Dark

3 P a r a l y z e d


Notas iniciais
A n t e r i o r m e n t e Então, rezou. Astrid rezou abalada para que a confusão tomasse um rumo mais claro. Prometeu, rapidamente, que antes de agir teria noção do que estava enfrentando, no entanto mal sabia ela que a estrada em que estava prestes a percorrer tinha como passe o nome "CAOS" em neon e não havia placas de trânsito.

Os passos ecoavam pelos corredores preenchidos por estátuas humanas assim que desceram as escadas.

A garota estava pálida, suando frio, seus olhos estavam envoltos em uma neblina confusa e sua postura estava sempre em alerta caso precisasse usar a qualquer momento o seu treinamento de Muay Thai. Sabia que aquele belo rapaz poderia defender-se pelo modo como matou aquele homem ou o que quer que fosse em seu quarto, mas parecia ter o dever de lutar para protegê-lo também visto que salvou a sua vida antes.

Seu braço era fortemente agarrado por uma mão gélida e relativamente grande, quando comparado a sua, que a guiava através das extensas recepções hospitalares e dos corredores. Dakarai se movimentava como um verdadeiro gato negro na escuridão enquanto tentava prevenir os próximos passos das filhas de Nedyalka, mulheres metamórficas que eram filiadas aos congressos no mundo mágico ou a grandes impérios de famílias reais com a finalidade de eliminar qualquer possível ameaça às diretrizes desses grupos.

— Dakaraiiiiiiii — O corpo de Astrid para abruptamente ao escutar um sibilar próximo a sua orelha.

Seus olhos castanhos como o súber das árvores focaram-se nas mulheres que acabavam de sair do elevador. Não fazia sentido. Como aquele sussurro foi tão próximo?

— Astrid! — O rapaz chacoalhava seus ombros sem o menor cuidado, tentando despertar-la. Eles tinham que sair dali agora. As filhas de Nedyalka sempre apareciam em um trio como as párias e naquele momento, Damian apesar de não estar completamente sozinho para lutar contra tais seres, estava relativamente consumido por extrair o veneno do desfigurado da circulação sanguínea e linfática da garota. — Vamos!

A menina, por mais que tentasse, não conseguia libertar-se daquele imã que as filhas de Nedyalka possuíam. Então, observou atentamente quando duas do trio tiraram simultaneamente uma bela espada de vidro de suas costas. Chegando a arfar, a espada parecia refratar cada feixe luminoso que era incidido sobre sua superfície polida.

O garoto de vestes negras bufou irritado com todo aquele espetáculo enquanto sacava do seu cinto a sua própria espada de vidro sem delongas. Enviou um sinal de alerta para a loira pela nova conexão mental bizarra que criara ao incidir sua debilitada magia de cura sobre essa.

— Nova vadiiaaa, anjo dass trevasssss? — O sibilado soou longe como se estivessem a oito metros deles. Astrid franziu o cenho. Anjo das trevas? Vadia? Nesse ponto já havia admitido que sua mente nunca seria capaz de imaginar um cenário como aquele, mas tinha certeza, por outro lado, de que não estava no seu estado mais sã.

— Quem mandou vocês? A CCHM? Minha família? — Dakarai perguntou apontando a ponta de sua lâmina para as mulheres que cada vez mais andavam em sua direção. Seu corpo ficou tenso ao puxar o corpo apreensivo de Astrid mais para perto de si. — Mais um passo e considerem-se mortas, filhas de Nedyalka.

O trio de capuz vermelho parou conforme sua ordem. Guardaram as espadas em um movimento sutil e logo permitiram que cada um dos capuzes fossem de encontro ao chão hospitalar.

Astrid deu um longo passo para trás, chocando-se contra Dakarai, quando viu cada uma das mulheres. Seu solo fora tirado de si. Piscou os olhos duas, três vezes e a imagem a sua frente ainda não havia mudado.

Elas não são reais. A voz do estranho soou alta e repleta de autoridade em sua mente. Era tão fácil apenas dizer… Não são de verdade, não importa a paridade.

A mulher do canto revelava-se sendo uma bela dama de longos cabelos castanhos e olhos azuis como o mar, suas roupas clássicas, formais e apertadas contrastavam com a figura que estava ao seu lado; Uma criança de nove anos que sorria balançando a saia rosa rodada com as mãos. Tinha duas tranças feitas em seus cabelos loiros e possuía um olhar de reconhecimento ao encarar Dakarai, mas tanto a garotinha como a mulher de forte presença não atraíam a atenção de Astrid como a terceira o fazia.

