Dark Angel
11 Capítulo X - Primeiros passos
Quinn colocou os pés no hall de entrada da matriz da Fabray Enterprises. As pessoas presentes pararam enquanto a loira passava suavemente desejando bom dia para quem estivesse em seu caminho.
Tocou o botão do elevador e se manteve parada e ereta olhando fixamente para as portas de metal até que elas se abriram.
Entrou apertando o botão do último andar, percebeu que todos ainda lhe encaravam embasbacados, sorriu arqueando uma sobrancelha.
– Segura! – Ouviu uma voz adocicada.
Quinn segurou a porta vendo a mulher cheia de pastas etrar e derrubar metade delas.
– Droga. – Resmungou soltando um suspiro.
Quinn olhou para a mulher de estatura mediana, cabelos escuros presos em um coque e os olhos azuis escondidos atrás de um par de óculos.
– Qual andar? – Quinn perguntou.
– 15º.
A loira apertou os olhos azuis e prontamente perdeu a pouca cor que tinha.
– Senhora Fabray… me desculpe…
– Não tem problema. – Quinn sorriu ajudando a mulher a se levantar. – Bom dia… — Seus olhos deslizaram para o crachá pendurado no pescoço da mulher. – Marley Rose.
A mulher deu um pequeno sorriso contido.
– Bom dia senhora Fabray. – Ajeitou os relatórios que segurava.
Quinn sorriu para a mulher que lhe encarava encantada.
*
O último andar era um hall amplo com duas portas e uma mesa. Kyle estava de costas para o elevador e de frente para a senhora que ocupavaa mesa. A mulher de baixa estatura e cabelos que já revelavam a sua idade avançada, os olhos azuis ainda mantinham a astucia da juventude.
– Valha-me meu bom Deus. – A mulher arregalou os olhos assim que Quinn saiu do elevador.
Kyle se virou e parou chocado vendo a cunhada, a mulher se adiantou com passos lentos.
– Bom dia. – Cumprimentou aos dois. – Angelina a chave da minha sala por gentileza.
A senhora abriu a gaveta e procurou por alguns instantes antes de estender a chave para a Fabray.
– Kyle, vá para a sua reunião e quando terminar venha falar comigo.
Quinn deu as costas se afastando dos dois. Abriu a porta a fechando assim que entrou, suspirou fechando os olhos.
– E a rainha retoma o poder. – Ouviu a voz bem humorada de Annabelle.
Abriu os olhos vendo a mulher sentada atrás da mesa com um sorriso nos lábios. A sala ampla e bem iluminada se abria na sua frente como um lugar que estava apenas no fundo de sua mente. Andou no automático até a parede de vidro que estava atrás de Annabelle. Estava de frente para Manhattan, a cidade se abria aos seus pés, sentiu Annabelle parar nas suas costas e as mãos frias se apoiarem em seus ombros.
– A rainha volta ao trono e o governo se reestabelece como sempre deveria ter sido.
O sussurro adocicado em seus ouvidos fora o calmante que seu coração precisava para parar de tentar saltar para fora de sua caixa toráxica.
Estava no seu lugar de direito, sua empresa. Seu império. Herdara tudo aquilo após o falecimento do pai, sua mãe morrera quando Quinn não passava de uma adolescente. Tinha uma boa relação com o pai, se apoiaram um no outro quando a matriarca se fora. Após a morte de Russel Fabray a princesa do império assumira o posto de imperatriz. O pai sempte a envolvera em cada novo projeto, em cada compra e venda que efetuava. Quinn aprendera na prática a como administrar tudo aquilo, trocou a faculdade de Arquitetura já em sua reta final para se dedicar a cursos intensivos de administração e economia. Russel lhe dera uma herança maior do que a Fabray Enterprises, ele lhe dera todos os meios para que tivesse conhecimento.
Se afastou da janela e se sentou na cadeira, era confortavel como sempre fora. Mas aquele momento significava mais do que o simples conforto de uma cadeira. Aquele momento era Quinn assumindo o papel que a muito declinara. Ela assumia o papel de Quinn Fabray. E Quinn Fabray era ela.
