Dark Angel
13 Capítulo XII - Sanidade
“Amei ao ponto da loucura; mas o que é considerado loucura, é para mim, a única maneira sensata de amar.” Françoise Sagan
Quinn apoiou o pé sobre o parapeito do prédio, o capuz estava sobre os seus ombros e o arco em sua mão.
– Quando você vai me dizer quem foi? – Não precisou olhar para trás para saber que Annabelle estava parada próxima a ela escondida nas sombras.
– Porque não é necessário. – Annabelle respondeu com calma. – Se fosse necessário eu teria te dito a anos atrás.
– Para mim é necessário. – Quinn se virou para ela. – Eu quero saber quem fez isso.
– Para que? – Annabelle franziu as sobrancelhas se aproximando para entrar no campo de visão de Quinn. – Para se vingar? Para derramar mais sangue do que você já está fazendo?
– Estou limpando a cidade dessa escória. – Quinn apertou o arco com os dedos.
– E eu já deixei bem claro minha opinião sobre isso. – Annabelle suspirou. – Você não nasceu para isso Quinn, não nasceu para fazer justiça com as próprias mãos.
– E qual é a justiça que devo esperar então? – Rosnou em voz baixa.
– A divina. – Annabelle se aproximou devagar. – Não perca a fé.
– Fé? – Quinn soltou uma risada fraca. – Eu não tenho mais fé a muito tempo. Como vou ter fé depois de tudo?
– A fé é o que mantém a sanidade dos homens. – Annabelle sorriu para ela.
– E quem disse que eu mantenho a minha sanidade? – Quinn soltou uma risada amarga.
– É claro que mantém. – Annabelle andou até ela a circulando devagar. – Olhe para você. Segura de si outra vez, dona de seus negócios, andando pela cidade como se fosse o seu lugar natural. Diga o que quiser, mas você é sã e ainda tem fé, mesmo que não acredite.
– E em que eu tenho fé? – Tensionou o maxilar. – Em algo ou alguém que me tirou você e Melissa? É nisso que eu tenho fé? Me diga, Annabelle, você quer que eu tenha fé naquele que me deixou vazia como uma concha?
– Um dia irá entender que tudo acontece por um motivo. – Annabelle sussurrou em seu ouvido.
– Me diga quem foi. Me deixe sanar minha sede de vingança. – Falou entre dentes vendo a mulher se afastar.
– Não posso.
– Por quê?
– Eu já o perdoei. – Annabelle sorriu.
– Como você pode? – Quinn deu um passo na direção dela, apertou o arco sentindo os tendões repuxarem. – Como pode perdoar esse bastardo?
– Porque eu o amo. – Annabelle manteve o sorriso.
– Como você pode amar o teu assassino? – Quinn queria gritar, mas a sua voz saiu baixa. – Como pode amar o assassino de nossa filha?
– Porque amar incondicionalmente e acima de tudo perdoar com todo o seu coração é o primeiro passo. – Annabelle suspirou. – Eu não espero que você o perdoe e o ame, pelo menos… não agora. Não nesse momento, Quinn, mas um dia talvez você possa.
– Nunca. – Quinn rosnou entre os dentes.
– Então talvez você nunca alcance a paz e nunca me deixe alcança-la. – Annabelle perdeu o sorriso e seu semblante ficou mais pesado. – Então você nunca me permitira me reunir com nossa filha outra vez.
Quinn engoliu em seco olhando para o outro lado.
– Como? – Sussurrou sentindo os olhos se encherem de lágrimas. – Como espera que eu ame e perdoe o monstro que destruiu a minha vida?
– É difícil de entender. – Annabelle sussurrou. – Eu sei que é, mas você deveria tentar. Você precisa de paz Quinn, e eu também preciso. Está na hora Quinn, está chegando a hora de dizer adeus.
– Você não pode me obrigar a isso. – Quinn disse entre dentes.
