Notas iniciais
O til (~) simboliza a mudança da cena.

– Não tenho paciência pra olhares tortos todos os dias, se você quer viver a partir de agora, vire-se sozinho – foram as delicadas palavras vindas de minha amável tia Margaret

Treze dias atrás, meu pai morreu de overdose, três dias depois, minha mãe foi encontrada pendurada no teto no banheiro. Não é como se eu ligasse, eles nunca fizeram nenhuma diferença .

Como nenhum parente suporta olhar pra minha cara, ninguém se ofereceu na hora do juíz decidir com quem ficaria minha guarda, o condenado mais próximo foi o castigado. O resultado? Minha tia. Ela ficaria muito feliz se eu tivesse cortado os pulsos, ou sido atropelado. Até mesmo seqüestrado. Entre todas as opções, a melhor seria minha inexistência.

A família Frolla sempre teve destaque em relação a suas condições econômicas e meu pai era o líder da mesma, portanto não tive problemas quanto a valores depois de ser expulso da casa de tia Margaret.

Não muito longe, logo depois de atravessar o bosque vazio e silencioso nos confins de Zurique, você poderia me encontrar em uma isolada casa, antiga, porém luxuosa. Espaçosa, dois andares, um tanto rústica. Margaret provavelmente torcia e rezava todas as noite para que ficasse louco na minha própria solidão.

~

Normalmente as pessoas pensariam que o colégio seria meu refúgio, minha vida, minha salvação ou qualquer coisa semelhante, mas... a realidade é um tanto diferente e clichê.

– Bom dia Sr. Bichinha. Como vão seus pais? Se divertindo no além? – algumas pessoas não conhecem seus limites, uma delas é Roland, o gorducho ruivo e espinhento que por algum motivo me perturbava dês do primário

– Faça um favor a humanidade e morra, sim?

Ignorei só mais um dos comentários que faziam parte de minha preciosa rotina. Freqüentar a escola poderia ser só mais uma parte do inferno, mas eu não acho que eu teria algo mais importante pra fazer em casa.

Já citei a falta de vida no bosque?

Pois bem, eu falei sério. Não há pessoas caminhando, ventanias, bichos cantarolando, nada.

Mas, naquele dia, estava um pouco diferente. Se eu não passasse por aquele lugar ao menos cinco vezes por semana, eu poderia imaginar que era um lindo lugar quando não estava em meio a uma tempestade, e que o barulho por trás das moitas era simplesmente um gato perseguindo um pobre esquilo.

– Você aí – ouvi gritarem em meio ao barulho da forte chuva que agredia as folhas das árvores – Da pra parar por um instante?

Eu só posso estar ficando louco. Saudações, tia Margaret, você venceu.

– RESPONDA, MALDIÇÃO! – em meio ao nada, um ser apareceu em minha frente. Sim, eu levei um susto, tropecei em meus próprios pés e cai no chão com os braços apoiados – Ei, calma, está com medo? – perguntou rindo da minha cara

– Que diabos é você ? – eu o olhava de cima a baixo. Seus cabelos eram tão negros que eu poderia dizer que eram azuis. Sua pele era clara como a neve. E os olhos, eram como a cor de um tesouro dos contos de piratas que ouvimos quando crianças, dourados e brilhantes como a luz do sol.

– Você é muito atencioso também, amigo. Pode me chamar de Laforet – não, não bastava ele ser incrivelmente perfeito, ele tinha asas, negras asas, enormes e graciosas, como um anjo.

Eu não estava assustado, pelo contrário, estava fascinado. A forte chuva fazia com que a água escorresse por seu branco corpo e encharcasse seus cabelos.

– O que você quer comigo, Laforet? – ele estendeu uma de suas mãos, que eram gélidas, macias e confortáveis ao mesmo tempo

– Te conhecer – disse sério

– Não viaje, e meu nome é Aeron – recusei sua ajuda e levantei sozinho

– Você está bem? Isso foi um tombo feio, e o chão tem pedras.

– Não estou machucado, vá embora e me deixe em paz. Ah, bela fantasia – falei escondendo meus braços

– Cale-se, você se cortou. Vou te ajudar com os ferimentos, onde você mora?

