Dangerous Love
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Hoje era o 92° dia em que eu acordei sem Oliver, mas também seria o primeiro dia que o veria desde a nossa despedida em seu apartamento. Hoje era a apresentação da nossa afilhada, Sara. A apresentação foi ideia da Mama Diggle que era uma mulher religiosa e pediu para que a neta fosse apresentada á igreja. Lyla nunca foi religiosa, mas também não chegava a ser agnóstica, então concordou com a ideia sabendo que iria ter mais fotos daquela bolinha de chocolate em roupas de festa.
Foram 92 buquês de rosas brancas e amarelas.
Foram 92 cartões pedindo desculpas.
Foram 92 dias longe de Oliver.
Obviamente, seria um dia atípico. Eu tentei me preparar para ele, mas não importava o que fazia com o cabelo ou a maquiagem que eu usava no rosto... Eu nunca iria estar completamente preparada.
A apresentação seria na igreja que Dig frequentou quando criança, e depois Moira iria oferecer um almoço na Mansão Queen. Eu descobri que ela e a Mama Diggle eram amigas de uma longa data e estavam preparando esse dia há muito tempo atrás.
Ouvi a buzina na frente de casa e me levantei alisando o vestido vermelho com desenhos de florais e deixei meu cabelo em um coque bem frouxo com cachos emoldurando meu rosto. A maquiagem foi bem básica, já que eu estava indo para igreja e não uma balada. Calcei saltos que combinava e peguei minha bolsa.
Desci praticamente correndo e encontrei Sara em seu pequeno fusca lilás me esperando.
— E aí? Animada? – perguntou Sara assim que eu passei o cinto de segurança por cima do peito e ela voltou a ligar a Sra. Paulette, sim, o fusca tinha um nome. O sorriso no rosto de Sara não escondia as suas segundas intenções com a pergunta que me fez.
Eu revirei os olhos e assenti.
— Sim, estaremos salvando a alma da minha afilhada hoje. – zombei e ela riu falsamente.
Sara sabia de tudo. Não tinha como eu esconder algo dela. Ela se tornou mais do que querida para mim. Se tornou uma verdadeira irmã. Mas ela conseguia se tornar mais do que irritante ás vezes com todas as suas provocações relacionadas á Oliver.
Nós fomos até a igreja que seria realizada a apresentação e antes mesmo de estacionar, Sara apontou rostos conhecidos. Dig, Lyla, Moira, Robert, Thea e Roy estavam do lado de fora conversando e cumprimentando quem quer que se aproximasse do grupo. Observei a igreja bem simples, mas que tinha um ar família bem convidativo e Sara estacionou ao lado de uma moto. Era uma Harley. Hm. Oliver havia chegado primeiro que eu. Procurei seu rosto no meio das pessoas e não o achei. Ele deveria estar lá dentro, talvez?
Saí do carro e caminhei com Sara até o grupo e eu vi que tinha mais um rosto conhecido ali. Dra. Helena Bertinelli, junto com a Dra. Rochev. Elas pareciam estar conversando com Robert animadamente, enquanto Moira se mantinha fora da conversa com uma expressão de tédio. Papo de médico realmente não é algo convidativo.
— Olá Moira, como vai? – perguntei me aproximando dela primeiro.
— Felicity! Que bom que chegou! – ela exclamou sorrindo e engolindo em um abraço. – Estou bem, e você?
— Estou bem na medida do possível, mas estou mais do que animada por Lyla e Diggle por hoje. – eu respondi e depois cumprimentei todos a minha volta. Thea e Roy estavam ligeiramente afastados, e ela estava fumando.
Ou seja, eles brigaram feio.
Iria precisar conversar com os dois depois.
— Lis, pode me fazer um favor? – perguntou Diggle equilibrando várias caixinhas brancas com lacinhos amarelos. Eram as lembrancinhas da apresentação de Sara. Eu assenti. – Pode buscar Sara na casa da minha mãe? Ela a levou para tirar uma soneca antes do culto, mas a pastora quer conhece-la.
