Dare To Dream

1 Pesadelo à Meia-noite


Notas iniciais
Primeiro capítulo de Dare to Dream, para você que está lendo pela primeira vez, seja bem-vindo, para quem estiver relendo, leia como se fosse a primeira vez! Espero que goste… :)

Está escuro lá fora, o barulho da chuva é parcialmente abafado pela janela de vidro da varanda, eu acordei assustada com o barulho do trovão. Ridículo. Estava tendo um pesadelo. Estremeço ao lembrar, fecho os olhos e empurro a imagem para longe. Minha garganta está seca, me levanto e vou até a cozinha para pegar um copo d'água. Mesmo com a casa toda fechada sinto frio, me abraço com o leve arrepio, talvez seja pelo ar-condicionado ligado e o piso gelado. Ao pegar a jarra, minhas mãos tremem. Eu a deixo rapidamente na bancada, olho para minhas mãos que continuam a tremer, tento respirar fundo e me acalmar, mas ao invés disso meu coração acelera. Tremer e hesitar são os principais sinais de fraqueza, lembro. Pergunto-me o que me fez agir dessa forma. A resposta logo vem, e preferia não compreender.

Parecia fraca e desesperada, sentada no chão da cozinha com as mãos na cabeça apoiada em meus joelhos. Não era por causa do frio, a chuva que caia do lado de fora era uma chuva de verão, o ar-condicionado estava desligado. A imagem volta. O pesadelo.

– Não posso, não, não... Tenho que ser racional.murmuro baixo comigo mesma.

É horrível. Sangue, cheiro metálico de sangue. Encontro-me num labirinto de concreto, no canto pequenas flores coloridas brotam, sinto nojo delas, são como uma distração da realidade. Dura realidade, me sinto tonta com o cheiro forte, me movo na direção do cheiro. Depois de dar voltas e voltas estou no fim, mas não há saída, apenas uma parede. Descanso uma mão nela, ofegante, cansada. Do nada, o concreto se dissolve e a parede é de vidro. Meu coração dói, e milhares de emoções surgem, estou confusa, nunca me senti daquela forma, meus olhos se enchem de lágrimas e eu desabo, começo a socar o vidro e a gritar por Jake. Ele está sangrando por cortes em todo o seu corpo. Claro que ele não me ouve, ele está inconsciente, mesmo assim grito e continuo a bater no vidro. Então uma grande rachadura surge, e não é mais um vidro. É um espelho, sigo a rachadura com o olhar e paro no reflexo da minha mão esquerda, minhas lágrimas param. Nela há uma faca, respingando sangue. Solto a faca e corro pelo labirinto, começa a escurecer, nuvens pretas surgem e cai uma chuva forte. Quando paro de correr, percebo que estou coberta de sangue, chove sangue. Um clarão, e um estrondo.

Acordo de minhas lembranças, sobre minha boca há uma mão abafando meus gritos, com o choque das imagens não percebi que gritava, e que chorava. A outra mão afaga minhas costas, é minha mãe. Levanto os olhos cautelosamente esperando por um olhar repreensivo, mas ela está tranquila. Mesmo no escuro consigo ver sua expressão, ela também parece preocupada. Lembro que tenho que me recompor. Não é permitido fazer barulho de madrugada, ou após meia-noite, nem estar acordada. Fico aliviada de minha mãe, não o meu pai, ter me encontrado assim, ele é a pessoa mais racional que conheço, segue todas as leis de Quod, e não admitiria um erro meu, ele não seria nem um pouco compreensível. Surpreendi-me por minha mãe ser.

Olho para seu rosto, estou mais calma, ela também não é compreensiva, mas nada pode fazer nesse momento. Quando ela percebe que não vou mais gritar, tira a sua mão devagar, se levanta e me ajuda a levantar. Seu aperto em minha mão chega a doer, um aviso silencioso. Nunca mais faça isso, e não chore. Nunca chore. Assinto uma vez com a cabeça, ela solta minha mão e se vira de costas, não olhando para trás. Espero ela chegar ao topo da escada, olho para baixo e dou um suspiro, de alívio, cansaço e uma pontada de frustração.

De volta à minha cama eu penso no pesadelo, as imagens não me assustam mais, agora reflito sobre minha reação ao ver Jake caído, sangrando, meu coração dói e meu estômago se contrai ao lembrar o cheiro. Ânsia de vômito não é uma coisa nova para mim, já essa dor no coração é. Só de imaginar me dá vontade de chorar, perder um amigo seria... Devastador, ou pior. Uma lágrima escorre, a enxugo rapidamente e olho para o lado para certificar que ninguém viu, me olho no espelho. E meu reflexo, com os cabelos loiros encaracolados bagunçados e os olhos verdes inchados, me encarando de volta diz em minha mente: "Eu vi".

Balanço a cabeça, afastando a sensação tola de medo. Mergulho minha cabeça no travesseiro e fecho meus olhos.

– É proibido chorar – minha mãe dizia para uma versão minha aos seis anos de idade. Eu estava ao lado dela, quase a choramingar, por ter a visto chorando.

– Nunca conte a ninguém o que acabou de ver – ela diz com uma voz dura – E nunca chore, Liz.

Eu não cumpri com isso hoje. Mas sei que ela não contará, é sua troca, porque eu nunca contei.

Notas finais
E aí, gostou? Me conte o que achou e sobre o que pode ser melhorado! Beijos, até o próximo capítulo... Xx