Dark Angel
2 Capítulo I - Recados..
Notas iniciais
Tomou um gole de seu café puro escaldante, tinha plena consciência de que o café tão quente era péssimo para as suas cordas vocais, mas era um vício que ganhava de seu profissionalismo. Respirou fundo lembrando de algumas noites atrás, agora sempre insistia para que um dos seguranças do teatro lhe acompanha-se até ao carro.
– Rachel! – Ouviu a voz entusiasmada atrás de si.
Ergueu os olhos castanhos para encarar o seu estilista, ele era magro, com espantosos olhos azuis e uma habilidade incomum de esconder os dentes sempre que sorria. Os cabelos ajeitados em um topete bem cuidado e a pele rosada, vestia um terno bem cortado lhe caia bem.
– Oi Kurt. – Sussurrou com um sorriso um tanto quanto apagado.
– O que foi minha estrela? – Se aproximou afagando o rosto da mulher. – Ainda tendo pesadelos com aquele maldito assaltante?
Rachel suspirou fechando os olhos enquanto inclinava o rosto para a mão do homem.
– É mais forte do que eu. – Disse cansada. – Eu fecho os olhos e sinto que ele está atrás de mim com a arma, entende?
– E o que o meu irmão acha disso? – Kurt acariciou as maçãs do rosto de Rachel.
– Ele quer me buscar no teatro agora, não me quer mais andando sozinha por ai. – Rachel respondeu se levantando. – Eu fico preocupada com isso… e se o assaltante resolver voltar e se vingar e o Finn acabar saindo machucado?
– Finn não é burro de reagir a um assalto. – Kurt ponderou enquanto segurava as mãos de Rachel. – Vamos, não pense mais nisso… eu estou sabendo que ele foi convidado para o jantar de caridade da Fabray Enterprises, isso é grande certo?
– Sim, ele está muito animado. – Sorriu carinhosa pensando no noivo. – Ele acha que isso pode dar um impulso na carreira dele. E eu estou contente em vê-lo tão animado com isso entende?
– Eu sei. – Kurt sorriu segurando o rosto de Rachel. – Então… vamos fazer com que Finn Hudson seja o homem mais invejado desta festa, pois ele terá a mulher mais linda nos braços.
Rachel respirou fundo, se esquecendo do assalto e do seu anjo momentaneamente. Sorriu com os olhos brilhando, aquela noite seria a dela com Finn e faria de tudo para ajuda-lo.
Kurt a fez sentar na cadeira outra vez e prontamente passou a trabalhar nos cabelos da morena, chamou os dois assistentes que trouxera com ele e deu as orientações do que queria.
– Você irá atrair todos os olhares de onde passar. – Kurt respirou fundo tendo certeza de suas palavras.
O homem algo estava parado ao lado do carro e prontamente abria a porta para a sua acompanhante. O smoking estava bem ajustado em seu corpo, a casaca e o colete eram pretos o que evidênciava a camisa extremamente branca quase que ofuscando os olhos, a gravata borboleta também era branca e no bolso do paletó estava o lenço cinza dobrado milimetricamente. O rosto bem barbeado e os cabelos arrumados caprichosamente, sorriu para os fotógrafos enquanto estendia a mão para a mulher sair do carro.
Rachel colocou os pés na calçada e foi rapidamente arrebatada pelos flashes, essa era uma parte com a qual ela não conseguia se acostumar. Abaixou o rosto para tentar lhe salvar o pouco de visão que ainda tinha e firmar os pés no chão antes de sair completamente do carro, o sorriso tímido estava estampado em seus lábios.
O vestido roxo era justo no corpete tomara que caia com decote coração e armado na saia, possuía um leve plissado que dava o efeito de que o vestido “rodava”, os cabelos estavam arrumados em um coque elegante de onde escapava um cacheado que Kurt insistira em deixar caindo pelas laterais de seu rosto. Em seu pescoço e orelhas usava um conjunto de rubis.
Deixou o noivo lhe amparar enquanto levantava o vestido para não suja-lo, posaram por alguns instantes antes de avançarem para a porta do hotel onde Finn estendeu o convite.
Entraram no saguão vendo a elegância com o qual era decorado, se dirigiram para o salão de festas no térreo do hotel onde foram recebidos e prontamente foram encaminhados para a mesa onde se sentariam durante o jantar. Finn cumprimentou algumas pessoas e apresentava Rachel a todos com quem parava para falar.
– Obrigado. – Finn se serviu de duas taças de champagne e estendeu uma para Rachel. – Aqui querida.
– Obrigada. – Rachel murmurou tomando um pequeno gole.
–Você está linda. – Finn falou a olhando cheio de admiração. – Muito linda.
