Dangerous Love
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Sentei no chão do hall de entrada, a cabeça encostada na parede. Meu corpo estava completamente dolorido e eu nem me dava mais ao trabalho de tentar conter as lágrimas, apenas as ignorava descendo pelo rosto.
Eu tinha acabado de perder a coisa mais importante da minha vida.
Os telefones gritavam de tempos em tempos, mas eu não conseguia e nem queria levantar. Tudo doía e eu também não queria ouvir ou falar com ninguém agora. O silêncio era bem-vindo.
Não sei quanto tempo fiquei ali no chão, sei que já tinha passado inúmeras horas desde que Felicity foi embora, mas não consegui evitar a esperança crescer em meu peito quando ouvi o elevador abrir. Não era Felicity. Na verdade, era a última pessoa que eu poderia imaginar estar me prestando uma visita na madrugada.
Meu pai se agachou na minha frente só para me levantar em seus braços como se eu fosse uma criança. Ele me levou até o sofá e sentou na mesa de centro na minha frente.
— Oliver... O que aconteceu? Onde está Felicity?
— Ela foi embora. – sussurrei e deixei a cabeça cair para trás.
Essa era a realidade agora? O telefone voltou a tocar, mas eu não movi um músculo.
Depois de um suspiro cansado, papai atendeu para mim.
— Moira, não se preocupe. Ele está vivo e respirando... Eu sou um médico, acha mesmo que eu não sei diferenciar? – perguntou ele e eu teria rido se fosse alguma situação diferente. – São 3h da manhã, não precisa vir. Eu sei muito bem cuidar do nosso filho sem você, mulher.
Fechei meus olhos e respirei fundo.
— Sua mãe quer falar com você, ela está muito preocupada Oliver... – ele disse me estendendo o telefone.
Levantei o braço, mas assim que minha mão tocou o aparelho tudo queimou. Gemi de dor bem alto quando comecei a sentir a dor excruciante se espalhar da ponta dos meus dedos até meu cotovelo. Que porra era essa?
— Oliver, o que aconteceu com a sua mão? – perguntou papai desligando o telefone e entrando em seu modo médico.
Nós dois olhamos para minha mão esquerda que estava inchada e bem vermelha. Eu realmente não podia me importar menos com isso. A dor da mão não se comparava a dor que Felicity me deixou ao sair por aquela porta.
— Mãe vai te mandar para o sofá por ter desligado na cara dela... – eu disse em voz baixa quando senti seus dedos gelados tocando gentilmente meu pulso e palma. Como se ela mesma estivesse ali me ouvindo, o telefone voltou a tocar. – Eu te disse.
Ele voltou a atender o telefone para acalmar mamãe, eu não estava prestando atenção apenas ouvi um “Eu vou cuidar dele”, e depois um “Eu te amo, querida”. A voz de Robert Queen nunca soou tão melancólica.
— Por que está tão frio aqui? Por que as janelas estão abertas e o aquecedor desligado? – perguntou papai indo até as janelas onde as cortinas ondulava com o vento, eu conseguia sentir cheiro de chuva. – Oliver?
Voltei meu olhar para meu pai que estava na frente de uma janelas, ou bem, o que costumava ser uma janela... Agora era apenas uma poça de vidro quebrados no chão perto do piano. O vento estava entrando por ali, e mesmo que o aquecedor estivesse ligado no máximo, eu ainda sentir frio sem o calor dela.
Cacete, Smoak.
— Filho, nós temos que dar uma olhada nessa mão... – disse papai desviando do vidro e vindo até mim novamente. Ele me deu o olhar significativo que só me dava quando queria ser complacente ou alguma merda assim. – Você vai precisar dela se quiser cortar os cérebros das pessoas.
Ele realmente estava fazendo uma piada agora? Sério?
— Não me faça lhe chamar pelo seu nome inteiro, apenas vá trocar de roupa. Seu pijama está cheio de sangue. – ele apontou para o corredor e eu apenas assenti e me arrastei para fora do sofá.
Colocar roupas limpas foi um verdadeiro desafio sem que eu relasse na mão ferida, que por sinal estava ficando levemente arroxeada. Estava perdendo o clico sanguíneo ali. É, não teria como fugir de um hospital agora. Assim que terminei de me vestir, voltei para sala onde papai tinha limpado o vidro quebrado e colocado meu banco do piano prendendo a cortina na parede com ele.
