Dark Angel

17 Capítulo XVI - Fé


Rachel remexia as mãos de maneira nervosa, olhava para a porta enquanto esperava o maquiador para retirar sua maquiagem. Sua mente ainda tentava raciocinar o que havia acontecido. Quinn havia lhe beijado. Elas tinham se beijado. Algumas vezes. Quinn tinha ficado para assistir a peça e agora lhe esperava pacientemente do lado de fora até ela estar pronta para irem jantar.
Pode sentir os olhos verdes cravados no seu rosto durante toda a apresentação, como se ela fosse o mais fascinante espécime encontrado. Quinn Fabray havia lhe beijado e agora ela estava ali, se comportando como uma pré-adolescente que esta as vésperas da primeira festa sem os pais em que espera finalmente ter o primeiro beijo com o garoto ou garota pelo qual é apaixonada desde o pré-escolar.
Respirou fundo enquanto sacudia as mãos para expulsar o ar. Mantenha o foco Rachel. Era a frase que repetia em sua mente.
Deixou-se relaxar contra a cadeira enquanto mantinha a respiração constante. Não entraria em pânico, iria jantar com Quinn e elas iriam conversar sobre aqueles beijos de forma adulta e responsável.
Ela havia acabado de terminar o noivado e pelo que sabia Quinn ainda era loucamente apaixonada pela falecida esposa. Conversar. Adultas. Responsáveis.

*

Quinn deu um sorriso sem graça para a morena enquanto eram servidas, o silêncio constrangedor se instalara entre elas desde o momento em que Rachel saíra do camarim. A loira abaixou os olhos para o próprio prato de risoto antes de pegar o garfo e brincar com a comida, suspirou e ergueu os olhos abrindo a boca para logo em seguida fecha-la e suspirar voltando a olhar para o próprio prato.
– Desculpe. — A loira sussurrou vendo Rachel remexer na própria salada. — Não pensei que ficaria esse clima...
Rachel suspirou tomando um gole do vinho branco.
– Não se desculpe. — Pediu em voz baixa. — A não ser que ache que foi um erro ter... me beijado.
– Não foi. — A voz de Quinn saiu mais forte, segurou a mão que Rachel deixava repousada sobre a mesa. — Te beijar foi... o melhor acerto que fiz nos últimos anos. Todas as vezes em que te beijei pelo menos.
Rachel sorriu abaixando os olhos, sentiu Quinn apertar sua mão sutilmente querendo que a morena lhe olha-se.
– Só quero entender por que. — Rachel suspirou. — Quando conversamos sobre... os meus sentimentos... deixei claro que não desrespeitaria Annabelle.
– Não desrespeitou. — Quinn olhava atentamente para a mão das duas, com cuidado passou a brincar com os dedos da morena. — Estive no cemitério hoje.
Rachel fica atenta, envolve a mão de Quinn com a sua.
– Você me acharia louca se eu te dissesse que vi Annabelle e Melissa hoje. — Olhou nos olhos escuros de Rachel.
– Nem um pouco.
Quinn acenou com a cabeça antes de dar um pequeno sorriso.
– Elas estavam juntas e estavam bem. — Encarou Rachel e viu como os olhos da morena sorriram para ela. — Foi como se algo ou alguém quisesse me mostrar que... elas estavam bem e eu também quis muito estar bem. Consegue me entender? Eu não te procurei por que sabia que você... como posso dizer? Me aceitaria? Me compreenderia? Eu não sei, mas quero que saiba que eu te procurei porque você me faz bem, Rachel.
– Eu entendo querida. — Rachel falou suavemente.
– Você me faz bem. — Quinn afirmou para a morena, sem desviar os olhos.
Rachel inclinou a cabeça com um sorriso envergonhado.
– Não quero te apressar, sei que terminou um noivado...
– Shhh. — Rachel apertou a mão de Quinn, a olhou. — Não vamos estragar o dia, não vamos falar de Finn. Eu terminei. Acabou. É passado.
Quinn a fitou por um instante antes de concordar com a cabeça.

