Dare To Dream
2 A mente no controle
Notas iniciais
Um barulho alto, estrondoso e bem irritante ecoa pelo meu quarto, é parecido com o de uma sirene. Na verdade ecoa por toda a casa, mas já estou acostumada, é o despertador. 5 horas da manhã todos devem acordar para mais um "positivo" dia em Quod!
Há muito tempo esse lugar já foi conhecido como Londres, Inglaterra. Com o fim da monarquia, começou uma ditadura brutal. O povo se rebelou, e durante anos a guerra foi um caos. O governo foi retirado, porém alguém tinha que assumir o poder. Então foram escolhidos dois grandes líderes, que comandavam as manifestações com o objetivo de liberdade. Cada um com ideais diferentes, nunca entravam num acordo. Enfim, há exatos cem anos, foi fundado o país Orbis, dividido em distritos adversários: Animus, a cidade movida pela emoção ao norte e Quod, a cidade movida pela razão ao sul. E finalmente se teve a tão esperada liberdade! E tudo tem um não tão esperado limite.
Nunca cheguei perto do muro que divide os distritos, não sei se em Animus é melhor que aqui, mas pior eu não consigo imaginar.
O tempo passou como um clique desde que fechei os olhos e cai em um sono profundo. Minha cabeça dói, mas tenho que esquecer a dor, me levantar e ir para a “High School & Institute of Mind”, uma tradicional escola de Quod que além de escola é um instituto para pesquisas da mente e cérebro. Desconfio que as cobaias e experimentos para tais pesquisas sejam os alunos. Visto o uniforme, uma saia plissada azul-marinho, uma camisa branca e um blazer cinza. Odeio isso, mas não temos escolha, não podemos definir nossa personalidade por tecidos. No meu guarda-roupa a maioria das roupas são de cores neutras; branco, preto e cinza, cores, no máximo azul.
Penteio rapidamente meu cabelo e desço para o café da manhã, meus pais e meu irmão mais velho, Dan, já estão à mesa. Sento e me sirvo de apenas uma torrada e suco de laranja. Está um silêncio mortal, não é proibido ter bom humor, ou conversar com a família durante o café, mas toda manhã é assim, todos reservados em seus pensamentos e nunca há um motivo para se ter bom humor, principalmente numa segunda-feira. Meu pai está lendo o jornal, de terno ou com suas roupas normais, ele sempre tem sua postura inabalável. Rígido e poderoso, ele é um dos melhores advogados do distrito, e talvez o único honesto. Não pega uma causa de réis infratores, ele os denuncia. Só defende quem é inocente e acusado injustamente. Os meios de ele saber a verdade, quem é ou não inocente, eu não sei, mas ele sempre sabe de alguma forma.
Dou algumas mordidas e acabo com a torrada, viro o suco. Não aguento ficar mais tempo na mesa.
– Hm, eu vou à pé hoje… ok? Tenham um bom dia – digo, me levantando.
– Como quiser, Elizabeth – meu pai concorda sem tirar o olhar de seu jornal, ele é o único que não me chama por meu apelido.
Meu irmão se levanta também, não terei de ficar em silêncio por todo o caminho. Minha mãe me lança um olhar de "conversamos mais tarde". E tenho a vontade de adiar essa conversa, o mais tarde possível.
Saímos de casa e a patrulha já está em frente ao jardim. A patrulha guarda as casas de todo o distrito, 24 horas por dia. Menos aos domingos, o que significa que não me ouviram. Homens com roupas pretas em postura reta e o rosto sério são extremamente intimidantes. Sem dizer uma palavra, dois se posicionam a cada cinco metros. Passamos por eles, andando normalmente e sem encará-los.
– Eu te ouvi ontem. – Dan diz como se dissesse "Está um belo dia.", baixo para ninguém ouvir.
– O-o que? – eu paro. E gaguejo. O que piora tudo.
Ele pega no meu braço e me puxa com ele para continuarmos a andar. E continua, falando normalmente, como se falasse do clima.
– Não se faça de desentendida. O que te deu na cabeça?
Eu não sei a resposta. Tento entrar em seu teatrinho, respiro fundo, e solto meu braço de seu apoio.
– Tive um pesadelo – digo com um sorriso envergonhado.
Ele ri, e então está com um semblante despreocupado. Era bom ver Dan sorrir, esses momentos eram raros.
– Ainda?! Dezesseis anos e ainda não entendeu que pesadelos, filmes de terror, monstros e essas coisas não são reais?
Rio junto. Agora o sonho de ontem parece bobagem e eu não tenho nada a temer.
– Se controle, Liz! – ele me alerta novamente sério e preocupado.
E me lembro de que não foi o sonho o problema, foi o momento que estava em choque e quebrando diversas regras.
Olho para ele com uma pontada de desespero.
– Por favor, isso não passa daqui.
