Dark
4 W a t e r
Notas iniciais
Estava deitada confortavelmente sobre uma relva verde.
Meus olhos encaravam um límpido céu de cores azuis enquanto contava os minutos em que provavelmente alguém chegaria naquele lugar e tiraria a minha paz. Desloquei vagarosamente minha atenção das poucas nuvens para um casebre, logo a frente de um vigoroso lago, cuja aparência era rústica e fazia-me estar estranhamente acostumada com todo aquele ambiente, assim que meus olhos começaram a se incomodar com a claridade.
Coloquei-me de pé e comecei a andar, descalça, até o lago. A água possuía um tom verde-claro e a vegetação ao seu redor era repleta de variadas cores de flor de lis, era simplesmente linda e não importei-me se molharia ou não o belo vestido azul claro que estava usando, só queria sentir a sensação de estar mergulhando naquela bacia.
Grunhidos de prazer escaparam da minha garganta ao sentir a frieza da água embalar minhas pernas, minha cintura, meu busto. Dei um suave mergulho, molhando meus cabelos e não conseguindo expressar em palavras a paz acolhedora, sorri para o céu enquanto boiava.
Porém, um grito me fez afundar. Emergi da água em um solavanco, olhando desesperada para os lados até perceber que o grito era oriundo do casebre e não de alguém nas redondezas do lago.
Por um minuto o vento pareceu parar, o gramado a perder sua verdidão e as flores que tanto elogiei, murcharem. Não ousei me movimentar, alguma coisa muito errada estava acontecendo no casebre, senti em minhas entranhas o peso da morte pairando sobre aquele edifício.
E então, em total descrença, observei alguma coisa ser brutalmente lançada sobre uma das janelas do casebre… Não era alguma coisa, era alguém e fazia uma trajetória de modo que iria cair diretamente no lago em que estava. Me apressei em tentar sair das águas, mas minhas pernas haviam sido abraçadas por algas de modo que mesmo chutando não conseguia soltá-las.
Cedo demais, o corpo afundou no lago. A onda de água que levantou, me fez mergulhar. Quando emergi, novamente, o corpo também tinha feito o mesmo e ao impulsionar-se para fora do lago, pude ver o rosto por trás dos cabelos molhados.
Era um Damian mais novo, mas continuava sendo ele. Senti as algas folgarem o aperto em minhas pernas, deixando-me cada vez mais livre para nadar ou sair do lago. Porém, não podia. O jovem Damian começou a chorar e deixar que gritos baixos saíssem de sua garganta enquanto as mãos apertavam o peito esquerdo. O modo como seu corpo tremia provavelmente não era do frio que sentia mesmo que só estivesse vestido por uma calça de moletom cinza.
A dor nos olhos do rapaz ao olhar para os céus era intensa, senti uma vontade absurda de chorar também. Eu não aguentaria ver qualquer pessoa naquele estado.
— Está tudo bem, Damian. — Balbuciei idiotamente ao passo que caminhava, nadava, para perto de seu corpo estirado. — Vai ficar tudo bem.
Ele não me ouvia e parecia estar totalmente alheio a minha presença.
Quando toquei seus braços nus, eles despencaram na relva. Afastei-me com medo, o rapaz havia parado de emitir gritos por mais que as lágrimas ainda caíssem e o corpo ainda não estivesse totalmente estável. Damian então, ajoelhou-se e encarou seu reflexo na água ao abrir suas lindas asas negras.
Arfei. Havia alguma coisa muito estranha quando seu rosto virou-se para os céus novamente. Os olhos antes âmbar estavam sendo consumidos por um tom vermelho vívido e na parte do peitoral em que as mãos antes repousavam, dois círculos pretos tomavam conta, praticamente envolvendo metade de seu coração.
O grito que deu ao pôr-se de pé foi tão carregado de puro ódio e poder que fui jogada com toda violência para fora daquele ambiente.
— Damian! — Gritei desesperada, mas não estava mais naquele lugar. Estava arfando como uma louca no que parecia ser uma maca dentro de uma enfermaria caseira movimentada.
Um rapaz alto de cabelos castanhos cacheados me encarava com uma expressão curiosa ao passo que se aproximava lentamente da maca em que eu estava.
— Cadê o Damian? — Puxei os fios que estavam grudados em meu corpo e tentei puxar os lençóis que também o cobriam. — Damian!