Era a avó Dubravka. Estava coberta por uma jardineira jeans com frases bordadas contra a Alemanha nazista e por seu sólito boné azul antigo com a marca da Coca-Cola. Seus cabelos grisalhos chegavam ao pescoço apenas para ressaltar a delicada corrente cristã dourada que nunca tirava. O sorriso em sua cara colocava em exposição as rugas e marcas da idade que possuía. Parecia estar voltando das ordinárias viagens ao Havaí.

— É uma ilusão. Não são de verdade. — O rapaz a suas costas repetia em um tom rouco. Tinha que ter autocontrole e romper o lenço místico se quisesse sair dali a salvo e com respostas. Se as criaturas eram da CCHM… Respirou profundamente. — Não podem ser reais.

— Avó? — A voz de Astrid saiu vacilante enquanto poucas lágrimas escorriam por suas bochechas coradas do esforço de estar correndo. Não acreditava no que estava vendo, ela estava morta há três anos! — É mesmo a senhora?

— Astred… — Soava exatamente como sua avó. — Estás tão crescida, querida.

O amor em seus olhos fora demais para sua estabilidade física. A garota caiu em seus joelhos com uma visão embaçada por conta das lágrimas que não conseguia controlar. Ali estava, viva, a mulher que mais amava. Lembranças de ser embalada na rede, das conversas engraçadas sobre culinária, dos comentários safados ao analisar os rapazes na praia do Havaí, vinham com tudo.

— Não vai vir me recepcionar, Damian? — A bela dama falou com um tom autoritário. Dakarai contraiu o maxilar. — Admiro a educação que estás a receber do seu pai. — Sorriu sínica.

As memórias de um passado não muito recente invadiram a mente do rapaz. Lembrou do modo como sua mãe falava, reclamava e andava naquela época… Eram idênticos.

Intensificou o aperto em sua espada quando viu a pequena menina tomar alguns passos à frente de uma versão não atualizada de sua mãe.

— Dam! — Seus braços estenderam-se ao rapaz em um gesto habitual quando viva.— Não vai me dar um abraço?

Por um segundo hesitou. Não era a primeira vez que encontrava filhas de Nedyalka, longe disso, mas nunca tinha visto umas tão dominantes de seu poder de metamorfose e conexão como aquelas. Sempre havia alguma falha, nessas não conseguia encontrar.

Seu coração cometeu um grande erro ao permitir-se sentir algo por aquelas representações falsificadas. Contudo, só notou no momento em que algo ao seu lado desviou sua atenção. Astrid estava tão hipnotizada a olhar para a terceira mulher que agora, já de pé, estava dando ligeiros passos ao encontro dessa.

Como um raio, Damian correu para impedi-la de fazer tal loucura. Estaria correndo diretamente para a morte depois de tanto esforço em mantê-la viva.

Seria mais fácil, não seria? Deixar que a humana fosse levada por aquelas criaturas bestiais. Levaria uma punição muito mais severa do que qualquer uma que já havia sofrido, mas não seria o ser desleal que traiu os princípios fundamentais das dimensões.

Olhou para a humana outra vez ao mesmo tempo em que lia, rapidamente, a sua mente turbulenta, antes de tomar uma decisão.

— Pare! Astrid, você precisa parar! Não é a sua avó. — Sussurrou em seu ouvido, já percebendo uma notória mudança de comportamento da sua mãe e da criança. — Elas não são reais! Não importa o que te fazem sentir, não são elas.

Astrid encarou a mão vacilante do rapaz que repousava sobre sua barriga de modo que a prendia ao seu peitoral rígido e voltou a olhar para aquela avó Dubravka em sua frente.

— Damian, largue a menina. — A mãe Dakarai esbravejou como se estivesse envergonhada do comportamento inoportuno do filho.

Damian quase rosnou, teve vontade de puxar a humana para trás de si, mas sabia que se assim o fizesse, poderia atiçar algum orgulho ou alguma parte mais empoderada da garota que sabia poder lutar corpo a corpo, não precisando de proteção, por mais que fosse uma batalha não compatível com a sua realidade. Além do mais, o enfermeiro poderia esgueirar-se silenciosamente de qualquer lugar atrás de si.

