Dark Angel
18 Capítulo XVII - Psicólogo
Finn estava parado do lado de fora do teatro, observou o carro preto se aproximar, jogou o cigarro no chão pisando nele para apagar.
Rachel suspirou quando o viu apoiado na parede, aparentemente ele se cansara de apenas ligar e mandar mensagens. Agradeceu a Edgar e saiu do carro sendo acompanhada pelo olhar atento do motorista.
– Finn. — O cumprimentou com um aceno de cabeça.
– O que? Agora eu só ganho um aceno de cabeça e você falando o meu nome? — Ele apoiou a cabeça contra a parede enquanto a olhava, o tom de voz ressentido.
– Não comece. — Rachel suspirou se aproximando dele.
– Eu ainda não comecei. — Ele olhou para o carro que permanecia parado no mesmo lugar. — O que é isso? Agora precisa de guarda-costas? É o que? Ordens dela?
Rachel olhou para o carro e se sentiu um pouco mais tranquila.
– Não, Edgar fica aqui na frente aos meus serviços. — Respondeu antes de olhar para ela. — Cortezia de Quinn.
– Imagino quais outras cortesias ela esteja te oferecendo. — Ele sorriu sarcástico. — O jantar foi gostoso?
– Sim, foi delicioso. A companhia também foi deliciosa. — Rachel sorriu com o mesmo sarcasmo dele. — Eu não quero brigar com você, Finn, eu realmente não quero. Preferia que tivéssemos terminado em boas condições.
– Para você não sentir remorso em ir para a cama dela? — Ele arqueou as sobrancelhas antes de deixar a língua lamber o lábio inferior.
– Eu não fui para a cama de ninguém que não fosse a minha, agora me respeite. — Apertou a bolsa contra o corpo.
– Eu respeitaria, se você se desse ao respeito. — Ele se empurrou para fora da parede. — Você terminou comigo por causa dela?
– Já disse que não e eu não vou ficar me repetindo para você. — Se afastou dele até estar segura atrás das portas do teatro.
*
Quinn se sentou confortável na poltrona do quarto enquanto lia o jornal, esperava pacientemente que a mulher na cama acordasse. Virou a página correndo os olhos pelas reportagens inúteis.
– Sempre visita... seus funcionários no... hospital? — Marley perguntou de onde estava.
– Só quando eles são de importância. — Quinn respondeu sem levantar o rosto da revista. — Espero que não se importe, mas sua filha está sendo acompanhada por um psicólogo do hospital.
Ergueu o rosto para encarar a mulher, Marley tinha um dos olhos fechados tamanho o inchaço, o maxilar estava azul, um corte na outra sobrancelha.
– Não... não me importo... obrigada... — Respirou com dificuldades.
– Sua costela está quebrada, tente não fazer esforço. — Quinn soltou a revista e se levantou andando até ela. — Você está em um dos hospitais que recebem ajuda da Fabray Enterprises. Você e sua filha terão toda e qualquer ajuda médica e psicológica que precisarem, e espero que não se importe, mas solicitei que um de meus advogados tome conta do seu... caso. Ele não voltara a se aproximar de vocês. Você está de férias remuneradas até segunda ordem, não se preocupe com despesa nenhuma.
Sorriu carinhosamente e limpou a lágrima que escorrera por um dos olhos da morena.
– Shhh. — Sussurrou a segurando pela mão. — Já acabou, já acabou.
– Ryder... — Suspirou soltando um gemido baixo. — Nem sempre... foi assim...
Quinn apertou a mão que segurava e manteve o olhar bondoso em seu rosto, acariciou os cabelos escuros da mulher.
– Era bondoso... bom marido... bom pai...
– Eu sei, eu acredito em você. — Quinn falou baixo. — Mas agora ele faz mal e deve ser afastado, você entende?
Marley concordou com a cabeça antes de fechar o único olho funcional e sussurrar.
– Obrigada.
Quinn permaneceu na mesma posição até a mulher adormecer outra vez, se inclinou a beijando na testa e rapidamente se afastando do quarto.
