Dark Heart
3 Clara
Notas iniciais
Clara estava nos retoques finais: passava seu batom vermelho predileto que realçava seus lábios carnudos e bastante rímel para salientar seus olhos azuis. Terminando foi conferir no espelho grande, suas madeixas loiras caiam sobres suas costas delicadamente, o vestido preto aveludado com um decote V se encaixava perfeitamente em suas curvas, com certeza ela se sentia pronta para o que a noite havia lhe preparado.
A batida na porta fez seu coração acelerar, não conseguia deixar de se sentir eufórica, desceu as escadas desligando as luzes da casa. Não acreditava que finalmente tinha tomado coragem de sair. Ela trabalha como enfermeira em um hospital da cidade vizinha, e com isso quase não tinha vida, a maior parte dos seus dias ficava no trabalho e apesar de amá-lo não conhecia outra pessoa a pelo menos uns três anos, por falta de tempo, dizia a si mesma.
Aos poucos começou a conversar com pessoas na internet, usava seu intervalo das refeições e qualquer tempinho que conseguisse, estava determinada a não passar mais um ano inteira sozinha. Após meses de conversa fiada, finalmente tinha conhecido alguém que chamou sua atenção e depois de muita insistência dele concordou em conhecê-lo pessoalmente. Hoje era sua noite de folga e finalmente ia aproveitá-la para ir a um encontro.
Clara abriu a porta e realmente ficou impressionada com a beleza de seu pretendente. Aparentava ter 1.80m, vestia um jeans escuro, camiseta branca, jaqueta de couro preta, gravata e um sapatênis. Em suas mãos trazia um enorme buquê de rosas vermelhas.
—Obrigada, são realmente perfeitas.
— Você está ainda mais linda do que nas fotos.
— Com certeza posso dizer o mesmo, entre vou colocá-las na água. — Falou pegando as rosas.
— Não precisa, vou esperar aqui na varanda.
—Eu já volto então.
Ela foi até a cozinha, pegou a primeira vasilha que achou, encheu de água e colocou as rosas dentro.
— Podemos ir — disse trancando a porta.
Chegando a sua BMW prata o cavalheiro abriu a porta do carro e fez a volta.
— Não me disse que tinha uma BMW.
— Não queria que saísse comigo só por causa do dinheiro — disse com um meio sorriso.
— Não sou esse tipo de garota.
— Eu acredito em você.
— Então, aonde vamos?
— Sei que é pedir muito, mas queria lhe fazer uma surpresa. Você colocaria uma venda?
— Tem razão, para um primeiro encontro é um pouquinho de mais, porém posso abrir uma exceção hoje.
— Sorte a minha.
Ele se inclinou, pegou uma venda preta no porta-luvas e então amarrou sobre os olhos de Clara.
Depois disso o carro ganhou vida na pequena cidade de Enthralled. Era um ótimo lugar para se viver, considerado calmo e seguro, com pessoas educadas e receptivas. As casas possuíam um estilo colonial simples, porém elegante. As alamedas continham um asfalto completamente liso. E ainda, continha duas fazendas enormes que ficavam a 2 km de distância, mas consideradas por todos como parte do lugar.
—Conte mais sobre você. Como alguém incrivelmente maravilhosa assim está solteira?
— Ah sabe como é. A desculpa esfarrapada de sempre, falta de tempo — disse ela risonha.
—Talvez esteja apenas esperando a pessoa certa.
— É talvez.
— E você mora com sua família?
—Não, meus pais morreram em um acidente de carro quando eu tinha 18 anos.
— Sinto muito.
—Obrigada.
—Chegamos.
Seu acompanhante desceu do carro, abriu a porta de Clara e segurou sua mão para lhe guiar o caminho. Eles andaram alguns metros, ele abriu um pequeno portão de ferro. Após entrar colocou-a em sua frente, se aproximou e sussurrou em seu ouvido “espero que goste", ela se arrepiou com o tom grave de sua voz, e devagar seu par desamarrou a venda.
— Oh Meu Deus! É magnífico. Ainda estamos na cidade? Que lugar é esse?
— Sim estamos. Digamos que esse é o meu lugar secreto.
O lugar tinha vários corredores feitos com variadas flores, que levavam a um círculo no centro do ambiente. Nesse meio havia uma mesa, com duas cadeiras de cristal, o lugar era todo iluminado com velas. Segurando sua mão ele a levou para seus lugares. Puxou a cadeira para a dama e depois se sentou. Clara ficou se sentido idiota por pensar que era pra ela e foi fazer a volta.