Com um simples mover de mãos, fui jogada de volta a maca. Porcaria, senti todo o impacto com as costas.
— Fique calma, humana. Me chamo Thristan, sou um dos magos que comandam esse singelo ponto de atendimento.— Enfrentei, agitada, a maré amarela que era a íris do rapaz no momento em que sua voz soara hostil e os braços eram levantados como se estivesse rendendo-se. — Você está em Eris, dimensão dos feiticeiros e de seus semelhantes, então acho melhor manter-se serena antes que alguém decida mandar-lhe um feitiço de silêncio.
Meus lábios formaram uma linha fina.
— Onde. Está. Damian. — Rugi sem um pingo de paciência. A visão de seu olhar ferido ainda perambulava minha mente.
Damian?
Silêncio.
— Ele está tomando as devidas providências para que você não seja morta. — Um meio sorriso surgiu no rosto de Thristan no mesmo segundo em que delicadamente pegava os fios lançados ao chão por mim.
Meu estômago pareceu roncar, bem conveniente por sinal.
— Parece que a espinhosa humana está com fome. — Suas sobrancelhas grossas arquearam-se em uma expressão menos descortês.
Espinhosa, até parece. Meus punhos fecharam-se levemente com a intenção de não atrair atenção do desconhecido mago e para fortalecer-me caso ocorresse alguma situação de emergência em que precisasse disparar socos rapidamente.
— Ele… — Limpei minha garganta. — Ele está bem?
— Está vivo, sim. — Sua resposta foi muito bem medida antes de sair.
Estar vivo não implicava estar bem. Sentei-me na maca em uma atitude irritada.
— Então ele me jogou aos lobos e saiu? — Não pude deixar de disparar. Por mais que eu tivesse tido aquele sonho, no agora, Damian havia me deixado nas mãos de uma pessoa qualquer enquanto estava inconsciente…
— Eu pareço tão feroz assim? — Passou as mãos pelos cabelos, analisando meu rosto. Quando não respondi, sua cabeça fez um leve movimento de negação.— Você será um grande problema, humana.
Respirei profundamente, seu tom de voz quase cuspia toda culpa em minha cara.
— Olha, eu não encomendei na Aliexpress um ser mágico para matar-me e um anjo para matá-lo.
Ganhei um belo revirar de olhos do rapaz.
— Quanto mais a sua estadia no mundo mágico perdurar, mais perigo você chama para si. — O tom sábio me fez quase jogar outra ironia, porém, controlei-me ao ver que por mais antipático que fosse a ideia de ter uma humana naquele lugar, Thristan estava tentando, ao que parecia, ser educado. — Você pelo menos possui alguma noção do que lhe aconteceu, humana?
Suas mãos trabalharam para liberar os lençóis que estava tentando livrar-me. Olhei para os lados, vendo algumas pessoas também de jalecos brancos e de olhos amarelos a falar baixinho com outras repousadas em macas.
— Não.
Seu assentir foi um gesto dotado de compreendimento. Sua figura vívida parecia não combinar em nada com o cenário quase frio e gélido que era a enfermaria.
— Precisamos conversar sobre isso, então, antes que o seu anjo chegue. — Sua mão morena me propôs um convite silencioso. Refleti se aceitar ser guiada por aquele homem poderia ser considerado um ato prudente. Teria gozado do meu “eu” precavido se não estivesse em análise interna de suas palavras.
— Por que antes que Damian chegue? — Franzi o cenho, a desconfiança estava estampada em meus olhos.
O alto rapaz não ousou mudar sua expressão, ignorou-me enquanto a mão continuava estendida. Bem, Damian havia me deixado ali, certo? Não acredito, apesar da irritação, que escolheria jogar-me ali para uma possível morte. Ponderei por pouco tempo antes de aceitar a suave mão do moreno e ser guiada por esse em direção a saída da enfermaria indiferente.
Thristan, em um gesto plenamente educado, ofereceu-se para puxar-me a cadeira posta a bela mesinha branca repleta de biscoitos.
— Obrigada. — Olhei para extensa varanda que dava vista a um esplendoroso jardim frutífero como um encantado pomar, apenas para ser encarada, até julgada, por vários pares de olhos amarelos.
Meus pelos da nuca eriçaram-se.
