Danger Line
2 Pesadelo.
Notas iniciais
O Sr. Brown soltou minha mão e se juntou a Josette que estava toda sorridente encarando o Shane rechonchudo no meu colo e em seguida ela olhou para nós como se tivesse se lembrado de algo.
— Oh, já havia me esquecido... — ela sorriu simpática — Sigam-me, vou levar vocês aos seus aposentos. Posso segura-lo?
— Claro! — Eu o entreguei e então eu e Richard a seguimos que estava carregando Shane toda feliz... Ela deixou os meninos em um quarto e me levou a outro um pouco mais distante.
— Este é seu quarto Lana. — Ela sorriu pra mim simpática.
— Obrigado Josette... Posso te fazer uma pergunta? Talvez soe um pouco rude, mas não é a minha intenção ofende-la, é apenas curiosidade mesmo...
— Claro. — Disse ela com sotaque carregado.
— Não entendi o vestido... Ele é lindo, mas é meio... Século passado... Não acha? — Ela me olhou como se não entendesse o que disse...
— É o que todas as mulheres usam chéri... Você que não está adequada... Por assim dizer — ela me olhava de um jeito engraçado.
— Como assim? — Perguntei meio confusa, sei que não me visto de forma feminina, mas não é pra tanto...
— Amanhã te levo para dar uma volta na cidade para você apreciar a moda parisiense, tudo bem? — ela sorria gentil.
— Tudo... — eu estava muito confusa.
— Mas vou te emprestar um vestido meu... Mulheres não usam calças... É feio! — Falando isso ela se retirou com um lindo sorriso.
E eu fiquei completamente confusa, bem mais do que já estava, mas mesmo assim entrei no quarto e me deparei com uma cama enorme e nem pensei duas vezes, deitei de jeans surrado, all star e blusa de frio do Misfits e dormi.
"Eu estava parada olhando para o horizonte quando ouço passos se aproximando... Olho para o lado e vejo o Sr. Brown estendendo a mão para mim e quando estou prestes a segura-la vejo uma multidão se aproximando com tochas acesas e armados vindo em minha direção, olho para ele, mas não está mais lá.
Perdi minha chance.
Comecei a correr as vezes olhando para traz vendo soldados a cavalo me perseguindo prestes a me matar, quando eu novamente olho pra frente vejo um penhasco a minha frente, um enorme abismo negro pronto para me receber, me chamando convidativamente.
Sem olhar para traz eu me lanço pelo penhasco, sei que não há volta, vou caindo sendo engolida pela escuridão a minha volta. Enfim quando não sinto mais o aperto no peito, eu sei... Estou morta."*
Acordo assustada no meio da noite, sentido um embrulho no estomago e suando frio. Caminhei até a penteadeira do quarto e observei meu reflexo. Meus cabelos ondulados estavam uma derrota, eu estava mais branca que o lençol da cama, meus olhos estavam opacos e avermelhados e estava com a cara amassada e olheiras que sempre foram presentes estavam mais escuras que o normal. Resumindo eu estava parecendo um cadáver ambulante.
Bom, perdi o sono, então vou andar pelo castelo e observar os móveis e a decoração, é o que me resta. Saí do quarto e andei pelo corredor mal iluminado, olhei no meu relógio e eram três e meia da manhã. Segui pelo corredor e desci as escadas, parando no hall de entrada do castelo, ali tinha muitos quadros e obras de arte... Olhando pela janela vi que estava chovendo forte, mas não tão forte quanto a chuva que fez o carro atolar.
Lá fora as árvores estavam incrivelmente assustadoras e estavam envergando com a força do vento. Continuei andando pelos corredores do castelo e vi uma porta meio entreaberta com uma luz forte saindo de lá....
Fiquei curiosa e me aproximei, com calma e espiei o que havia dentro dela.
Meu coração congelou.
Não pude evitar um enjoo forte que quase me fez vomitar.
Nós tínhamos que sair daquela casa o mais rápido possível.
Tenho que avisar meu pai.
Me virei para sair dali o mais depressa e evitando fazer barulho. Mas não adiantou muito, ouvi a porta abrindo com um rangido e tentei correr, mas sem sucesso, senti uma pancada forte na nuca e cai. Coloquei a mão na nuca e senti o sangue sujando minhas mãos.