– Mas eu não estou. – Annabelle fechou os olhos sentindo a lágrima escorrer pelo seu rosto. – Eu estou apenas sentindo, entende? Sentindo que a cada dia que se passa você está mais forte, mas próxima a luz. – Ousou esboçar um sorriso. – Não sente? Pois, eu sinto. Sinto que tem algo guardado para você e é grande. É… quente… suave…
Quinn se aproximou aos poucos, seus joelhos fraquejaram e ela caiu sentindo uma leve dor. Olhava para Annabelle sem esconder suas lágrimas.
– Annabelle. – Sussurrou baixinho.
– Um dia Quinn, você poderá saborear a graça da comunhão e eu estarei te esperando. – Annabelle olhou para ela. – Eu te amo Quinn, eu aprendi a te amar de uma maneira que não posso descrever. Sou grata a isso. O perdoo por isso.
– Perdoa quem? – Quinn sussurrou.
– Um dia você saberá. – Annabelle levou a ponta dos dedos aos lábios e os beijou, estendeu a mão para Quinn. – Meu eterno amor.
Annabelle deu um passo para trás se fundindo a escuridão.
– Annabelle não me deixe. – Quinn murmurou agoniada. – Eu não estou pronta.
– Mas em breve estará. – Ouviu o sussurro, sem poder ver a falecida esposa.
Quinn tremeu sentindo o choro forte tomar conta de seu corpo. O grito rasgou sua garganta. Forte. Poderoso. Doloroso. Era o que estava a aprisionando. Era libertador.
*
Rachel se virou saindo do abraço que Finn lhe dava. Suspirou quando os dedos dele iniciaram um carinho sutil ao longo de sua coluna e logo os beijos leves que eram depositados pelo seu trapézio.
– O que acha? – Rachel sussurrou fechando os olhos, sua cabeça pendeu um pouco para frente enquanto o homem cheirava seu pescoço. – Quinn nos dando todo o casamento como presente…
– O que você acha? – Finn sussurrou. – Se você concordar eu irei fazer a sua vontade Rach.
– Não quer se casar logo? – Rachel abriu os olhos.
– É claro que quero. – Finn a beijou no ombro. – Só estou dizendo que é um presente muito bom, você pode ter tudo o que sempre quis e podemos nos concentrar em ir para algum lugar incrível para a lua-de-mel. Mas se não for o que você quiser então eu irei até Quinn e recusarei educadamente.
Rachel abraçou o travesseiro sentindo os pequenos beijos que Finn distribuía pelas suas costas nuas, suspirou quando ele mordeu uma de suas nádegas.
– Eu quero… — Rachel sussurrou sentindo ele apoiar o queixo sobre a sua lombar.
– Então iremos nos casar. – Finn sussurrou com um sorriso.
Rachel se mexeu querendo se virar e ele permitiu para logo deitar a cabeça sobre o abdômen da morena.
– Podemos convida-la para madrinha? – Finn comentou sentindo ela acariciar seus cabelos.
– Pensei nisso. – Rachel encarava o teto, fechou os olhos reprimindo o suspiro. – Será que ela aceitaria?
– Não vejo porquê negaria. – Finn sorriu a beijando no abdômen antes de voltar a se aconchegar.
– Nem eu… — Rachel sussurrou.
– Onde você gostaria da cerimônia? – Finn traçava pequenos desenhos sobre a coxa de Rachel. – No Central Park mesmo?
– É uma ideia que me agrada, mas precisamos de uma dispensa da prefeitura e nos certificar que o tempo será apropriado.
Finn resmungou parecendo chateado.
– Eu gostaria de me casar próximo ao lago, imagino como você ficaria linda na luz do sol poente.
Rachel acariciou os cabelos escuros dele, fechou os olhos e por um instante pensou em como Quinn ficaria na luz do sol poente próximo ao lago e as árvores.
*
Quinn estava apoiada no carro, em suas mãos segurava um copo grande de café com o logotipo do starbucks. Os óculos escuros assentados perfeitamente em seu rosto, a roupa despojada chamou a atenção de Rachel assim que ela saíra pela porta do teatro. A morena inclinou a cabeça para o lado e sorriu.
– A que devo a honra? – Perguntou se aproximando da loira.
– Bem… é segunda-feira e eu sei que você não tem apresentação essa noite. – Quinn começou olhando para o lado. – Achei que poderia te subornar com um copo grande de café e assim te raptar pelo resto do dia.
