Dark Angel

3 Capítulo II - Ciúmes


Entrou pela janela aberta caindo no chão com um baque surdo.

– Boa noite. – A voz máscula chegou até ela, ergueu o corpo encarando o homem sentado na cadeira em frente a uma mesa. – Sabe… continuar entrando aqui desse jeito vai acabar dando nas vistas.

– Não se preocupe. – A figura respondeu, puxou o capuz para longe revelando o rosto de Quinn. – Às vezes você pensa de mais Kyle.

– E você pensa de menos. – Kyle se levantou entrando no faixo de luz, os olhos azuis faiscaram. – Eu não entendo essa sua fascinação por ficar pulando de prédio em prédio…

– Limpando a cidade da escória. – Quinn tirou a aljava a colocando sobre a mesa junto com o arco. – Alguém tinha que fazer isso.

– É arriscado.

– É necessário. – Quinn se virou para ele. – Vamos ter essa conversa de novo?

– Annabelle não gostaria disso. – Kyle virou as costas para a mulher.

– Não fale de minha mulher. – Quinn se virou para ele, sua postura era fria e ereta. – Não ouse falar de minha esposa.

– Eu falo, se isso te coloca algum juízo na cabeça. – Kyle se virou para ela. – Eu perdi a minha irmã. Minha irmã Quinn. Assim como você eu estou sozinho no mundo, não tenho mais família. Só você.

Quinn segurou o zíper escondido próximo a gola do colete e o abaixou com um movimento rápido. Deixou a peça do vestuário sobre a mesa e se afastou dele, o corpo protegido apenas pelo top.

– Não saia e me deixe falando sozinho. – Ele foi atrás, desceram as escadas de metal até uma parede sólida em que Quinn rápidamente a abriu saindo para o quarto. – Quinn.

– Chega. – Se virou para ele. – Não vamos mais falar sobre isso, a decisão é minha e eu decidi que irei continuar.

– Ótimo, então vamos falar sobre Rachel Berry. – Kyle juntou as mãos na frente do corpo, a camisa branca estava frouxa em seu corpo. – Eu te vi conversando com ela e volta e meia o seu olhar ia até a atriz.

– Kyle. – Se sentou na cama para retirar as botas. – Não comece.

– Ela é uma linda mulher. – Kyle comentou começando a balançar o corpo para frente e para trás. – E eu sei que você a salvou na outra noite.

– Kyle. – Estava com o braço apoiado no joelho enquanto desamarrava a bota. – Eu já te mandei calar a boca hoje?

– Deixamos de ser a polida e educada Quinn Fabray? – Kyle arqueou as sobrancelhas antes de soltar uma risadinha. – Só estou dizendo que Rachel Berry é uma linda mulher e eu ficaria feliz se você estivesse sentindo algo por ela.

– Sai. – Puxou a bota para fora da perna. – Agora.

– Claro Quinn. – Enfiou as mãos nos bolsos da calça e se afastou, parou na porta com a mão na maçaneta. – Eu só queria que você soubesse que não é errado ter uma vida de novo.

Quinn suspirou deixando o corpo cair sobre a cama, a musculatura estava tensa e dolorida.

*

Acordou sentindo o peso da noite se abater sobre ela, soltou um gemido baixo se esticando. Afastou as cobertas e caminhou diretamente para o banheiro pronta para tomar uma ducha, o corpo pálido possuía um ou outro hematoma. Limpou-se e colocou uma roupa confortável, desceu rapidamente para a cozinha encontrando a mesa posta, se serviu de suco e do jornal. Seus olhos verdes correram pelas manchetes pescando palavras aleatórias, levou o copo em que estava o suco de clorofila e o tomou de um gole, foi nesse momento que seus olhos se fixaram na coluna social e o rosto de Rachel tomou conta de sua mente.

Era uma foto dela chegando ao teatro. Já se passara uma semana desde o baile beneficente e só tinha visto a morena por poucas horas durante a noite enquanto a vigiava até que ela chegasse em casa com segurança.

– Eu tenho um par de ingressos para o show dessa noite. – A voz de Kyle chegou até ela. – Se você quiser…

– Esqueça isso Kyle. – Soltou aquela página do jornal pegando a página policial no lugar.

– É melhor do que ficar empoleirada no alto de um prédio a vigiando como um falcão vigia a sua presa.

Quinn rolou os olhos antes de terminar o suco e se levantar.

– Você sabe…

– Não comece a falar de Rachel Berry de novo. – Quinn suspirou, estava cansada de ser abordada com o mesmo assunto todos os dias. – Ela tem um noivo. – Quinn se afastou da mesa e rapidamente ouvi o cunhado lhe seguir.

– Ela é linda. – Kyle contrapôs mordendo uma pêra que havia pego na mesa. – E não venha me dizer que você não a achou bonita e nem que ela não te interessa.

Quinn empurrou uma porta entrando na academia.

– Acho que você deve se lembrar que ela é noiva. – Quinn tirou os chinelos antes de subir no tatame. – E pode parando aí com os seus belos sapatos italianos.

Kyle parou no limite antes de rolar os olhos.

– Não estou dizendo que você deve ir atrás dela e acabar com o noivado da mulher. – Mordeu a pêra antes de continuar com a boca cheia. – Apenas para que seria bom você se aproximar sem ter um arco nas mãos e uma aljava nas costas. Ter uma amizade com ela iria te fazer muito bem.

Quinn estava fazendo flexões quando Kyle se cansou de ser ignorado e saiu resmungando para que ela não se esquecesse de olhar alguns documentos que estavam no escritório.