– Claro, nosso segredo.
Mais segredos. Deixo de fora o fato de nossa mãe também saber.
– Você acha que mais alguém ouviu?
Ele balança a cabeça para um lado, um talvez.
– Não sei, mas com quem você está se preocupando, com certeza não. Ele é surdo.
Meu pai. Mesmo sendo sua filha, duvido que ele deixaria de me denunciar. Mas ele é surdo, bem lembrado, e sendo que ele não dorme com o aparelho no ouvido e tem um sono pesado, estou livre por enquanto. Poderiam checar as gravações da casa, contudo não fariam isso. Ele faz favores a eles, ao governo, ao denunciar infratores, não ousariam desconfiar de sua família.
Chegamos à escola, aceno para Dan que vai para o outro lado do campus. Ele é estagiário no banco de dados de pesquisa do Instituto. Pesquisas altamente sigilosas.
O sinal de início das aulas toca, tenho cinco aulas no período antes do almoço, com pausa de 15 minutos entre elas. Após o almoço temos o trabalho voluntário. Ninguém nunca se voluntariou, somos obrigados.
Nas primeiras aulas tenho Controle da Mente, as duas únicas aulas do dia que não tenho com Jake. Acima da lousa branca está escrito em letras grandes: "A mente está acima do coração". A lousa branca representa a mente, e nos lembra que nascemos sem nenhum conhecimento, que adquirimos os nossos valores ao longo da vida, constituindo assim o que somos hoje. Há uma longa explicação para a frase no Manifesto de Quod. Basicamente significa que o coração, que é apenas um símbolo da emoção, não deve controlar nossas ações. Como seres racionais devemos controlar nossa mente, agir por si mesmo e abolir qualquer sentimento. Nessa aula aprendemos como controlar e não deixar sermos controlados pelos sentimentos através de simulações.
Na terceira e quarta aula, tenho Ataque e Defesa Pessoal. Somos proibidos de lutar até os treze anos quando a matéria é introduzida na grade curricular. Durante uma semana aprendemos as técnicas e depois temos que colocar em prática, lutar com adversários iniciantes, intermediários e avançados. O Jake começou no mesmo nível que eu, ele era fraco, uma criança e sem músculos, na primeira luta que tivemos eu ganhei. E assim nossa amizade começou. Ele treinou muito para uma revanche, ganhou músculos e força em uma semana, então quando eu cai inconsciente e ele ganhou, em vez de comemorar vitória, ele me ajudou a levantar.
Procuro por ele, então o vejo do outro lado da sala com seu oponente, está concentrado e não olha em minha direção. Balanço a cabeça, alongando e afastando meus pensamentos "Foi só um sonho, ele está bem, não foi real." Olho para minha oponente, Emily, nem preciso me concentrar. Ela é riquinha e metida, filha de um político. É fácil ganhar dela, tem medo até de quebrar a unha e não é nenhum pouco corajosa. Não sei como não foi parar na detenção ainda, toda vez que cai no chão antes do primeiro soco.
Luto com mais uns dez adversários e perco quatro lutas com os avançados, ganho seis contra os iniciantes e uma contra Emily.
Sou uma intermediária, Jake é um avançado, a aula acaba e meu olhar encontra com o dele, vamos andando juntos para a aula de História.
– E aí, Lizzy? – ele sorri. Jake é forte, seus cabelos são de um castanho escuro, e seus olhos azuis como o oceano. Ele está suado, tem um ou outro hematoma em seu rosto, mas não um pacote de gelo em seu nariz, como eu. – Perdeu contra o Ethan de novo?
Ethan é um dos avançados, sua tática é o soco no nariz e sempre acabo com uma hemorragia nasal.
– Ele sempre dá o mesmo golpe, mas não consigo me desviar, ele é mais rápido do que eu.
– Ou é o que você pensa.
Fico confusa com o que ele diz, ele estava se referindo que eu posso ser mais rápida que Ethan? Não tenho tempo de perguntar, estamos na sala e não podemos conversar sobre as lutas fora da Arena de Treinamento.
O assunto da aula são as rebeliões. Nunca se fala dos motivos delas, mas não escondem as consequências. E é uma lista infinita. Mortes, tortura, a comida controlada em todo o distrito, miséria. Fazem com que todos sofram de alguma forma, para que nunca mais ocorra uma rebelião. É preciso ter sorte, alguém influente na família, para não morrer de fome. Só que sorte é pouco para viver. Eu conheço o campo de tortura, conheço as mortes, a fome, a miséria, tudo de perto. Somos obrigados, ou voluntariados, como quiser chamar, a ver tudo bem de perto. E é muito injusto. Não podemos fazer nada, somente observar. Lutar contra aqueles que lutam contra a razão. Lutar contra a mente e a emoção. Temos que controlar e somos controlados.
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