Eu assenti e caminhei pela calçada até achar a casa vermelha com janelas brancas e um jardim impecável. Era pequena, mas tão linda. Abri o portãozinho de ferro batido e o fechei logo atrás de mim. A porta da frente estava aberta e assim que eu passei pela soleira, eu ouvi a risada da minha bolinha de chocolate favorita. E o motivo de sua risada.
Meu corpo se arrepiou e tremeu por inteiro. Silenciosamente caminhei pelo corredor forrado de carpete fofinho com várias fotos de família na parede, e vi Oliver sentado no sofá de costas para mim, brincando com Sara que estava dando os sorrisos banguelas mais lindos para seu padrinho. Fiquei completamente hipnotizada com a cena.
— Hoje você é o centro das atenções, princesa. Não podemos fazer feio, podemos? – perguntou com a voz brincalhona e assoprou a barriga de Sara fazendo ela gargalhar de novo. Sorri feito boba. A bolinha de chocolate tinha tantos homens enormes comendo na mãozinha dela e nem sabia. Sara decidiu então começar a puxar os cabelos de Oliver e ele reclamou. – Assim não, princesa. Isso dói... Sara, a Tia Felicity está apreciando a paisagem?
Pega no flagra como sempre.
— Continua sendo a mais linda que eu já vi...
Sara soltou um gritinho ao me ver e soltou os cabelos de Oliver e estendeu os bracinhos para mim. Me aproximei mais um pouco e minhas mãos ociosas não se conseguiriam se conter e tocaram os ombros de Oliver, que pareceu se derreter debaixo do toque das minhas mãos. Eu ainda causava algo ali. Sorri com isso. Dei a volta no sofá e sentei ao seu lado, Sara quis vir para o meu colo e eu a abracei levemente e arrumei o lacinho em sua cabeça.
— John pediu para eu vim busca-la... – eu disse e Sara começou a bater palminhas e rir sozinha, fazendo-nos rir junto com ela.
Eu sentia o olhar dele queimar em mim, e virei o rosto em sua direção. Meu coração perdeu uma batida assim que encarei olhos azuis que me fitavam com toda atenção do mundo. Ele abriu um sorriso, de menino, e foi impossível não retribuir.
— Como você está?
— Não sei, e você?
— Honestamente? Sinto que posso respirar finalmente. – ele respondeu e eu sorri tristonha. Seria o cúmulo do cúmulo se eu rompesse em lágrimas aqui e agora. Oliver deu seu celular para Sara que parecia ter descoberto a América, ela ficaria entretida por alguns minutos. – Senti tanto sua falta, Smoak.
— Eu também, Queen. – eu disse e Sara deu um gritinho quando conseguiu desbloquear o celular sozinha e a tela se iluminou mostrando uma foto nossa em Londres como papel de parede. – Precisamos leva-la. Onde está a Mama Diggle?
Me levantei do sofá e ele também. A Mama Diggle estava na soleira da porta com as mãos cruzadas, um sorriso gentil em seu rosto e um belo vestido verde. Ela estava nos observando?
— Como vai, querida? Faz tempo que não vem aqui! – ela disse me puxando para um abraço e eu ri. – Irei fazer aquela lasanha que você ama, e é bom você vir comer ela se não, eu lhe esquento a bunda.
Eu ri e corei.
— Já que você está pedindo com tanto carinho... – eu disse e ela sorriu.
— Não preciso esquentar a sua bunda também, não é menino? – perguntou ela se direcionando para Oliver que apenas sorriu e a abraçou com força, fazendo ela sorrir completamente encantada. – Ótimo. Vamos crianças!
Mama Diggle foi na frente e eu senti a mão de Oliver na base na minha coluna me direcionando e preciso dizer o que isso fez comigo? Ele me ajudou com os degraus já que eu estava com Sara no colo e nós andamos até a igreja no final da rua conversando amenidades.
Apenas Lyla e Diggle junto com uma senhora negra estavam do lado de fora agora. Eu dei Sara para sua mãe e cumprimentei o rosto desconhecido que se revelou ser Michele, a pastora que iria fazer a apresentação de Sara.
— Vamos? – perguntou Oliver e eu assenti.
Nós entramos na igreja, ele ainda estava tocando a base da minha coluna e eu vi o irmão de John, Andrew apontando para as duas cadeiras em cima do altar. Nós subimos e sentamos lá, tinha até uma plaquinha escrito “Smoak-Queen” que eu surrupiei para dentro da minha bolsa.
