Dark Angel
28 Capítulo XXVII - Annabelle
Notas iniciais
O vento fresco bagunçava seus cabelos e agitava sua roupa, o cheiro de terra fresca entrava por suas narinas. Sentia a grama abaixo de seu corpo.
– Não vai abrir os olhos? — A voz brincalhona de Annabelle chegou aos seus ouvidos.
– Estou no céu ou no inferno? — Quinn sussurrou mantendo os olhos fechados.
– Isso é você quem decide. — A ponta do dedo de Annabelle seguiu a ponte de seu nariz. — Abra os olhos, eu amo os seus olhos.
Quinn os abriu e imediatamente piscou, a claridade do céu azul e limpo feriu sua retina. Annabelle se colocou na frente de sua cabeça e sorriu acariciando seu rosto.
– Olá. — Sussurrou sem deixar o sorriso morrer.
– Oi. — Quinn respondeu o sussurro. — Veio me buscar?
Annabelle deu de ombros antes de se levantar, Quinn apoiou-se nos antebraços olhando para a esposa, só então notou onde estava. Ilha de Pollepel.
Se sentou imediatamente e rapidamente levantou. A grama aparada, o castelo ainda em ruínas, um caminho de pedras ladeado por velas.
Girou no lugar vendo o local surgir aos seus olhos.
– Gostou? — Annabelle estava vestida com um vestido branco suave. — Foi como ela imaginou.
Quinn olhou para a mulher que sorria.
– No dia que você a trouxe aqui a primeira vez e dançou com ela, ela imaginou desse jeito o casamento perfeito. — Annabelle mantinha os braços atrás de seu corpo enquanto andava até Quinn.
– Annabelle...
– Eu amo a mulher que você se tornou, sabia? — Annabelle sussurrou parando diante de Quinn. — Amo tudo em você, seus erros, seus defeitos, seus acertos, suas qualidades, absolutamente tudo em você me faz te amar.
– Sinto sua falta. — A loira sussurrou.
– Estou aqui, sempre aqui. — A outra retrucou, sorrindo inclinou a cabeça. — Vamos caminhar?
Quinn permaneceu parada vendo a esposa se afastar.
– Estou morta? — Perguntou permanecendo onde estava.
– Eu não sei, isso ainda não foi decidido. — Annabelle respondeu continuando a andar sem olhar para trás. — Mas se quer saber, nesse momento seu coração não está batendo.
Quinn levou a mão ao peito sentindo o couro da roupa, olhou para baixo e não viu onde a flecha deveria estar, apenas o buraco na roupa e a pele pálida impecável.
Ergueu o rosto e se apressou atrás de Annabelle, andaram pelo caminho de pedras.
– Annabelle. — Quinn chamou em vão. — Annabelle.
Annabelle andou até estar no meio do pátio de pedra, não olhou para trás nem uma vez. Quinn suspirou vendo a decoração, velas espalhadas ao redor, mesas e cadeiras, a fonte com sua água límpida.
– Eu amei o lugar. — Annabelle se voltou para Quinn. — De verdade, amei o que ela fez com esse lugar.
Quinn olhava para a mulher tentando entender do que ela falava. Sua mente começava a acelerar.
– Onde está o Kyle? — Olhou em volta como se esperasse o homem sair de trás de uma das árvores.
Annabelle suspirou atraindo o olhar da esposa, seu semblante ficar mais pesado.
– Kyle tem um longo caminho para seguir. — A voz de Annabelle abaixou um tom. — Ele precisa passar por muita coisa.
*
Abriu os olhos claros, sentia seu rosto pressionado ao chão duro de terra. Seu corpo dolorido e a pele que ardia, sua garganta seca e a fome que tomava seu corpo. Tentou lamber os lábios secos, mas sua língua estava áspera e gosmenta. Respirou aquele ar pesado e árido e suas vias respiratórias protestaram. Empurrou-se para longe do chão, cambaleou sem conseguir manter as pernas firmes para sustentar seu corpo. Olhou em volta sentindo a desolação abater-se em seu corpo. A estrada se perdia para os dois lados, ele poderia avançar ou retroceder, mas se manteve parado. Perdido. Assustado. O grito lancinante que parecia vir de todos os lados o fez arregalar os olhos. Kyle curvou seu corpo na direção do chão. Estava sozinho e assim estaria até estar pronto.
*
– Ele está morto. — Quinn se sentou na beirada da fonte, suas mãos tremiam sem que ela pudesse controlar.
– Sim. — Annabelle se aproximou dela. — Kyle foi para um lugar que não podemos ajudar, até o momento em que ele estiver pronto para se perdoar e pedir por ajuda.