Me desesperei.
Ia gritar, mas uma mão me impediu.
Tentei escapar, mas a não pude ele era mais forte que eu.
Senti algo fino e gelado afundando em meu braço e desmaiei.
De manhã acordei com muita dor de cabeça mais não sabia o motivo. Tive uma noite calma e agradável. Deve ter sido a chuva que me assustou, lembro de ter olhado na janela e visto que estava chovendo e as árvores uivavam e envergavam com o vento. Tirando a crise de pânico que tive no carro.
Ouvi uma batida na porta.
— Lana é Josette posso entrar? — ouvi aquela voz de sotaque carregado me chamar.
— Pode sim Josette. — Respondi.
Ela entrou com um vestido na mão no mesmo estilo do que ela estava usando ontem.
— Disse que te levaria a cidade ami, para ver os vestidos e a moda parisiense.
— Oh, é verdade... — sorri pra ela ao recordar da promessa feita.
Ela me entregou o vestido possibilitando ver o dela. Ela estava linda como ontem. E me ajudou a me vestir com o espartilho e anáguas.
— Sabe eu sempre achei que espartilhos machucavam, mas na verdade é bem confortável né? — eu comentei com ela.
— Sim, ele é feito com uma parte especifica de baleias, que são flexíveis e se moldam ao corpo dando sustentação e melhorando a postura.
— Não fazia ideia. — Eu sorri para ela pelo espelho enquanto ela arrumava o meu cabelo. — Obrigada por compartilhar seus conhecimentos comigo!
Ela me encarou e fez uma cara satisfeita ao ver que o penteado que ela escolhei havia moldado meu rosto perfeitamente. Saímos do quarto e fomos para o jardim da casa onde encontramos meu pai e o Sr. Brown. Um arrepio correu pela minha espinha e nem sei o motivo, não está frio.
— Paul vou levar Lana para ver os vestidos na cidade, já falei com o Sr. e a Sra. Flanders.
— Oui ma soeur, mas tome cuidado. — Ele recomendou para a irmã com ternura. Era nítido o amor que ele tinha por ela.
— Oui oui, eu terei. — Ela respondeu com o mesmo tom de afeto.
— Mademoiselle. — Ele fez um gesto com a cabeça e eu respondi com uma mesura, não sei por que fiz isso, mas fiz. É instintivo, ele tem um porte real e eu simplesmente respondo dessa forma. Foi estranho. Mas ele sorriu e eu esqueci o motivo de achar tão estranho, o sorriso dele simplesmente deixou minha mente em branco. Ser bonito assim deveria ser considerado um crime.
Josette me pegou pela mão e me conduziu a uma carruagem, e partimos para cidade. Lá conversamos rimos e fizemos compras... Algo dentro de mim estava dizendo que isso era completamente errado, perigoso e estranho, mas ignorei isso... É paranoia da minha cabeça, eu estou cismada desde de a chuva que pegamos ontem, medo faz as pessoas ficarem paranoicas. Ao entardecer voltamos para casa e nos deparamos com Shane e Richard no jardim brincando.
Josette me largou automaticamente — o que não a culpo meu irmão é lindo e completamente adorável — e foi brincar com Shane e consequentemente com Richard que não era nada bobo. Esse é meu irmão! Alguém aqui tem que tirar proveito dessa viagem. Tanto Richard quanto Shane usavam roupas parecidas com do Sr. Brown... Achei muito bizarro vê-los assim. Mas logo perdi a linha de raciocino pois o Sr. Brown estava se aproximando e ele é o tipo de homem que quando entra em um ambiente ele se torna o centro de tudo. Ele tem uma energia naturalmente dominante e todos querem estar ao redor dele e saber sobre ele.
— Mademoiselle Lana... Tudo bem? — Ele me perguntou, me tirando da minha linha de raciocínio.
— Sim Sr. Brown... Por quê? — Fiquei com vergonha pela forma intensa que ele me observava.
— S'il vous plaît, me chame de Paul. A senhorita estava com uma cara estranha... Está se sentindo bem? — ele escaneava meu rosto de forma que parecia que ele me via por dentro.