Nós fomos para o térreo e eu reconheci seu Bentley de longe. Papai nunca trocou de carro desde minha infância, eu nem sabia como aquela joça ainda rodava. Entrei no banco do carona e até o cheiro continuava o mesmo.
— Okay... Massageei seu antebraço, eu não quero ter que amputar sua mão aqui dentro Oliver. Jerry acabou de voltar de uma lavagem a seco. – papai disse quando percebeu a coloração da minha mão.
Oh sim... O fodido carro tinha nome também. Jerry.
Fiz o que ele mandou e o arroxeado diminuiu, mas não muito.
— Me leve a outro hospital, por favor. – eu pedi assim que chegamos perto do Starling General. Eu sabia que o risco de encontrar com Felicity ali era grande. E se ela me visse, eu não teria cumprido minha promessa á ela. – Pai, por favor.
Papai assentiu e em menos de quinze minutos estávamos estacionando no Starling Medical Center. O atendimento foi ridiculamente rápido dada a influência de papai com o Dr. Hodge que era o atendente da noite. Estava com a mão fraturada, mas sem nenhum dano aos meus nervos. Ganhei uma luva de gesso e um pirulito de em forma de abelha ao sair de lá.
É claro que papai fez questão que eu tomasse meus remédios, deitasse na cama e me deixasse longe das janelas assim que voltamos para minha casa. Mamãe telefonou duas vezes nesse meio tempo. Ela deveria estar pirando. Eu realmente era um merda por estar fazendo ela passar por isso.
Estiquei a mão boa para o telefone depois que tomei o analgésico para dor e escutei a voz de mamãe. Ela estava gritando com o meu pai por não ter deixado ela vir me ver e que queria saber porquê estávamos no hospital.
— Mãe... Não grite assim com o papai. Ele não fez nada irracional. – eu disse prendendo o telefone entre minha bochecha e meu ombro.
— Oliver! O que infernos está acontecendo com você? O que aconteceu? Por que não está atendendo a porcaria do seu telefone ou celular? — disparou usando sua voz de bronca comigo. – Eu tive um sonho horrível com você e Felicity...
— Ela foi embora. – eu disse com um fio de voz.
Só ouvir o nome dela já me dava vontade de chorar de novo.
— O que?... Oh querido.— e lá estava o tom de pena após a bronca. — O que eu posso fazer por você?
— Nada, mãe. Não se preocupe comigo. – eu disse e devolvi o telefone para papai enquanto puxava as cobertas para cima de mim.
Papai terminou a ligação para mim.
— Você vai ficar bem sozinho? – ele perguntou e eu assenti, depois de ser colocado na minha cama como um garotinho. – Eu vou terminar meu plantão e volto, ok?
Assenti mais uma fez forçando um pequeno sorriso.
Ele não iria me deixar em paz tão cedo agora.
— Você quer que eu ligue para sua mãe? Ela vai ficar preocupada quando vir o seu gesso... – ele disse e eu respirei fundo ao assentir. Ele tem razão, porém não queria falar com ela agora. – Vou pedir para consertarem sua janela quando descer.
Ele deixou meus remédios no criado-mudo junto com uma garrada de água e um Gatorade de laranja. Ajeitou meu travesseiro, minha coberta e até passou a mão em meu cabelo.
— Vou deixar seu atestado no hospital. Você tem 45 dias para deixar a mão de molho, e vai fazer fisioterapia também antes que eu deixe você entrar dentro da cabeça de alguém. – ele disse e entendi qual era o meu castigo.
Passar tempo com René. Yupi.
— Volto depois do plantão e você vai ir para casa comigo. – abri minha boca e fechei imediatamente quando ele voltou a falar. – Você quer eu deixe sua mãe vir lhe buscar, Oliver?
Meu silêncio foi sua resposta.
— Fique longe das janelas e não faça nenhuma besteira, pelo amor de Deus... – sua voz era nervosa e assustada. O que ele está pensando, que vou me matar? Sou covarde o suficiente para nem pensar nisso. Apenas assenti e me virei para o lado.