—Brincadeira, sente-se aqui, por favor, milady- disse rindo e levantando.
Um dos aspectos que a enfermeira menos apreciava em si era sua pele branca, pois suas bochechas transpareciam a vermelhidão quando ficava constrangida e esse era um desses momentos.
O som inconfundível de um violino começou a tocar, atrás dele havia um violinista e ao lado dele um garçom.
— Essa é a sonata nº6 de Paganini?
— Isso mesmo. Fico contente que aprecie.
— Senhor, Senhorita. Gostariam de fazer o pedido?
— Qual o cardápio?
— Qualquer coisa que a senhorita desejar.
Clara olhou para o lindo homem em sua frente, a procura de ajuda. Ficou confusa com a resposta do garçom, existiam muitas comidas no mundo, tinha que ter uma limitação.
— Pode pedir o que quiser de hambúrguer ao meu corpo nu.
—Oi?
— De hambúrguer a carpaccio, qualquer coisa — ele a olhou sedutoramente.
Clara pensou estar ouvindo coisas e logo a vermelhidão tomou conta do seu rosto.
— O que você pedir, pra mim está de bom tamanho.
— Por favor, uma pizza de quatro queijos e o champanhe.
—De onde essas pessoas saíram?
—Amigos da família, trabalham pra gente há muitos anos.
— Não acredito que lembrou minha comida favorita.
— É claro- ele falou sorrindo e se inclinando na mesa- Posso te contar um segredo?
— É claro- disse ela se inclinando também.
Com os rostos colados ele disse em seu ouvido "fica ainda mais linda com essas bochechas vermelhas" deu-lhe um beijo delicado no rosto e se sentou.
— Se quer me deixa sem jeito, está fazendo um bom trabalho.
Ele levantou e estendeu sua mão.
— Dança comigo?
Clara pegou sua mão e de rosto colado dançaram em silêncio.
—Senhor o jantar está servido.
“Será que ainda posso mudar meu pedido? Aquele carpaccio parecia bem apetitoso”. Ela sussurrou em seu ouvido antes de voltarem à mesa. Ele sorriu, gostando do jogo.
— Obrigado, Theobaldo.
Os dois comeram, beberam o champanhe e o fim da noite se aproximava.
—Quer alguma sobremesa?
— Não obrigada, estou satisfeita.
— Com licença, vou dispensar os cavalheiros então.
Ao voltar trazia em suas mãos uma taça de vinho.
— Você tem que experimentar isso. Eu mesmo que fiz.
— Criou esse vinho?
—Digamos que sim, não especificamente esse, mas a receita dele.
Clara bebeu o vinho apreciando o gosto enquanto ele esperava ansioso pelo seu veredicto.
— Maravilhoso, meus parabéns ao enólogo.
—Pronta para ir para casa?
— Queria que essa noite nunca acabasse, mas posso superar isso.
De mãos dadas, eles andaram por um corredor de flores rumo à saída. Antes de chegar ao portão ele se virou para ela, segurando sua outra mão. Os dois ficaram se olhando, até que ele começou a aproximar seu rosto do dela, fazendo ela o mesmo.
—Estou me sentindo meio tonta.
—Foi o vinho, tinha um ingrediente especial.
Clara caiu inconsciente, mas seu cavalheiro das trevas a segurou.
Para ele a noite acabará de começar. Jogando a moça nos ombros, pegou uma rosa vermelha do jardim, abriu o pequeno portão olhando para os dois lados, verificando se a rua estava fazia. Ao constatar que sim, saiu e colocou a pobre garota no porta-malas.
Entrou no carro e ao som de Highway to Hell foi para sua cabana que ficava a 10 km das duas únicas fazendas da cidade. Chegando lá, pegou a mulher desacordada do e pendurou suas mãos e seus pés em correntes de modo a deixá-la em pé. Acendeu um cigarro e apagou no meio de seu decote V, fazendo com que acordasse.
— O que está acontecendo? – fala ainda meio grogue.
— O fim da sua noite.
Ao perceber o que está acontecendo, começa a se debater para sair das correntes.
— Por que está fazendo isso?
— Por que eu posso.
—Achei que gostasse de mim — gritou em meio às lágrimas.
—Segundo o meu psicólogo, não sou capaz de gostar de ninguém. Principalmente das pessoas que acabei de conhecer.
—Não faça isso, por favor. Prometo não vou lhe denunciar.
— Eu acredito em você, mas ainda vou fazer isso.
Com um sorriso diabólico pega uma faca que estava em uma mesa de madeira próxima.
