Dark Age
3 — O Passado Sombrio —
Notas iniciais
O ar forte que batia em nossos corpos indicando a queda foi se tornando mais leve, até o ponto em que eu estava praticamente levitando em pé próximo de alcançar o chão, com Serena em meus braços que havia desmaiado durante a queda, provavelmente por medo. O gás negro vazava pela janela quebrada e era carregado em direção ao céu, desmaterializando-se. As duas espadas que eu havia soltado durante a queda cravaram-se no chão de pedra e as algemas quebradas que ainda estavam nos meus pulsos pararam de tilintar no momento em que fiquei parado de pé no ar.
— Mas é um garanhão mesmo! — Falou o responsável por me controlar no ar, que estava de pé no meio da rua com os braços abertos e um sorriso amigável. Chamava-se Iohara Keita, um rapaz alto, com pele clara e cerca de um e oitenta de altura, de cabelo liso castanho bagunçado e olhos da mesma cor, era um dos oito remanescentes do nosso bando, o único especializado em magia de ataque e controle elemental. Desde pequeno sempre carregava seu livro de feitiços, mas agora era capaz de realizar a maioria deles sem auxílio. Era o único do bando que não usava armadura, e sim uma camiseta branca de mangas longas e uma calça folgada de couro, com botas do mesmo material. Controlou o ar de maneira que me fizesse pousar no chão de maneira pacífica. — Quem é a sortuda?
Olhei ao meu redor para me situar, eu havia acabado de saltar do edifício responsável pela prisão temporária daqueles que estavam para ser julgados. Estava na nobre cidade que desenvolvia-se em torno do castelo do rei de Aynraid, reservada apenas para cavaleiros, trabalhadores do estado, e membros da elite com alto poder econômico. Era formada de vários edifícios coincidentes e bem organizados, indicando a boa situação financeira de seus moradores. Consegui ver Igrejas, Mercados e estabelecimentos reservados por Ferreiros. Vários grupos de pessoas se aglomeravam ao meu redor, uns interessados para saber o motivo da princesa estar agora desacordada nos braços de um criminoso e outros apenas interessados em saber o porque de todo aquele tumultuo e do barulho do edifício que se situava atrás de minhas costas.
— Porra, Saito! Eu tava com ela na mira! — Busquei a fonte daquela voz masculina que ainda não podia ser chamada de grossa, e ela vinha de um velho conhecido meu. O garoto dos olhos de águia, Satoru Kenichi, com sua pele branca, seu cabelo loiro escorrido e olhos amarelados, e seu característico curativo no nariz. Usava uma roupa de batalha de couro caseira. Estava posicionado acima de um telhado de uma residência próxima com seu arco em mãos e sua aljava nas costas. Apesar de possuir dezesseis anos como eu, sua baixa estatura de um metro e sessenta e três de altura, sua voz relativamente fina, falta de pelos e personalidade infantil o faziam ser conhecido como a criança do grupo. Saltou do telhado não muito alto pousando em minha frente com facilidade. — Quem é? Mais importante, o que eram aqueles bichos?
— Saito! Que corte é esse na sua perna?! E esse nas suas costas?! — Uma garota ainda menor que Satoru me rodeava, checando todo o meu corpo em busca de ferimentos. Era a doce curandeira do time, Ayaka Mori. Uma menina de dezessete anos, mas que aparentava ser bem mais nova. Tinha um cabelo castanho liso e curto, que parava nos ombros e pele branca com as bochechas coradas e os olhos grandes e luminosos que me encaravam com preocupação. — E...Quem é essa aí? — Sua voz tomou um tom mais desanimado e seu olhar se desviou para o chão, envergonhada. Estava usando um velho porém lindo e sempre limpo vestido caseiro azul e branco.
— Precisamos sair daqui o mais rápido possível. Eu explico melhor quando estivermos seguros em casa. — Corri em meio à multidão que nos rodeava, ultrapassando-a à força e seguindo até os portões de saída da cidade. Apesar da garota desacordada em meus braços desacelerar meus movimentos, consegui manter minha agilidade o suficiente para não demorar muito mais que uma hora para me afastar da área urbana e alcançar a floresta que queria, seguido pelos três companheiros. Era uma floresta realmente majestosa, nunca havia sido devastada pela ação humana e possuía árvores enormes e várias espécies de animais selvagens. A cor verde forte das plantas e os bonitos lagos espalhados de cor azul eram uma atração de encher os olhos.
Aproximei-me de um grande lago e fiquei de pé em sua beirada, encarando meu próprio reflexo projetado na água. Meu cabelo preto estava agora bagunçado e caindo parcialmente sobre meu rosto. Meus olhos, da mesma cor, passavam uma forte sensação de cansaço. Eu estava realmente acabado. Deitei Serena no gramado ao meu lado e me sentei para limpar meu rosto e também me hidratar um pouco. Não demorou para que Satoru, Ayaka e Keita, que me acompanhavam, se sentassem ao meu redor e repetissem meu ato.
