Se você me pedisse para abrigar o mendigo da esquina a beira da morte, não, eu não aceitaria, mas de algum modo, minha atual situação não era muito diferente.

– Aeron, fome – ouvi ao me deparar com Laforet sentado na porta de casa – Por onde você andou?

– Não é da sua conta. E por quê não aprende a cozinhar sozinho? Sua fome insaciável já está me enchendo – falei ao tentar me desviar do mesmo

– Não faz parte dos meus interesses. Sabe, quanto a fome insaciável, talvez haja uma certa solução...

– E qual seria?

– Você – respondeu sério, encarando-me ainda da porta

– Não brinque comigo – parei por um instante, não me atrevendo a olhar em seus olhos – Vou fazer algo, só... saia daqui – me dirigi a cozinha

Laforet realmente gostava de fazer piadas infames.

Se ele queria tanto me irritar, era só sumir de uma vez.

Apesar de dizer que estou cansado de suportá-lo, acabei por me acostumar com sua presença, então se ele desaparecesse sem explicações, acho que seria o bastante para me incomodar ao menos um pouco.

Não leve isso para o lado emocional, eu sempre estive sozinho, não iria me afetar tanto assim, só estou dizendo que acabou por virar parte da minha rotina, ele agora fazia parte dos meus hábitos e indiscutivelmente, de minha vida.

– Laforet! – gritei

– Aqui – disse enquanto descia as escadas correndo

– Seu almoço de quatro horas de atraso – apontei para o prato sobre a mesa – Agora coma e me deixe em paz, vou pro quarto

Ultimamente me sentia cansado, desgastado. Se sentasse ou deitasse em algum lugar por alguns instantes, não demorava muito até cair no sono.

E novamente, aconteceu.

Maldição, o que é isso ? – eu murmurava para mim mesmo enquanto adormecia logo após me deitar na cama

...

Eu podia ver uma velha casa de madeira próxima de um lago.

Aquela paisagem não me era estranha, o que apesar de ser um pouco improvável, era verdade.

Logo pude avistar duas sombras vindo em minha direção, que na medida em que se aproximavam, tomavam forma.

Não, eu não sinto medo facilmente, mas somente naquele momento, um pavor tomou conta de meu corpo, então eu corri, corri o mais rápido que minhas capacidades físicas me permitiam.

Mas tropecei em uma maldita pedra. Merda. Uma pedra?! Isso é absurdamente ridículo.

Sem me dar conta, as sombras haviam me alcançado e agora me cercavam.

A grande notícia? Não possuíam rostos.

“Inútil! Imprestável! Desprezível!” elas gritavam em meus ouvidos repetidas vezes.

Aquelas três palavras me penetravam de forma que além de suas vozes irritantes, agora minha própria mente as repetia, era insuportável.

Mas o pior de tudo, é que de certa forma eu concordava com aquelas afirmações.

Oras, eu jamais ajudei alguém, nunca recebi ordens, sempre vivi em meu mundinho fechado e fútil, me excluindo e ignorando todos que estavam a minha volta.

Eu era um miserável. Um desgraçado infeliz que só ligava pras próprias emoções sem ao menos se dar conta dos sentimentos alheios.

“Parabéns Aeron, você chegou ao caminho da loucura, e parece que há alguém para recepcioná-lo” meus pensamentos refletiam.

E quando me referi à “alguém”, eu quis dizer a voz que gritava desesperadamente por meu nome. De onde seus gritos vinham, eu não sabia dizer, mas eu os escutava de forma que ecoavam por todo aquele lugar, misturando-se com as palavras ditas pelas sombras e por mim mesmo, e vagarosamente, tudo ia se acalmando e desaparecendo, parte por parte.

Até sobrar um vazio. Um escuro, porém brilhante vazio.

– RESPONDA LOGO, DROGA! – berravam do outro lado da porta

Um... sonho? – sussurrei a mim mesmo – Quem é? – falei ainda sonolento

– Quem você acha que é? Abra logo a porra da porta! – ele estava visivelmente irritado

– Laforet? – eu acordei de vez – Qual o problema? – perguntei ao abrir a porta

No momento em que abri a porta, Laforet veio em minha direção, abraçando-me com desespero e força.

– “O QUE FOI”, VOCÊ PERGUNTA? – gritou — Eu achei que você tinha morrido, desmaiado ou qualquer coisa pior. Não se tranque quando for dormir, maldição! Você sabe a quanto tempo eu estou berrando!? Eu ia arrombar a porta Aeron! – dizia ainda me abraçando

O que ele queria de mim? Eu era um imprestável afinal de contas.

