Dark Angel
4 Capítulo III - Conversas
Rachel terminou de acertar a maquiagem antes de se afastar e se olhar no espelho de corpo inteiro que havia no seu camarim. Estava pronta para ir jantar na cobertura Fabray, era o local marcado para aquele encontro casual. O vestido estava simples como Kyle havia pedido nas breves mensagens que haviam trocado durante o dia, ele também havia lhe garantido que o motorista iria busca-la no teatro, mesmo contra os protestos da morena. Não falava com Finn desde a noite anterior quando ele fora lhe buscar no teatro e protagonizou aquela cena de ciúmes infantil. Ele não lhe procurara e nem ela a ele, esperava que se ele fosse no jantar soubesse se comportar e se ele não fosse… bem… a briga seria longa.
Pegou a bolsa e saiu rapidamente pela saída lateral que pouco era usada e era onde o sedã já lhe esperava, um senhor já aparentando estar na casa dos 50 lhe abriu a porta de trás e ela prontamente entrou e eles saíram.
– Boa noite senhorita Berry. – A voz era forte e calma. – Me chamo Edgar e sou o motorista particular da senhora Fabray e do senhor Kingson.
– Boa noite. – Rachel sorriu vendo os olhos castanhos do homem pelo retrovisor, as laterais dos cabelos eram grisalhas pelo que ela conseguia ver. – Há quanto trabalha para eles?
– Trabalho para a família Fabray há pouco mais de trinta anos. Eu trabalhava para o pai da senhora Fabray e a vi crescer praticamente.
Rachel sorriu para a maneira como ele falou da mulher loira.
– Ela sempre foi tão reservada? – Perguntou curiosa. – Trocamos poucas palavras outra noite, mas ela me pareceu distante.
– Nem sempre, mas… — O homem parou respirando fundo. – Os fatos a mudaram.
– Eu entendo. – Rachel se apressou em explicar. – É claro que a mudaram.
– Como não a mudariam? – Edgar suspirou, seus olhos atentos ao trânsito.
– Como ela era? A mulher da senhora Fabray… — Estava sedenta de curiosidade e quem sabe o homem não lhe saciaria um pouco.
– A senhora Annabelle? Um encanto de mulher. – Seu sorriso era saudoso. – Sempre muito educada e bem humorada. Amava a arte e a filantropia, estava sempre fazendo caridade e arrecadando fundos para alguma obra de caridade. Mas tinha duas coisas que ela amava mais do que arte e caridade e essas duas coisas eram a esposa e a filha.
– Como se chamava a menina?
– Melissa. – O nome saiu pesaroso. – Era um encanto de menina.
– Melissa Fabray. – Rachel murmurou.
– As duas eram o mundo da senhora Fabray e quando foram tratadas daquela maneira tão odiosa e tão imunda… a senhora Fabray se distanciou de tudo.
– Ela pagou o resgate, não pagou?
– Pagou tudo o que eles pediram. – Edgar murmurou apertando o volante com força. – Pagou os dois resgates que eles exigiram.
– Então…
– Pura maldade. – Edgar respirava tentando manter a calma. – Pura maldade, senhorita Berry. Era uma criança de apenas 3 anos e fora tratada igual… desculpe… desculpe…
– Eu que peço desculpas por estar fazendo com o que senhor lembre disso. – Rachel se apressou em pedir desculpas. – Eu não consigo aceitar isso e posso ter certeza que para o senhor é bem pior.
– Era uma criança que nunca tinha feito mal a ninguém no mundo. – Edgar suspirou outra vez.
– Eu entendo. – Rachel mordeu o lábio se sentindo idiota por ter feito tantas perguntas.
– A senhora Fabray é uma linda mulher. – Edgar comentou pausadamente após um tempo. – Ela precisa sair desse luto eterno ao qual se penitenciou. Se apaixonar e constituir uma nova família.
– Concordo com o senhor, mas isso deve ser no tempo dela. – Rachel encarava o perfil do homem.
– Por favor, faça amizade com ela e… a ajude. – Edgar parou o carro na garagem de um prédio, Rachel nem havia notado que tinham chegado.
– Farei o possível. – Respondeu soltando o cinto. – Tentarei ao máximo.
*
Kyle lhe recebeu assim que o elevador se abriu na sala de estar. O sorriso que ele lhe ofereceu poderia muito bem ter lhe derretido naquele instante. Ele prontamente pegou sua bolsa e seu casaco antes de lhe guiar pela sala ampla.