– Então ele ainda pode ser salvo. — Quinn sussurrou olhando para o chão.
– Quando ele aceitar que pode, sim. — Annabelle se sentou ao lado dela.
– Como você consegue? — Olhou para a esposa. — Como consegue falar em perdão?
– Por que o meu Deus ama e perdoa a todos. — Annabelle sussurrou de volta, sustentou o olhar de Quinn. — Sabe, antes de renascermos nós escolhemos pelo que queremos passar. Eu escolhi passar por tudo o que passei assim como ele escolheu passar por tudo o que passou. Eu tinha algo a ensinar a ele e ele tinha algo a me ensinar, então agora eu te pergunto. Como eu não posso perdoa-lo e ama-lo quando eu aceitei o que ele me oferecia?
Quinn se levantou passando as mãos pelos cabelos, sua respiração agitada a língua que lambia repetidas vezes o lábio superior.
– Eu não entendo. — Quinn apoiou as mãos nos quadris. — Eu sinceramente não entendo, como alguém pode escolher passar por isso e o que se pode aprender com isso.
– Bem, eu aprendi a amar de verdade. — Annabelle cruzou as pernas. — Ele me incitou a ir até você e você me tornou uma mulher muito melhor. Aprendi com você a ser altruísta, a ser uma mulher de verdade.
– E ele te tirou a vida. — Quinn se virou para ela rapidamente. — É uma troca justa?
– Ele me deu você Quinn, ele me deu uma vida e em troca eu lhe dei a minha. Então sim, pra mim foi uma troca justa. — Annabelle respondeu serena. — Não tente entender Quinn, não tente entender. O acordo que Kyle e eu tivemos só cabe a nós, agora o acordo que nós duas tivemos cabe a nós duas. Você me deu uma vida, um amor, uma filha maravilhosa e agora é a minha vez de cumprir a minha parte do acordo.
– Do que está falando? — Quinn sentiu a boca secar.
– Você tem uma escolha Quinn. — Annabelle se levantou. — Você pode escolher isso aqui... — Abriu os braços. — Ou pode ir comigo.
– Você disse que eu não morri. — Quinn olhou para ela.
– Eu disse que isso ainda não foi decidido. — Annabelle rebateu.
Quinn se virou olhando em volta, respirou fundo sentindo o peito queimar.
– Não entendo o que eu devo escolher. — Se virou para a esposa. — Escolher entre você e Melissa e entre isso aqui?
Annabelle sorriu com o canto dos lábios.
– Você vai entender. — Se aproximou tocando o braço de Quinn.
*
Quinn se apoiou contra a arvore olhado para as ruínas do castelo, Annabelle pairou ao seu lado antes de sentar.
– Eu adoro esse lugar. — A Fabray sussurrou. — Foi a melhor aquisição que eu fiz.
– Você só comprou o lugar porque sabia que seria o lugar perfeito para o casamento dela. — Annabelle a empurrou com o ombro. — Você a trouxe aqui antes mesmo de terminar as negociações e já estava dando como garantido. Você também comprou um teatro e mandou reformar... jogando tudo no chão basicamente.
Quinn olhou para ela antes de desviar os olhos, sentiu Annabelle lhe segurar pela mão e lhe obrigar a levantar para logo lhe puxar na direção de uma das entradas do bosque.
O pequeno lago rodeado por pedras logo apareceu na visão das duas.
– Tire essas roupas. — Annabelle se virou para ela. — Tome um banho.
– O que? — Quinn sorriu para ela sem entender. — Por que?
– Vai te fazer bem. — Annabelle inclinou a cabeça para o lado e respirou fundo. — Você precisa disso.
Quinn concordou com a cabeça e passou a se despir cuidadosamente, viu Annabelle se afastar, mas não deu importância. Dobrou suas roupas e as colocou próximas ao lago, a água fria pinicando sua pele. Deixou o corpo relaxar, respirou fundo algumas vezes inflando os pulmões e os esvaziando, abaixou o corpo afundando a cabeça. Esfregou os braços e as pernas com a água pura antes de lavar o tronco.
– Se sente melhor? — Annabelle estava sentada na grama olhando para ela.
Quinn continuou se esfregando vendo a pele clara se tornando vermelha, a loira parecia em transe como se quisesse livrar a pele de algo pegajoso e nojento.
– Quinn. — Annabelle a chamou.
A loira estalou a cabeça para cima como se tivesse a ouvido pela primeira vez.
– Já está bom. — Annabelle se aproximou segurando roupas limpas e claras. — Vista essas aqui.