– Não é como se você tivesse motivos pra se importar, não é? – o afastei – Eu não sei o que você quer de mim afinal de contas – sorri – Sou inútil. Me irrito fácil. Não vou te ajudar quando você mais precisar, provavelmente – dei uma pequena e forçada risada após isso, e logo as lágrimas que estavam presas logo começaram a escorrer

– Como eu não me importaria? De que... diabos você está falando? – tentou se aproximar

Eu não conseguia falar, provavelmente iria gaguejar se o fizesse. Pude sentir minhas pernas bambas e logo me sentei no chão, escondendo o rosto entre os joelhos dobrados.

Pode me chamar de dramático e infantil, mas não era como se eu pudesse impedir minhas emoções

– O que aconteceu? – perguntou ao se agachar

– Eu não sei, droga. Só... as coisas mudaram, nada era assim e... simplesmente, está tudo se desmoronando, eu não sei de nada, não é como se eu pudesse me controlar! Vá pro inferno! – respondi quase engolindo metade das palavras

Um momento se passou sem respostas, mas logo Laforet se tornou calmo e tranqüilo, sereno.

– Se for pra alguma coisa desmoronar em cima de você, eu vou estar lá pra te proteger e defender, seja lá contra quem ou o que for.

Fiquei em silêncio, apenas acompanhando minhas lágrimas e tremedeiras e olhando em direção ao nada.

Laforet levou suas mãos ao meu rosto, e levemente passou seus polegares por minhas lágrimas, logo depois me puxando em direção a seu peito.

Me aconcheguei em sua frieza que tanto acalmava meu coração, e não demorou muito até parar de chorar, e depois de uma crise de nervosismo, novamente adormeci, mas dessa vez, em paz.

Acordei no dia seguinte em minha cama, e antes que você se pergunte, eu faltei a aula.

Ninguém merecia ter um pesadelo, acordar perto da meia noite com berros e depois ter um ataque emocional.

Provavelmente o colégio ligaria para Margaret, mas ela só responderia para a secretária que conversaria comigo a respeito, e no fim, não faria nada. Afinal, ela morava no outro lado da cidade afinal, e não era como se tivesse alguma preocupação em relação a mim.

Eu realmente não estava disposto a fazer nada, muito menos ver Laforet depois de toda aquela humilhação... mas acabei indo procurá-lo.

Ele estava aninhado no sofá da sala, como sempre.

Parecia estar dormindo, mas só parecia.

– Olha só, um cachorro encolhido – falei ao vê-lo

– Cachorro encolhido? Quem foi que ontem chorou até não poder mais e depois de se encostar em mim caiu no sono?

– Não lembro de nada, não enche — menti

– Ah, quer que eu te faça lembrar? – maldito bicho de asas malicioso

Eu ia sair dali.

Ia, até ser puxado e jogado no sofá, sendo pressionado contra as almofadas e com alguém de quatro sobre mim.

– Você alguma vez já bebeu?

– Não seja idiota, eu tenho dezessete anos.

– Sabe, não precisa ser certinho quando ninguém estiver olhando. E antes que você comece a ter um ataque, eu não pretendo te deixar sair até terminar de conversar. Eu mordo, mas não tem necessidade de se preocupar quanto a eu te devorar.

Seus braços se introduziram por de baixo de minhas costas, e logo ele se deitou sobre mim. Seu corpo pressionado contra o meu e o conforto de seu toque não me incomodavam.

Não respondi ou reclamei, eu sabia que não faria diferença nenhuma.

– Ei, prometa que nunca vai desaparecer, sumir, me abandonar ou qualquer coisa do tipo – pediu

– Eu prometo – fechei os olhos e comecei a mexer em seus finos, escorridos e negros cabelos

Mas a mais pura realidade, era que se alguém ali fosse ser abandonado, seria eu, e eu não desejava isso.

Talvez sua companhia não fosse mais apenas um hábito, e sim uma necessidade extrema e delicada que se fosse corrompida, seria meu mais profundo e eterno inferno.

Notas finais
Em primeiro lugar, quero agradecer pelas poucas mais extremamente preciosas reviews que recebi. Me deixaram muito inspirada, fiquei extremamente contente, muito obrigada ♥
Então, tentei não correr tanto nesse capítulo, espero que eu tenha conseguido. E eu sei que provavelmente vão ter pessoas que vão achar que eu foco demais em "Laforet x Aeron", mas não se preocupem, isso vai mudar um pouco nos próximos capítulos. ;~
Espero que gostem e até o próximo capítulo. =3