– Seja bem-vinda. – Sorriu ainda mais, olhou para o elevador vazio e franziu as sobrancelhas deixando o sorriso morrer aos poucos. – Onde está o Finn?
– Ele… — Rachel parou tentando achar uma boa desculpa, mas só pode oferecer um sorriso sem graça. – Eu não sei…
Kyle a olhou por um segundo antes de se afastar a guiando até um dos sofás.
– Eu sinto muito, não quis ser intrometido. – Kyle se desculpou pousando a bolsa e o casaco dela sobre o braço do sofá. – Posso te oferecer algo? Vinho? Suco? Água?
– Vinho, por favor.
– Um segundo. – Ele se afastou.
A morena deixou seus olhos vagarem pela sala até um quadro alto que tomava quase toda uma parede.
Era uma mulher aparentemente alta, com cabelos loiros escuros possuíam poucas ondas, a boca era quase um coração com os lábios cheios e os olhos azuis eram tão suaves quanto penetrantes.
– É Annabelle. – Kyle estava próximo a ela segurando uma taça de vinho tinto. – Antes dela se casar com Quinn era modelo, mas desistiu da carreira quando elas decidiram ter um filho.
– E então veio a Melissa? – Olhou para ele que prontamente lhe estendeu a taça.
– Na verdade foram três tentativas falhas até vir a Melissa… — Kyle parou ao lado de Rachel enquanto olhava para o quadro de sua irmã, seus olhos estavam preenchidos de saudade. – Elas eram novas, mas quiseram começar cedo…
– Ela era linda. – Rachel apoiou a taça na lateral do rosto. – Extremamente linda.
– Ela pegou toda a beleza da família. – Kyle soltou uma gargalhada leve. – Era minha irmã caçula, eu era o do meio e existe o Thomas que é o mais velho.
– E onde ele está? – Olhou para Kyle tentando dissimular a curiosidade de sua voz.
– Na Inglaterra, ele assumiu o escritório de nosso pai, ele já não está mais em condições de levar os negócios. – Kyle encolheu os ombros. – Depois que Annabelle e Melissa se foram meus pais ficaram muito debilitados, então meu irmão tomou conta dos negócios e os dois se retiraram para uma propriedade no interior da Escócia.
– Acha seguro deixa-los sozinhos? – Rachel tomou um gole do vinho.
– Eles nunca estão sozinhos. – Soltou uma risada. – Eles tem muitos empregados para fazer companhia e Thomas sempre tenta estar lá no final de semana com a esposa e o filho deles.
– E você? Não vai visita-los?
– Não desde o funeral, mas tento falar com eles toda semana. – Kyle deu as costas para o quadro, sua voz ficou mais pesada e grave.
– Desculpe… — Rachel murmurou seguindo as costas dele com os olhos. – Não quis incomoda-lo.
– Não é você que me incomoda. – Tentou sorrir para ela enquanto parava no bar e se servia de um pouco de uísque. – E sim minha consciência, mas a muito já aprendi a ignora-la… infelizmente.
Observou ele colocar uma pedra de gelo e um pouco de água no copo.
– Posso perguntar porque você não sabe do Finn? – Se voltou para ela e com a mão indicou o sofá.
– Ele… não se sentiu a vontade com o convite para jantar. – Rachel escolheu as palavras com cuidado.
– Ele sentiu ciúmes? – Kyle inclinou a cabeça para o lado. – Eu peço desculpas Rachel, essa não era a minha intenção.
– Eu entendo… — Rachel bebericou o vinho.
– Por favor, deixe que eu me explique. – Kyle se levantou e sentou na mesinha de centro, olhou por cima dos ombros antes de suspirar. – Eu quero que a Quinn volte a ter uma vida. Achei que se ela tivesse novas amizades iria voltar a ter interesse pela vida fora desse triplex. Voltaria a se interessar pelas industrias, pela arte e até mesmo quando fosse o tempo se apaixonasse de novo.
– Eu entendo. – Rachel se curvou pegando na mão dele. – Eu entendo e não posso te julgar por isso.
– Eu preciso falar com ele e pedir desculpas. – Kyle deu um sorriso fraco. – Deveria ter feito o convite a ele diretamente, isso teria evitado algumas confusões.