A pastora entrou com os Diggle e eles sentaram na primeira fileira, mas Sara veio para o colo de Oliver. Ela deitou em seu peito, cansadíssima. Acho que estar no holofote, também cansa. Notei que Caitlin e Tommy haviam chegado e estavam sentados ao lado de Thea e Roy na segunda fileira.
Cait sorriu para mim e eu retribuí. Fiz um gesto para o meu queixo perguntando com a voz muda sobre a maquiagem e ela apenas sorriu e levantou um polegar. Nós rimos e a pastora começou o culto.
A pastora Michele falou sobre as responsabilidades que os pais têm com a criança, assim como os padrinhos eram fundamentais na criação de elos, de como a educação religiosa também era um grande fator. Mama Diggle já estava em lágrimas quando a pastora pediu para que nós levantássemos e orou junto com a igreja inteiro enquanto segurava a mãozinha de Sara.
Eu sei que sou judia, e há controvérsias entre o judaísmo e o cristianismo, mas eu sempre sentia algo forte assim que pisava dentro de uma igreja. Eu não sabia o que era, mas era forte. Abaixei a cabeça e fechei os olhos em respeito e juntei minha mão com a de Oliver. Ela continuava grande, quente e com alguns calos. Ele apertou minha mão e eu sorri. Quando a oração terminou, a pastora conduziu a igreja cantando duas músicas e foi uma alegria só. Acho que só nestas duas horas, eu sorri mais e mais sinceramente do que nos últimos 92 dias.
O que infernos deu na minha cabeça para eu ficar longe dele por tanto tempo? Oh sim, ainda precisamos conversar. Ele vai querer conversar? Ele ainda vai querer algo comigo, que dirá conversar?
Quando o culto acabou, Oliver levou Sara até Lyla e depois me ajudou a descer os degraus do altar. Nós saímos juntos e caminhamos juntos em silêncio pelo jardim que tinha da fachada da igreja.
— Você vai ir para o almoço em casa? – perguntou e eu encolhi os ombros.
— Sim, ela vai, porque estamos nos sentindo famintas, não é mesmo? – perguntou Caitlin chegando e jogando os braços no ombro de Oliver com um olhar brincalhão para nós dois.
— Sim, estamos. – eu respondi depois revirar os olhos.
Tommy acenou para Oliver de longe e ele foi até o nosso amigo e Cailtin me cutucou nas costelas me fazendo rir. Ela me abraçou forte e nós rimos. Eu não precisava dizer nada para ela saber o quão melhor eu estava me sentindo agora. Lyla veio até nós com a pequena Sara e nos deu a lembrancinha, foi aí que a Dra. Helena se aproximou e pegou uma também.
— Foi tudo tão lindo, Lyla! Não se preocupe, porque a pequena Sara será muito bem cuidada pelos padrinhos... – ela disse brincando com Sara que não estava dando muita bola para a doutora.
— Eu tenho certeza disso, Helena. Já pegou a lembrancinha? – perguntou Lyla piscando para mim.
— Sim! – respondeu a doutora. Caitlin ficou ao meu lado quando Lyla se afastou para terminar a distribuição das lembrancinhas, e Helena se virou para mim. – Como vai Felicity?
— Bem e você? Conhece a minha amiga, Caitlin? – perguntei e já apresentei as duas.
— Oh sim, como vai Caitlin? Você é a esposa de Thomas, não é? Melhor amigo de Oliver? – perguntou ela sorrindo e Caitlin assentiu com um sorriso pequeno e elas trocaram um aperto de mãos. Acho que Helena deve ter conhecido Tommy enquanto eu estava no hospital já que Caitlin sempre estava comigo nas seções de terapia com a doutora.
— Sim, sim. Eu ouvi dizer que você está trabalhando na instituição com Thea agora, é verdade? – perguntou Caitlin com um sorriso falso e eu quis rir.