*

A loira parou sem jeito ao lado da morena diante da porta do apartamento da última.
– É aqui que me despeço. — Mexeu as mãos pálidas, sentiu o rosto corar um pouco.
Rachel sorriu antes de passar os braços pelo pescoço de Quinn e ficar na ponta dos pés roçando os lábios nos da loira.
– Onde está a mulher sedutora e firme que conheço? — Sussurrou ainda sorrindo.
– Está sem prática na área de namoro/encontros e afins. — Quinn a segurou pela cintura a apertando de leve.
Rachel deu um passo a frente colando seu corpo um pouco mais no de Quinn.
– Para quem está sem prática sabe me segurar pela cintura muito bem senhora Fabray. — Comentou soltando uma risada, viu Quinn fechar os olhos respirando fundo.
– Adoro o som da sua risada. — A loira se pegou sussurrando.
Rachel mordeu o lábio ainda sorrindo.
– Me deixe te ajudar? — Pediu deslizando o dedo indicador pelo pescoço de Quinn. — Agora é um bom momento para você me dar um beijo de boa noite.
– Seria? — A loira arqueou a sobrancelha. — Bem... eu acho que tem razão senhorita Berry.
Rachel soltou uma risada baixa antes de Quinn se inclinar para ela. O beijo se iniciou de forma contida e tímida, Rachel com cuidado roçou as unhas contra a pele do pescoço pálido provocando o suspiro necessário para que ela tomasse o controle da situação. Sentiu Quinn apertar sua cintura antes de uma das mãos deslizarem por toda a linha de sua coluna causando um arrepio assim que os dedos atingiram a lombar. Sugou o lábio inferior da Fabray antes de solta-lo, podia sentir a respiração agitada de Quinn e quando abriu os olhos um arrepio mais forte correu por sua pele. Quinn lhe encarava com os olhos verdes escuros e os lábios rosados em um tom de vermelho convidativos.
– É melhor eu entrar. — A morena tentou umedecer a garganta que havia secado, lambeu os próprios lábios. — Tome cuidado essa noite, por favor.
– Eu terei. — Quinn sussurrou roçando seu nariz no de Rachel. — Durma bem.
– Vou tentar. — A morena respirou fundo dando um último beijo suave nos lábios da loira.