*
Abriu a porta com cuidado encontrando o homem sentado na poltrona. Os cabelos escuros bagunçados, a camisa social branca e um jeans surrado contrastava com o consultório tão clássico e perfeitamente arrumado.
– Boa tarde. — O homem sorriu para ela antes de se levantar. — Sou Mike Chang.
– Quinn Fabray. — Apertou a mão do homem antes de se sentar na poltrona que ele indicava. — Conheci o seu pai há alguns anos.
– Sim, sim... ele se aposentou e eu acabei herdando o consultório e os pacientes. — Sorriu para ela enquanto cruzava as pernas.
– Não parece tão... — Parou olhando para o homem antes de soltar uma risada curta. — Desculpe, mas não consigo vê-lo como um psicólogo.
– É eu sei, meu pai diz a mesma coisa. — Encolheu os ombros antes de se inclinar para o telefone. — Aceita um café? Vou pedir para entregar, tem uma cafeteria ótima há umas duas quadras.
Quinn arqueou a sobrancelha antes de perguntar.
– Eles tem chá inglês?
– Posso perguntar. — Respondeu já com o telefone no ouvido. — Boa tarde, é o Dr. Chang... isso... isso eu gostaria do meu habitual e também saber se vocês tem chá inglês. Certo, certo, sim eu gostaria de um. Tradicional certo? — Olhou para Quinn que concordou com a cabeça. — Sim, exatamente isso e envie uma dúzia dos bolinhos de sempre. Obrigado, quanto tempo? Perfeito, é só falar com a minha secretária como sempre.
– Parece que faz muito esse pedido. — Quinn o observou colocar o telefone no gancho.
– É... por experiência própria descobri que as pessoas se sentem mais confortáveis se tem uma bebida quente e reconfortante em mãos. — O homem sorriu enquanto fechava o caderno de anotações e o colocava de lado junto a caneta.
– Experiência própria? — Quinn cruzou os dedos contra a barriga.
– Minha mãe, sempre que eu tinha um dia ruim ela me dava uma bebida quente e fazia com que eu me sentasse com ela para conversar. — Mike encolheu os ombros. — Depois que ela se foi eu continuei fazendo isso.
– O que? — Quinn sentiu a pulsação acelerar. — Depois de um dia ruim, tomar uma bebida quente e sentar pra conversar com ela?
– As vezes. — Mike a fitou com interesse. — As vezes eu gosto de conversar com ela e eu sei que ela está me ouvindo.
Quinn desviou o olhar tocando os lábios com o indicador, apoiando o cotovelo no braço da poltrona.
– Eu... eu tentei consultar o seu pai. — Quinn falou pausadamente. — Meu cunhado insistiu após o ocorrido com minha esposa e minha filha...
Mike parecia interessado no que ela dizia.
– Ele havia me diagnosticado com estresse pós-traumático e depressão. — Quinn olhou para ele. — Só tive umas duas ou três consultas e não fiz o tratamento que ele prescreveu.
Mike permaneceu em silêncio por um tempo antes de perguntar.
– Seu cunhado ou alguém insistiu para que a senhora estivesse aqui hoje?
– Não. — Quinn olhou para ele antes de respirar fundo. — Não, estou aqui por... vontade própria.
– Por quê?
Quinn parou por um instante antes de erguer o queixo olhando para cima da cabeça dele.
– Tudo o que eu disser aqui... irá ficar entre nós dois?
– É claro.
– Você está gravando? — Olhou para ele.
– Não tenho o costume de gravar minhas sessões e faço poucas anotações apenas para não me perder, se te incomoda eu não irei fazê-las. — Manteve o olhar firme dela. — Está em um ambiente seguro, Quinn, tudo o que me disser ficará aqui.
A mulher concordou com a cabeça lentamente.