— Não costumamos receber outros seres, principalmente humanos, em nossa residência. — Explicou ao ver minha postura desconfortável. — Prefere biscoito de chocolate ou de cereja?
Tive vontade de recusar, não era suposto devorar alimentos oferecidos por estranhos, quem dirá por magos, mas minha barriga emitiu um claro barulho de que estava em total desacordo com a minha parte racional. Mastiguei o cremoso biscoito de chocolate reprimindo um gemido, estava divino.
Thristan sorriu fraco como se soubesse que eu iria amar aquele aperitivo.
— Então, por que o próprio Damian não pode me explicar o que aconteceu, mas você pode? — Perguntei não importando-me com as regras da etiqueta sobre falar enquanto degusta.
Suas costas relaxaram-se mais no acolchoado da cadeira de bambu branca.
— Vamos dizer que imaginei que um discurso imparcial seria mais do seu interesse. — Os esguios dedos de Thristan pegaram outro biscoito de cereja da mesa. — Se estiver errado, posso muito bem ficar em silêncio e esperar até que seu amado anjo chegue.
— Ele não é nada meu. — Neguei com veemência aquela suposição do mago.
Não foi preciso afirmar que eu queria escutá-lo, ele já sabia. Peguei mais três biscoitos e enfiei-os na boca de uma vez. Thristan ao ver meu gesto faminto, balançou a cabeça em um sinal claro de repulsão. Dei de ombros.
— Ok, loba… — Revirei os olhos. — Antes que eu comece a explicar o que eu tenho conhecimento, precisa prometer que tudo ficará entre nós.
Deti-me em pegar mais alguns biscoitos, não entendia o motivo daquela explicação estar tomando um rumo polêmico. Assenti com desconfiança, será que estava mentindo para mim? Será que Damian havia sido posto em algum tipo de masmorra desta UPA?
Meus pensamentos tomavam inspiração nos filmes da idade média, que havia visto na escola na semana passada, para criar inúmeras possibilidades de acontecimentos.
— Em nosso mundo há dimensões que são destinadas a cada conjunto de ser. — Começou. — Por exemplo, Eris é dominada por magos, feiticeiros, bruxas [6] e outros menos importantes; Haumea por sílfides e fadas; Canopus por lobisomens e etc. — Esperou para ver se estava a compreender, soltei um grunhido de concordância. Já havia escutado sobre o masculino das fadas em algumas histórias que minha avó costumava contar e bruxos não eram mais uma surpresa depois do lançamento dos livros de Harry Potter. Lobisomens? Quem nunca havia assistido Twilight?
— Não há guerra para dominar uns aos outros? — Perguntei arriscando apreciar um biscoito de cereja. Thristan já havia mostrado estar satisfeito, disponibilizando-me totalmente aquelas delícias.
— Somos mais civilizados do que pensa, humana. — Não consegui distinguir se havia decepção ou ofensa em seus olhos. — Mas, de fato, apesar de estarmos conformados com o nosso território, ainda ficamos a mercê de brigas por outros fatores. — O gosto de cereja do biscoito era extremamente forte, fiz uma careta. Logo, o mago em um estalar de dedos fez aparecer uma taça de água na mesa. — E aí está o papel de Damian.
— Ele é um político de deveres internacionais? — Beberiquei a água servida depois de agradecer com um sorriso fraco.
— Não. — Riu contidamente. — Damian e política? Só se estivéssemos no apocalipse, humana. Se tudo der certo, não precisará notar que por mais que o anjo mantenha uma pose de calmaria, quando despertado o seu real temperamento… Não há quem o pare senão ele mesmo.
Comprimi os lábios, lembrando dos olhos vermelhos que Damian expressava no sonho. Já Thristan parecia estar recordando situações reais que comprovavam o seu falar.
Ali, pensativo, o rapaz parecia ter uns trinta anos.
