Dark Heart
8 Asperger
Notas iniciais
A extensa fazenda do meu avô tinha uma plantação de milho, era praticamente toda mecanizada, por isso, poucas pessoas trabalhavam lá e como ele cuidava de tudo eu quase não via ninguém, parecia um lugar fantasma, mas também, passava a maior parte do tempo no colégio. A casa ficava ao lado direito do milharal e ao esquerdo ficavam nossos queridos vizinhos, os Sharpe. Meu lar tinha dois aconchegantes andares, em cima ficava apenas o banheiro, meu quarto e o do vovô e em baixo a enorme sala e cozinha. Em cogitar que poderia ter ficado sozinha nessa enorme propriedade me dá até calafrios, minha mente certamente começaria a nadar pelo mar das possibilidades macabras sem um bote salva vidas, misturando isso ao medo, seria uma receita perfeita para o completo desastre.
Era final de semana, abri meus olhos vagarosamente, observei meu quarto, revestido de madeira jatobá, pincelado com verniz. Dispunha de uma mesinha ao lado da cama, um ventilador de teto, um armário de mogno grande do lado oposto da cama, uma estante cheia de livros, uma janela grande com vista para a casa vizinha e meu telescópio no canto do quarto.
Podia sentir um dos braços de Dylan sobre a minha cintura, com muito cuidado desvencilhei-me. Virei e pude observar seu rosto, ele dormia tranquilamente, sua respiração regular, seu rosto calmo, perdi a noção do tempo apenas olhando o subir e descer de seu peito. Poderia ter se passado 1 min, 15 min, ou mais, não saberia dizer. Acho que depois de ontem, considerá-lo meu amigo é a coisa sensata a fazer.
Amigo.....perante a esta simples palavra meus pensamentos não poderiam evitar viajar diretamente para Kian, ele nunca ficou assim no meu quarto, apesar de essa ser uma situação excepcional. A verdade é que sentia falta do meu melhor amigo, que sempre esteve ao meu lado e que sem querer acabei decepcionando agora.
Precisava tomar um pouco de ar fresco antes de ele acordar. Muita coisa tinha acontecido esses últimos dias, isso estava acabando com a minha sanidade, mexendo com minhas emoções, bagunçando a minha vida. Desci da cama, coloquei uma bota de borracha que ficava na porta dos fundos e um casaco por cima do pijama, como se tomar ar fresco fosse fazer meus problemas desaparecerem.
Como era cedo, a maioria das pessoas de Enthralled poderia estar dormindo ainda. Peguei minha bicicleta e parti rumo à cidade. Oh! Como era singular minha cidade. Oh! Como eu adorava chamar de minha cidade, meu lar. Tantas lembranças....
Passei pela rua principal, observei Dona Charlet varrendo a calçada de sua padaria, com certeza ela fazia os melhores pães da cidade, não digo isso apenas por haver uma única padaria, mas sim por realmente serem quentinhos e fofos. A senhora grisalha me cumprimentou com um aceno de cabeça. Devolvi o gesto educadamente. Morar em uma cidade pequena tem suas vantagens e desvantagens. Um lado bom é que todo mundo se conhece. Um lado ruim é que todo mundo se conhece. Antes do que aconteceu com os meus pais, poderia usar popular adequadamente como sobrenome, porém quando começaram a me olhar diferente, como se fosse à filha de um assassino – tecnicamente eu sou, mas sei que foi um acidente e meu pai amava minha mãe, só fui muito fraca para ir visitá-lo e dizer isso – comecei a inconscientemente me afastar de todos. Os adultos da cidade só me olhavam com pena.
Perto da padaria havia uma livraria, olhei nostalgicamente em sua direção. Todo sábado ia naquele lugar com minha mãe, ela sempre me comprava um livro, portanto, conhecia a exata distribuição de cada exemplar nas prateleiras da loja. Isso me remeteu aos tempos de quando ela lia o pequeno príncipe todas as noites para mim, na época que ainda não sabia decifrar as palavras. Uma lágrima rebelde marcava a maça do meu rosto, limpei com a costa da minha mão. Desnorteada por tais memórias continuei pedalando, até que passei na frente da casa do prefeito.
Perto das árvores ouvi um espirro. Sim, isso mesmo, mas não conseguia ver ninguém. Segui o caminho do som o mais silenciosamente possível deixando minha bicicleta encostada no chão, sem notar pisei em uma folha seca fazendo o que pareceu um grande estrondo nessa manhã silenciosa. De repente, nas árvores adiante uma figura alta e esguia começou a correr. Dispunha de um cabelo preto, um jeans escuro e um suéter vermelho. Ele poderia ser a mesma criatura que espreitava no dia das prestações de homenagens da pobre mulher morta, por isso comecei a correr atrás dele. A propriedade em breve chegaria ao fim, conseguia avistar o muro alto adiante. O guri também percebeu, e começou a virar, a distância entre nós não estava grande, em vista disso pulei jogando-me em cima dele. Caímos sobre folhas, ele tentou escapar, mas segurei-o firme.