Sua mente o persuadia cada vez mais a entregá-la.

— Astred? — Sua avó a olhava tão docilmente como antes de morrer em seus braços. Era ela.— Eu… eu senti tanta saudade, pirralhinha.

O braço que segurava a barriga de Astrid foi imediatamente puxado e essa não perdeu tempo em se desvencilhar, mas não conseguiu dar mais um passo.

— Dam! — A garotinha tinha o braço, que não portava a espada, do rapaz em suas pequenas mãos.— Brinca comigo!

Os olhos âmbar de Dakarai focaram nas tranças da menina e finalmente visualizou uma diferença que o fez retornar a realidade. Sua irmã nunca usaria uma presilha de flor de lis. O lenço havia sido quebrado. Sem pestanejar sua lâmina fora direto ao encontro do pescoço da garotinha.

Astrid gritou ao ver a cena. Seus olhos encheram-se de pavor. O sibilo “Anjo das trevas” impregnou sua mente fortemente.

A garotinha tocou o seu pescoço de uma maneira tão sufocante que ao cair em um baque na porcelana branca do hospital ainda mantinha aquela expressão sem ar, deixando seu sangue vermelho extravasar.

Damian limpou a espada na camisa de algodão preta que vestia. Menos uma.

— Astrid, querida, venha para cá! — A avó da garota, em choque, correu para protegê-la. — Ele quer nos matar!

— Damian… — O olhar da dama de vestes formais estava decepcionado, mas não surpreso. Nada trágico era surpresa ao se tratar do filho. Os olhos da mulher encheram-se de lágrimas.— Por que?

Quase a mesma atitude que realmente assumira quando Diana morreu. Quase. Primeiro, tinha atirado Damian em direção ao lago e depois ao chorar, balbuciava coisas, desesperadamente, sobre o corpo sem vida da filha.

— Anjo... das trevas.— O sussurro de Astrid não pretendia demonstrar o quanto estava confusa e quase desabando, mas o rapaz conseguiu captar cada emoção em sua voz mesmo quando as outras duas pessoas falavam no mesmo segundo que ela.

O rosto de Damian voltou ao corpo da idosa que abraçava a humana e que disfarçadamente sorria sínica para ele. Sentiu seu sangue vibrar de pura raiva, mas manteve-se em controle.

Seu vacilo acarretou-lhe um corte no braço musculoso. Sua mãe tinha desferido sua espada contra ele, chamando sua atenção.

Encontrou-se dividido. Não sabia o que fazer: Ou tentava livrar Astrid da personagem de avó carinhosa que a filha de Nedyalka exercia e morria por aquela que assumia ser sua mãe ou livrava-se primeiro da mãe Dakarai e depois que tivesse tido sucesso, preocupava-se com a garota.

Jogou-se em uma luta contra sua mãe.

— Astrid! — Gritava em plenos pulmões ao notar que a humana não parecia escutá-lo. — Fuja!

A garota apenas observava, sem ousar mexer-se, abalada ao corpo musculoso do rapaz desviar da mulher habilidosa e em seguida tentar feri-la. O barulho do choque de espadas lhe causou um arrepio como se provocasse uma memória em sua mente que não conseguia resgatar, estava com medo do rapaz.

— Venha, Astred! — Chamou sua avó carinhosamente. — Você vai se machucar se continuar aí. — O abraço caloroso agora transformava-se em um quase vazio enquanto o corpo da quase loira era guiado pela idosa ao longo dos corredores hospitalares com poucas estátuas humanas.

Sua cabeça virou teimosamente para trás. O que ele estava fazendo? Era a mãe dele, então, por que lutar? Por que matar uma criança indefesa? Por que matar a sua própria irmã?

— Ele é um anjo mau, pirralhinha. — Sussurrou a velha em seu ouvido e tocou seu queixo, o virando para si. — Estou decepcionada por ver que depositou sua confiança em alguém como ele, não aprendeu o que eu lhe ensinei?

As sobrancelhas de Astrid ergueram-se em arrependimento. Ele realmente era mau? — Ele me salvou, vó.

No momento em que iam entrar no elevador para finalmente ir ao térreo, o enfermeiro de olhos de gato surgiu de uma das portas que davam para as escadas. Sua visão focou-se em Astrid.