Quinn concordou com a cabeça antes de se içar para fora do pequeno lago e Annabelle recolher suas roupas antigas e se afastando outra vez.
Quinn secou o corpo com um pano macio antes de colocar as roupas leves que a esposa havia lhe trazido.
*
– Isto é real? — Quinn olhou para Annabelle. — Será que isso está realmente acontecendo? Eu estou mesmo com você? Porque eu não sei se aguento isso Annabelle, não sei se aguento que seja só um sonho.
Annabelle suspirou erguendo a mão e limpando a lágrima que escorrera pelo rosto de Quinn.
– Seu corpo está lá, lutando para te manter viva, mas seu espírito precisava se recompor e é por isso que eu estou aqui.
– O que? — Quinn sussurrou.
– Você tem uma escolha, você pode ficar aqui comigo e morrer para ela ou você pode voltar para ela e eu estarei aqui neste lugar ou melhor, em um lugar parecido com este e estarei esperando para te ver outra vez. — Annabelle sorriu transmitindo sua paz para a mulher.
– E se eu não puder escolher? — Quinn lambeu os próprios lábios. — E se eu não puder escolher entre você e ela? Eu amo vocês duas, eu não posso escolher. Não posso dar adeus.
Annabelle acariciou o rosto de Quinn, sorriu para a mulher.
– Não é um adeus, para nenhuma de nós. — Fechou os olhos respirando fundo. — Respire, porque a sua decisão você já tomou.
Quinn deu um passo para trás fugindo do toque de Annabelle, pareceu perdida por um instante.
– Não, eu não tomei.
– A sua mente diz que não, mas o seu coração diz que sim. — Annabelle ergueu a mão na direção do peito de Quinn. — Meu amor, não se preocupe.
Quinn correu a mão pelos cabelos, se virou andando até estar apoiada na pequena mureta, de frente para o pôr-do-sol.
– Sabe quando ela te disse sim? — Annabelle perguntou parando atrás de Quinn. — Aqui, naquele dia?
– Sei. — A loira sussurrou.
– Ela não estava dizendo sim ao lugar. Ela não dizia sim ao casamento. Ela dizia sim a você, ela se rendia a você sem forças para lutar contra. — Annabelle se aproximou, passou os próprios braços por baixo dos braços de Quinn envolvendo os ombros da loira, sorriu.
Quinn fechou os olhos inclinando a cabeça para frente, a lágrima deslizou pelo seu nariz pingando sobre a pedra.
– Sim. — Quinn sussurrou.
Annabelle sorriu sentindo os olhos se encherem de lágrimas.
– Eu disse que havia amado o que ela tinha feito aqui. — Sua mão tocou o local onde o coração de Quinn estava. — Ela te reconstruiu Quinn. Ela te pegou em ruinas e te transformou em uma fortaleza outra vez. Um lugar lindo, forte, seguro e acolhedor.
Quinn chorava em silêncio, a pedra se manchava diante de suas lágrimas.
– Sim. — Sua voz saiu um pouco mais alto.
– Ela transformou a tua loucura em sanidade. Amar a ela, não diminui o amor que tem por mim. Amar a ela não é desrespeito a minha memória. Amar a ela não apaga a nossa história. Voltar a viver não desrespeita a minha morte. Seu coração bate Quinn, seu coração bate, forte e sadio.
A loira soltou um lamento, seus ombros subiam e desciam com sofreguidão.
– Sinta ele bater, sinta teu corpo se encher de amor e paz. — Apoiou sua testa a têmpora da loira. — Sinta o sangue circular suas veias, quente e poderoso. É vida Quinn, é vida. É amor. É perdão. É o que te deixa mais forte, é o que te faz ser este indivíduo dotado do bem mais precioso de Deus. É vida meu amor. É vida.
– Sim! — Quinn gritou erguendo o rosto para o céu, seus olhos fechados apertados enquanto sua nuca roçava no ombro de Annabelle que lhe sustentava o corpo sem forças.
– Se essa é a tua vontade, que assim ela seja feita. — Annabelle sussurrou no ouvido de Quinn. — Respire fundo. — Sentiu a loira encher os pulmões de ar limpo como havia sido instruída. — Agora abra os olhos meu amor.
Quinn sentiu seu queixo tremer, a sensação que sufocava aos poucos enquanto o corpo de Annabelle se afastava do seu. Era o mesmo que estar caindo em queda livre.
– Abra os olhos Quinn, sabe que sempre amei seus olhos. — O sussurro em seus ouvidos era distante, quase um eco. — E saiba que nunca lhe abandonarei.
E então ela abriu os olhos.
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