Dark Heart
2 Distância
Notas iniciais

Último ano do colegial, animação e nostalgia era o cardápio para o primeiro dia de aula. Morava em uma fazenda com o meu avô Lourenço, ficava apenas uns 2 km da cidade, então ia de bicicleta para a escola. Como estava atrasada, apenas agarrei um dos sanduíches que meu vô fazia todas as manhãs para mim e saí em disparada.
Adorava andar de bicicleta, sentir os primeiros raios do sol sobre minha pele e o vento em meus cabelos. Apesar de já conhecer o caminho como a palma da minha mão, não conseguia deixar de apreciar a beleza da minha rota: o pasto verdinho, o sol refletindo na pequena lagoa e minha árvore predileta, uma linda e enorme oliveira, que ficava na propriedade dos Sharpe, nossos vizinhos. Divagando na paisagem, notei algo estranho na beira da estrada de terra e comecei a diminuir o ritmo das pedaladas. A grama era alta, mas não era mais verde e sim vermelha, me aproximei vagarosamente.
Paralisei, queria gritar mais minha voz ficou presa na garganta, uma imagem que ficaria gravada em minha mente para sempre: Uma mulher jovem, toda ensanguentada, sua roupa toda rasgada, seus olhos faltavam no rosto e apenas buracos negros me encaravam, seus pés juntos. Queria fugir mais algo me prendia ao local, não conseguia parar de olhar o corpo gélido em minha frente, as mãos da garota dobradas ao peito e o mais estranho, uma rosa vermelha colocada teatralmente entre seus dedos.
Desci da bicicleta, a rosa era maravilhosamente linda, hesitante abri um por um de seus dedos pegando-a, suas pétalas eram macias e sua cor era tão brilhante, nunca tinha visto uma flor tão linda, a passei delicadamente sobre minha bochecha. Quem cultivara tão bela criação? Petrificada observava, seus espinhos foram arrancados minimamente, a sensação embriagante, porém tinha que chegar logo ou iria perder a primeira aula. Liguei anonimamente para a delegacia e calmamente informei o local e o que tinha visto, coloquei a rosa atrás da orelha e continuei meu caminho.
Cheguei à escola “estacionei” meu automóvel e corri para a sala de aula, a rosa caiu e junto um pequeno papel, devia estar escondido entre as pétalas. Peguei ambos, abri o bilhete e em letras digitadas a pequena frase dizia:
“Conseguiu seu conto de fadas, descanse agora bela adormecida.”
Coloquei isso imediatamente no bolso do meu casaco e recoloquei a rosa em minha orelha, e entrei em minha sala.
—Senhorita isso é hora de chegar?
—Desculpe senhora, tive um contra tempo.
— Sente-se logo em seu lugar.
Não conseguia parar de pensar na garota e naquela frase, o que eu estava pensando, a polícia deveria vê isso, mas agora era tarde demais. O que diria para eles? “Ah, seu policial, eu roubei a evidência da cena do crime porque gostei da flor e a propósito o assassino deixou um bilhete junto.” Nem pensar.
— Você está bem?
—O que?
— Tá com uma cara de bocó olhando para o nada.
Tentei me recompor, sentava ao lado do meu melhor amigo Kian Dawson desde o ensino fundamental e esse ano não seria diferente. Um dos meus problemas sempre foi não confiar em gente bonita, me sentia extremamente desconfortável e desconfiada perto desse tipo de pessoa, mas com Kian não funcionava assim, apesar de ser forte, bronzeado, ter lindos olhos verdes, não foi assim que o conheci, por isso que me sentia extremamente à vontade com ele. Lembro como se fosse ontem, daquele menino magricelo, desdentado e com os poucos dentes ainda de aparelho vindo sentar ao meu lado em seu primeiro dia de aula.
—Bocó é você idiota – falei dando um sorriso e um soco de leve em seu ombro.
—Onde arranjou essa flor?
— Jogada no caminho pra cá – falei engolindo em seco.
A porta se abriu e um menino entrou vindo para o fundo na sala. A única cadeira vaga ficava atrás de nós, não consegui olhá-lo direito, sua beleza era arrebatadora, por isso baixei os olhos como ato reflexo, mas pude observar que todos na sala o encaravam.
A professora pigarreou forte e todos voltaram sua atenção novamente para ela. A manhã passou vagarosamente, a curiosidade estava me matando, a sensação de estar sendo observada me perturbava. A verdade era que ninguém nunca sentava naquela cadeira. Finalmente o sinal do almoço tocou. Kian e eu fomos diretamente para nosso cantinho especial. Almoçávamos no gramado no fundo da escola desde o que acontecera com os meus pais, não suportava seus olhares me julgando, e a partir do "incidente" tento ter o mínimo de contato social com o resto da escola.
Ele estendeu a toalha no chão e almoçamos tranquilamente. Fiquei tentada em lhe contar o que tinha visto no caminho, mas não queria preocupá-lo, pois ele sempre teve medo da minha volta sozinha para casa no começo da noite. O sinal tocou e a tarde se arrastou para o seu fim.
Fui buscar minha bicicleta e Kian ia em direção ao seu carro.
—Ei, vamos amanhã ao parque de diversões, né?
—Claro, me pega ás 19 h.
—Se quiser posso pegar agora – falou malicioso.
—Idiota – Dei uma risadinha enquanto subia em minha bicicleta.
O sol se punha aos poucos, estaria totalmente escuro quando eu chegasse à fazenda, o melhor que tinha a fazer era pedalar rápido, não queria deixar vovô preocupado. Quase chegando senti um farol forte em minha costa, até que um motoqueiro diminuiu a velocidade e ficou paralelamente comigo. Meu coração disparou, o sangue pulsando em minhas orelhas toldava minha audição, minha boca ficou seca e a respiração entre cortada. Ele estava todo vestido de preto e se aproximou tirando o capacete.
— Com licença, pode me informar onde fica a fazenda dos Sharpe?
—Logo ali – Apontei com o dedo trêmulo.
—Ah, estudamos juntos, te vi hoje na escola, meu nome é Dylan a propósito. E o seu?
—O meu não é.
—Quer companhia até sua casa? – Perguntou, ignorando minha piadinha.
— Não, é logo ali, obrigada.
—Então parece que seremos vizinhos – disse dobrando para onde eu havia indicado.
— A propósito bela rosa, adoraria ver onde você a colheu – Disse recolocando o capacete.
Cheguei em casa e corri diretamente para o meu quarto, minha cabeça a mil por hora. Primeiro, quando ele tirou o capacete foi um milagre ter encontrado minha voz. Sua pele branca em contraste com seu cabelo preto e olhos cor de âmbar não se encaixavam em uma beleza humana. Segundo, ao pensar nele só uma palavra me vinha à mente: D I S T Â N C I A.
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