— Vó! — Gritou tentando colocar seu corpo magrelo na frente da idosa. — Corra, eu dou conta!

Uma risada de desprezo saiu tão baixo da filha de Nedyalka que Astrid aflita não notou.

O enfermeiro corria cada vez mais rápido e preparava suas garras em uma posição que iria ferir brutalmente a jugular da garota. Contudo, antes mesmo que chegasse perto da menina, a avó Dubravka sacou uma de suas adagas de cabo longo de vidro e a lançou em direção a cabeça do ser.

O corpo caiu no chão com um baque.

Damian passou rudemente a palma da mão sobre o seu novo corte na bochecha.

— Astrid! — Rugiu em negação ao ouvir tal estrondo vindo de longe. Ela não podia estar morta, não podia.

Seria mais fácil assim. Não. Não podia estar morta, mas seria mais fácil se estivesse.

A mãe Dakarai sorriu e aproveitou esse segundo de distração para enfiar a espada na barriga do rapaz.

— Augh! — Damian deu três passos para trás com o queimor que vinha de sua barriga. Sabia que não iria ter energia para continuar aquela luta, já estava fraco quando a maior parte de sua energia fora consumida para cura e ficou mais cansado ainda ao tentar ocultar sua localização para evitar possíveis visitas incômodas.

A filha de Nedyalka voltou a sua forma normal, sinal de que também estava cansada, deixando os traços da mãe Dakarai sumirem aos poucos enquanto eram substituídos pelas suas veias saltadas de sangue púrpuro e olhos roxos sem um sinal sequer de íris e córnea.

Dakarai notou pela sua visão periférica que o corpo da criança de nove anos também já não era o mesmo. O sangue já não era vermelho.

Damian deu uma boa olhada no corpo da sua adversária de maneira perspicaz. Não por desejo, apenas a procura de um ponto em que a debilitasse de um única vez.

— Um anjoooo se imporrrtando com umaa humanaaa! — O sibilar soou longe novamente ao debochar do garoto. — Quee desgoosto paraa a famíliia Dakaraaiiii!

— Quem enviou vocês? — Seu grito saiu irritado e forte. Não queria se deixar levar por aquele assunto. Os cantos dos lábios da filha de Nedyalka se ergueram em um sorriso. — Me diga!

— Rrrresolveu brincarrr coom humanosss, agorrraaa? — O sibilado era carregado de puro veneno ao passo que desviava de um corpo humano estático e caminhava mais para perto do rapaz. — Elaa não sssabe aindaa que carrrrega a marrca da dessstrrruição, ssssabe?

Estava bem claro, elas não contariam.

Então, aproveitando o seu último inspirar profundo, Damian fez com que houvesse uma colisão bruta com o corpo da mulher, levando-a ao chão sem emitir sequer um grunhido, para que pudesse erguer sua arma de supetão e conseguir atingi-la. Obteve pleno sucesso.

A espada tinha atravessado sua cabeça, a partir do queixo, em um corte transversal.

O garoto exalou ao ver sangue púrpura lhe manchar, mas não conseguiu levantar; A exaustão já o buscava, então fechou lentamente os olhos, tentando recuperar-se um mínimo possível para seguir atrás de Astrid.

E lá estava ela, depois de dois corredores vizinhos, a humana. Possuía uma expressão nada suave ao olhar com descrença para a sua avó que tentava retirar a adaga com esforço do corpo do enfermeiro que tinha petrificado por inteiro.

— Malditos sejam os desfigurados que morrem com uma arma no corpo! — Escutou a velha reclamar e finalmente desistir de supetão. — Argh!

— Vó? — Astrid tocou em seu ombro. Algo parecia estar levemente errado.— O que a senhora fez?

— Ah, pare, pirralhinha. — Sua avó livrou-se de seu toque. — Vamos para um local seguro!

Essa frase despertou-lhe uma lembrança. Era isso que ela e o estranho misterioso estavam fazendo, não era?

Mas ele era um anjo... das trevas.

