Dark Angel
15 Capítulo XIV - Desapegar
O quarto com uma luz fraca estava na penumbra, a sombra do homem sentado na escrivaninha recortando o jornal era bem definida. Ele assobiava baixo enquanto contornava as figuras do jornal com a tesoura. Ergueu os olhos azuis para o quadro de cortiça, soltou a tesoura e ajustou a luz para que ele fosse iluminado.
– Boa noite meu amor. – Sussurrou com um sorriso. – Você voltou para a empresa, fiquei feliz com isso, sabia?
Acariciou uma foto de Quinn com os dedos, a loira estava em uma loja de café quando ele tirara aquela. Ela sorria para a atendente.
– Você tem saído tanto ultimamente. – Sussurrou se levantando para prender o recorte de jornal. – Tudo por causa dela. – A voz ficara mais irritada.
Pegou uma caneta vermelha e riscou o rosto de Rachel no recorte, Quinn e ela tinham ido checar a obra do teatro e o jornal achara que era uma boa matéria.
– Meu anjo. – Sussurrou afastando a caneta, antes que manchasse Quinn sem querer. – Ela precisa ir embora. Você não acha?
*
Quinn ergueu a cabeça quando ouviu a batida na porta.
– Senhora, o que a senhora havia pedido já está… no quarto.
Quinn concordou com a cabeça antes de se levantar, parou tomando um ar. Sem pensar e sem parar caminhou saindo do cômodo e passando pelo senhor, andou devagar até a porta branca onde o desenho de Peter Pan com Wendy estava pintado. Hesitou por um segundo antes de tocar a maçaneta e gira-la. O quarto de Melissa continuava o mesmo, o máximo que permitia era que entrassem para limpar e apenas isso a única coisa fora do lugar eram as caixas de papelão que se amontoavam ao lado de uma parede.
Lambeu os lábios sentindo a garganta arder, era aquilo. Precisava fazer.
Nos últimos dias Quinn sentiu a vontade de doar algumas coisas de Melissa se apoderar de seu corpo e de sua mente. Tocou algumas bonecas da prateleira.
– Está na hora. – Sussurrou segurando uma em suas mãos. – Na hora de te arranjar uma nova dona e de você brincar outra vez.
Pegou uma caixa e com cuidado começou a guardar algumas bonecas, precisou parar e segurar algumas em suas mãos. As preferidas da menina. As segurava junto ao seu corpo por alguns instantes e fechava os olhos, quase podia ouvir a risada da filha e o toque de sua pele. As guardava em seguida com todo cuidado.
A batida suave na porta a tirou daquele breve ritual.
– Atrapalho? – Kyle perguntou abrindo a porta devagar.
– Não. – Quinn limpou o rosto. – Estou… separando algumas coisas… para doar.
Kyle fechou a porta em suas costas e respirou fundo olhando ao redor.
– Me ajuda? – Olhou para o homem.
Kyle olhou para ela e concordou com a cabeça lentamente, suspirou com força olhando para a casinha de bonecas no canto do quarto.
– Lembra quando eu trouxe essa? – Se aproximou com um pequeno sorriso. – Ela ficou louca.
– Não parou de pular até que você terminou de montar. – Quinn sorriu fechando os olhos.
– E ai eu tive que brincar. – Kyle se agachou pegando o carro que estava na garagem da casinha. – Eu gostava de ouvir as histórias que ela inventava.
– Eu também. – Quinn lambeu os lábios, se aproximou da cama pegando o bichinho de pelúcia. – Quero manter esse.
Kyle virou a cabeça para olhar, era a pelúcia com a qual Melissa dormia, concordou com a cabeça.
– Mantenha, mas… fico feliz que tenha resolvido doar algumas coisas.
Quinn concordou com a cabeça cheirando a pelúcia.
– Eu também. – Sussurrou, limpou o rosto. – Vamos, temos muito trabalho a fazer.
Kyle sorriu para ela e olhou para o carrinho em suas mãos.
– Pegue o que quiser. – Ela falou mansamente para o cunhado. – A casa se quiser.
– Não. – Kyle negou com a cabeça. – Estava pensando que… essa casinha iria fazer a alegria de algumas crianças naquele orfanato.
Quinn se aproximou o acariciando nos ombros.
– Eu sei de qual está falando, talvez devêssemos colocá-lo na lista de instituições que ajudamos. – Quinn apertou os ombros dele.
– Ia te sugerir isso hoje no jantar. – Kyle apoiou a cabeça no abdômen de Quinn.
– Então vamos arrumar as coisas para levar para lá. – Quinn se afastou voltando-se para outros brinquedos que tinha no quarto. – Ainda precisamos mexer na sala de brinquedos.
– Rachel gostaria de ajudar. – Kyle se levantou aproximando-se da estante. – Não acha?
– Irei ver com ela, mas tenho quase certeza que sim. – Quinn concordou com a cabeça.
– Quinn… — Kyle a chamou. – Será que por hoje… Dark Angel poderia tirar uma folga? Por Melissa.
Quinn o fitou antes de concordar com a cabeça.
– Só por hoje. – Suspirou dando as costas para o cunhado.