— Acho melhor irmos para casa. Lá você pode aconchegar melhor a sua... — Ayaka hesitou, mas depois continuou a frase — Enfim, lá podemos juntar todo mundo e você explica o que aconteceu ali.
— É muito bom saber que você não morreu, camarada! — Disse Keita, dando um tapa amigável em minhas costas — Aqui, deixa eu cuidar disso. — Queimou precisamente as algemas que marcavam meus pulsos. — Agora você não parece mais um criminoso louco. Minto, continua parecendo. Mas melhorou um pouco.
— Vamos. — Satoru se levantou e adentrou novamente a floresta, sendo seguido pelos outros dois. Peguei a princesa em meus braços novamente e os segui.
Após alguns minutos de caminhada alcançamos no fundo da floresta uma alta montanha que iniciava um grande percurso montanhoso, mas paramos por ali. Seguimos mais um pouco até achar a entrada feita manualmente por nós no chão próximo da montanha que levava até a nossa caverna subterrânea. Esperei que os outros dois entrassem, saltando naquela espécie de porão feito manualmente, e saltei por último, finalmente chegando na nossa moradia.
Apesar de subterrâneo, é um ambiente bem arrumado, organizado, e espaçoso. Todos os membros do bando tem suas áreas próprias e fechadas para fins de privacidade, dividimos um banheiro e temos o salão de entrada. Essa caverna é nosso esconderijo principal, apesar de termos vários em todo o reino por precaução. A iluminação no suposto salão de entrada é produzida por algumas tochas organizadas nas paredes, fora isso, ele possui apenas um colchão no chão próximo a uma das paredes para o caso de emergências. Deitei levemente a princesa no colchão na posição mais confortável possível. Tive a leve impressão de um movimento dela que talvez indicasse que estivesse próxima de acordar.
Alarmados pelo som da nossa chegada, três figuras apareceram no salão.
Hideki Miyamoto é um rapaz de vinte anos de cerca de um metro e oitenta e seis centímetros de altura, com um porte físico mediano. Tem pele clara e um cabelo preto bagunçado e espetado com uma franja que cobre parcialmente um de seus olhos estreitados e maliciosos da mesma cor. Ele era o único filho de sangue da falecida Akemi, e desde sua morte ele largou a personalidade animada e brincalhona e se tornou em um garoto mal-encarado e distanciado, que quase nunca abre a boca para falar e não vê limites em suas provocações, mesmo sendo elas com seus companheiros de equipe, da qual ele alega não fazer parte. Não disse uma única palavra, apenas escorou-se na parede mais próxima com os braços cruzados e fechou os olhos.
— É melhor vocês explicarem logo por onde se meteram — Harumi Miyazaki é uma garota de dezoito anos com um metro e sessenta e seis de altura. Possui pele clara, um longo cabelo vermelho que chega até sua cintura e olhos da mesma cor. Escorou-se na parede contrária a Hideki e cruzou os braços, me encarando mantendo a sua expressão recorrente emburrada. Harumi é uma garota conhecida por se expressar de maneira fria e severa e reclamar de quase tudo, porém, apesar de sua descortesia, ela costuma significar o contrário do que fala. Essa sua personalidade exterior é utilizada de modo a ocultar um lado muito mais vulnerável de si mesma. Quando ela se permite a ser verdadeira, em raros momentos, torna-se uma pessoa doce e completamente diferente.
Yuka Sato é uma garota de dezessete anos, com um metro e sessenta e quatro de altura. Também com pele clara, possui olhos de cor amarelada e cabelos loiros que chegam nos ombros e formam na testa uma franja curta com fios de cabelo maiores que alcançam as bochechas nas extremidades. Dentre todos daquele grupo, Yuka sempre fora a mais reservada e enigmática. Garota de poucas palavras, abria-se com poucos. No campo de batalha, é extremamente sorrateira e se esgueira nas sombras, sempre pronta para atacar o alvo quando está desprevenido, usando suas duas adagas de lâminas sinuosas. Ela também mostra ter tendências sádicas, divertindo-se enquanto tortura os inimigos sempre que possível. Parou entre os outros dois e me olhou, esperando por respostas.
— É uma longa história. — Sentei-me no chão, ao lado do colchão onde se situava Serena, e contei a eles detalhadamente a situação, desde o momento em que fui preso até a hora em que saltei pela janela junto da princesa. Falei sobre os demônios e sobre o gás negro que encheu o tribunal, e sobre todo aquele inferno que presenciei a algumas horas atrás. Todos ouviram com atenção, e em nenhum momento foram contra minhas afirmações.