– Não preciso de sua ajuda. Saia! – corri em direção a casa, deixando-o para trás

Meus braços doíam e sangravam, mas ia ficar tudo bem. Eu sempre me virei sozinho, então não havia porque me preocupar agora.

Ao entrar na casa, me deparo com ele sentado no sofá me olhando seriamente e logo depois vindo em minha direção.

– Hm, vamos lá, onde ficam os remédios? No banheiro? – disse enquanto me agarrava e carregava para o andar de cima, onde ficava o banheiro

– ME COLOQUE NO CHÃO, SEU BICHO DE ASAS!

– Teimoso você – intrometido e anormal – Então, vejamos – resmungou enquanto vasculhava o armário de baixo da pia

– O quê você está fazendo ?

Laforet não disse mais nenhuma palavra, só tratou das feridas, como eu mal sabia o que dizer, permaneci em silêncio, e assim foi até a chegada da noite.

Já era passado das dez horas, permaneci sozinho em meu quarto tentando ler. Pelo menos tentando, minha concentração não ajudava... nem um pouco.

– Aeron... – veio uma voz vinda da porta

– O que você quer?

– Estou com fome e... posso entrar ?

– Entre – enquanto eu falava, ele já tinha entrado no quarto – E o que você come? Espere, e o que eu tenho a ver com isso? Não sei nem porque você está aqui afinal.

– Se minha presença te incomoda, então até – disse se dirigindo até a porta

– Espere! Quer dizer, não vá – nem eu sabia o porquê de eu ter dito aquilo – O quê você come então?

– O mesmo que você comer.

– Vamos até a dispensa então, vou preparar algo.

A casa era enorme, e a dispensa subterrânea. Pra colaborar, a lâmpada estava queimada. As escadas tinham 13 degraus, não muito, mas no escuro, o bastante pra preocupar alguém a ponta de fazer descer devagar e com cuidado.

– U..UAH, UAAAH! – eu havia tropeçado no sétimo degrau, ou pelo menos quase, até sentir dois braços ao meu redor

– É, você quase foi agora... de novo – disse ele ainda me segurando.

– Obrigada, agora me solte – murmurei

~

Depois de jantar com Laforet já era passado de meia noite, e eu ainda tinha meus deveres. Passaram-se meia hora, uma hora, uma hora e meia, até que não agüentei mais, desmaiei em cima da mesa da cozinha.

– Ei, Aeron – havia gritado da sala – Aeron? Onde você... – interrompeu a si mesmo ao me ver dormindo – Descuidado você, não? – sussurrou, e novamente me carregou em seus braços em direção ao quarto

Eu não sabia sua história, o que ele era e nem o que queria, mas não me importava, de alguma forma, sua presença me era familiar, e eu a apreciava.

~

Dois dias haviam se passado.

Era um sábado, já de manhã, meu quarto permanecia escuro com as cortinas fechadas, mas eu podia ver o pequeno brilho do sol pelas frestas do tecido.

Ao olhar pro lado, vejo Laforet ao meu lado, sentado no chão com a cabeça em cima de minha cama, profundamente adormecido, seus cabelos estavam bagunçados e sua expressão era de paz.

– Laforet, acorde – eu o sacodi e ele lentamente abriu seus olhos — Não fique no chão, vai congelar de vez assim

– Não é como se eu sentisse frio – respondeu sonolento – Mas acho que sua cama deve ser mais confortável que o chão

– O quê? Espera, não, tem outros quartos – antes que eu pudesse terminar, ele já havia se aconchegado ao meu lado

Uma das vantagens de ser ter uma cama king size, é que você não precisa encostar em seja lá quem estiver junto, então não me incomodei, mas logo o senti se aproximar. Quando me dei conta, seus braços estavam me segurando como um travesseiro.

– Ei, mas o que voc-

– Shh! – fui interrompido

Apenas permaneci em silêncio, apreciando o toque gélido de sua pele que de algum modo, afastava as chamas que incendiavam meu coração.

Notas finais
Primeiro de tudo, obrigada por ler o capítulo até o final, de verdade! ^__^
Essa é minha primeira... "história" assim digamos.
Espero que eu não tenha abusado do diálogo e não tenha ficado cansativo, eu realmente me esforçei. D:
Espero vocês no próximo kapitel. =3