— Quem é você?
— Saí de cima de mim sua louca!- gritava atordoado.
— Vou sair se prometer não fugir- condicionei.
— Tá, sai logo- repetia freneticamente.
O garoto levantou limpando a roupa. Notei que segurava um livro, mas não deu tempo de ler o título. Seus olhos pousaram em mim, azuis claros, sua pele era rosada, suas feições magras.
— O que estava fazendo escondido aqui?-indaguei.
— Não tô escondido, estou no meu quintal lendo um livro- disse como se fosse óbvio.
— Como assim, desde quando o prefeito tem filhos?- perguntei confusa.
— Desde que ele e minha mãe fizeram a fusão do óvulo com o espermatozoide, que acontece nas tubas uterinas com a penetração do espermatozoide no óvulo. O Óvulo é recoberto pela uma película chamada de zona pelúcida que permite que o óvulo siga em direção ao útero. O espermatozoide fecunda e é recebido por uma membrana receptoras ZP3 que ao penetra o espermatozoide, muda a configuração desta membrana incapacitando de receber outro espermatozoide podendo ser fecundado apenas por um espermatozoide. Neste momento é ativado a metáfase II do óvulo que forma um corpúsculo polar II e dois pro-núcleos um feminino e um masculino que logo entram no fuso mitótico passando para anáfase e desde então já é uma célula diploide. Externamente o óvulo fecundado vai para o útero que libera uma enzima pro-elíptica que penetra no endométrio sendo revestido por uma fina membrana é o que chamamos de Nidação, então começa o desenvolvimento fetal. E aqui estou eu. — não interrompi, pois apesar de no inicio pensar que falava sarcasticamente, percebi seu tom sério.
— Garoto você tem algum problema? Tu é louco?- perguntei nada sútil.
— Desculpa- disse, seu rosto ficando todo vermelho- É difícil perceber o que você está pensando.
— Como assim?- ficava cada vez mais atarantada.
— Eu tenho o que os médicos modernos deram o nome de Síndrome de Asperger, e um dos sintomas e que não consigo sentir como as outras pessoas se sentem, o que chamam de empatia. Por conseguinte, meu pai achou mais seguro me deixar escondido em casa com um tutor, do que me deixar livre na sociedade.
— Sinto muito- me compadeci.
— O que estava fazendo?
— Lendo- disse mostrando a capa para mim: Como pessoas com asperger podem se relacionar com pessoas "normais”.
Não pude evitar rir, porém ele continuou sério.
— Está se saindo muito bem- tentei aliviar o clima.
— Obrigada- notei que ele não havia detectado o sarcasmo em minha voz- O conjunto de genes do seu pai e sua mãe para produzir suas características físicas funcionou perfeitamente. Quer dizer seu aspecto exterior é agradável.... Quer dizer você é muito bonita.
Fiquei envergonhada, meu rosto ganhando a coloração de morangos recém-colhidos.
— Deixei a moça sem graça?
— Não, tudo bem. Eu tenho que ir.
— Foi por causa do que eu disse?- perguntou demonstrando confusão.
— Não, estou com visitas em casa. Prazer em conhecê-lo.
Estendi a mão, ele respondeu firmemente o cumprimento e pude notar o quanto eram macias. Já ia me virando para seguir caminho, quando me lembrei.
— Quando prestava homenagem à falecida, era você escondido atrás das árvores?
— Sim, ficar perto de muitas pessoas me deixa meio claustrofóbico. Mas, não podia perder, afinal apesar de distante era a minha tia.
Concordei com a cabeça, por essa não esperava, segui meu caminho um pouco atordoada, mas não sem antes sussurrar para o garoto um “até logo” inaudível.
No caminho para casa fui tomada pelo susto, uma senhora com aparência cansada colocava em um poste o cartaz de uma mulher desaparecida. Engoli em seco e continuei pedalando, porém meu pior medo se concretizou e ao longo do caminho pude perceber que rosto estampado era o da mulher da cabana, cai da bicicleta. Minha garganta começou a se fechar, lágrimas ameaçando descer. Voltei ao meu percurso o mais rápido possível, apenas com arranhões nas mãos que ardiam levemente. Ao chegar casa constatei para minha tristeza que Dylan já havia indo embora, porém uma boa surpresa me aguardava. Meu querido avô Lourenço tinha chegado de viagem, corri ao seu encontro, buscando conforto em seu abraço carinhoso e familiar.
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