– Decidi vir porque... pela primeira vez desde que minha esposa e minha filha foram tiradas de mim eu quero ser melhor. — Quinn olhou para ele sentindo a respiração acelerar. — Quero ser uma mulher melhor, quero ser uma empresaria melhor, reneguei minha vida no momento em que identifiquei minha esposa e minha filha. Eu me reneguei. Eu me enterrei com elas.
O homem concordou com a cabeça antes de se curvar na direção dela.
– Bem... estar aqui, sem a pressão de ninguém, significa que você já é uma pessoa melhor. — Ele mantinha a voz mansa e calma. — Você está dando um grande passo e acredite, talvez seja o mais difícil de todos.
– Não é. — Quinn negou com a cabeça. — Sabe quando você disse que às vezes conversa com a sua mãe? E sabe que ela está lá? Te ouvindo?
– Sim.
– Annabelle estava. — Quinn empurrou as costas contra a poltrona. — Ela realmente estava ao meu lado.
Mike endireitou a postura enquanto olhava para Quinn.
– Annabelle esteve ao meu lado desde a noite anterior a que acharam ela e Melissa. — Quinn lambeu os lábios. — Eu já sabia que elas estavam mortas, antes mesmo do detetive St. James me contar. Annabelle estava parada ao meu lado quando recebi a notícia.
Mike franziu as sobrancelhas inclinando a cabeça para o lado.
– Está dizendo que você a via? Fisicamente falando?
– Sim, eu conversava com ela, eu a tocava, a sentia... sua pele, seus cabelos e seu cheiro. — Quinn traçou pequenos círculos com a ponta dos dedos no braço da poltrona. — Me chame de louca, mas ela era tão real quanto você é agora.
Mike acertou a postura cruzando as pernas outra vez, apoiou os braços nos braços da poltrona.
– E onde ela está? — Perguntou calmo. — Ela está aqui?
– Não. — Quinn respirou fundo sentindo as batidas do coração se acalmarem. — Ela se foi.
– Para onde?
– Eu não sei. — Sorriu de leve olhando para ele. — Ela se foi, eu a vi com Melissa. Elas caminhavam juntas, para um lugar de luz. Annabelle era outra vez uma mulher feliz com nossa filha ao seu lado. Annabelle finalmente descansou, eu a permiti ir descansar. Entende? Eu entendo agora, eu prendi Annabelle a mim, eu a acorrentei a minha vida e não permitia que ela descansasse. Eu acorrentei a uma vida que eu não queria, eu não aceitava que minha mulher e minha filha estivessem mortas e eu viva. Eu me culpei. Eu me odiei.
– Mas agora você se perdoa?
– Não, não totalmente, mas o suficiente para deixa-la descansar. — Tocou os lábios com os dedos outra vez. — Eu ainda sinto raiva pelo que aconteceu. Ainda quero justiça a qualquer custo. Ainda dói. Já ouviu um pai que perdeu o filho dizer que não é natural? É uma dor que... não tem como medir. Você quis aquela criança, você imaginou o futuro que ela teria e então ela é tirada de você.
– Você via apenas Annabelle?
– Sim. — A mulher respirou fundo antes de tocar a aliança que ainda estava em sua mão.
– Por que não Melissa?
Quinn negou com a cabeça.
– Minha filha nunca cometeu um pecado. — Quinn olhou para ele. — Minha filha era uma criança de três anos, era um pequeno anjo. Só tinha uma pessoa que entenderia minha dor.
– Annabelle. — Mike apoiou a lateral da cabeça na ponta do dedo indicador. — Por isso você a prendeu, ela entendia a sua dor por perder a filha de vocês. Ela entendia o que era ansiar pelo futuro da menina e não vê-lo se concretizar.
– Acha que sou louca? — Quinn sussurrou.
Mike sorriu para ela antes de se levantar para atender a porta, agradeceu a mulher antes de recuar com um prato de bolinhos e as duas bebidas. Colocou entre eles na mesinha e serviu Quinn estendendo o chá para ela e empurrando o prato de bolinhos.