Eu havia contado sobre o meu desconforto com a doutora para Cait, e então Cait começou a odiá-la por tentar me forçar compartilhar coisas que eu não queria, o ódio foi espalhado até Tommy e Lyla, e isso me fez perguntar o porquê dela estar ali na apresentação de Sara. Lyla confiava cegamente no julgamento de Cait sobre as pessoas, e raramente Caitlin errava sobre as pessoas.
Helena estava todos sorrisos e simpatia para todos que passavam por nós. Ela estava usando um vestido tubinho branco com tiras de rendas preta aplicadas e saltos, estava elegante, mas o batom vermelho ridículo que se recusava a sair de sua boca destoava sua roupa. Nós três formamos uma rodinha.
Da onde eu estava conseguia ver Tommy, Robert e Oliver conversando mais a frente com Moira, Sara e Thea. Lyla ainda entregava as lembrancinhas e a pequena Sara estava com a Mama Diggle. Roy estava afastado falando no telefone. O grupo havia sido bem reduzido.
— Não pude deixar de atender o pedido de Oliver, sabe como ele é... Consegue tudo se sorrir um pouco. – disse Helena me encarando e eu apenas ergui uma sobrancelha.
Caitlin ficou sem palavras. E isso nunca aconteceu nos seis anos que eu a conheço. Na hora, eu olhei sob o ombro de Helena e encontrei o olhar de Oliver em mim. Olhei em seguida para minha amiga que estava ao meu lado e ela ainda estava boquiaberta.
— Oh... – foi tudo que saiu da boca de Caitlin.
— É, ele causa essa reação em praticamente todo mundo, mas não preciso de me preocupar com você, não é Sra. Merlyn? – perguntou Helena socando o ombro de Caitlin de brincadeira.
Helena engatou em uma gargalhada e Caitlin me olhou com a sobrancelha erguida e a boca ainda escancarada. Eu troquei o peso de uma perna para outra e segurei em minha bolsa firme. Onde é que ela estava querendo chegar com essa conversa?
— Você e Oliver são.... Um casal? – perguntou Caitlin apontando dela até ele que nos encarava agora fixamente. Sara tocou em seu ombro e sorriu, ele assentiu e ela veio até nós.
— Olá meninas! Tem um clubinho de mulheres agora? – cumprimentou com um sorriso e veio para o meu lado, colocando uma distância entre mim e Helena.
— Sim, estamos fofocando sobre os nossos parceiros... – disse Helena com a voz conspiratória.
— Hm, você está namorando Helena? Não sabia, nunca te vi com ninguém ao redor do hospital... – perguntou Sara enlaçando seu braço no meu em uma atitude mais do que protetora.
— Sim, falamos muito pouco no horário de trabalho, mas o motivo pelo qual eu me juntei a instituição de Thea foi porque ele me pediu. – respondeu Helena acenando para Thea ao longe que agora estava conversando com Roy em voz baixa. – Ele é super controlador, mas eu até gosto assim. Claro que eu o vejo pelo hospital, mas temos que manter a ética por lá, nem tudo é um episódio de Grey’s Anatomy.
Helena desatou em outra gargalhada e Sara apenas fingiu rir. Caitlin deu um passo em direção á Oliver, mas eu a segurei pelo braço e ela ficou onde estava. Eu estava sentindo algo crescer dentro de mim, e não era nada bom.
— Ele vivia me chamando para sair, aí um dia eu aceitei e fomos jantar. Ele me levou para sua casa depois e tocou piano para mim... – ela contou e estava ficando mais do que puta, tanto que Sara apertou minha mão. Eu respirei fundo. – Demos um tempo, porque ele conheceu uma mulher e teve um caso passageiro...
Ela voltou a me encarar e eu ergui uma sobrancelha para ela.
— Sei que devem estar se perguntando como eu o perdoei, mas amar é isso não é? Sem contar que Oliver sempre teve uma certa fama, mas sempre voltou para mim no final das contas. – ela disse e eu tenho certeza que tanto a minha boca quanto a de Sara e Caitlin estava no chão.
Não havia absolutamente nada para ser feito ou dito depois do que Helena falou, ela estava reivindicando a posse de um homem que até minutos atrás estava segurando a minha mão e me tocando sempre que podia!
— Lis... Lissy! – chamou Sara e eu me pisquei virando para ela. – Nós temos que ir, lembra-se? Estou faminta!