— G-G-G-G.... — Yuka estava com o corpo inteiro tremendo, com o rosto enfiado entre os joelhos. Nunca havia a visto tão abalada. Na verdade, nunca havia a visto nesta situação desde que era uma garotinha de apenas oito anos e posicionava-se da mesma maneira, chorando e dizendo ter medo de alguma coisa, até que fora acalmada por Akemi.
— Y-Yuka? Tá tudo bem? — Ayaka aproximou-se lentamente da companheira, assustada pela sua reação.
— E-Eu... O gás... Ele... Eu lembro... — Yuka tentava dizer algo, mas acabou se tornando em uma frase fragmentada e sem sentido aparente. Ela levantou o rosto e encarou Ayaka, ainda trêmula e agora com lágrimas em seus olhos — E-Eu sei o que está— Antes de terminar sua frase, a garota desmaiou e caiu, chocando o rosto no chão da caverna.
— Yuka! — Todos gritamos, em coro, com excessão de Hideki. Ayaka foi correndo examinar ela.
— Ela está bem. Só está desmaiada, provavelmente tá muito chocada com tudo que aconteceu. — Sugeriu Ayaka, que apoiava a cabeça da garota, agora desacordada, em seu joelho.
— Ela... ela parecia querer dizer algo. Acho que ela sabe de alguma coisa sobre todo esse inferno que tá rolando. Nós — Fui interrompido por Keita, que elevou a voz acima da minha.
— Sabendo ou não de alguma coisa, ela não está nem um pouco bem. — Ele se ajoelhou em frente a ela e passou carinhosamente a mão em seu cabelo, a olhando de maneira preocupada. — Não vamos pressionar ela a falar coisas que não a fazem se sentir a vontade quando acordar. Vamos tratar dela e dar todos os cuidados necessários, isso vem pra depois. — Fazia tempo desde que eu ouvia Keita falando e pensando como um verdadeiro homem, abandonando seu senso de humor constante.
— Tô com ele. — Disse Harumi, que se ajoelhou para olhar a colega com a mesma preocupação de Keita. — Não vamos forçar ela a nada.
— Aliás, Saito, você não come nada a muito tempo, não é? — Keita levantou-se, certificando-se primeiro de dar um beijo na testa de Yuka. Ao levantar, respirou fundo e ocultou todos os sentimentos ruins em um sorriso forçado, como de costume — Precisamos de carne fresca pra nosso convidado de luxo, até porque a poucas horas atrás ele estava em uma puta situação de merda.
— Você, o Saito e o Satoru podem sair para caçar alguma coisa. Eu e a Harumi nos responsabilizamos por cuidar das duas. Vou arrumar um colchão para a Yuka também. — Disse Ayaka com um doce sorriso no rosto. Pude perceber que Keita se sentiu levemente envergonhado com aquilo.
— E-Então tudo bem. Vamos, gente. — Keita puxou a mim e a Satoru para fora da caverna. Antes, nos certificamos de nos armar. Eu com minha espada e Satoru com seu arco e sua aljava.
— Você tem certeza que tá tudo bem em ficar sozinha com esse canalha aí? — Satoru encarou Hideki, que se levantou e foi embora do salão de entrada, buscando seu estabelecimento pessoal, sem dizer uma única palavra.
— Vem logo, moleque. — Keita puxou Satoru, e então nós estávamos novamente na fronteira que marcava o limite entre uma linda floresta e um percurso de montanhas. Adentramos juntos a floresta.
Após meia hora de caminhada e conversas descontraídas, um frio percorreu minha espinha. Por algum motivo, um mal pressentimento crescia em minha mente de maneira que me impedisse de pensar em algo que não fosse uma tragédia iminente. Alguém próximo a mim corria perigo, e eu podia sentir.
— Precisamos voltar para a caverna. Urgente. — Falei, apertando o passo na direção contrária à que estavamos a seguir anteriormente.
— Mas por que? Nem começamos a caçar ainda, pô. — Disse Keita, se virando para mim.
— Tô com um mal pressentimento. Não sei explicar. — A sensação ruim se tornava cada vez pior e apertava meu peito.
Ambos deram de ombros e me seguiram enquanto eu corria de volta para a caverna. Ao entrar impacientemente, sozinho por ter deixado os outros para trás, demorei para processar o que estava acontecendo em minha frente.
— Não mova um músculo sequer ou eu acabo com ela. — Serena agora estava consciente e de pé, e ameaçava cortar o pescoço de Ayaka com a espada de Harumi, que estava caída no chão, desacordada e com sangue escorrendo de sua boca. Ayaka se espremia e forçava para tentar sair, lacrimejando e se desculpando baixinho. — Vai arriscar?
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