*

Ouviu o grito fino vindo de dentro de um dos apartamentos, Dark Angel se aproximou do parapeito olhando mais atentamente. O arco preso ao seu tronco enquanto o capuz lhe mantinha incógnita. Ouviu o som de um soco e outro grito fino, parecia com o de uma criança, mas o som abafado fora de alguém mais velho.
Se afastou da beirada antes de correr e pular para se agarrar ao parapeito do prédio seguinte. Apoiou o pé na parede e deu impulso para içar o corpo, se abaixou correndo até a escada de incêndio e passou a descer os degraus com cuidado para não fazer barulho.
Havia uma criança escondida próxima a uma janela, ela tremia e choramingava. As vozes altas e exaltas vinham por debaixo da porta fechada.
Bateu na janela suavemente atraindo a atenção da menina, fez sinal para que ela ficasse quieta. A menina se levantou abrindo a janela, choramingou olhando para Quinn.
– Não vou te machucar. — Dark Angel sussurrou suavemente. — Por que estava gritando?
– Papai está machucando a mamãe de novo. — A menina fungou, a luz da lua percebeu os olhos azuis intensos da menina. — Ele me mandou ficar no quarto.
– Papai faz muito isso? — Perguntou gentilmente.
– Sim. — Fungou.
Dark Angel olhou para baixo, fitou o chão por um instante antes de olhar para a menina.
– Se esconda dentro do armário querida. — Pediu suavemente já entrando no apartamento. — Não saia de lá até que a mamãe ou eu vá lhe buscar, ok?
A menina concordou com a cabeça antes de se esconder dentro do armário. Dark Angel se aproximou da porta enquanto seus ouvidos estavam atentos ao argumento, lançou mais um olhar para a porta do armário se certificando que ele estava trancado antes de sacar o punhal e se esgueirar para fora.
O homem estava gritando para a mulher encolhida próxima a parede, ele brandiu o braço e desferiu um soco nela enquanto berrava insultos. Ele não percebeu a maneira como Dark Angel se esgueirou até suas costas, apenas se deu conta da lâmina fina e fria acariciando a pele do seu pescoço.
– Eu pararia com isso se fosse você. — Dark Angel tinha a voz fria e rouca como de costume. — Não se deve bater em sua esposa com sua filha no quarto ao lado. Na verdade... você nunca deveria bater em sua esposa.
Sentiu o homem endurecer enquanto ela o puxava para trás.
– Fique parado. — Rosnou contra o ouvido dele.
Moveu-se sempre apontando a ponta do punhal para a garganta dele, enfrentou o homem e recebeu o cheiro de álcool em seu rosto.
– Senhora, a senhora está bem?
– Sim, estou. — A voz era ligeiramente familiar, mas estava mascarada pela dor evidente.
Dark Angel inclinou a cabeça olhando atentamente para o homem.
– Bem... a senhora decide o que deve ser feito. — O homem lhe encarava com puro desprezo. — Posso resolver esse problema para a senhora ou deixar que as autoridades resolvam. Isso obviamente, presumindo que a senhora gostaria que sua filha não presenciasse mais esse tipo de coisa.
Ouviu a mulher gemer, mas não tirou os olhos do homem.
– Não... Não quero. — A mulher ofegou.
– Então... o veredito é?
– Apenas não deixe minha... filha ver. — A mulher ofegou enquanto se levantava. — Leve-o para longe.
O sorriso imperceptível chegou aos lábios de Dark Angel antes dela dar um passo para mais perto do homem que recuou.
– Não se preocupe big boy. — Sussurrou deslizando a ponta do punhal pela garganta dele. — Vamos resolver isso bem rápido.
Os olhos castanhos escuros saltaram em sua mente causando um leve desconforto em seu estômago.
– Vire-se. — Ordenou com a voz fria.
– Não me mate. — O homem balbuciou. — Eu posso mudar. Eu juro.
– Eu mandei você se virar. — Rosnou baixinho. — Vire-se e fique de joelhos.
O homem obedeceu sentindo a ponta do punhal em sua nuca e logo lhe abandonar. Dark Angel se abaixou amarrando as mãos do homem o mais apertado que conseguiu. Antes de se virar para a mulher.
Os cabelos escuros caiam pelo rosto dela, os olhos azuis bem marcantes e machucados. Marley Rose estava na sua frente.
Se agachou pegando a mulher nos braços, ouviu o gemido suave e se preocupou que ela tivesse alguma contusão interna, com cuidado a carregou até o quarto da filha a deixando sobre a cama.
– Não se preocupe. — Sussurrou para ela.
Andou até o armário abrindo a porta devagar.
– Venha aqui. — Sussurrou para a menina que estava agarrada ao coelhinho de pelúcia. — Está tudo bem, já acabou. Mamãe está na cama e está dodói. Fique com ela.
Observou a menina correr para a mãe subindo na cama com cuidado e a abraçando com toda a delicadeza que tinha em seu pequeno corpo. Saiu do quarto indo até a cozinha, pegou dois sacos de comida congelada e retornou ao quarto da menina os estendendo para Marley.
– Coloque no rosto e nas costelas. — Falou com calma, manteve a voz pausada. — Irei ligar para a polícia.
– Não iria resolver isso? — Marley olhou para ela.
– Pense na sua filha. — Suspirou olhando para a menina. — Não faria bem algum a ela. Apenas... pense nela.
Saiu do quarto outra vez e foi até a sala onde o homem estava amarrado no chão, o empurrou o fazendo cair deitado. Pegou o telefone e discou, manteve o aparelho a uma distancia considerável de seu rosto.
– Aqui é Dark Angel. — Sua voz rouca e profunda. — Estou te dando tempo o suficiente para rastrear essa ligação, então preste atenção. Estou olhando para um homem que estava espancando sua esposa, eu o amarrei no chão da sala e coloquei sua esposa no quarto da filha deles, uma menina de cinco anos. Ela está bastante ferida. Vocês tem 10 minutos para estarem aqui ou então eu farei sangrar igual um porco.
Desligou o telefone o jogando no sofá, se aproximou do homem caído. O chutou no estômago e se afastou entrando no quarto da menina outra vez.
– Eles estão chegando.
– Ele vai sair. — Marley balbuciou sentindo a filha ao seu lado. — Ele irá vir atrás de mim outra vez.
– Confie em mim. — Se adiantou até a janela. — Você e sua filha estão bem seguras.
Saiu pela janela e subiu correndo até o telhado, puxou o punhal outra vez encarando a lâmina.
Aparentemente, Rachel Berry a estava fazendo recuperar sua fé. E como ouvira uma vez de Annabelle... a fé é o que mantém a sanidade dos homens.

Notas finais
@just_someone13 e ask.fm/PSomeone