Ficou paralisada ao memórias e mais memórias de sua infância maravilhosa tomarem conta de sua mente novamente. Lembrou de sua avó no leito de morte, em seus braços, contando o quanto era difícil resistir contra as trevas que dominavam sua cabeça; De suas lágrimas serem enxutas pelos dedos esguios da avó…

Sua avó nunca quereria voltar a vida se não fosse acompanhada pelo seu Deus. Nem mesmo usaria uma adaga daquela… E para quê? A idosa Dubravka vestia um kruang preto [4]!

— Você não é minha avó. — Sua voz falhou e lutou contra as lágrimas que ameaçavam sair de seus olhos lacrimejados. Era a hora de ser forte e esperta.

— Claro que sou, Astred! — O olhar de sua avó voltou ao amável, mas estava diferente. — Eu o matei para te defender!

— Eu poderia tê-lo matado! — Sussurrou. — Você poderia tê-lo matado de forma justa.

Sua avó soltou uma risada que não parecia em nenhum ponto com a dela. A risada da mulher era seca e fria, debochada, mas contida. A da sua avó era uma explosão contagiante de pura diversão, nunca ria em situações sérias mesmo que a piada mais engraçada do mundo fosse contada.

— Não seja estúpida, Astred. — A filha de Nedyalka suspirou e buscou o braço da menina para sair do hospital.

Astrid precisava de tempo. Pensou em sua tia, mas não queria colocá-la em perigo. Porém, que outro plano tinha? Melissa não iria ferir-se, afirmou consigo mesma com confiança em suas habilidades, aquela mulher iria morrer antes mesmo que chegassem ao seu andar.

— Tia Melissa está no terceiro andar. — Soltou. — Está como todos, imobilizada. — Apontou para uma recepcionista a sua frente que tinha uma cara fechada e segurava enormes fichários. — Temos que ajudá-la, vó.

— Não temos tempo, pirralha. — Seu tom era levemente impaciente. — Além do mais, tudo voltará ao normal daqui a meia hora.

— Por favor, vó! — Permitiu que suas lágrimas caíssem. Lembrou da série que assistia, Anne With An “E”[5], e inspirou-se nos momentos mais tristes ao tentar expressar a cara mais ingênua que conseguia.— Eu quero me despedir antes que a senhora me leve a um local longe de toda essa confusão!

A filha de Nedyalka concordou com um meneio de cabeça e a puxou para o elevador. Executaram um trabalho muito rápido, sobrando tempo para a entrega de seu serviço e estava óbvio que aquela humana não sabia nada a respeito do perigo que corria no mundo mágico. Além disso, cometeu alguns deslizes e se não aceitasse aquele pedido, poderia pôr o lenço de conexão em risco, tornando tudo mais complicado.

Antes de que as portas do elevador se fechassem, Astrid utilizou seu treinamento com devida classe. Sua avó fez uma expressão totalmente surpresa, não tinha noção que a garota sabia lutar, não conseguindo ter tempo para processar a informação e simultaneamente defender-se da sequência abrupta e forte de soco, cotovelada e joelhada que recebia. Quando os punhos de Astrid chocaram-se com tudo em sua cabeça pela segunda vez, ficou inconsciente. Seu corpo aos poucos escorregou rumo ao chão.

Astrid continuou chutando e dando joelhadas naquele corpo com os olhos firmemente fechados e só quando as portas do elevador abriram-se, parou. Havia matado a avó Dubravka? Seus níveis de adrenalina estavam altos.

Um grito ficou preso em sua garganta. O corpo que estava aos seus pés não pertencia a sua avó e todo o lenço que ainda parecia cobrir sua mente, despedaçou-se com uma dor profunda enquanto olhava sua pele com respingos de sangue púrpura. Havia posto uma mulher inconsciente de forma injusta, era uma desonra ao Muay Thai por usá-lo daquela forma. Prendeu a respiração e com esforço apertou a tecla que a levava de volta ao primeiro andar antes de dar uma olhada no corpo ainda estático da tia no corredor.

Abandonou aquela mulher bizarra no elevador e correu ofegante, desviando de alguns humanos imóveis e do petrificado enfermeiro com garras, para o local em que tinha visto o rapaz travar sua batalha. Tinha que contar que queria voltar ao normal. Independente de esquecer ou não o que tinha passado só neste último dia, não aguentaria viver essa loucura. Procuraria de imediato uma clínica psicológica.

Porém, esqueceu de tudo o que estava prestes a dizer ao visualizar o ambiente em que tinha posto os olhos.