— Estou sim... Só estava com o pensamento distante — A intensidade do seu olhar sobre mim estava me deixando um pouco acuada e sem saber o que fazer eu sentia minhas bochechas quentes. — meu deus eu quero fugir, eu nunca conversei com um homem assim, eu não sei como me comportar perto dele.
— Mademoiselle me acompanha em um passeio pelo jardim? — ele parecia se divertir com a situação.
— Oui, monsieur... Será uma honra. — Respondi retribuindo o sorriso, enquanto tentava manter a compostura. — Alguém me salve.
Seus lábios formaram um sorriso de lado e completamente predatório que me deixou de pernas bambas, daqueles que te deixam cego de tão brilhantes, o que está acontecendo comigo? Desde quando eu sou emocionada desse jeito? Onde que já se viu um homem sorrir e eu quase derreter? Seus olhos cinza me fitavam com firmeza e ele estendeu o braço para que eu pudesse me apoiar nele, o que eu fiz automaticamente e sem questionamento e sem nem perceber, foi de forma natural. Acho que fiquei vermelha quando passamos por Richard que por sua vez me lançou um olhar de "está rápida hein maninha?". Eu sutilmente mostrei a língua para ele e ele riu da minha atitude infantil e voltou a atenção dele para a Josette, mas nesse momento eu nem consigo raciocinar direito para ficar brava com ele.
Deixei Paul me conduzir enquanto nós nos afastamos.
Aonde será que ele me levaria?
Acompanhei Paul por um longo caminho que levava aos fundos da casa, nem poderia onde imaginar aonde ele estava me conduzindo, mas era um belo caminho era uma estradinha de ladrilhos ladeada de cercas vivas com rosas vermelhas por toda a sua extensão, caminhamos mais um pouco e pude ver aonde ele pretendia me lavar... Havia uma estufa de flores localizada próximo a uma floresta que ficava atrás da casa.
— Ma chérie já visitou uma estufa? — ele me perguntou num tom galanteador.
— Não, mas sempre tive vontade. — Respondi sincera, eu gosto de flores e seus significados.
— Acho que a senhorita vai gostar de ver o que a lá. — ele tinha um olhar calmo.
— Por que o Sr. pensa que eu irei gostar? — perguntei encarando a face serena do homem ao meu lado.
— Eu sei. Simples assim. — ele piscou pra mim e meu coração acelerou de formas absurdas, e eu senti minhas bochechas corarem.
Eu desisto.
Nunca pensei que isso aconteceria na minha vida. Um cara bonito como o Sr. Brown piscando pra mim, tudo bem que foi só uma brincadeira, mas ainda sim me parecia estranho. Eu uma adolescente de 18 anos prestes a entrar pra vida adulta, que se sente deslocada e completamente desengonçada com essa puberdade tardia e maluca. É uma situação desconcertante.
Nós entramos na estufa, era um lugar lindo, eu realmente adorei aquele lugar. Paul soltou o meu braço e me deixou andar pela estufa para admirar as flores que ali estavam... Fiquei meio perdida no meio de tantas variedades... E indo para o fundo da estufa reparei que havia uma área reservada na estufa onde um tecido que eu não sei o nome separava do resto das flores, fiquei curiosa em relação a isso e fui ver o que era. Caminhei na direção do tecido e o puxei para o lado me deparando com um canteiro de rosas que eu ainda nunca tinha visto.
Eram rosas negras.
Fiquei surpresa ao vê-las, não sabia que isso era possível, fiquei encantada e ao mesmo tempo assustada existem várias histórias sombrias que envolvem rosas negras e eu achava que elas nem existiam, não achava que era possível elas existirem. Senti uma mão extremamente gelada no meu braço e virei assustada.
— Pardon chérie não quis assusta-la. — Paul observava meu rosto perplexo.
— Não foi nada — Disse meio sobressaltada ainda do susto.
Paul sorriu de uma forma sedutora. Ou ele está querendo algo comigo ou ele é sexy vinte e quatro horas por dia, não pode ser uma coisa dessas, parece até um livro adolescente e muito do clichê, provavelmente é a segunda opção porque até agora não vi esse ar sedutor parar em momento algum... Isso é natural dos franceses?
— Gostou das minhas rosas? — ele desviou olhar do meu para encarar as rosas negras com ar de orgulho.
— Sim elas são incríveis, mas elas não têm um significado ruim? — perguntei genuinamente curiosa e acho que ele percebeu.