– Não se preocupe, é sério. – Rachel sorriu. – Agora… onde ela está?
– Na hora que eu desci… estava se arrumando no quarto, não deve demorar para descer.
– Ela sabe que eu estou aqui?
– Sabe e… foi um pouco difícil convencê-la a descer. – Soltou uma risada curta. – Me deixe ligar para o Finn e tentar convencê-lo a vir?
– Boa sorte com isso. – Rachel murmurou tomando um longo gole da taça.
*
Quinn apareceu na sala e Kyle prontamente apontou para o balcão da varanda enquanto falava com alguém no telefone. A loira rolou os olhos e se afastou para receber a convidada.
Rachel estava encostada na balaustre enquanto olhava para a cidade com uma expressão distante.
– Boa noite. – Quinn manteve a voz suave para não assusta-la.
Rachel sorriu a olhando por cima do ombro.
– Boa noite. – Voltou a olhar para a cidade. – Essa vista é linda.
– É… é sim… — Murmurou se aproximando da morena.
– Eu não consigo me cansar de olhar para essa cidade. – Rachel suspirou. – Eu vim de uma cidade pequena no interior de Ohio.
– A garota de cidade pequena com grandes sonhos. – Quinn fitava o perfil da morena.
– Esse velho clichê. – Soltou uma risada baixa examinando a taça quase vazia que segurava. – Entrei para NYADA e não olhei mais para trás.
– Nunca mais voltou? – Arqueou uma sobrancelha.
– Não sobrou nada lá que me fizesse voltar, meus pais vem me visitar aqui. – Tomou um gole da taça.
–Acho que te entendo. – Quinn respondeu olhando para as luzes dos carros que passavam distantes na rua. – Como conheceu o Finn?
– Em Lima… foi de onde viemos. – Explicou. – Nos apaixonamos durante o colegial e no nosso ano sênior ele me pediu em casamento e eu aceitei, isso foi há uns… seis quase sete anos atrás.
– E estão noivos até hoje? – Quinn franziu as sobrancelhas.
– Tínhamos outras coisas na frente antes do casamento. – Rachel encolheu os ombros. – Nossas faculdades, nossas carreiras, estarmos estáveis. Em um primeiro momento nosso impulso era casar imediatamente, mas depois com o tempo fomos amadurecendo e percebendo que o casamento tinha que ser adiado um pouco. E de pouco em pouco foram se passando os anos.
– Vocês… — Quinn parou refreando a pergunta.
– Pode perguntar. – Rachel a incitou.
– Vocês moram juntos?
– Não, ele tem o apartamento dele e eu tenho o meu. – Rachel esvaziou a taça. – Eu gosto de ter o meu espaço e ele de ter o dele.
– Então… será um casamento moderno? Cada um com a sua casa?
– Poderia ser. – Rachel soltou uma risada alta. – Funcionaria bem melhor assim. Acho que chegamos ao ponto em que está bom do jeito que está.
– E vai deixar isso ficar assim? – Quinn franziu as sobrancelhas.
– Eu o amo. – Encolheu os ombros. – Nos conhecemos e já nos acostumamos aos defeitos um do outro. Ele é o meu melhor amigo no final do dia.
– Eu entendo. – Quinn respirou fundo. – Perder o seu melhor amigo é algo doloroso.
Rachel virou o rosto para olhar o perfil da mulher ao seu lado, Quinn estava com os olhos desfocados como se estivesse perdida em alguma lembrança.
– Senhoras, eu lamento informar que iremos demorar mais alguns minutos para poder jantar. – Kyle apareceu pela porta. – Acabo de falar com o Finn e vocês não irão acreditar, mas ele estava no escritório resolvendo alguns problemas de ultima hora, como não era nada muito grave eu pedi para que ele terminasse amanhã.
– Fez bem, não é seguro para Rachel ficar andando sozinha tarde da noite.
– Kyle pediu para o motorista de vocês me pegar na saída do teatro, acabei deixando o meu carro lá.
– Edgar? – Quinn olhou para Kyle que acenou com a cabeça. – Bom, ele saberia resolver qualquer problema.
– Posso oferecer mais vinho? – Kyle indicou a taça vazia.
– Não, é melhor não, mas obrigada. – Rachel sorriu sentindo as bochechas levemente coradas.
– Quinn?
– Beberei apenas uma no jantar. – A Fabray respondeu com calma. – Vamos entrar? Está esfriando.
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