— Damian era um soldado de Pluto, a dimensão dos anjos. — Continuou com a voz rouca. — Até começar em uma vida noturna ativa. — Sorriu como um gato. Afundei suavemente minhas unhas na palma da mão, eu sabia que todo aquele porte deveria enlouquecer mulheres, mas não havia pensado em um “Damian” garanhão. Inferno, por que eu estava pensando nisso? Não importava para mim. — O rapaz se envolveu com muitas brigas com vários seres ao decorrer do limite da paciência da administração de Pluto. Foi castigado sendo obrigado a ingressar na Comissão do Comportamento Humano sobre o Mundo. Um castigo, se me permite dizer, até leve. — Abri a boca para perguntar sobre o órgão citado e sobre a causa específica da penalização, mas ele não deixou-me espaço. — Para um ex-guerreiro com problemas de disciplina, o trabalho de perambular e relatar era, sem dúvidas, fácil. Contudo, não esperávamos que algum dos nossos fossem arriscar aventurar-se no mundo humano depois de cinquenta anos sem tais atividades. Essa é a parte que você entra, Astrid. — Apontou para o meu peito enquanto cerrava mais os olhos. Não tive tempo de ficar surpresa por não me chamar de humana.— Para um cara da patrulha, sem exceções, se algo desse errado, o máximo que poderia fazer era executar imediatamente um chamado para os feiticeiros anciões e demônios auxiliares que trabalham na CCHM. Eles iriam tomar as devidas providências.
— Damian não fez isso. — Percebo. — Mas eu teria morrido se ele não interviesse, certo? Não dava para ver nada por mais que tentasse sair daquelas garras…
— O ponto não é se você morreria ou não. — Thristan cala-me enquanto o olho exasperada. Poderia ser mais complacente ao dizer que minha vida não importa? — A CCHM só zela pela invisibilidade do nosso mundo. Iria punir o seu agressor, talvez não com a morte, mas iria. A sua morte, humana, seria redesenhada por feiticeiros, fazendo com que parecesse natural. — Explica sem um pingo de remorso. — Mas, claro, ninguém esperaria que uma irregularidade fosse feita justamente quando Damian entrasse no órgão, as probabilidades eram quase nulas, nosso povo não tem tanto interesse em humanos.
— Não me diga! — Debochei. — Acho que são muito discretos nessa parte de desprezar e tals…
Mas com todo o desprezo e a falta de interesse provinda desse povo que pudesse existir, ainda havia sido atacada por um deles. Nada servia de garantia quando o assunto relacionava-se a um humano.
— O fato é: Damian ultrapassou todos os limites ao matar o jovem desfigurado. — O mago olhou para trás, escutando um burburinho baixo de mulheres bruxas na varanda. — Deixar que o visse implicaria em sua morte, mas aqui você está. — Voltou sua atenção para mim. — Escute, não entendo os motivos do anjo em não deixar que morra. Conheço Damian há tempos, apesar de não ser contra humanos, também não é a favor e muito menos é do tipo piedoso. Mas se vocês foram perseguidos pelas filhas de Nedyalka, alguém muito poderoso sabe do que aconteceu e não quer, claramente, deixar o fato passar em branco. Talvez até a própria CCHM as enviara, não sei dizer.
— O que eu posso fazer? — Estava atolada em informações, não consegui clarear meus próprios pensamentos. Fora a minha tia Melissa, não estava acostumada com pessoas sacrificando-se por mim. Nem Chris sacrificava uma tarde do treino de hóquei no gelo para ficar comigo.— Ele pode ser diferente de todos vocês, sabe? Talvez o fato de que eu simplesmente não fiz nada e ia ser morta em vão, tivesse o atingido não como um pensamento piedoso, mas sim racional.
— Talvez. — Suas palavras saíram em concordância, mas seus olhos denunciavam que não acreditava em uma sílaba que falei.
— Por que curou a minha perna? — Se não era do agrado dele um ser humano, quem teria me curado então? Duvido que qualquer feiticeiro nesse lugar o tivesse feito. Damian não estava em condições de me curar e se tivesse feito algo, teria estado presente na conexão que tentei estabelecer. Senti um arrepio ao lembrar de como tinha chegado ali, voando.
— Devo favores ao anjo. — Thristan deu de ombros. Algo na postura do mago deixou o clima mais severo.
Seja qual fosse o acordo selado entre Damian e o mago, parecia ser cumprido a contra gosto. Não era de se admirar.
— Para onde Damian foi? — Não consegui segurar-me. A sede de mais informações havia sido ativada, havia tantas coisas que queria perguntá-lo...
— Foi cobrar outros favores, não fique pilhada sobre isso. O rapaz está esforçando-se para manter sua cabeça em conjunto ao resto do corpo, ainda que por pouco tempo.