O cheiro dela me atropelou como um caminhão. Deus... Ela ainda estava aqui.
Depois disso, constatei que o inferno deveria ser um paraíso para mim agora.
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Quando os abro meus olhos novamente o dia está amanhecendo, nublado e frio. Meu pai não está em lugar algum e me levanto para ir ao banheiro. Assim que pego minha escova de dente, deixo algo cair. Os comprimidos. É claro que ela esqueceu.
— Eu preciso que faça uma entrega, por favor. – pedi, ao ligar para Alex, mais conhecido como meu interno e meu mensageiro nas horas vagas.
Ele apareceu vestido no lobby de casa usando seu jaleco e uniforme. Fiquei grato por ele ter se abstido de comentários sobre o meu estado, e dei os remédios de Felicity que era para deixar sob os cuidados de Sara para que os comprimidos chegassem até Felicity.
Depois que Alex foi embora, eu fiz um cadastro em uma floricultura online. Apenas cumprindo outra promessa que havia feito pra ela. Felicity iria receber flores todos os dias.
— O que vai escrever no cartão senhor? – perguntou uma voz jovem e entediada confirmando meu cadastro e pedido.
Só havia uma coisa que queria dizer a Felicity agora.
— “Me perdoa, Smoak”. S-M-O-A-K. Apenas isso. – disse e desliguei.
Disquei o número de Sara em seguida.
— Oliver já ia ligar para você, hoje é o dia da consulta da Lis... — disse Sara assim que me atendeu. Eu conseguia ouvir vozes e barulhos ao fundo, indicando que ela já estava no hospital.
Felicity ainda não havia chegado?
— Eu sei. Por favor, ajude-a eu mandei os remédios que ela esqueceu, entregue-os e faça um check-up completo, incluindo uma radiografia do pulso. – pedi voltando em direção á cama.
— Ollie, o que houve? Você não vem com ela? Seu pai disse que estendeu suas férias... Quando você volta?
— Eu não sei quando volto, apenas faça o que pedi, por favor.
Desliguei na cara dela também e tomei meus remédios novamente. Larguei o celular e voltei a abraçar o travesseiro com o cheiro de Felicity. Era completamente patético, acredite em mim, eu sei, mas era tudo que eu tinha.
Felicity disse que precisávamos pensar sobre tudo e se entender. Por mais irônico que isso possa parecer ela tem completa razão. Nesse momento não sei quem sou, o que sinto e nem o que eu quero mais. Não sabia nem se ter Felicity de volta era o certo.
Oh, os analgésicos são fortes mesmo.
Me arrepiei de frio e puxei as cobertas até o pescoço. Eu conseguia ouvir as rajadas de vento vindo pela sala e realmente não fiquei surpreso ao encontrar a bagunça com o piano aberto, partituras espalhadas pelo chão, o banco caído, uma merda de uma rosa morta e esquecida no chão, a cozinha um verdadeiro caos, o resto do almoço de ontem sobre o balcão, os pratos por lavar quando cheguei do hospital com papai. Nem a casa é mais a mesma.
—-
Coloquei algumas roupas e produtos de higiene dentro da minha mochila junto com meus remédios, sob o olhar atento do Dr. Queen e segui para o elevador. Ele tinha cumprido a promessa dele e voltado para me pegar depois do plantão, até estava usando seu jaleco ainda.
Entrei no carro do meu pai e ele dirigiu até a casa que amo. E o quarto que tanto odeio.
Graças á Deus, mamãe estava trabalhando quando eu cheguei. Só tive que lidar com uma Raisa preocupada. Não demorei muito para me deitar na cama com o travesseiro de Felicity, e me enrolar como uma bola.
Deus eu estava começando a aparecer uma adolescente no meio de uma crise.
Passei o dia inteiro pensando na merda que fiz até minha mãe abriu a porta em um rompante, me olhando com pena ou era compaixão? Essa era a única coisa que faltava.
— Oliver... Sua mão. Como aconteceu? – eu suspirei revirando os olhos, cansado demais para responder mamãe o que papai contaria para ela eventualmente.
— Ele esmurrou a janela de casa. – a respiração da minha mãe se deteve. – Não deve ter se cortado por causa da cortina.