— Não, não, eu imploro. Eu faço qualquer coisa.
—Qualquer coisa?
Ele saiu da cabana e voltou com a mão cheia de terra e minhocas, chegou perto e estendeu sua palma.
—Come.
Aos prantos e sem questionar, coloca na boca e começa a mastigar. O gosto era horrível, podia sentir as minhocas rastejando em sua língua e os “crack” que faziam. Não aguentou e cuspiu fora. Ele caiu na gargalhada e tirou do seu bolso a venda preta, amarrando sobre a boca de sua vítima.
— Pronto, bem melhor.
Com a faca, fez pequenos cortes nos braços e pernas. Gostava de sentir a pele se rasgando, para ele era inebriante estar no controle, o sangue vermelho escorrendo sobre a pele branca, parecia uma obra de arte em tempo real.
Clara se debatia, a cada corte. A dor que sentia era excruciante, não conseguia deixar de pensar que não iria mais ao hospital, vê seus amigos no trabalho. Não poderia ajudar mais as pessoas e o pior era o pensamento de que não tinha vivido plenamente, sempre trancada em casa durante suas folgas e agora não teria outra oportunidade. Ele pegou a faca posicionou no inicio da coxa e arrastou vagarosa e profundamente até os pés. Clara não aguentou tanta dor e desmaiou.
Seu cavalheiro das trevas resolveu esperar ela acordar dessa vez, e enquanto isso começou a esquentar uma ferradura de cavalo na lareira. Por um momento, Clara sentiu paz, não sentia dor, não sentia nada, só a aconchegante escuridão. Isso não durou muito, a dor a bombardeou de uma vez, estava recobrando a lucidez. "Não, por favor, não. Deixe-me aqui, não me leve de volta" pensava.
— Preste atenção, você não é uma das fortes, já vi que não vai durar muito. Por isso, vou lhe dar uma chance de fugir. Aqui fora tem uma moto velha com a chave na ignição. Boa sorte!
Clara ficou alerta, não acreditando no que estava ouvindo, e ainda sim, esperançosa.
—É claro, antes de dar essas chances eu gosto de marcar meus animais de estimação, para se lembrarem de mim — por de trás da enfermeira, ele levantou seu vestido e colocou a ferradura em sua nádega direita. Logo em seguida tirou as correntes, deixando Clara cair no chão.
—Você tem exatamente 2 minutos. Tic Tac.
Ela queria tanto levantar e correr, mas a dor ultrapassava seus limites. Sentiu-se uma marionete, na qual cada fio de sua vida tinha sido cortado, e agora era só um personagem sem vida num show de horrores. Contudo não podia acabar assim, se continuasse ele poderia fazer coisas piores. Reuniu suas últimas forças e correu, seus pés pareciam carregar chumbos, cada passo uma tortura, cada movimento uma afronta ao seu frágil corpo, sua adrenalina começou a trabalhar a todo o vapor, ela subiu na moto e foi na maior velocidade que pode. O vento cortante a lembrava de suas feridas, como se a própria ventania zombasse dela e colocasse um dedo em cada machucado. Podia ver umas fazendas logo à frente, sabia então que a cidade estaria logo à vista, continuou, chegaria logo ao hospital de sua pequena cidade. A moto parou
de funcionar repentinamente. Ela desceu, porém seus pés lhe faltaram. Seus membros não lhe obedeciam mais.
A jovem abriu seus olhos lentamente, o sol forte em seu rosto, o frio cortante vinha com o vento, parecendo lembranças distantes de que ainda estava viva. Sentia a terra molhada, o capim grudado em sua boca. Tinha desmaiado, os arranhões em seus pernas e braços ardiam impiedosamente. Tentou se levantar, sem sucesso, começou a rastejar pelo chão. Não queria acreditar, mas sabia que ele estava atrás dela, fechou os olhos e sentiu a lâmina afiada sendo cravada em suas costas e o calor do sangue escorrendo pelo corpo, não valia mais a pena lutar contra o inevitável, então apenas aceitou a morte como se fosse à companhia de uma boa e velha amiga.
Ao constatar que Clara jazia no chão sem vida, o seu “Príncipe Encantado” arrancou os olhos da moça com a faca, deixando apenas buracos vazios e negros. Arrumou seu corpo do chão, colocando a rosa com o pequeno bilhete.
— Eu gostei muito da cor de seus olhos, e já que não tem mais utilidade para você vou ficar com eles. E a propósito, esqueci-me de abastecer a moto.
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