pá e começou a cavar, o mais afastado possível da casa. Não podia deixa-lo fazer isso, pelo menos não sozinho. Peguei outra pá e fui ao seu encontro.

—Não precisa fazer isso.

—Nem você- dei de ombros e comecei a cavar.

Era mais difícil do que parecia, mas não ia deixar isso me impedir.

—Como me achou?-perguntei para me distrair.

—Estava na minha varanda, vi você seguindo essa direção, mas não lhe vi voltando. Fiquei preocupado e resolvi checar- respondeu.

—O que fazia na varanda? – questionei.

—Gosto de olhar o céu, é mais bonito aqui que na cidade grande. As estrelas parecem verdadeiros diamantes- dizia encantado.

—Se seus pais são daqui, como não sabia onde ficava sua casa?

—Eu nunca tinha visitado a cidade, morava com os meus tios. Meus pais praticamente me largaram lá em seus cuidados. Visitavam-me em alguns feriados, mas nunca me deixaram vir aqui. Por isso, achei muito estranho quando me ligaram para morar com eles, minha curiosidade falou mais alto e resolvi experimentar- sorriu tristemente.

—Sinto muito por terem largado você- lamentei sinceramente.

—Talvez tenha sido melhor assim, meus tios são minha verdadeira família. Só vim por causa deles, aconselharam que eu devesse dar uma chance aos meus pais.

—Fico feliz que tenha vindo- falei timidamente sorrindo.

Quando cavamos fundo o suficiente, Dylan insistiu para que eu voltasse para casa que cuidaria do resto. Eu não queria, mas acabei seguindo suas ordens. Se ficasse poderia correr o risco de ter um colapso. Peguei minha bicicleta, mas antes voltei dando-lhe um abraço forte.

—Obrigada- sussurrei.

Ele não diz nada, apenas retribui o abraço. Já na estrada, pedalei ferozmente. Quando cheguei á fazenda tomei um banho demorado, esfreguei cada centímetro do meu corpo como se isso fosse tirar os resquícios de tudo, como se fosse capaz de lavar minha alma. Como se toda a minha sujeira interna pudesse escorrer pelo ralo, sabia que não ia acontecer, mas continuava a esfregar. Coloquei meu pijama, deitei em minha cama. Era claro que não conseguiria dormir. Ainda estava sozinha em casa, já era de madrugada. Tranquei todas as entradas possíveis, porém me sentia inquieta ainda, completamente amedrontada, vulnerável. Ainda mais ao lembrar que minha arma tinha ficado com ele.

Ouvi barulhos na minha janela, eram pedrinhas. Abri, Dylan estava sinalizando para que abrisse a porta da frente. Uma onde de alívio tomou conta do meu corpo. Desci as escadas para abrir a porta.

—Resolvi fazer companhia se quiser- disse suavemente- Depois de tudo que aconteceu, imaginei que não quisesse ficar sozinha- Fiz sinal para que entrasse.

Meio sem jeito o levei para o andar cima. Era ridículo pensar isso agora, mas nunca tinha ficado em casa sem ninguém, apenas com um homem. Afastei isso da minha mente.

—Pode ficar aqui no quarto do meu avô, meu quarto e logo aqui na frente- lhe direcionei.

—Qualquer coisa eu estou aqui.

Sorri e fui para a cama, me sentido mais protegida, porém com aquela sensação de inquietude estranha me acompanhando. Mal fechei os olhos e o pesadelos começaram. Tudo estava escuro, até que um refletor iluminava apenas uma cabeça no chão. Acordei gritando. Dylan estava sentado na beirada da minha cama.

—Tudo bem, tudo bem- me acalmava.

—Fica aqui comigo- choraminguei baixinho agarrando sua mão.

Hesitante ele se deitou ao meu lado, me abraçando. Deitei minha cabeça em seu peito e adormeci enquanto acariciava meus cabelos.

Notas finais
Como prometido estou aqui nesse sábado nublado e chuvoso postando um novo capítulo. Espero que gostem. A título de abelhudice, resolvi sentar a bunda na cadeira e só levantar quando tivesse traçado todo rumo da fic. Assim eu fiz. Então, teremos 15 capítulos no total, conto com todas para chegarmos juntos ao final! Mil bjs! Até o próximo!