Rachel sorriu para ele abaixando os olhos timidamente.
– Você também está querido. – Soltou em voz baixa, alisou o peito dele carinhosamente. – Me conte sobre essa sua chefe misteriosa.
– Oras, mas todo mundo conhece a história de Quinn Fabray. – Finn pousou a mão na base da coluna da mulher a guiando pelos convidados.
– Eu não me recordo…
–Bem… há uns 5 anos a esposa e a filha dela foram assassinadas. – Finn abaixou o tom de voz, não queria que ninguém ouvisse a conversa. — E desde então ela vive reclusa, só aparece duas vezes por ano que são exatamente os dois bailes de caridade que ela oferece. O primeiro é sempre em nome do hospital infantil que ela fez questão de abrir e dar o nome da filha e o segundo para as obras de caridade que a esposa dela ajudava.
– Perder a esposa e a filha… — Rachel deixou os olhos vagarem pelo salão. – Que dor…
– Foi em um sequestro. – Finn murmurou pesaroso. – Não consigo nem imaginar, a menina só tinha 3 anos de idade.
– Meu deus. – Rachel fechou os olhos respirando fundo, tomou um longo gole da taça que ainda segurava.
– Dizem que ela pagou tudo o que os sequestradores pediram, mas mesmo assim eles…
– Chega. – Rachel o interrompeu elevando o tom de voz, ele a encarou sem entender. – Me desculpe, mas eu não quero mais ouvir isso.
– Perdão querida. – Finn murmurou afetuoso, segurou uma das mãos de Rachel e a beijou. – Não vamos falar mais disso.
Rachel acenou com a cabeça dando um pequeno sorriso para ele, sentiu que era envolvida e o seu corpo era cercado pela segurança que emanava dele.
– Boa noite. – A voz levemente rouca chegou até os dois.
Finn ergueu a cabeça e logo sorriu ansioso, a mulher que estava na frente deles era estonteante.
A pele branca e suave dos ombros estava exposta devido ao vestido tomara que caia de cetim preto fosqueado. O vestido era simples e caia perfeitamente em suas curvas, os cabelos loiros caiam em cachos caprichosamente armados. Em seu pescoço uma trabalhada gargantilha de ouro branco com brilhantes.
– Senhor Hudson. – Cumprimentou com um sorriso satisfeito. – Vejo que trouxe a noiva.
– Senhora Fabray. – Finn a cumprimentou nervosamente. – Sim, minha noiva a talentosa atriz da Broadway, Rachel Berry.
– É um prazer senhorita Berry. – Segurou a mão que Rachel lhe ofereceu. – Me chamo Quinn Fabray e, por favor, Finn me chame apenas de Quinn.
– É claro. – O homem sorriu satisfeito. – A festa está linda.
– Sim, esta — Passou os olhos pelo salão e por um instante os olhos verdes ficaram desfocados. – Perdão… — Sorriu abaixando a cabeça. – Soube que a senhorita passou por um infortúnio recentemente.
– Ah… sim… sim… — Rachel sentiu a intensidade com o qual os olhos verdes lhe encaravam. – Uma tentativa de assalto, felizmente estou bem.
– É ótimo saber disso, não tive o prazer de ouvi-la cantar, mas o meu cunhado me garantiu que tem uma belíssima voz senhorita. – Inclinou a cabeça para o lado. – Finn… espero que tenha resolvido aquele problema no Texas.
– Sim, está tudo certo, não tem com o que se preocupar. – O homem respondeu surpreso, não tinha imaginado que a reclusa Fabray estivesse tão a par dos negócios.
– Excelente, se me dão licença devo ver os outros convidados. – Quinn sorriu mais uma vez antes de se afastar.
Finn ficou estático por alguns momentos antes de soltar em voz baixa.
– Puta merda ela sabe o meu nome.
Rachel lhe deu um tapa no peito, odiava que ele usasse aquele tipo de linguagem perto dela.
– Ela é linda. – Rachel falou enquanto puxava Finn pela mão.
– Sim, é ainda mais linda de perto. – Ele retrucou abobado.
– Quem é o cunhado dela?
– Kyle Kingson. – Indicou o homem parado ao lado de Quinn do outro lado do salão.
Rachel olhou para o homem alto e loiro ao lado da dona da festa, o rosto estava bem barbeado e os cabelos loiros arrumados em um topete artisticamente bagunçado. Era bonito e parecia manter a mulher ao seu lado ciente de tudo a sua volta.
– Ele é bonito. – Comentou casualmente o que atraiu o olhar carrancudo do noivo. – Não faça essa cara.
– É. Ele que toma conta de tudo nas empresas, é o braço direito dela. – Finn respirou incomodado. – E ele não tem nada de mais.
