Dark Angel

12 Capítulo XI - Luz e trevas


Rachel estava sentada de lado no sofá olhando para uma Quinn pálida que mantinha seus olhos fechados enquanto respirava pesadamente. Havia conseguido arrastar a loira para dentro da sala e a colocar sentada no sofá antes de fechar a porta trocando um olhar com a senhora que lhe acenou com a cabeça. Rachel confiava que o que for que estivesse acontecendo naquele momento iria ficar entre as três. Trancara a porta e voltara para o lado de Quinn onde estava desde então.
– Desculpe. — Quinn sussurrou.
– Não me peça desculpas por nada. — Rachel respondeu no mesmo tom. — Se não quiser falar, ficaremos aqui em silencio.
Quinn virou o rosto abrindo os olhos verdes penetrantes para fitar Rachel, a morena respirou fundo. Com os dedos trêmulos ergueu a mão acariciando a linha do maxilar da loira.
– Estou aqui para guardar todos os teus segredos. — Sussurrou para a loira antes de descer a mão tocando suavemente onde ela lembrava ser o machucado de Dark Angel. — Todos eles, Quinn.
Quinn mordeu o lábio, por um segundo quase confessou o maior de todos. Por muito pouco não sussurrou que via a esposa falecida, conversava com ela. Preferiu dar um sorriso amargurado e comentar com a voz rouca.
– Uma mulher com sérios desequilíbrios emocionais e mentais.
Rachel abriu um pequeno sorriso sentindo a pele se arrepiar, sussurrou de volta.
– Uma mulher que se cansou de esperar uma justiça que nunca veio, cansou de ver o povo sofrer com uma justiça inexistente.
– Sou perigosa, Rachel.
– O que é a vida sem riscos?
– Sou instável, Rachel.
– Você é encantadora.
– Não faça isso.
– Não fazer o que?
– Não se apaixone por mim.
Rachel suspirou antes de devorar o rosto de Quinn com os olhos.
– As vezes acho que isso é impossível. — Lambeu os lábios secos. — Mas você está certa, não posso me apaixonar por você. Mas não é pelos motivos que você pensa, não é pela sua suposta instabilidade e periculosidade. Não é porque você pula de prédio em prédio caçando bandidos, protegendo mulheres indefesas. Não é pelo Finn ou pelo meu casamento. Não é por mim. É por você e por respeitar o amor que você sente por Annabelle.
Afastou a mão deitando a cabeça contra o sofá, seus olhos nunca se desviando dos olhos de Quinn.
– É por ver o quanto ela te faz falta e como mesmo após a morte dela você continuou a ama-la acima de qualquer coisa. Eu respeito isso. E não vou estragar nossa amizade tentando macular esse amor. Aceito ter a tua admiração se assim for. Teu amor de amiga. Isso me basta.
– Não parece ser mulher de se conformar. — Quinn arqueou a sobrancelha.
– Me conformei em esperar por tantos anos por um casamento que ainda vai levar mais um ano para se realizar. — Rachel soltou uma risada baixa e amargurada.
– Mais um ano? — Quinn se ajeitou ficando de lado no sofá.
– Finn quer se estabilizar com mais segurança, e esperar ter dinheiro para bancarmos o casamento. — Rachel deu de ombros.
– Ele já está estabilizado. — Quinn manteve as sobrancelhas franzidas. — Ele é um dos gerentes de projeto que mais tem produzido aqui dentro. Comentei com o Kyle de passar um projeto para testa-lo, Kyle me disse que ia estudar uma promoção para ele se desse certo, mas demitido ele não vai ser.
Rachel soltou um suspiro e olhou para baixo brincando com os dedos.
– É bom ouvir isso, sinto muito orgulho dele.
– Rachel... — Quinn a chamou fazendo a mulher erguer a cabeça. — Me deixe dar um presente de casamento?
– Como?
– Me deixe dar o casamento a vocês. — Quinn sorriu suavemente. — Toda a cerimônia e a festa, onde vocês quiserem. Da maneira que vocês quiserem.
Rachel se aprumou olhando para ela.
– Não tem cinco minutos que estávamos falando sobre eu me apaixonar por você e agora você fala em pagar o meu casamento? — Franziu o cenho olhando para Quinn. — Está me comprando?
– De maneira alguma. — Quinn ergueu as mãos. — Não pensei nisso nem por um segundo se quer. Apenas quero garantir que você tenha o dia dos teus sonhos, um dia de princesa. Rachel, por favor, não pense errado. Não quero que se ofenda comigo.
Rachel desviou os olhos soltando um suspiro, acenou com a cabeça. Quinn se inclinou colocando a mão sobre o braço de Rachel.
– Você é uma mulher incrível e não merece continuar esperando. Me deixe fazer isso, por favor?
Rachel concordou com a cabeça, mordia o lábio timidamente. Olhou para Quinn.
– Como foi o casamento de vocês? — Sussurrou voltando a se encolher no sofá, apoiou a cabeça contra o encosto.
Quinn suspirou assumindo a mesma posição que ela.
– Foi... um sonho...