Ela olhava inquiridora para meu pai.
— Não me olhe assim, por favor, não havia nada que você pudesse fazer. – papai tocou o ombro dela que inclinou levemente a cabeça na direção da mão dele. – Ele vai passar 03 semanas com a luva, depois alguns exercícios e estará ótimo.
Ótimo? Duvido muito.
— Oliver?
Fechei os olhos suspirando.
— Venha comer algo, por favor.
Neguei.
— Quer que eu traga?
Neguei mais uma vez.
— Venha Moira, ele está em casa sabe onde fica a geladeira. – minha mãe não gostou muito, mas seguiu meu pai, graças ao bom Deus.
Eu me levantei, fui ao banheiro no meio da noite deixando a luz acesa. Odeio dormir no escuro, principalmente aqui. Nada do que me aconteceu chega aos pés da dor e do medo que estou sentindo por ter perdido Felicity.
A neve caía na minha janela quando o dia amanheceu. E sei que há um sorriso bobo em meus lábios ao lembrar de tão linda Felicity fica quando está prestes a acordar. É tão linda. Ela apertava os olhos, curvava a cabeça para trás abrindo a boca, sorrindo para depois me recriminar por estar observando ela.
Meus pais entraram e saíram do meu quarto diversas vezes perguntando coisas que não respondi, dizendo coisas que não me interessavam, me chamando para comer ou até mesmo andar no corredor. Meu celular tocou diversas e insuportáveis vezes. Até que o joguei contra a parede.
Eu não quero ninguém perto de mim agora por razões óbvias.
— Vá tomar um banho, Oliver. Você está fedendo. – virei a cabeça lentamente da janela e vi Thea na porta do meu quarto de braços cruzados.
Eu não quero tomar banho. Não tomo desde... Bem, desde que chegamos de Nova Orleans há cinco dias. Felicity está no meu corpo é a única coisa que me importa. Eu não quero tirá-la. Não quero lavá-la e permitir que se vá por completo. Seu cheiro já havia saído do travesseiro.
— Eu juro que vou pegar um balde de água se você não for para aquele banheiro por vontade própria. – ameaçou e eu revirei os olhos. Me virei dando as costas para ela. – Ok, como preferir.
Ouvi passos e suspirei. Mamãe chamou Thea? Talvez Tommy teria sido mais eficaz.
E eu fui afogado. Thea realmente virou um balde de água em cima de mim. Eu sentei na cama no meio de lençóis molhados e observei Thea mexer em minha mochila, tirando de lá um conjunto de moleton de corrida com uma boxer limpa. Ela deixou tudo em cima da minha antiga escrivaninha e se deitou virada para mim nos pés da cama, onde a água não tinha atingindo.
— Felicity é tão única, não é?
Encarei ela fixamente
— Já a vi apaixonada. Cooper. Eu não conheci o cara...
Isso me irritou profundamente e me fez fechar a mão que não estava engessada.
— Ela ficava o tempo inteiro suspirando como uma asmática pelos cantos, com um sorriso bobo.
— Por acaso pareço um asmático de sorriso bobo? – ironizei e Thea sorriu.
— Não. Você parece um idiota que não sabe o que fazer. – observei ela por longos minutos sem responder. – Lissy é uma mulher doce que quer um homem que a ame, um cara normal, porque ela é normal. Ela não quer beijar um sapo para que ele se transforme em príncipe. Ela é louca. Ela quer o sapo porque é uma menina generosa e aceita o cara como ele é.
Ela não me aceitaria.
— Oliver, eu não sei o que aconteceu, mas sei que ficar aqui chorando como o bebê da mamãe não vai mudar nada. Tome um banho homem, faça a barba, vista-se e vá à luta. Você até que é bonitinho, mas desse jeito, nem que estivesse muito apaixonada ela ficaria com você. Você está realmente fedendo. – ela disse prendendo o nariz.
A olhei por um tempo, vendo a força que fazia para não rir. Levantei sendo seguido por ela. Vi que ela tinha deixado uma toalha e tudo que eu precisava para me limpar no banho. Até um sabonete de notas florais.