Rachel reprimiu a risada que quase saiu pelos lábios diante da indignação do noivo.
– Ela nunca encontrou um novo amor? – Perguntou para ninguém específico.
– Como? Se vive reclusa. – Finn respondeu achando que ela falava com ele, não percebeu os olhos da mulher ao seu lado cravados na mulher do outro lado do salão. – Vamos nos sentar, o jantar já vai ser servido.
Após o jantar, Quinn subiu ao púpito para um breve discurso antes que as pessoas se levantassem. A orquestra iniciou a música e rapidamente Finn a tirou para dançar, valsando com alguns tropeços e risos arrancados de Rachel.
– Querido. – Rachel murmurou com uma careta. – Me pegue uma bebida, por favor.
– É claro. – Finn murmurou envergonhado antes de se afastar.
Rachel aprumou o corpo antes de se afastar na direção de uma das grandes janelas com varanda na lateral do salão. A noite fresca tocou a sua pele enquanto seus olhos foram atraídos magicamente para a mulher apoiada no balaustre.
– Senhora Fabray? – Chamou com a voz baixa.
Quinn se virou segurando uma taça com uma das mãos.
– Me chame de Quinn. – Respondeu com um sorriso pequeno. – Como está sendo a sua noite?
– Boa. – Rachel se aproximou tentando esconder o incomodo que sentia em seu pé.
– Que bom que tenha apreciado a festa. – Quinn manteve o sorriso. – Deveria se sentar, Finn não me pareceu um exímio dançarino.
Se adiantou estendendo a mão para Rachel que aceitou agradecida. Com cuidado levou a morena até um dos bancos de pedra. Rachel se sentou soltando um suspiro.
– Infelizmente, não posso retirar suas sandálias, seria uma tortura ter que recoloca-las.
– Não, por favor, não é necessário. – Rachel tratou de recusar educadamente.
– Aqui, alcool irá aliviar sua dor. – Quinn estendeu a taça.
– Obrigada. – Tomou um pequeno gole.
Quinn arqueou a sobrancelha.
– Um gole desses não irá aliviar dor alguma. – Comentou com calma. – Vamos, de um gole de verdade, não se sinta acanhada.
Rachel sorriu antes de virar o conteúdo da taça.
– Bem melhor. – Quinn se sentou ao lado dela.
Rachel olhou para a frente e percebeu que estava em um jardim interno do hotel.
– Lindo.
– Sim, este hotel está na minha família a gerações. – Quinn soltou um suspiro pesado. – Era um dos favoritos de minha esposa.
Rachel suspirou sentindo um cutucão estranho no peito. Olhou de relance para a mulher ao seu lado e ela parecia extremamente serena.
– Não precisa me olhar desse jeito. – Quinn deu um pequeno sorriso apenas com os lábios. – Sabe… ainda dói, mas não precisa me olhar com esses olhos de pena.
– Desculpe. – Rachel fechou os olhos.
– Não se preocupe. – A encarou com seus olhos verdes. – É normal me olharem desse jeito.
– Por isso vive reclusa? – Rachel não conseguiu segurar a língua.
– Em parte. – Quinn deixou o sorriso morrer e desviou os olhos. – E em parte porque esse mundo já não tem mais nada pra mim.
– Como fala assim? Você é tão nova e tão bonita.
Quinn se levantou voltando a encarar Rachel.
– Não tente entender Rachel… não tente… — Acenou com a cabeça. – Com licença senhorita Berry, espero que tenha um agradável final de noite.
Se livrou dos braços longos que lhe prendiam na cama, e se levantou deixando o ar frio arrepiar seu corpo nu. Entrou no banheiro pronta para tomar uma ducha rápida e se livrar do suor pegajoso que lhe impregnava a pele, lavou-se com cuidado tirando os resíduos que Finn deixara por seu corpo e rapidamente se enrolou em um roupão.
Ouviu o ronco suave do noivo e saiu do quarto na ponta dos pés na direção da cozinha. Sua garganta estava seca e ela precisava de um pouco de água gelada, acendeu a luz da cozinha e foi até a geladeira se servindo de um pouco de água. Sentiu algo passar por cima do seu ombro e reprimiu o grito no último instante. A flecha tremia levemente, a aste era negra enquanto as plumas eram rajadas de dourado, mas quase não era perceptível. Rachel encarava a flecha até perceber o rolinho de papel preso ao tubo. Com os dedos trêmulos desprendeu o papel e puxou a flecha com força até que ela se soltasse. Olhou para o buraco na parede e rapidamente o tampou pendurando um pano de prato na frente. Desenrolou o papel.
Boa decisão em pedir para o segurança acompanha-la.
Espero que esteja bem.
Dark Angel
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