– É uma proposta tentadora, Fabray. – Rachel estreitou os olhos estendendo a mão para o café. – Vamos ver se você acertou e ai então falamos sobre o meu rapto.
– Café Mocha. – Quinn abriu os braços se curvando. – E não se preocupe, o chantilly é vegano.
Rachel soltou um suspiro de prazer concordando com a cabeça, puxou o canudo para lamber o creme doce.
– Você acertou Fabray. – Resmungou sorrindo.
Quinn abriu um sorriso antes de se afastar abrindo a porta do carro.
– Por favor. – Olhou para a morena.
– E para onde vamos? – Rachel parou arqueando a sobrancelha.
– É uma surpresa. – Quinn respondeu com calma. – Vamos Rachel.
A morena se aproximou ficando na ponta dos pés para depositar um beijo no rosto de Quinn.
– Também estava com saudades. – Sussurrou entrando no carro.
Quinn sorriu balançando a cabeça antes de entrar e fechar a porta.
– Edgar, por favor, siga para o combinado. – A loira pediu colocando o cinto.
– O que? Eu não vou saber para onde vamos? – Rachel olhou de um para o outro.
– Já disse é um segredo. – Quinn soltou uma risada baixa. – Mas posso dar uma dica.
– Então dê, sabe que odeio ficar curiosa. – Rachel resmungou.
– Faz parte do seu presente de casamento. – Quinn olhou para ela. – Se vocês aceitarem é claro.
– Nós conversamos nesse final de semana. – Rachel olhou para fora enquanto brincava com o canudo. – Aceitamos o presente, mas com uma condição.
– Um presente que vem com uma condição? – Quinn arqueou a sobrancelha.
– Sim, nós gostaríamos que você fosse nossa dama de honra. – Rachel se virou para olha-la.
Quinn ergueu o queixo encarando Rachel, podia ver uma leve sombra nos olhos da morena, mas sorriu e segurou a mão dela.
– Será uma honra.
Rachel deu um pequeno sorriso inclinando a cabeça, uma mecha de cabelos cobriu seu rosto e Quinn respirou fundo, seus olhos esquadrinharam o rosto de Rachel pegando cada forma que ele possuía.
*
Quinn ajudou Rachel a entrar na lancha e a sentar.
– Espero que você não fique mareada. – Comentou se sentando na cadeira do piloto.
– Para onde vamos? – Rachel tornou a perguntar vendo a loira dar partida.
– Para um lugar. – Quinn respondeu acelerando.
Ouviu Rachel soltar um grito enquanto pegavam velocidade. O contato da lancha contra a água a fazia quicar sobre a superfície do rio, a morena gargalhava sentindo o contato do vento com o seu rosto. Quinn olhou para trás por um instante vendo a morena inclinar a cabeça para trás e sorrir, sorriu abaixando os olhos e logo voltando a sua atenção para a frente.
Rachel abriu os olhos mirando as costas de Quinn, os cabelos que sacudiam furiosos assim como a roupa.
– Vamos para lá! – Quinn gritou, mas sua voz chegou a Rachel abafada pelo vento.
Rachel ergueu a cabeça vendo que se aproximavam de uma ilha no meio do rio, as arvores cresciam desenfreadamente com suas folhas novas, mas o ponto alto eram as ruínas do que Rachel supôs que um dia fora um castelo.
– Quinn… — Rachel gritou.
A loira diminuiu a velocidade aos poucos até se aproximarem da faixa coberta por cascalho e areia, Quinn saltou para a água afim de tentar amarrar a lancha em algum lugar. A loira rapidamente voltou para ajudar Rachel a descer.
– Põe os braços no meu pescoço. – A loira instruiu. – A água está bem fria.
– O que você pensa que vai fazer? – Rachel cruzou os braços.
– Impedir que você se molhe. – Quinn revirou os olhos. – Será que você pode ser rápida, eu realmente quero sair dessa água gelada.
– Eu posso muito bem fazer isso. – Rachel teimou tentando se esquivar de Quinn.
