Dark Age
1 — Prólogo —
Notas iniciais
Desde pequeno eu soube na pele o que é ter uma vida difícil.
O meu pai partiu para fora de casa quando eu tinha apenas quatro anos de idade. Minha mãe se viu extremamente desesperada sem sua presença, e não soube como cuidar de mim sozinha. Ela nunca fora muito bem da cabeça, então após dois anos de uma convivência entre nós extremamente conflituosa, vi minha mãe enforcar a si mesma na minha própria frente, quando eu tinha apenas seis anos. A sanidade mental dela era extremamente instável e conforme o tempo passava ela ficava cada vez mais louca, me assustando bastante.
Ver o suicídio dela com meus próprios olhos não me chocou e nem se tornou pra mim um motivo pra mudar ou coisa do tipo. Eu apenas vi o quão fraca ela era, e tudo que passou pela minha mente foi que o mundo seria um lugar melhor sem mais uma desistente.
Desde então, eu sai de casa e passei a tomar a vida selvagem. Não demorou muito para que eu sentisse na pele a dificuldade de sobreviver sozinho por aí. Não me dei nem um pouco bem com a caça, então eu tive de começar a roubar produtos em feiras sorrateiramente, mas nem sempre isso deu certo.
Aos meus sete anos, após ser espancado por um vendedor de frutas mais dois de seus subordinados, eu estava jogado à beira de um rio com ferimentos por todo o corpo e alguns ossos quebrados. Instantes antes de perder a consciência, pude vislumbrar a silhueta de uma mulher com cabelos longos vindo em minha direção.
Algum tempo depois, finalmente eu acordei. Estava em uma caverna escura, cheio de bandagens que cobriam meus ferimentos e talas improvisadas. Tentei me sentar, mas a dor estava muito forte e eu acabei soltando um grito e caindo novamente.
— Fique quieto. — Falou uma mulher que antes cochilava ao meu lado mas agora abria os olhos. Apesar de possuir um rosto rígido e com algumas marcas e cicatrizes, ela tinha uma beleza incomparável. Sua pele era branca e seus olhos escuros eram envolventes, os seus cabelos, da mesma cor, balançavam devido à ventania que adentrava o local. Seu corpo forte, no momento coberto por uma armadura improvisada de ferro, era um corpo digno de uma guerreira. Era uma mulher extremamente bonita apesar de seu rosto de dar medo. — Você ainda não está em condições de se levantar.
— Quem é você? — Falei, sentindo dor em todo meu corpo apenas por isso, mas disfarçando com uma careta para evitar demonstrar a minha fraqueza.
— A mulher que te salvou daquele estado deplorável em que estava. Qual a última coisa que você se lembra?
— Eu...Eu estava roubando algumas frutas, mas eu fui pego e me espancaram. Achei que fosse morrer. Por que me salvou? — Aos poucos eu fui perdendo a dor que sentia por falar até que parasse de hesitar e começasse a falar normalmente.
—Eu também não sei. Poderia ter te deixado ali, mas algo me disse para te buscar. —M-mas eu sou um ladrão, você vai mesmo dar abrigo a alguém assim?
— Você não é o único. Aliás, em nenhum momento eu falei que ia te dar abrigo. — Antes que eu pudesse falar algo, ela me interrompeu elevando sua voz — SATORU, TERMINOU O QUE EU TE PEDI?
Um garoto com provavelmente a mesma idade que eu chegou na parte da caverna onde estávamos. Ele tinha cabelos loiros escorridos quase cobrindo seus olhos de cor amarelada e um curativo sob seu nariz. Usava uma espécie de armadura de couro e tinha um arco e uma aljava em suas costas. Trazia em suas mãos uma xícara com um líquido esverdeado, o qual ele entregou à mulher que estava sentada ao meu lado.
— Sim, mãe. — Ele disse.
— Agora eu quero que você beba isso e depois me explique tudo que aconteceu para que você terminasse daquele jeito. — Disse a linda e forte mulher, enquanto me fazia beber o amargo líquido — Satoru, vá chamar os outros.
E foi assim que eu conheci as pessoas mais importantes na minha vida. A minha mãe e meus irmãos de coração.
Eu contei minha história numa roda com vários garotos que também viviam ali. Alguns da minha idade, outros mais velhos, com até 16 anos. Todos foram acolhidos pela mulher e todos a chamavam de mãe. Todos eles contaram suas histórias, muitas delas parecidas com a minha, conversamos juntos. Eu me senti em família pela primeira vez na minha vida.
E eu cresci assim, junto com aquela mulher, chamada Akemi, e meus irmãos. Eu fui treinado pelos mais velhos e pela própria mãe a usar armas. Conforme o tempo passava, eu ia me familiarizando cada vez mais com as armas, aprendi a usar adagas, espadas, arcos e bestas. Nós aprendemos a usar armas para caçar e conseguir nosso próprio sustento, com exceção de um garoto excêntrico que dizia ser um feiticeiro e que sempre andava com um livro de magias soltando umas pequenas faíscas aqui e ali. Também defendemos vilarejos próximos dos ataques de malfeitores. A Akemi dizia que todas as pessoas mereciam ter uma segunda chance, por isso ela abrigava todos aqueles de passado sombrio ou que viviam nas ruas e os ensinava coisas sobre justiça e valores. Nós todos a amávamos muito.
Porém, apesar da nossa fama de justiceiros entre os povoados, para o Estado nós éramos criminosos. Isso porque eram constantes os abusos de poder de soldados do reino malvados, que roubavam comida de frutarias e até abusavam sexualmente de mulheres inocentes. Nós, como fomos ensinados a combater qualquer tipo de ato de maldade, sempre lutamos contra eles e por isso nós nos tornamos criminosos procurados. Tínhamos que mudar constantemente de localidade para não ser pegos, mas acabou que o pior aconteceu.
Quando eu estava com quinze anos, vi a figura mais importante da minha vida morrer diante de meus olhos. A Mãe foi morta por um grupo de soldados que estavam atrás da gente. Junto dela, se foram quase todos os membros da nossa família, sobrando apenas oito. Eu fiz tudo que era possível para tentar salvar ela, mas eu a perdi. Ainda me lembro das doces palavras que sairam da sua boca antes que ela fechasse os olhos de uma vez por todas. "Eu te amo".
Desde então, nós nos rebelamos contra o reino e nos tornamos em uma força de rebeldes que matava todos os soldados que achávamos. Nós passamos a ser chamados de Wolves. Paramos o recrutamento e focamos no treinamento da técnica da brutalidade e do assassinato, esquecendo completamente os ideais de justiça da Mãe.
Ah, mãe...
Nunca consegui esquecer o rosto lindo dela e a hospitalidade que ela tinha com todos nós. A imagem dela é a única coisa que me vem à cabeça enquanto estou deitado nessa cela, com poucos segundos antes de ser condenado à morte.
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