Dark Age

2 — Tic, tac —


Notas iniciais
NÃO, não vai ser uma fanfic genérica, prometo q vai ser diferente só ir lendo

"Tic, tac, tic, tac, tic, tac."

Dedilhando de maneira precisa e pontual a parede, de segundo em segundo, conto o tempo desde que fui jogado nesta cela podre. O som emitido pelos toques me remete ao som de um relógio. Estava a doze horas seguidas isolado, sem comer ou beber nada, com os olhos fechados e os ouvidos presos apenas ao som sempre pontual do toque dos meus dedos na parede. Sentia falta da presença da minha espada em minhas costas para minha defesa. Ao longe, escutei o som das juntas metálicas de uma armadura movimentando-se.

— Saito Hiroki, né? Vem cá, seu lixo. — Disse um soldado que vinha se aproximando. Usava a armadura padrão dos Cavaleiros do Reino de menor classe, nada extravagante, apenas metal cobrindo o corpo e um elmo escondendo seu rosto. — Tá na hora de ser julgado.

— Pois é, quem mandou mexer com a gente? — Um outro cavaleiro vinha se aproximando. Esse, provavelmente de classe média, tinha a armadura branca impecável com uma pintura representando o Sol no centro, símbolo do Reino de Aynraid. As lendas ancestrais explicavam o Sol como um elemento divino, pois as escrituras diziam que a legendária deusa Karin foi ao seu encontro logo após salvar a humanidade de seu pior pesadelo. — Pode ter certeza que eu vou matar cada um de vocês, rebeldes de merda, que tentarem achar que mandam em alguma coisa.

As falas irritantes dos cavaleiros estragaram a sincronia dos meus toques, me deixando levemente estressado. Levantei e me deixei ser algemado, sendo carregado pelos soldados, por empurrões e chutes provocativos, ao longo de um corredor estreito. Não prestei atenção no que estava ao meu redor, minha visão focalizou o chão limpo e luxuoso. Aquele chão não era o de uma prisão convencional, pois eles costumavam ser muito mais imundos.

— Entra aí. — Falou um dos cavaleiros, me chutando e me fazendo entrar através de uma porta. O chão agora havia se transformado em um tapete luxuoso. Olhei ao meu redor, e vi vários cavaleiros de diversas classes diferentes sentados em assentos, prontos para a decisão sobre meu julgamento. Além disso, outras figuras importantes também​ frequentavam o local, como clérigos. Na minha frente, uma longa caminhada me levaria a um homem velho e de cabelos brancos que estava sob um altar. Ele seria o jurado que decidiria meu destino.

Em um assento especial, na frente de todos, estava a líder do exército e também princesa de Aynraid, Serena, com sua pele clara e cabelos loiros e longos. Ela não usava elmo e tinha uma armadura característica dela, branca com detalhes vermelhos. Seus olhos verdes seguiam o meu movimento. Além de ser uma guerreira que derrotaria mil homens apenas com uma adaga, tinha uma aparência invejável. Além do rosto perfeito, suas curvas corporais muito bonitas e o tamanho mediano de seus seios eram o sonho de consumo de qualquer homem daquele reino.

Mas naquele momento, tudo que eu sentia ao olhar para ela ou para qualquer outro cavaleiro presente naquele tribunal era um nojo absurdo. E pensar que grande parte dos supostos salvadores que lutam em nome de Karin se tornariam em um monte de idiotas que maltratam o povo e roubam o que não devem. Nunca vi relatos de Serena envolvida em algum desses crimes, mas não duvido de que ela os apoie.
Após ser acompanhado pelos soldados que encostavam a ponta de suas espadas em minhas costas até a frente do homem de cabelos brancos que estava sob o altar, fui forçado a me ajoelhar.

Porém, antes que ele pronunciasse qualquer palavra, a atenção de todos presentes no tribunal voltou-se para algo que acontecia em um dos assentos no fundo. De canto de olho eu consegui apenas ver um dos cavaleiros de média classe se debatendo no chão e gemendo. Não demorou para que outros soldados fossem socorrer ele, mas ele os empurrou e continuou rugindo cada vez mais alto.

— Mas que porra é ess— O cavaleiro, que antes se debatia no chão, voou em cima de outro. A surpresa se alastrou no tribunal e todos os presentes começaram a olhar aquela cena.

Todos os soldados de classe média e baixa dos assentos do fundo começaram a gritar e correr enquanto eram perseguidos por algo. Meu campo de visão limitado não me permitia olhar aquela cena, então tentei me virar mas fui empurrado por um dos dois cavaleiros que estavam de guarda em mim

— Ei, vocês! O que é aquilo?! — Ele gritou, dirigindo-se aos soldados de classe alta.
O tribunal inteiro começou a gritar e correr, apenas os soldados de classe alta e líderes mantiveram a compostura. Eu tentava me mover mas era empurrado, e isso era extremamente estressante.