— Você é meu irmão mais velho, Ollie. Já limpou meu vômito e bateu em caras que me magoara... – ela disse novamente. – Minha obrigação é cuidar de você também. E eu levo meu trabalho muito a sério, mas não vou bater na Smoak. Ela deletou meu Instagram quando eu puxei o cabelo dela uma vez sem querer...
Eu sorri imaginando a cena e me virei para Thea.
— Arrume a bagunça que você fez. – disse batendo a porta na cara dela.
Depois de tomar um banho, fazer a barba e trocar de roupa desci encontrando meus pais na mesa de café da manhã com Thea e Roy que parecia ter virado a noite também.
— Graças a Deus, Oliver! Estava começando a achar que tinha se afogado. – disse mamãe com um sorriso.
— Quase isso. – encarei Thea que estava comendo sua waffle calmamente.
— Vou voltar pra casa. – eu disse assim que me sentei ao lado de mamãe e todos me olharam. Falei com máximo de segurança que minha voz me permitiu, eles não contestaram e eu não permitiria que o fizessem.
Nunca permiti. Não seria agora a primeira vez.
—-
Quando voltei para o apartamento, a janela tinha sido consertada e a bagunça tinha sido limpa. Papai com certeza mandou alguém aqui para cuidar disso. Não tinha mais louça e nem vidro.
Eu tinha voltado a estudar e assistir vídeos de cirurgias. Até coloquei minha séries e leituras em dia. Ficar de férias só tinha graça com Felicity. Estudava os prontuários que Sara me mandava por Alex e tentava ensinar uma ou duas coisas para o garoto toda vez que ele vinha até o meu apartamento.
Todos os dias ia na instituição de Thea visitá-la, ás vezes ia na Verdant também. Me esgueirava até a Queen Consolidated em horários precisos para almoçar com mamãe pelo menos três vezes na semana como fazia antigamente. Era o nosso acordo, contando com a boa vontade da minha mãe que não me deixava ficar cara a cara com Felicity, nem mesmo por acidente.
— Será sempre assim? – minha mãe me interpelou quando chegamos no restaurante chinês que era o seu preferido.
— Assim como mamãe?
— Você e Felicity? Um fugindo do outro...
— Mãe, não. Sem falar dela. Por favor.
— Teimosos. Você e ela são dois teimosos, isso sim. – resmungou passando por mim.
Eu almoçava com ela e depois ia para o meu inferno semanal. Seções de fisioterapia com Renée. Eu não gostava dele. Ele não gostava de mim. Mas nós nos tolerávamos para o bem do hospital. Ele me fazia apertar bolinhas, testas reflexos, usar luvas eletrônicas com choques impulsionares para os músculos. Fazíamos isso tudo em silêncio absoluto.
Depois de minhas consultas com Renée eu respondia as mensagens de Tommy e Lyla.
Sim, eu tinha comprado outro celular e me reintegrado socialmente aos poucos. Lyla me mandava fotos da minha afilhada todo dia descobrindo algo novo, era impossível não responder suas mensagens. Cait estava me dando um gelo, por razões óbvias, e John... Bem, com ele eu resolvia na academia. Sim, também tinha voltado a minha rotina saudável também.
Velhos hábitos, eu acho.
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Quarenta e cinco dias depois eu tive um senso de normalidade ao voltar para o hospital. No entanto, Alex ficou levemente decepcionado ao não ser chamado toda hora por mim. Meu primeiro plantão de volta e eu nunca tinha sido tão pontual na minha vida para bater o cartão e iniciar o batente. Talvez pegasse um acidente bem sangrento com crânios abertos, se eu tivesse sorte.
A primeira coisa que fiz depois de cuidar dos pacientes que Helen me designou foi olhar o prontuário de Felicity online. Punho torcido. Renée medicou ela com anti-inflamatórios e uma tala para proteção. Mais anticoagulantes de Damien e check-up geral feito por Isabel. Seu coágulo tinha diminuído consideravelmente, mas ainda estava lá.
— Ela deveria ter denunciado.
Me virei vendo e vi Renée sentado no computador ao meu lado. Aparentemente ele falava comigo quando eu estava vestido com meu jaleco de médico.
— É por isso que mulheres chegam aqui todos os dias machucadas.