— Dakarai? — Fraquejou ao ver toda a poça de sangue púrpura que se amontoava em torno dos corpos.— Não, não, não… — Colocou dois dedos sobre o nariz do garoto e instantaneamente relaxou um pouco ao sentir aquela fraca corrente de ar.

— Astrid? — Os olhos do anjo abriram-se com lentidão até que finalmente a cor de âmbar de sua íris pôde ser vista. — Você está machucada? Está sangrando! — Agarrou a blusa da menina com desespero, mas percebeu de imediato que o sangue era púrpura. Ela realmente matou uma filha de Nedyalka?

Os braços da garota agarraram o seu corpo pesado que estava sobre uma das mulheres mortas, ajudando-o a andar para uma sala de coleta pouco distante daquela terrível cena, mas sem falar nada apesar de sentir o forte peso do olhar do estranho.

O rapaz não perguntou outra vez se estava bem, era uma coisa ridícula de se perguntar nessas horas, só a observou intrigado enquanto rasgava as suas roupas negras com o auxílio de uma tesoura que encontrou na bancada hospitalar e empenhava-se em cuidar de seus machucados. Astrid engoliu o choro ao mesmo tempo que tentava se concentrar no que estava fazendo, estava difícil por muitos motivos.

O corpo de Damian era esbelto e desenhos, códigos, eram tingidos em todo o seu peitoral e abdômen definido. A tatuagem de três corvos, em um ar de tinta preta fresca, envolta de um grande círculo, também negro, em degradê que teimava em derramar-se sobre os músculos de sua barriga era de longe a mais sensual estampada na sua parte superior.

O corte feito um pouco abaixo dessa região estava jorrando um líquido vermelho vinho intenso. Os machucados em seu rosto não eram tão preocupantes e de certo modo, levemente sádico, achou que lhe conferiam uma sensualidade muito mais intensa. Quase deu uma tapa na própria testa ao lembrar de que ele podia escutar o que pensava, mas quando percebeu que o garoto iria manter-se em silêncio, deu de ombros. Nada parecia a afetar mais.

Saindo de seu devaneio, foi ágil em higienizar e cuidar das feridas do rapaz que resmungava ao sentir pontadas de dor.

— Levanta o queixo. — A voz de Astrid quase falhou.

— Percebi que estava mesmo faltando o beijinho que anula as dores. — Ao erguer o queixo, apesar de sua fala descontraída, sua expressão era séria. A garota quase arregalou os olhos, ele estava mesmo brincando nessa situação?

— Vou limpar os machucados de seu rosto, Damian. — Astrid analisou cada contorno de sua face de forma rápida, pelo menos o rapaz estava servindo para manter-lhe longe do pensamento de ter matado alguém.

— Ah. — Damian conseguiu formar um biquinho como se estivesse decepcionado. Era impressionante o como uma luta um pouco sangrenta poderia criar uma intimidade para o anjo. — Astrid, o que está pensando?

— Você não pode ler meus pensamentos? — A garota se afastou um pouco, será que aquele era realmente o estranho ou apenas uma versão falsificada dele?

— Ei, calma. — As mãos de Damian foram rápidas em tentar segurar seus ombros. — Eu estou muito fraco para tentar entrar na conexão enquanto tento me manter desperto e ainda tornar a nossa localização um pouco irrastreável.

Algo na mente de Astrid começava a montar inúmeros caminhos de realidade caso o estranho não fosse o estranho oficial e sim uma versão pirata. Porém, colocou um freio em seus pensamentos, pois se continuassem ali, expostos de certa forma, estariam apenas a chamar mais seres como aqueles, ou piores; De acordo com o que Dakarai a havia dito antes.

— Vai doer um pouco. — Avisou assim que começou a limpar os cortes. Damian mordeu os lábios precipitadamente. — Para quem travou uma batalha estilo medieval, você é bem frouxo para aguentar dorzinhas pequenas. — Riu fracamente ao receber um resmungo do garoto. — Agora, sério, estranho, quem é você?