Quinn sentia a areia por entre seus dedos enquanto sorria olhando para Annabelle, a mulher deixava a lágrima escorrer pelo rosto durante a assinatura do casamento civil. A cerimônia na praia fora do jeito que as duas planejaram, o dia estava claro e a brisa suave fazia com que os vestidos se ondulassem contra os corpos de ambas. Quinn entrelaçou seus dedos aos de sua esposa e a puxou soltando uma risada pelo corredor entre as cadeiras de convidados que aplaudiam as duas.
Annabelle puxou Quinn e a loira imediatamente se aproximou a beijando nos lábios com um sorriso tímido.
– Te amo. — Sussurrou tão baixo que Annabelle custou a ouvir.
– Eu te amo. — A inglesa respondeu com um sorriso largo nos lábios cheios.
Quinn a segurou pela cintura ajeitando os cabelos loiros da esposa, seus olhos deslizando pelos angulos do rosto da mulher. Com a ponta dos dedos traçou os pequenos traços do rosto da esposa.
– Linda. — Apoiou sua testa na dela.
Estavam ciente que eram observadas pelos convidados, era o dia delas. Era a declaração de amor mais clichê e mais original que um casal pode dedicar ao outro, a promessa de uma vida compartilhada. É olhar para um futuro conjunto. Uma eterna busca pela felicidade que vem de graça em momentos tão pequenos que muitos não enxergam.

Quinn tinha um olhar distante, Rachel se manteve calada olhando para o perfil da loira.
– Melissa hoje estaria completando 9 anos. — Moveu a mandíbula travando a musculatura. — Eu fico pensando se ela já estaria começando a ter mudanças no corpo, ou se.. já teria tido sua primeira grande decepção amorosa onde o mundo estaria acabando.. ela insistindo em ir com Annabelle ao salão de beleza...
Rachel deu um sorriso pequeno, apoiou a mão no encosto do sofá e deitou a cabeça por cima.
– Eu aposto que ela estaria fazendo tudo isso. — Sussurrou baixinho para Quinn.
Quinn suspirou abaixando a cabeça, soltou uma risada baixa e curta.
– Hoje fazem seis anos que não tomo sorvete. — Brincou com seus dedos antes de correr a mão pelos cabelos longos. — Ela adorava, era a sobremesa favorita.
Rachel se inclinou para ela, segurou a mão de Quinn que estava parada e buscou os olhos verdes com seu olhar.
– Venha tomar sorvete comigo. — Pediu. — Por Melissa.
Quinn desviou o rosto, mas Rachel a segurou pelo queixo puxando para que a loira lhe olha-se.
– Vou correr o risco de ser uma imbecil agora, mas acha que deixar de tomar sorvete irá amenizar a saudade que sente dela? — Sua voz saiu baixa e séria. — Se impedir de fazer as coisas não é uma maneira de preservar a memória das duas e muito menos de manter as duas vivas na sua vida. Posso não ter conhecido as duas, mas quando penso em Melissa eu imagino que ela tenha o teu sorriso ou a sua mania de inclinar a cabeça para o lado quando algo te interessa. Quinn... Melissa está em você e isso ninguém no mundo vai poder tirar. Fazer novas lembranças, não irão apagar as que tem com ela.
Quinn suspirou fechando os olhos.