— O que?
— Felicity. Está claro que sofreu violência doméstica, ela deveria ter denunciado o fato.
Respirei profundamente.
— Não sei como um babaca pôde machucar uma garota como ela. – continuou digitando algo no banco de dados do hospital de modo despreocupado.
Furioso, fechei meus punhos em um nano segundo.
— Se um homem não sabe respeitar uma mulher como Felicity é porque com certeza não a merece.
— Oliver?
Me virei para o lado e vi Helena com dois prontuários em mãos.
— Sim?
— Eu acho que precisamos conversar. – ela disse apontando para o corredor.
Eu apenas assenti e a segui até o corredor. Sara estava me vigiando de longe. Ela estava me dando cobertura em todos os sentidos possíveis desde que quebrei minha mão até hoje, ou seja, me protegendo de predadoras em potencial. Como Helena.
— Oliver, eu sei que acabou de voltar das férias e ainda está um pouco perdido e tem esse monte de fofoca circulando pelo hospital...
— De que fofoca está falando especificamente?
— Sobre você correndo atrás de mim. Eu quero que saiba que não fui eu que espalhei o boato. – a olhei incrédulo. – No dia em que cai da escada cheguei aqui e um disse uma coisa, outro aumentou um pouco e quando eu percebi havia se criado toda essa história que fiz questão de desmentir.
— Oliver, veja bem, você é um homem lindo, profissional e solteiro, temos muitas garotas disponíveis por aqui e algumas pessoas fazem suas apostas, deve ter sido isso, agora não se preocupe com mais nada. Somos adultos e nada vai abalar o nosso desempenho profissional não é? – perguntou.
— Sim? Obrigado? – perguntei genuinamente confuso.
Eu tinha voltado hoje e já estavam fofocando sobre mim? Notícias voam mesmo.
Helen passou me chamando junto com Sara, aproveitei para fugir e me enfurnar na UTI atrás de um caso do meu pai, na volta, graças a Deus, Helena não estava mais lá.
Helena tinha razão, somos adultos e tudo se resumia a fofoca.
Helen me ajudou mais do que o necessário, era meu anjo protetor, me avisando constantemente das minhas consultas e cuidando de mim. Ela sempre foi como uma segunda mãe para mim. E Sara também... Deus. Minha amiga querida me deixou mais seguro para clinicar sempre apontando meus erros e puxando minha orelha. Nós três sempre fomos um ótimo time juntos.
Eu seguia uma rotina rígida por dois motivos, primeiro, não enlouquecer, se é que isso ainda é possível no meu caso e segundo, convencer meus pais, meu irmão e meus amigos de que tudo estava bem. Porém a partir do momento em que eu chegava em casa, minha máscara nova caía sem cerimonias.
—-
— Ollie, a sua amiga está sendo de uma ajuda maravilhosa.
— Que amiga, Thea?
— A psicóloga do hospital. Ela disse que ficou sabendo da instituição por você e se ofereceu para ser voluntária algumas vezes por semana. – explicou e eu a olhava sem entender absolutamente nada. Não me lembro de falar com nenhum psicólogo sobre a instituição. – A Dra. Bertinelli.
Talvez papai tenha falado algo com Helena, eles estavam trabalhando juntos com um caso de uma garoto autista com um aneurisma do tamanho de uma bola de golfe.
— Oh, hoje é aniversário da Cait, ela ligou reclamando que não conseguiu falar com você e o convidou para um jantar. – disse Thea assinando alguma coisa em relação a instituição.
Estava esperando ela para irmos almoçar com mamãe. Saímos rapidamente passei numa loja de roupa onde comprei um presente com um cartão desejando felicidades com a ajuda de Thea, até que fui bipado por papai e pedi para Thea entregar meu presente.
Ouve um acidente e uma garotinho de doze anos teve um belo trauma na cabeça. Não vou mentir, foi um arrombo enorme. Também foi a primeira vez que eu trabalhei solo. Bem, eu e Sara que estava me auxiliando. Dezoito horas de cirurgia, duas paradas cardíacas e conseguimos salvar o moleque.