– Por favor. — Se serviu do próprio café e apanhou um dos bolinhos. — Vai se sentir melhor depois de um bom gole desse chá quente e um bolinho. São deliciosos.
Quinn tomou um gole do chá sentindo o calor se irradiar pelo seu corpo, soltou um suspiro sentindo-se confortável. Pegou um dos bolinhos pegando um bocado com os dedos e os levando aos lábios.
– É amanteigado e as gotas de chocolate deixam ainda melhor. — Mike sorriu para ela.
– Sim, é muito bom. — Quinn comeu mais um bocado do bolinho antes de sorrir e tomar outro gole do chá. — Me sinto bem.
Mike sorriu para ela, tomou outro gole de café.
– Não. — Ele soltou atraindo a atenção dela. — Não acho que é louca.
Quinn deu um sorriso pequeno antes de comer mais um bocado.
– Eu acredito em você. — Ele comentou com a voz baixa. — Acredito que Annabelle realmente esteve com você.
– Por quê?
Mike se ajeitou na poltrona colocando o café e o bolinho na mesinha, esfregou as mãos.
– Acredito, simplesmente acredito em você. — Mike a olhou com intensidade. — Certas coisas não precisam de explicação, você apenas entende, apenas acredita.
*
Quinn se apoiou na bancada enquanto Rachel preparava o jantar para elas, tomou um gole do suco que a morena havia lhe servido.
– Como foi o seu dia? — A loira perguntou antes de sentar na cadeira.
– Bom. — A morena temperou a sopa que estava fazendo. — Tivemos um bom ensaio, a produção está chegando ao final. É como se já tivéssemos nos transformado em velhos amigos, sentirei falta deles. E o seu dia?
– Bom também, fui ver Marley Rose garanti que a Fabray Enterprises estará ao lado dela em todo o processo. — Apoiou as costas contra o encosto da cadeira. — E depois fui me consultar com um psicólogo.
Rachel se virou para ela esquecendo da sopa por um instante.
– Você está bem? — Perguntou tentando manter a calma.
– Estou. — Sorriu com leveza. — Estou querida, não se preocupe. Vai queimar a sopa.
Rachel voltou a atenção para a sopa.
– Eu só... preciso de alguém para conversar. — Quinn se levantou parando atrás dela. — Não que eu não possa falar com você. Apenas preciso de alguém que... seja neutro.
– Eu sei. — Rachel suspirou. — Edgar te contou?
– O que? — A loira franziu as sobrancelhas a segurando pelo quadril.
– Sobre o Finn? — Olhou para ela por cima do ombro. — Ele estava me esperando no teatro hoje.
– Não. — A loira manteve o cenho franzido. — Eu não deixei Edgar com você para te controlar.
– Eu sei, apenas achei que ele teria te contado.
– Edgar é um homem discreto. — A beijou nos cabelos. — Ele não me contaria nada que não achasse extremamente necessário. Agora... o que Finn queria?
– Me acusar de estar dormindo com você. — Rachel suspirou. — Ele não aceita.
Quinn suspira apoiando os lábios na curva do pescoço de Rachel a apertando sutilmente em seu corpo.
– Não sei se devo pedir desculpas. — Sussurrou para a morena.
– Não deve. — Rachel desligou o fogo e acariciou os braços de Quinn que a envolveram rapidamente. — Não fizemos nada nas costas dele. Meu noivado com ele terminou, se ele não aceita, paciência.
– Ele é o seu melhor amigo. — Quinn sussurrou. — Eu entendo que queira protege-lo.
– Um dia ele foi o meu melhor amigo. — Rachel suspirou tentando se virar para ela, Quinn afroxou seus braços permitindo. — Ele é uma grande parte da minha vida e eu sinto muito carinho por ele, mas... acabamos. Gostaria que você entendesse isso.
– Eu entendo. — Quinn a fez erguer a cabeça. — Se não entendesse e não estivesse disposta a... tentar com você... não estaria aqui essa noite.
Quinn acariciou o maxilar dela e sorriu sentindo a morena beijar seu queixo.
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