– Agenlina, por favor, venha até a minha sala. – Seu tom de voz firme e sereno como sempre fora.
Se recostou contra a cadeira, seus olhos pousaram na foto que estava sobre o tampo da mesa. Melissa tinha dois anos e estava em seu colo, ambas estavam sujas de sorvete e a menina exibia o sorriso contagiante.
– Senhora Fabray? – A mulher entrou fechando a porta.
– Eu gostaria que a senhora mandasse um memorando para todas as gerências e supervisões da Fabray Enterprise. Gostaria de um relatório detalhado sobre a situação de cada área, mande que eles façam apenas um complemento do último relatório e me traga aqueles que estão na sala do Kyle referentes ao último trimestre.
– Algo mais? – A mulher perguntou sem esboçar reação.
– Nada. – Quinn se recostou virando a cadeira um pouco para olhar pela janela. – Angelina…
– Sim?
– Mande duas dúzias de rosas brancas para o cemitério. – Cruzou os dedos na frente do abdomen.
– Considere feito. – Angelina respondeu antes de se afastar na direção da porta, parou quando sua mão tocou na maçaneta, virou a cabeça olhando para Quinn. – É maravilhoso tê-la aqui outra vez.
*
– Corta! – O diretor gritou quando Rachel errou a fala pela terceira vez consecutiva. – Pausa para o almoço.
Ele se levantou fazendo sinal para Rachel se aproximar, a morena suspirou frustrada. Rachel se aproximou da beirada do palco e rapidamente se sentou apoiando as mãos contra o chão.
– O que está acontecendo? – O homem perguntou com as sobrancelhas franzidas e os braços cruzados. — Você não erra Rachel.
– Não estou me sentindo bem, desculpe. – Suspirou outra vez. – Não é um bom dia.
– Vá resolver o que quer que esteja te incomodando. – O homem falou severo. – Está dispensada pelo resto do dia.
O homem se afastou deixando Rachel sozinha em silencio. Como explicar que ela achava que a milionária, filantropa, viúva e linda Quinn Fabray durante a noite se tornava uma justiceira de capuz com arco e flecha? Como explicar que a mulher tão calma e gentil poderia ser tão firme e dura? Como explicar que a mulher que lhe encantava durante a noite podia ser aquela que lhe deixava com o corpo arrepiado?
Rachel suspirou fechando os olhos, a ponta da língua correu pelos lábios. Esse era outro problema. Dark Angel lhe deixava com o coração acelerado, a pele arrepiada e com aquela sensação de que mil formigas passeavam por dentro do seu corpo. Aqueles pequenos choques que correm pelo seu sistema nervoso.
Se levantou e correu para o camarim. Seu celular foi desbloqueado e rapidamente digitou o número que já havia gravado.
– Rachel?
– Acho que fiz uma besteira enorme. – Rachel se apoiou na mesa de maquiagem ficando de costas para o espelho, mordia o lábio enquanto seus dedos tamborilavam na mesa.
– O que foi? Onde você está?
– No teatro. – Sussurrou fechando os olhos. – Errei todas as minhas cenas do dia, o diretor me deu o resto do dia.
– O que está acontecendo?
– Kurt… — Sussurrou abrindo os olhos. – Acho que estou começando a me interessar por outra pessoa…
– Uh… — O estilista ficou em silêncio por um momento. – Não tenha medo… ela também me fez reconsiderar minha orientação sexual.
Rachel fechou os olhos bem apertados, soltou a respiração de uma vez esvaziando o peito. Por um instante experimentou a doce agonia do peito oco, seu coração pulsando mais rápido como se tentasse suprimir sua mente.
– Rachel. – Ouviu o chamado. – Respire. Vamos respire.
– Não brinque com isso. – Abriu os olhos inflando os pulmões. – Não tem graça.
– Minha diva… – O homem parou outra vez. – Amo o meu irmão… amo você… amo vocês dois juntos, mas você é feliz?
– Que pergunta é essa? – Arregalou os olhos. – Falei que estou possívelmente me interessando por alguém, não falei em felicidade.
– Rachel, se interessar por alguém diz muito sobre felicidade.