Arqueei a sobrancelha. Sua convicção de que minha vida não demoraria muito para ser tirada era estranha.
Vi com o canto do olho um movimento mais agitado dos feiticeiros que antes locomoviam-se normalmente pela varanda e jardim.
— O que está acontecendo? — Perguntei, virando todo o tronco para trás com um senso de alerta máximo.
Os olhares amarelos me encaravam com diversão antecipada e até mesmo crueldade imersa nas íris.
— Me perdoe, humana. — A voz de Thristan foi fria ao dizer: — Mas meu favores ao anjo, mesmo que seja um grande amigo, se restringem a apenas sua cura. Nada sobre entregá-la à autoridade.
Arregalei os olhos ao ver filhas de Nedyalka surgirem no começo da varanda. Puta merda.
— Seu traidor! — Gritei furiosa em sua cara enquanto me levantava rapidamente. Minhas pupilas dilataram e meu estômago parecia dar cambalhotas enquanto meu coração pulsava cada vez mais forte.
— Vai perceber, humana, que preferiria ter morrido naquela noite. — O mago repugnante não mexeu um músculo ao ver meu desespero.
Por mais idiota que fosse, eu corri. Sabia da planta daquele lugar? Claro que não, talvez nem houvesse outra saída senão a que estava perto da varanda. A UPA estava repleta de pessoas com super poderes que poderiam me parar com um inspirar? Porcaria que sim. Mas nenhuma impediu-me de correr. Não por empatia, longe disso, mas porque era divertido olhar uma presa frágil correr de um tremendo predador.
Eu precisava de alguma ajuda.
— Damian! — Gritei pelos corredores, tudo estava passando em vultos enquanto minhas pernas trabalhavam para me afastar daquelas mulheres de capa vermelha. O traje hospitalar que vestia meu corpo não ajudava em nada, a calça comprida verde era longa e parecia folgada demais. O blusão, também verde, era mais como um vestido curto. Meus movimentos estavam sendo limitados.
— Nãooo adiiiantaaa corrrerrrrrr, huumaaana. — O sibilar das filhas de Nedyalka soou do mesmo jeito que escutei no hospital.
Meu corpo trombou com um carrinho de emergência no meio do caminho, mas não caí. Peguei uma seringa de agulha longa e desajeitadamente joguei em meu bolso enquanto corria para longe dos frascos de vidro quebrados no chão.
Um feiticeiro jovem que colocava pedaços de carne em um aquário, embutido na parede pintada com ondas em laranja, repleto de piranhas apontou para uma porta no final do corredor com um sorriso travesso.
Um arrepio percorreu meu corpo.
Eu havia pego uma trajetória errada, não havia mais saída. Nesse corredor tudo resumia-se a portas, excluindo o aquário.
Olhei para as piranhas.
Não podia voltar, o sibilar soava mais longe a cada passo hesitante que eu dava em seguir ou não por um caminho naquela residência, mas eu sabia que estavam perto. Perigosamente perto.
“Confie nele.” Uma voz afiada alfinetou a minha mente. Parecia animalesca e diferente de todas que já havia escutado durante a minha vida.
Sem opções, corri para a porta apontada pelo cara de olhos amarelos. Se estavam brincando com minha mente, mandando-me para a morte, não importava-me mais. Eu iria morrer de todo jeito.
Assim que meus ombros chocaram-se com a porta de madeira grossa, abrindo-a com brutalidade, meus pés ficaram sem chão. Não tive tempo de gritar, a gravidade trabalhou mais livremente. Meus cabelos agarram-se em minha cara, mas não sem antes ver as filhas de Nedyalka na soleira da porta… Rindo?
Senti a brisa marítima minutos antes de perceber que estava caindo para o mar.
A porcaria do prédio de cura mágica fora construído sobre um enorme morro beira-mar. Fechei os olhos e tentei abraçar meu corpo, eu sabia muito bem nadar, mas não havia como sobreviver de uma queda daquela altura.
Por isso que o feiticeiro resolveu falar, afinal, não estava colaborando para a minha sobrevivência.
A acrofobia atacou-me novamente. Não conseguia mais respirar, senti minhas pernas perderem força enquanto despencava lentamente.
Sentia cada vez mais forte o atrito do ar em minhas costas, estava ferrada.
Esperei sentir dor ao ter impacto com a água, mas essa nunca veio.
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