*

Seus pés tocaram o terraço do prédio ao lado do teatro, observou Kyle sair de braços dado com uma mulher aleatória enquanto conversava animado com uma Rachel Berry sorridente. Ele se curvou falando algo no ouvido da mulher que a deixou pensativa e logo acenou com a cabeça concordando com o que ele deve ter sugerido. Kyle sorriu e se afastou com a mulher ainda envolta em seu braço, Rachel parou por um instante antes de andar até o estacionamento do teatro.

Quinn deslizou por um cano lateral até o chão margeando pelas sombras do teatro. Acompanhando os movimentos da pequena diva com os olhos atentos, parecia que ela havia estacionado o carro no canto mais escuro do estacionamento de propósito e se demorava em abrir a porta com o mesmo intuito.

– Boa noite. – Quinn disse em voz baixa tentando deixa-la mais rouca do que o normal.

Rachel parou respirando fundo antes de se virar para olhar a figura de capuz.

– Você fala. – Tentou sorrir diante do nervosismo que sentia. – Eu estava me perguntando se eu iria ouvir você falar ou se… eu… obrigada pela outra noite e por me vigiar.

Quinn acenou com a cabeça controlando a respiração, seu coração martelava pesadamente.

– E você me assustou com aquela flecha. – Rachel olhava para o capuz tentando pescar qualquer indício do rosto da mulher. – Eu a guardei, espero que não se importe.

– Não seria seguro você andar com uma flecha por ai. – Quinn retrucou controlando a voz. – Desculpe pelo susto.

– Como você sabia onde eu morava? – Rachel deu um passo para frente.

– Eu te segui naquela noite. – Aprumou os ombros tentando se manter afastada. – Queria ter certeza que estaria bem.

– Obrigada… — Murmurou, ergueu a mão cautelosamente tocando no ante-braço pálido, a pele era suave e por um instante achou que já havia sentido aquela textura. – Porque você faz isso? Eu te vi nos jornais, desenhos seus de pessoas que você ajudou.

– Alguém precisa fazer isso. – Respondeu com calma.

O silêncio entre elas se estabeleceu por um curto período.

– Rachel? – A voz de Finn chegou até elas e ele parecia estar nervoso. – Rachel.

A mulher com o capuz se inclinou para o lado e disparou a correr escalando a parede rapidamente. Enquanto os passos pesados de Finn se aproximavam da morena.

– Quem era aquele? – Rosnou com o pescoço vermelho.

– Dark Angel. – Rachel respondeu ainda olhando para o ponto onde a mulher estava, não se importou em corrigir o noivo.

– Dark Angel? – Finn retrucou se virando para ela. – Quem é esse cara? O que ele queria aqui? Você está machucada?

– Foi a pessoa que me salvou naquele dia. – Rachel suspirou antes de se virar para a porta e destrancar o carro. – Estou bem.

– Vamos até a delegacia. – Finn determinou.

– Não, não vamos.

– Rachel, já parou para pensar que esse cara é um maníaco? Que ele está te perseguindo? – Finn abriu os braços. – Eu não quero você saindo do teatro antes que eu chegue aqui. E vamos sim para uma delegacia prestar queixa.

– Não, não vamos. – Se virou para ele. – Dark Angel não vai me fazer mal algum, então pare com isso e tente chegar mais cedo da próxima vez.

– Fiquei preso no escritório. – Finn rebateu.

– Ótimo, marquei um jantar para amanhã após a peça tente chegar mais cedo. – Abriu a porta do carro.

– Jantar com quem? – Finn arqueou a sobrancelha.

Rachel suspirou parando antes de entrar.

– Seu chefe veio ver a peça e amavelmente nos convidou para jantar com ele amanhã. – Estava cansada de discutir ali, queria chegar logo em casa.

– Meu chefe? – Finn cuspiu. – Kyle Kingson esteve aqui hoje?

– Sim, Finn o seu chefe Kyle Kingson esteve aqui e nos convidou para jantar com ele amanhã. – Fechou os olhos respirando fundo. – Podemos ir para o meu apartamento agora?

– O que ele queria aqui, Rachel?

– Ele veio ver a peça, estava acompanhado de uma linda mulher. – Rachel retrucou encarando o noivo. – Me esperou no final da peça e trocamos algumas palavras onde ele então nos convidou para o jantar, agora podemos ir para casa?

– Kyle Kingson veio aqui assim? De graça?

– De graça não, veio ver a minha apresentação. – Encarava o homem, estava bastante irritada com aquilo. – Qual o problema?

– Kyle tem sempre lindas mulheres nos braços Rachel. – Comentou com o ciúme evidente. – E eu não gosto nada dele vindo aqui te abordar.

– Ele não veio me abordar, veio ver a peça e teve a gentileza de nos convidar para um jantar. – Bateu a porta do carro. – Pare com isso.

– Eu não gostei nada disso. – Finn franziu as sobrancelhas. – Nada mesmo Rachel.

– Ótimo, então não vá. – Abriu a porta e entrou rapidamente, ligou o carro e abaixou o vidro para olhar o homem que encarava o carro estupefato.

– Onde você vai?

– Para a minha casa e não se preocupe em aparecer por lá. – Manobrou o carro e saiu pelo estacionamento, olhou pelo retrovisor o homem seguir o carro a pé e rapidamente trancou as portas do carro.

Odiava quando ele demonstrava aquele lado ciumento e possessivo. Às vezes tinha a impressão que Finn não conseguia controlar aquele seu lado, não era algo bonitinho e protetor. Era irritante e invasivo.

Adorava o jeito carinhoso e preocupado que ele tinha com ela. Era o seu melhor amigo e também o seu amante, mas por vezes o ciúmes dele passava de todos os limites possíveis. Às vezes… às vezes…