– Não disse quem era. – Rebateu rapidamente.
– Não precisa, eu já vi os seus olhos quando você olha para ela. Principalmente quando ela estava focada em algo e acaba por arquear a sobrancelha ou passar a mão na nuca.
– E o que tem os meus olhos? – Perguntou se virando para encarar o próprio reflexo, seus olhos escuros e intensos.
– É adoração. A mais pura e genuína. — Kurt suspirou. - Você se perde de tudo Rachel e só presta atenção nela.
– Está dizendo que eu me comporto como uma adolescente. – Reclamou.
– Talvez seja exatamente isso! Rachel você quando está com o Finn se comporta como se tivesse 50kgs sobre os ombros e mais uns 40 anos do que tem! Você precisa de alguém que te deixe mais leve.
– Você está louco. – Rachel encolheu os ombros. – Completamente louco e eu estou mais louca ainda por te ligar e achar isso.
– A loucura é dos apaixonados. – O rapaz soltou uma risada.
– Vá a merda Kurt. – Rachel resmungou deixando os ombros caírem.
– Ok, vamos dizer que eu não conheço você e que eu nunca te vi com a Fabray…
– Você esquece que ela é louca pela esposa. – Rachel sussurrou fazendo o homem parar. – Ela ama a esposa, mesmo depois de tantos anos.
Kurt permaneceu em silêncio, a voz frágil de Rachel era uma pequena admissão.
– Então a conquiste.
– Eu sou noiva. – Ergueu o queixo respirando fundo quando os olhos queimaram. – Isso passa.
– E se não passar? – Suspirou sentindo que regrediam um pouco. – Quantas vezes você me disse que queria desmanchar o noivado mesmo?
– Eu disse que iria mudar Kurt. – Rachel permaneceu com o queixo erguido. – Esqueça essa conversa. Foi apenas um lapso.
– É claro Rachel… é claro…
*
Quinn estava em pé lendo o relatório, seus olhos deslizavam pelos números da tabela enquanto seus dedos da mão direita roçavam na palma da mão em um movimento circurlar. A batida suave antes da porta se abrir.
– Senhora… existe uma senhorita lá embaixo insistindo em falar com a senhora.
Quinn franziu as sobrancelhas fechando o relatório com o indicador dentro da pasta marcando a página.
– Quem?
– Rachel Berry. – Angelina respondeu.
Quinn jogou a pasta sobre a mesa e saiu andando apressada passando pela mulher, a senhora encarou a figura impaciente da chefe e quase esboçou um sorriso quando a mulher socou o botão do elevador.
– Não acha que seria melhor manda-la subir? – Perguntou docemente.
Quinn se virou pegando a contração nos lábios da mulher, correu os dedos pelos cabelos e concordou.
– Deixe que ela suba. – Respondeu limpando a garganta, moveu a mão na direção da sala. – Estarei na minha sala… é só…
– Eu a deixarei entrar. – Angelina sorriu para a Fabray.
– Obrigada Angelina. – Falou com calma antes de se adiantar entrando na sala.
Quinn fechou a porta respirando fundo, Annabelle estava olhando para a cidade de costas para a esposa.
– Querida? – Quinn inclinou a cabeça para o lado, passou a chave na porta.
Annabelle moveu o rosto, olhou Quinn por cima dos ombros.
– Ela esta aqui? – Arqueou a sobrancelha. – Rachel Berry está aqui.
Quinn aprumou os ombros vendo a esposa olhar para a janela.
– Annabelle…
– Deixe que ela venha. – A mulher ergueu o queixo falando com a voz firme. – Gostaria de conhece-la ou ao menos de olhar para ela.
Quinn fitou as costas da mulher, seu coração acelerou levemente. Se adiantou até estar nas costas de Annabelle, envolveu a mulher pela cintura a apertando contra o seu corpo.
– Eu te amo. – Sussurrou em seu ouvido frio, seus lábios roçando contra a cartilagem. – Eu te amo Annabelle, até o meu último suspiro.