Eu assenti piscando e nos despedimos de Helena, bem elas se despediram, eu apenas acenei com a cabeça e fui levada por Sara até o grupinho onde Oliver estava. Não me aproximei muito deles. Fiquei na beira e quando olhei para trás, Helena estava conversando com Thea.
— Sara, eu não sei se...
— Shh. Eu também não entendi nada, mas nós precisamos saber se o que ela falou é verdade. Felicity, eu nunca vi Oliver conversando com Helena naquele hospital que não fosse sobre pacientes. Nunca. E olha que eu sou a sombra dele por lá! – Sara disse apertando minha mão e eu olhei para ele que estava confuso/curioso/irritado com algo.
Eu apenas o ignorei e quando estava tudo pronto, cada um entrou em seu carro e foi em direção á Mansão Queen. Mama Diggle quis vir conosco no fusca, dizendo não confiar nesses modelos muito modernos de carros, cheios de frescuras e tal.
— Quem era aquela morena que estava conversando com você, Felicity? Eu não a conheço. – perguntou Mama no banco de trás para mim.
— Ela é uma médica do Starling General. – eu respondi. – Ela e eu nos conhecemos quando eu sofri o acidente de carro.
— Oh sim! John me contou, você recebeu minhas flores? – perguntou e eu sorri um pouco.
— Apenas a senhora me mandaria tulipas, Mama. – eu disse e ela tocou meu ombro com carinho.
Esse tipo de carinho me fez morrer de saudades de mamãe. Ela ainda não tinha retornado de Nanda Parbat. Suspirei. Sara foi a primeira a passar pelos portões da Mansão Queen, mas foi ultrapassada pela moto de Oliver que cortou o vento rugindo e suspirei mais uma vez. Nós estacionamos perto das portas duplas da frente da casa, e ajudamos Mama a sair do carro, para entrarmos seguindo Robert e Moira.
— Posso ajudar em algo? – perguntei á Moira que estava coordenando cada um para alguma coisa.
— Oh sim! Lyla deixou o andador de Sara na sala de jogos no Natal, pode pegar para mim? – perguntou e eu assenti.
Eu já estava familiarizada com o primeiro andar da Mansão. A sala de jogos foi onde eu tive minha primeira briga com Oliver, quase impossível de se esquecer deste fato e de como chegar até lá. Caminhei e tentei me acalmar ao mesmo tempo. Se antes eu estava com medo de que quando visse Oliver me jogaria nos braços dele, agora eu estava com medo de vê-lo e pular em sua garganta com as minhas unhas para mata-lo.
Marchei até a sala de jogos e quando entrei lá, procurei o andador de Sara. Aquele treco era rosa pink e fazia barulho, não era tão difícil de se achar. O vento bateu a porta e eu continuei procurando.
— Felicity.
Me endireitei na hora em que ouvi sua voz. Eu estava tão distraída bolando formas para mata-lo que nem havia notado sua presença no cômodo. Me virei e encontrei Oliver encostado na porta. Ótimo, estava presa aqui com ele agora. Cruzei os braços e o encarei. O que vi em seus olhos me desarmou quase que completamente, o mais puro desespero estava espelhado em vários tons de azul.
— O que aconteceu na igreja?
— “O que aconteceu?” O que é que você estava pensando quando ficou me tocando a porra do dia inteiro? – eu rebati sem me importar em elevar a voz.
A Mansão Queen sempre seria o palco de nossas brigas aparentemente.
— O que te disseram? – perguntou ele sem se importar com os meus gritos.
— A verdade, e parece que eu a escuto de todos, menos de você. – eu disse e ele ergueu uma sobrancelha. – Eu nem sei porque vim para cá... Eu vou embora e você pode voltar para sua namorada.
— A minha namorada está bem na minha frente gritando como uma louca comigo, mas eu nem estou conseguindo entender que merda eu fiz para merecer esses gritos. – ele respondeu se exaltando também.
— Não me provoque, Queen.
— Longe de mim fazer isso com você, Smoak. O que Helena te disse, e por que você esta tão puta comigo? – perguntou cruzando os braços e eu fiz o mesmo.