*


Quinn olhava pela vidraça da sorveteria enquanto Rachel estava no balcão fazendo os pedidos, havia se recusado a deixar a loira escolher. Disse que era questão de honra escolher o primeiro sorvete que a loira tomaria com ela.
– Pronto. — A morena se sentou colocando um prato na frente da loira e a taça de sorvete na sua frente. — Já deixo claro que estou quebrando meu código moral, não concordo, mas acho que é o que você vai gostar.
Quinn arqueou a sobrancelha antes de olhar para o prato. Viu o cookie que estava por cima e a generosa bola de sorvete de baunilha com o que jurou serem pedaços de... bacon?
– Bacon? — Soltou uma risada incrédula, ergueu o cookie e teve certeza. — Sorvete com bacon?
– Coma logo antes que eu comece a ouvir os porquinhos indefesos. — Rachel fechou os olhos tampando os ouvidos com as mãos.
Quinn soltou outra risada antes de fechar o sanduíche re-colocando o cookie no topo, suspirou e com cuidado pegou na mão dando uma mordida. O doce e o salgado lhe agradaram de imediato, Rachel entreabriu os olhos apenas para olhar o sorriso singelo que a loira dava antes de dar outra mordida.
– Gostou? — Abaixou as mãos olhando para a loira.
– Por pior que pareça é delicioso. — Quinn respondeu deixando o sanduíche no prato, limpou os dedos e os lábios com o guardanapo.
– Espero que seja. — Rachel resmungou antes de dar uma colherada no próprio sorvete vegano. — Porquinhos morreram para que eu visse esse sorriso.
Quinn abriu um sorriso mais largo antes de se inclinar para segurar a mão de Rachel.
– Obrigada. — Deu um sussurro. — Pelo esporro... é algo... complicado.
– Eu sei que é. — Rachel pousou sua mão sobre a de Quinn. — Mas o importante é que você está tentando. Não quero que se empurre em tudo de cabeça, mas que se permita ir devagar testando coisas que já te fizeram bem.
– Não consigo me ver amando outra vez, ou construindo família. — Quinn suspirou, voltou seus olhos para o prato e com a ponta dos dedos quebrou um pedaço do cookie pegando um bom pedaço de sorvete.
– Eu disse devagar, com pequenos passos e não os longos e difíceis. — Rachel rolou os olhos. — Eu fiquei feliz quando Edgar me disse que você havia resolvido ir trabalhar hoje.
– E tive uma crise histérica por isso. — Resmungou ignorando a ardência em sua nuca pela meia mentira.
– Crises fazem parte. — Rachel segurou o pulso de Quinn outra vez. — Basta saber lidar com elas, eu disse Quinn. Melissa está dentro de você e Annabelle também está. Um dia talvez apareça a mulher que vai te fazer sentir algo.
– Não como Annabelle me fez sentir. — Ergueu os olhos para Rachel.
– Como Annabelle ninguém nunca fara. — Rachel sentiu uma pontada incomoda no peito, sustentou o olhar de Quinn. — Você nunca se apaixona do mesmo jeito. Nem pela mesma pessoa você se apaixona da mesma maneira. São sempre pequenas coisas, coisas diferentes que irão te fazer amar essa pessoa ou a mesma pessoa. Os defeitos e as qualidades. Como você amou Annabelle nunca mais vai amar alguém, mas quem sabe um dia não irá amar outra pessoa de uma forma tão bela quanto?
Quinn não conseguiu sustentar a intensidade do olhar de Rachel pela primeira vez desde que a conhecera, abaixou os olhos e retornou a comer seu sanduíche de baunilha com bacon. Rachel se recolheu ao silencio da loira e se ateve a devorar sua taça de sorvete.