– Não duvido disso. – Olhou para Quinn, seus olhos azuis estavam enevoados, acariciou o rosto de Quinn. – Mas mesmo assim me dói…
– O que? – Sussurrou.
– Te ver seguir… — Annabelle fechou os olhos. – Preciso ter certeza que está seguindo com alguém que realmente sirva pra você.
– Não estou seguindo. – Quinn a olhou preocupada, virou a mulher a segurando pelo rosto com as duas mãos. – Estou aqui… estou com você. Estou parada junto a você.
Annabelle segurou os pulsos de Quinn com seus dedos gelados, encarou os olhos verdes da esposa.
– Ela estaria fazendo 9 anos hoje. – Sussurrou com os lábios trêmulos.
– Eu sei. – Quinn respirou fundo. – Eu sei… todos os dias eu tento achar motivos para não estar aqui, mas hoje, logo hoje… eu simplesmente não consegui. Me sufocava estar dentro de casa. Me sentia…
– Morta… — Annabelle sorriu sentindo os olhos se enevoarem deixando Quinn completamente desfocada. – Você morreu para a vida, mas ainda está viva para o mundo.
Quinn respirou fundo soltando Annabelle, sua testa se encostou a da mulher.
– Como posso estar viva quando meu coração foi arrancado junto ao seu? – Estava de olhos fechados tão apertados, seus ouvidos surdos as pequenas batidas na porta.
Annabelle pincelou seu nariz ao de Quinn, seus lábios se roçaram aos da mulher viva.
– Está viva porque o meu coração bate no compasso do seu. – Sussurrou fazendo Quinn abrir os olhos. – Está viva porque vivo através de ti. Está viva porque tem que estar, me prometa que será feliz.
– Eu prometo te amar. – Quinn sussurrou sentindo a agonia em seu peito. – Eu prometo que vou te amar.
As batidas ficando mais altas, Rachel lhe chamava.
– Me prometa que será feliz e que fará por onde ser feliz. – Annabelle segurava a gola de sua camisa social. – Me prometa Quinn.
Quinn fechou os olhos sentindo as lágrimas escorrerem pelos seus olhos. A voz de Rachel subia cada vez mais assustada.
– Não me deixe… — Sussurrou com a voz quebrada.
– Me prometa meu amor… — Annabelle sussurrou angustiada.
– Eu prometo… serei feliz. – Quinn sussurrou sofrida, sentiu Annabelle lhe soltar.
Abriu os olhos e não viu a esposa.
– Annabelle? – Chamou olhando em volta. — Annabelle?
Olhou em volta, empurrou a cadeira da mesa andando pela sala.
– Annabelle! – Chamou pela terceira vez.
Rachel parou de bater na porta. Quinn olhou para a madeira, andou até a porta a destrancando e a abrindo com uma violência que assustou a morena do outro lado. Quinn se sentia em pedaços, seus olhos vermelhos pelo choro, seu peito arfando em busca de ar. Os cabelos loiros pareciam que haviam sido puxados.
Rachel lhe olhou com pavor estampado no rosto.
– Annabelle. – Chamou baixinho olhando para o hall.
Angelina levou a mão ao telefone, mas o movimento de Rachel lhe impediu de fazer o que pretendia. A morena envolveu Quinn em seus braços com força deixando a loira afundar o rosto em seu pescoço e chorar. Esfregava as costas de Quinn a beijando logo abaixo da orelha.
– Shhhh… eu estou aqui… — Sussurrava baixinho no ouvido de Quinn. – Pode não servir, mas estou… shhhh… estou aqui Quinn… estou com você.
Annabelle estava no canto do hall olhando a esposa envolvida nos braços de Rachel, sem que elas soubessem uma luz morna as envolvia como um cobertor as confortando. Annabelle sentiu o queixo tremer e os olhos enevoados lhe impedirem de conseguir ver aquela cena com clareza. Doía ver aquilo, mas ao mesmo tempo lhe fazia tão bem… fechou os olhos fazendo uma prece silenciosa. Que Quinn aceitasse se manter no caminho de Rachel e que ela pudesse descansar na paz da morte. Era um pedido de ajuda.
Annabelle dava os primeiros passos.
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