— Quem sou eu ou o que eu sou? — Dakarai não afastou as mãos frias da humana. Começou a abotoar a sua capa negra que não fora rasgada, escondendo seu tronco nu enfaixado e como não obteve resposta da garota, suspirou ao passar as mãos pelo cabelo desalinhado. Tinha tanta merda nas asas que não sabia nem por onde começar a limpar. — Me chamo Damian, como você já deve ter notado, e sim eu sou um anjo, mas não das trevas como elas disseram. — Foi rápido ao explicar friamente. — Só não faço parte do lindo e santo conceito em que os humanos enquadram-nos, porém acho que ‘das trevas’ seria um pouco pesado demais para o meu nobre título.

— Eu tenho muitas perguntas. — Confessou a garota coçando os olhos sem ligar para a arrogância do garoto, estava exausta e algo parecia a incomodar fisicamente mesmo não sabendo o que era.

— Eu sei. — Era compreensível, pensou Dakarai, deveria estar surtando.

— Mas você não vai me explicar agora, né? — Perguntou retoricamente. Tudo havia virado de cabeça para baixo, mas o rapaz não parecia estar disposto a conta-la o que tinha acontecido. — Vou continuar numa droga de breu.

— Astrid… — Suspirou ao ser chamada por aquele pedaço de deus grego. Mal notou o seu timbre, apenas os seus lábios a mexerem-se. Não estava certo ter esses pensamentos nessas horas, mas a beleza do rapaz a distraia muito fácil. — Você está sangrando…

Antes que pudesse olhar para baixo, pareceu sentir algo escorrendo por sua perna. A filha de Nedyalka tinha conseguido enfiar uma de suas adagas em sua perna de algum modo e por causa da adrenalina, até agora não havia sentido muito incômodo para perceber. Antes de gritar de dor, a mão de Damian já tapava a sua boca e o seu corpo já era sustentado por ele.

— Feche os olhos. — Mandou. Uma onda de desespero subiu pela espinha da menina.

— Só temos menos de meia hora! Menos de meia hora! — Repetiu desesperadamente contra a mão quente do rapaz.

— Astrid, vai ficar tudo bem. — Damian a aninhou mais confortavelmente em seus braços. Duvidava que iria ficar, mas não iria falar isso a ela.— Feche os olhos, por favor. — Seu pedido saiu como um fraco clamor.

A loira antes que precisasse ouvir alguma outra ordem, fechou fortemente os olhos. Um pensamento a confortava enquanto sentia que Damian a levava para longe: Melissa iria ficar a salvo. Mesmo que morresse, ela estaria a salvo. E ainda tinha dúvidas que tudo isso fosse realmente real, talvez fosse só a vida trabalhando em seu sonho, lhe apressando para entrar na universidade que sonhava e para viver um fetiche muito louco.

Uma vontade de abrir os olhos veio ao sentir seus cabelos voarem loucamente e ao ceder, viu primeiro o rosto de Damian tingido de concentração e um pouco de preocupação. Mas ao olhar para atrás do anjo, viu que estava bem longe da terra. O céu estava escuro, mas as negras asas do rapaz ainda podiam ser vistas. Seu corpo tremeu em um forte arrepio, a acrofobia atacando de supetão.

Dakarai soltou um palavrão ao perceber que a garota havia desmaiado. Sabia que estaria no extremo limite de suas forças se um portal fosse conjurado e estava super consciente dos perigos que correria por levar uma humana para o mundo mágico. Mas o que poderia fazer? Ele já estava atolado na merda até o pescoço, um súbito mergulho não iria fazer tanta diferença. Se houvesse uma remota chance de um ser humano sobreviver ao veneno de uma filha de Nedyalka, essa estava na dimensão dos feiticeiros. Então, colocando mais velocidade no vôo e conjurando o portal, seguiu rumo à dimensão Eris.

Notas finais
Sugestão de música tema para a leitura: Paralyzed by NF ( https://youtu.be/DHhHUZsXTBk ) [4] Kruang preto — A graduação do Muay Thai no ocidente é feita em um sistema de cores. O atleta usa um kruang, corda colorida trançada que é amarrada no braço, em que cada cor representa um nível diferente. O preto está associado ao nível de professor. (Portal Educação) [5] Anne With An E — É uma série de televisão canadense baseada no livro de 1908 Anne de Green Gables, de Lucy Maud Montgomery e adaptada pela escritora e produtora vencedora do Emmy, Moira Walley-Beckett. Foi ao ar pelo canal canadense CBC e está disponível mundialmente pela Netflix. (Wikipedia) [Qualquer erro, por favor, reportar à escritora.]