Foram basicamente dois meses disso. Eu trabalhava, treinava e saía ocasionalmente com Tommy e visitava John e Lyla, minha afilhada crescia a cada minuto e ficava muito mais fofa na mesma velocidade. Eu tinha me acostumado á essa rotina e até começado a gostar dela até que um dia eu vi a razão de tudo sair alegremente do prédio da Queen Consolidated com suas roupas vibrantes ao lado de dois homens que estavam rindo de algo que ela havia dito.
Meu coração se apertou e eu quase morri. Literalmente. Porque qual seria o melhor momento para rever Felicity do que no meio do trânsito de Starling City bem na hora do almoço de todo mundo que trabalhava no centro financeiro da cidade?
Em meio a uma nova rotina, outro vício se formou.
Eu passei a ir pegar mamãe todo dia uma hora mais cedo para ver Felicity saindo para almoçar. Ás vezes sozinha, ás vezes acompanhados de seus colega ou Thea, uma vez Caitlin se juntou á ela, mas ela sempre sorria e enganava todos ao seu redor. Até confesso que nos primeiros cinco segundos seu sorriso me enganou também, mas eu consegui ver através dele. Ela estava tão miserável quanto eu, mas também sabia esconder também assim como eu.
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Eu não conseguia decidir entre ir ou não ao aniversário do John. Então aproveitei quando fui comprar seu presente para fazer algo que tenho certeza que Felicity se orgulharia e John realmente gostasse. Fui ao supermercado também, mesmo não sabendo o que infernos estava comprando ali, mas comprei todas as coisas que me lembro que ela gosta e mais algumas que imaginei que poderiam ser úteis.
E aqui estou eu, chegando com uma garrafa de vinho tinto, esperando, desejando, torcendo e ao mesmo tempo com medo de encontrá-la, mas Felicity não viria e fiquei sabendo logo na chegada.
— Não se preocupe, ela não veio. – sussurrou Lyla falou logo após aceitar minha garrafa de vinho.
— Quem não veio, Lyla?
— Cait, deixe-o em paz. – Tommy repreendeu a pergunta irônica de sua esposa.
— Não Thomas, ele precisa saber! Alguém tem que ter a coragem de contar ao Oliver o que está acontecendo. – ela exclamou. Eu a olhei arqueando as sobrancelhas sem entender absolutamente nada.
— O que está acontecendo, Caitlin?
Eu vi irritação no olhar de Thea, e cansaço no de Tommy. Ambos direcionados á Cait.
— Felicity acha que você é um mulherengo, por isso se afastou de você. Por sua causa ela se afastou de nós também. Ela acredita que estamos do seu lado! Pelo amor de Deus, Oliver, vocês vão se matar do jeito que estão agindo! – exclamou ela se levantando do sofá.
— Desculpe, mas quem colocou isso na cabeça dela mesmo? Oh sim, foi você, Snow! – exclamou Thea com um tom de voz que nunca tinha ouvido ela usar.
Pelo menos não com amigos.
John chegou com Sara e gritamos surpresa. A festa rolou como se nada tivesse acontecido, mas quem é que eu estava querendo realmente enganar? As coisas estavam piores do que eu imaginava. Ao constatar isso, liguei para Amanda Waller. Minha psicóloga. Eu precisava de ajuda e realmente queria uma perspectiva diferente.
— Oliver, a que devo a sua visita? – sorri ao apertar sua mão me apresentando a jovem psicóloga que era uma antiga amiga de faculdade. – Sofá?
— Eu gostaria de conversar.
— Ótimo, deite-se. – ela me indicou o sofá à frente de sua mesa, sentando-se do outro lado. – Me diga o que te traz aqui hoje.
Respirei fundo.
— Eu quero a minha namorada de volta. – a vi abrir um sorriso simpático de rabo de olho.
— O que separou vocês?
— Ela quer saber uma verdade que não posso contar.
— Apenas você, Oliver Queen, marcaria uma consulta bem cara para entender um problema do qual já tem a solução... – disse rindo levemente. – Oliver, você sabe perfeitamente o que deve fazer para trazê-la de volta, só precisa escolher se quer ou não fazer.
Eu me virei encarando-a sério. Essa foi a consulta mais rápida da minha vida.
— Obrigado Amanda – agora ela gargalhou.

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