— ME DEIXA VER! — Gritei, levantando. O grito passou despercebido para a maioria dos presentes devido ao caos crescente naquela sala, mas os dois soldados que tinham as pontas das espadas nas minhas costas não demoraram para tentar me atacar. Ainda de costas, posicionei as algemas no lugar em que um dos soldados iria desferir um corte contra mim, fazendo com que ele as cortasse ao meio e liberasse meus braços ao movimento. Saltei para a frente em uma cambalhota e peguei no chão uma espada que havia sido esquecida em meio ao caos.

— Parado aí! — O de classe baixa veio em minha direção, mas ainda do chão o atingi com uma rasteira e o derrubei atrás de mim, fazendo-o soltar a espada ao meu lado. Com a espada que eu havia pegado apontada em sua cabeça que agora estava sem elmo devido à queda, fiz com que ele ficasse quieto. Quando percebi que o de classe média vinha em minha direção me atacando com sua espada, usei a mão livre para segurar a espada do soldado caido e usa-la para minha defesa. Em seguida, me levantei e com as duas espadas em mãos fiz dois cortes simultaneamente no tronco do cavaleiro que me atacara por último, atravessando sua armadura e o fazendo agonizar. O que estava caido no chão levantou-se e foi socorrer seu amigo, ignorando a minha presença.

Aproveitei a deixa para me distanciar e ver a causa do tumultuo no fundo. Agora vários cavaleiros se aglomeravam ali, inclusive a princesa. Haviam vários rugidos de feras e gemidos de cavaleiros sendo derrotados em batalha, um gás de cor escura preenchia grande parte do cenário e as pessoas pareciam querer correr dele e de espécies de aberrações com escamas e dentes pontudos, com olhos vermelhos brilhantes e coloração preta. Cada uma tinha uma irregularidade corporal mais pavorosa que a outra, umas com ombros extremamente grandes, braços enormes, chifres gigantes.

Um sentimento de medo percorreu a minha espinha. Aqueles demônios eram diferentes de qualquer coisa que eu já tinha visto em toda a minha vida. Tudo que eles pareciam querer era dizimar o maior número de soldados possível com seus dentes extremamente pontudos que atravessavam armaduras. Soldados treinados a vida toda para batalhas deste tipo estavam completamente horrorizados e perdidos diante daquele clima caótico. A única coisa que passou pela minha cabeça foi correr e me jogar através de uma das janelas daquele enorme estabelecimento, já que a ideia de fugir pelos corredores parecia já ter sido usada pelos cavaleiros e parte da legião de demônios humanóides se encarregou de ir atrás com eles, transformando o corredor estreito num palco de mortes brutais. Além disso, todos os indivíduos naquela sala me queriam morto, então eu precisava rápido sair daquela projeção de inferno.

Corri o mais rápido que pude em direção à janela ignorando a situação ao meu redor até que um corte de espada atingiu minha perna, me fazendo tropeçar e cair escorado na parede, encarando a mulher responsável por me parar.

— Não se aproveite da situação para fugir! Seu julgamento ainda não acabou! — A princesa de olhos verdes agora me encarava com sua rapieira encostada em meu pescoço como ameaça.

— Atrás de você! — A avisei sobre duas aberrações quadrúpedes que vinham em sua direção. Uma delas com um chifre enorme e outra semelhante às demais.

Ela virou-se, mas antes que pudesse reagir uma das feras saltou sobre ela, a derrubando no chão. Por impulso, pulei até o demônio e projetei um corte preciso em sua mandíbula um instante antes dele morder a garota, seguido de um chute que o derrubou e o deixou incapacitado. O outro demônio veio logo em seguida em minha direção, com o chifre enorme pronto para me perfurar, mas ainda do chão a dama cortou uma de suas pernas fora com sua rapieira e o fez parar no meio do caminho. Finalizei o trabalho cravando minha lâmina em seu pescoço.

— É perigoso aqui. Precisamos fugir! — Gritei. Os demônios pareciam aumentar de número conforme os cavaleiros iam sendo derrotados, e o gás de cor negra ocupava quase todo o local, transformando todos os indivíduos em silhuetas e tornando impossível distinguir entre aberração e soldado. Poucas áreas ainda não tinham sido tomadas pelo gás, uma delas era onde estávamos. Um dos clérigos corria em meio à matança gritando textos bíblicos e destacando a frase "Está acontecendo! Ele está começando a respirar!"

— E abandonar meus homens? Nem pensar!

— Deixa de ser burra! Ficar aqui vai ser suicídio! — Gritei, puxando forçadamente pelo braço a princesa que acabara de se levantar do chão.

Antes de fechar os olhos para evitar a hesitação e jogar minhas costas contra o vidro da janela, o quebrando e pulando dali agarrado à garota que se debatia, pude ouvir com clareza ela gritando uma última frase antes do vento começar a bater fortemente em meus ouvidos e em todo o resto do meu corpo indicando que estávamos caindo de um lugar alto.

— É alto de mais! Nós vamos morrer!