— Mitos. Histórias que as pessoas inventam. Elas nem sabem se existem ao certo, mas criam histórias absurdas, por associarem a cor negra a coisas malignas, e o ser humano que teme tudo aquilo que desconhece.
— Mas pra você tem algum significado? — perguntei curiosa.
— Sim, mas outro dia eu te conto. Vamos? — ele voltou os olhos para os meus.
Ele pegou na minha mão me levando dali, e mais uma vez seu toque era tão frio como um lago gelado no inverno. Mas não ia comentar nada, prestei atenção ao seu toque que pro mais que fosse frio, me fazia sentir um leve formigamento na mão, era aconchegante de certa forma, a mão dele é muito grande perto da minha, e ao mesmo tempo em que é uma mão máscula é bem cuidada.
Ele foi me conduzindo até a porta do castelo e ao chegar parou a minha frente e fitou meus olhos por um tempo, eu sentia que os olhos dele iriam me fazer ser consumida por chamas.
Corei. Eu não aguento mais corar.
Desviei o olhar, mas ele puxou me rosto para voltar ao contato visual, sua mão gelada em meu rosto me deu arrepios. Ele se inclinou para frente e eu pude sentir a respiração dele no meu rosto, ele estava contornando minhas maçãs com o nariz e eu pude sentir seus longos cílios nas minhas bochechas e por fim ele depositou um demorado beijo ali. Meu coração ficou totalmente descompassado, tenho certeza que ele podia ouvi-lo, depois ele deu uma leve mordida na minha bochecha e voltou a me olhar nos olhos sorriu e saiu andando...
E eu como uma boba retardada levei a mão a minha bochecha automaticamente sentindo aquela leve dor da mordida dele completamente atônita com o ato deliberado de sedução desse moço. Entrei na casa e fui em direção do meu quarto, mas no corredor encontrei Richard.
— Maninha... — Ele me encarava como se tivesse uma carta na manga o que me preocupou um pouco!
— Diga... — Tentei parecer indiferente.
— Duas palavras para você... — Ele abriu um largo sorriso.
— O quê? — Eu já estava morrendo por dentro pois sabia o que ele falaria em seguida!
— Eu vi. — Ele passou por mim dando altas gargalhadas.
Ai meu deus esse garoto um dia vai me matar de raiva... Deixa ele na minha mão que eu estou só reparando ele de olho na irmã gracinha e fofa. Entrei no quarto e fui me deitar um pouco, nem tive coragem de retirar aquele vestido gigante e pesado do meu corpo, eu estava realmente cansada e tem muita coisa pra desamarrar do meu corpo. Eu só fiquei pensando no que aquele homem tinha acabado de fazer comigo.
Enquanto estava deitada acabei repassando os momentos da tarde desde que encontrei o Paul e ele me chamou pra passear, seu toque suave e seu sorriso, a forma intensa que me olhava nos olhos, o carinho e orgulho que ele falava as flores dele, e todo aquele mistério que envolvia aquele homem, e por fim me peguei revivendo a sensação do beijo seguido da mordida que ele depositou na minha bochecha... Esse homem está brincando comigo. Só pode ser isso... E eu não sei lidar com isso.
Com esses pensamentos eu fui me deixando levar pelo sono e então em pouco tempo eu acabei adormecendo.
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"Eu estava parada olhando para o horizonte quando ouço passos se aproximando... Olho para o lado e vejo o Sr. Brown estendendo a mão para mim e quando estou prestes a segura-la vejo uma multidão se aproximando com tochas acesas e armados vindo em minha direção, olho para direção dele, mas não está mais lá.
Perdi minha chance.
Comecei a correr as vezes olhando para traz vendo soldados à cavalo me seguindo prestes a me matar, quando eu novamente olho pra frente vejo um penhasco a minha frente, um enorme abismo negro pronto para me receber, me chamando convidativamente.
Sem olhar para traz eu me lanço pelo penhasco, sei que não há volta, vou caindo sendo engolida pela escuridão a minha volta... Quando olho para o lado vejo Paul observando a minha queda e sorrindo maravilhosamente, tento pedir ajuda, mas ele só me observa. Então quando não consigo mais enxergar nada devido a escuridão, eu me dou conta que estou morta."
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