Ficamos em silêncio, começamos a brigar com os olhos. Batidas violentas e insistentes começaram a soar do corredor, mas Oliver não quebrou o contato de nossos olhos para atender quem quer que fosse.
— Abra a porta e me deixa salvar seu relacionamento, Queen! — mandou Sara do outro lado e Oliver não se moveu. – Que Deus te ajude se eu precisar pegar uma chave extra!
— Cai fora, Lance. – ele rosnou.
Ela continuou batendo persistentemente até que ele cansou e abriu a porta. Sara entrou e olhou para nós com uma expressão séria e preocupada.
— Eu estou conseguindo ouvir os berros da piscina! E você, como pode acreditar no que aquela cobra disse? É claro que tudo aquilo era mentira.... – disse Sara brigando e apontando de Oliver para mim.
— O que infernos está acontecendo aqui? Do que vocês estão falando? – perguntou Oliver usando sua voz autoritária e ela me fez tremer, mesmo que fosse de má vontade.
— Helena disse que você se apaixonou por ela. Que você pediu para ela trabalhar na instituição de Thea. Que você teve um caso... – Sara olhou para mim. – Mas que já estavam juntos de novo.
— O que? Você realmente acreditou? – perguntou Oliver olhando chocado para mim.
— Onde ela está? – perguntei para Sara.
— Ela não veio, e muito menos deveria ter ido na apresentação de Sara já que nem Lyla e nem Diggle a convidaram. Do hospital o convite foi apenas para mim e para Isabel que cuidou de Lyla enquanto ela estava internada. – respondeu ela olhando para mim e para ele. – Felicity, preste atenção... Eu conheço esse babaca aqui desde berço, e ele nunca me chamou para ir no apartamento dele já que ele nunca sai daquele hospital.
Oliver revirou os olhos e Sara estirou a língua para ele.
— E Thea me disse que ela se voluntariou para trabalhar na instituição e não foi indicada por ninguém... Nem por Oliver e nem por Robert. – ela continuou e eu senti a raiva se esvair um pouco.
— Ela disse que estávamos namorando? – perguntou ele e eu caminhei até a janelona e observei o jardim.
— De acordo com Caitlin, ela deduziu e Helena confirmou. Caitlin é outra que também achou a história muito estranha e cheia de furos... – disse Sara atrás de mim. – Mas eu sei que você está namorando pela primeira vez na vida e este namoro em questão não terminou, certo?
— Não. Obrigado. Pode nos dar um minuto? – perguntou Oliver em voz baixa e depois eu ouvi os saltos de Sara ecoaram pelo chão e a porta voltou a se fechar.
Okay. Helena é uma mentirosa que tentou destruir todo o bom senso que eu tinha bem ao lado da casa de Deus. Ela tinha coragem, eu dou isso para ela. Só que eu também tinha e agora mesmo queria afundar minhas unhas em seu rosto de boneca e arrancar aquele batom ridículo da cara dela aos tapas.
— Você não ouviu a forma como ela falou... Parecia que ela tinha vivido. – eu disse depois de longos minutos em silêncio. – O que está acontecendo com Helena?
— Eu não sei, mas estou preocupado. Ela anda muito estranha. – ele respondeu distante.
Estava distante, porque eu o afastei. Eu estava mais do que calma agora, então voltei a me virar para encará-lo. Eu queria conversar com ele, colocar as cartas na mesa e quem sabe recomeçar o que tivemos. Não havia mais desespero em seus olhos, assim como não havia mais raiva nos meus.
— Eu preciso de você, Felicity.
— Me conte a verdade e eu vou correr até você. – eu fui sincera. – E obrigada pelas rosas.
— Elas não foram para o lixo? – perguntou sorrindo e eu neguei com a cabeça. – Posso ter esperança ainda?
— Nós temos que levar aquele treco para Sara, ou se não sua mãe terá alguns vasos quebrados... – eu disse achando o andador embaixo da mesa de sinuca.
Ele pegou o treco rosa e abriu a porta para mim.
— Pelo menos você não disse “Não”. – ele sorriu minimamente e eu sorri um pouco.
— Quando é que eu digo “Não” para você?
Seu sorriso se alargou e nós fomos até onde todos estavam conversando.

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