*


– Eu nunca fui ao cemitério. — Quinn soltou enquanto andavam lado a lado pelas ruas de New York, o céu pesado como chumbo deixava claro que iria chover em breve. — Nem para o enterro delas.
– Nunca? — Rachel olhou para a loira sem acreditar.
– Não. — Quinn negou com a cabeça, sua voz era amarga. — Como que eu iria enterrar os pedaços da minha filha e da minha esposa? Já foi muito ter que ir identifica-las. Ter que olhar para aqueles pedaços de carne que diziam ser das duas mulheres que mais amei na vida.
Rachel agarrou o braço de Quinn sentindo uma onda de náusea, a loira rapidamente a apoiou.
– Desculpe. — Sussurrou sem jeito evitando olhar Quinn. — Desculpe.
– Eu que peço, não deveria ter falado desse jeito. — Quinn respondeu com as sobrancelhas franzidas. — Não sei por que Rachel, mas você me arranca as palavras mais verdadeiras que carrego.
Rachel olhou para a loira, percebeu que os olhos verdes estavam mais sombrios do que normalmente estariam. Uma sombra escura tomava os dois.
– Gosto quando é verdadeira. — Rachel respondeu. — Apenas não gosto quando te sinto tão pesada e carregada desse jeito.
Quinn afastou a mão das costas de Rachel e abaixou a cabeça retornando a andar, a morena lhe seguia. A chuva começou a cair e nenhuma das duas tinha guarda-chuva naquele momento, era fina e quase insignificante em um primeiro momento, mas logo os pingos grossos e gelados começaram a se apresentar. Tinham entrado pelo parque e naquele momento nenhum abrigo era visto.
– Merda. — Quinn resmungou apressando o passo, ouviu a risada de Rachel e se virou para olhar.
A morena estava de olhos fechados e braços abertos com o rosto virado para a chuva.
– Rachel o que esta fazendo? — A loira perguntou sem entender.
A morena mordeu o lábio inferior sorrindo, uma mecha de cabelos escuros estava preso aos seus lábios. Abriu os olhos escuros encarando Quinn.
A loira sentiu o peito acelerar aos poucos e a respiração lenta esvair de seu corpo. Sua voz se calou enquanto via Rachel rir como criança brincando na chuva como se fosse uma menina outra vez. O pequeno sorriso lhe tomou os lábios quando a morena começou a dançar qualquer musica que estivesse cantando.
– Vai se gripar. — Quinn comentou calmamente embora e estivesse amando ouvir ao vivo a voz da morena. — Pode perder a voz.
Rachel parou levando as mãos a garganta, correu até Quinn a pegando pelo pulso e desatando a correr carregando a loira consigo.
Saíram do parque e correram em busca de algum lugar que fosse seco, um táxi fora a escolha mais rápida. Quinn disse o endereço para o homem assim que bateu a porta do carro.
Rachel apoiou a cabeça no banco do carro respirando fundo algumas vezes, o sorriso puro apareceu em seus lábios.
– Tinha tempo que não brincava assim...
– Não entendi porquê fez isso. — A loira olhou para ela com as sobrancelhas arqueadas.
– Porque por um instante me senti leve como uma criança. — A morena respondeu virando o rosto para olhar a loira.
Quinn olhou para ela e acenou com a cabeça lentamente vendo a morena olhar para a janela ao lado dela. Quinn ergueu os dedos afastando a mecha de cabelos que ainda estava presa aos lábios de Rachel, a morena lhe ofereceu um sorriso agradecido e voltou sua atenção para a janela.
– Por quê foi me procurar hoje? — Quinn sussurrou.
Rachel olhou para ela, os lábios cheios meio entreabertos.
– Passei o dia dispersa... pensando... — Tocou com a ponta dos dedos o local abaixo do machucado que Quinn carregava no braço. — Senti uma necessidade quase absurda de estar com você.
Quinn concordou com a cabeça mantendo o olhar de Rachel.
– Obrigada Rachel. — Soltou um suspiro. — Obrigada por tudo, de verdade. Talvez você não entenda o tamanho do bem que está me fazendo. Mas sou grata. Como posso retribuir? Sinto que sempre estarei em divida com você.
– Seja feliz. — Rachel fechou os olhos respirando fundo. — Apenas... volte a ser feliz Quinn e terá me pagado tudo, mesmo que não me deva nada.
– Estranho... — Quinn se inclinou para ela, seus narizes se roçaram levemente. — Eu achei que era a heroína da história.
– Qual história? — Rachel olhava para os olhos verdes sentindo o coração acelerar e a boca secar de leve.
– A nossa história oras. — A loira deu um meio sorriso com o canto dos lábios. — Você é a mocinha que salvei, não se lembra?
– Hnnnn... — Rachel respirou sentindo o cheiro de Quinn. — Posso ser sincera? Acho que nessa história você é a mocinha que precisa ser salva e eu cheguei no cavalo branco.
Quinn arqueou a sobrancelha.
– Na verdade sou eu que costumo salvar. — A Fabray respondeu com calma. — Mas não sou o príncipe que chega no cavalo branco. Não gosto desses clichês... prefiro usar couro preto e um arco com uma aljava bem carregada. Pular pelos prédios caçando bandidos e salvando as mulheres indefesas.
Rachel lhe tocou a ponta do nariz com o indicador subindo pela ponte traçando a sobrancelha direita e descendo para a linha do maxilar.
– Esse rosto lindo e delicado esconde então uma dama de aço escurecido pelas trevas que lhe cercam? — Sussurrou acariciando o rosto de Quinn, estavam tão perto que olhava para a sombra nos olhos verdes profundos. — Então eu serei a luz que vai penetrar nessa armadura e fazer o aço que a protege reluzir tão brilhante que irá ofuscar até o próprio sol.
Quinn deu outro meio sorriso, Rachel desviou os olhos para os lábios rosados e inconscientemente lambeu os lábios.
– Senhoras, chegamos. — O taxista avisou tirando as duas daquele pequeno momento de intimidade.

Notas finais
@just_someone13 e ask.fm/PSomeone