– Entendi, vai ser pelo jeito difícil. – Quinn concordou com a cabeça antes de agarrar Rachel pela cintura e puxa-la para fora.
A Berry soltou um grito e por reflexo abraçou a cintura de Quinn com as pernas.
– Maluca! – Rachel a olhou.
– Achei que já havíamos concordado com isso. – Quinn zombou se movendo pela água.
Rachel resmungou e prontamente se afastou quando Quinn a colocou em um lugar seco, olhou para as pernas da loira notando que a jeans estava molhadas até a altura dos joelhos.
– Vai acabar gripada. — Rachel ralhou.
A loira revirou os olhos se aproximando de uma das árvores onde Rachel pode ver uma pequena mochila presa em um dos galhos mais baixos. A loira se virou para ela enquanto prendia a mochila no tronco.
– Vem. — Empurrou alguns ramos de arbusto para o lado revelando uma trilha mal cuidado.
– Que lugar é esse? — Rachel se aproximou com cautela começando a caminhar.
– Esta é a ilha de Pollepel. — Quinn se apressou em passar por Rachel para abaixar outro arbusto que estava no caminho da morena. — Um homem chamado Bannerman comprou a ilha, dizem que ele foi o principal fornecedor de armas durante a guerra civil. Ele iniciou a construção daquele castelo lá encima, era um antigo arsenal e aparentemente sua casa. Dependendo de que lado você vier do rio, da pra ver o que restou de um letreiro enorme.
Levantou um galho e pisou em uma raiz para deixar Rachel passar, a morena sorria levemente deixando a loira fazer aqueles pequenos galanteios.
– Ele morreu sem terminar de construir o castelo, algum tempo depois parte de uma das estruturas explodiu. A família acabou vendendo a propriedade para o Estado, não se interessaram em tentar termina-lo ou fazer a manutenção.
Pulou por cima de uma pedra e se inclinou para ajudar Rachel a transpô-la. A morena notou que começavam a dar a volta na ilha ao invés de seguir uma linha reta até as ruínas.
– Enfim, a ideia do Estado era transforma-la em ponto turístico, mas acabou que só vinham aqui viciados e... — Quinn parou olhando para cima por um instante como se estivesse pensando. — Jovens que não tinham intenções muito católicas.
Rachel soltou uma risada alta enquanto a loira retomava a caminhada.
– Como não exploram um lugar lindo desse? — Rachel perguntou apoiando a mão no ombro de Quinn enquanto andavam.
– O castelo é perigoso, corre risco de desabar. — Quinn respondeu. — É caro para fazer uma reestruturação desse tamanho.
– E por isso abandonam desse jeito? Faz parte da história nacional. — Rachel franziu as sobrancelhas.
Quinn soltou uma risada.
– Às vezes parte da história tem que ser esquecida. — Se aproximavam devagar através de uma leve descida. — Eu acabei arrematando esta ilha em um leilão.
– Está falando sério? — Rachel olhou para a nuca da loira.
– Sim, tenho a intenção de reformar o castelo e revitalizar toda essa área. — Quinn parou olhando para Rachel. — Transformar em um hotel. Como eu disse, uma reforma desse tamanho irá custar muito dinheiro e eu gostaria de ter algum retorno sobre isso, mas também penso em fazer algo com parte do terreno.
– Do tipo? — Rachel inclinou a cabeça.
– Não tenho certeza ainda, mas talvez você possa me ajudar com isso. — A loira sorriu. — Mas não te trouxe aqui para falar sobre isso e sim porque quero que pense em algo.
– O que?
Quinn afastou outro arbusto apontando para parte das ruínas.
– O que acha de se casar ali?
Rachel deu dois passos para longe de Quinn, o cascalho levava até uma escadaria relativamente mediana de pedra gasta que terminava em um patamar suspenso sobre um rio. O patamar ia até uma das paredes externas que se mantinha em pé, a arquitetura no estilo medieval constratava com a época de construção do castelo, mas causava um ar ainda mais rústico ao lugar.
Quinn sorriu deixando os arbustos se fecharem nas suas costas enquanto Rachel admirava o lugar.
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