*
Finn encarou Rachel sem entender, franziu as sobrancelhas grossas e soltou a respiração.
– Como assim Rachel? – Ele perguntou com calma. – Terminar o noivado?
– Sim. – Rachel respondeu sentada do outro lado do sofá. – Eu quero terminar.
– Mas… — O homem parou. – Acabamos de ver o lugar, o bufê e você já estava procurando seu vestido.
Rachel olhou para os seus dedos entrelaçados.
– Eu entendo você estar com medo. – Finn tentou se aproximar dela, mas Rachel se levantou. – Amor ter medo é normal.
– Não, eu não tenho medo. – A morena moveu as mãos. – Eu pensei bem nisso. Levei as últimas oito semanas pensando nisso.
– E em oito semanas resolveu jogar fora nove anos? – Ele se levantou. – Rachel?!
– Foram nove anos lindos ao seu lado, mas eu não quero mais. – Ela devolveu. – Acabou e continuar, casar seria um grande erro. Me desculpe. – Começou a chorar. – Mas eu não posso casar com você.
Finn abriu e fechou a boca algumas vezes, correu os dedos pelos cabelos.
– Eu posso mudar. – Sussurrou para Rachel.
– Não quero que você mude. – Rachel fechou os olhos chorando. – Entende que não é você, sou…
– É você? – Finn cuspiu se alterando. – É essa a merda que falam quando a culpa é do outro.
– Mas não é. – Rachel suspirou. – Você tem os seus defeitos, mas eu aprendi a conviver com eles. Você teve seus erros e nós aprendemos a supera-los. Eu tenho os meus defeitos e você aprendeu a conviver com eles e eu tive os meus erros que superamos juntos, mas Finn… é isso que você quer? Alguém que você tolera os defeitos?
– Você quer que eu tente te mudar? – Ele abriu os braços. – Ótimo. Então amanhã você vai comer carne e… e… vai parar de trabalhar. E vai… vai… parar de cantar no chuveiro enquanto eu estou dormindo. Está resolvido, vamos casar.
– Não vamos nos casar! – Rachel gritou. – Não vamos. Não quero tolerar os teus defeitos, não quero estar com você por comodidade e sim por amor!
– Você não me ama mais? – Finn a encarou, estreitou os olhos. – É ela? Não é? Você se apaixonou por ela e por isso está largando nossa relação. Acha que essa mulher vai te amar algum dia? Rachel ela venera a mulher morta.
Rachel aprumou os ombros.
– Não é ela. – Ergueu o queixo fitando ele. – É por mim. É por você. Não vou colocar nós dois em um casamento que só vai sair porque outra pessoa se dispôs a produzi-lo porque se fosse por nós dois? Só iriamos adia-lo ainda mais. Abra os olhos Finn. Nosso relacionamento acabou a anos.
– E porque agora você quer terminar? Porque agora e não antes? – Ele avançou pairando sobre ela. – O que mudou Rachel?
– Eu mudei! – Gritou encarando ele. – Eu cansei. Eu cresci! Nossos sonhos são diferentes, nossas visões de mundo são diferentes… e eu cansei de tentar conciliar nós dois. Você foca a sua carreira e eu a minha, você vem aqui pra casa… jantamos… transamos… cada um vira pro lado e dorme.
– Podemos mudar isso. – Ele agitou os braços elevando o tom de voz. – A verdade é que você não quer mudar. Você não quer tentar!
– Cansei de tentar! Você nem está me ouvindo. – Esfregou o rosto.
Finn a pegou pelos ombros a sacudindo.
– Olha pra mim!
– Tira as mãos dela, Finn. – Sam estava na porta com Kurt, o moreno ainda estava com a chave na mão.
– Não se mete. – Ergueu um dedo trêmulo para Sam.
– Não vou, mas você vai conversar com ela direito. – Sam passou por Kurt. – Solta.
Finn a soltou e se afastou, olhou para Rachel.
– Nosso noivado continua.
– Não, não continua. – Rachel pegou a bolsa e o casaco. – Tire suas coisas daqui ainda hoje.
– Onde você vai? – Finn tentou avançar, mas Sam o segurou.
Rachel vestiu o casaco e pegou Kurt pelo braço o puxando para fora do apartamento, esmurrou o botão do elevador.
– Tira ele daqui. – Pediu ao amigo enquanto ouvia os gritos de Finn com Sam. – Por favor.
– Onde você vai?
– Não sei.
– Fabray, entendi. – Kurt acenou com a cabeça, puxou Rachel para um abraço apertado. – Estou aqui e te apoio. Vá atrás dela.
– Não vou fazer isso, Kurt. – Rachel negou com a cabeça. – Não terminei com o meu noivado para atazanar a vida dela.
– Não falei em atazanar e sim em… completar.
Rachel entrou no elevador e apoiou a cabeça contra a parede tentando conter a dor de cabeça que pulsava em sua testa. Correu para a rua assim que conseguiu se livrar da caixa metálica. Andou pela rua desviando das pessoas, seus olhos ardiam do choro contido, mas ela se recusava a parecer frágil na rua, entrou no primeiro táxi que atendeu o seu sinal.
Kurt estava certo. Ela iria até Quinn.
Fale com o autor