Dando Voltas no Ponteiro
14 Capítulo XIV – O NOVO SOLDADO
Notas iniciais
Estávamos todos sentados na sala de estar de Cory Adamanto, explicando quem somos, o que planejamos, o por quê de estarmos fazendo isso e enfim... Introdução típica de Elemento. E como toda boa introdução, vieram as perguntas esquisitas, as dúvidas e é claro: os xingamentos.
– Então você é o Tempo, ela é a Água e ele é o quê? – ele apontou para Luke que estava brincando com a planta que tinha do lado do sofá. Não o culpo por querer pegar em objetos depois de passar dois ou três dias na minha mente.
– Ele? É humano. – dei de ombros – Eu não quero te forçar a acreditar no meu Elemento, da última vez que fiz isso soltaram minha mão no procedimento e o infeliz se perdeu no infinito. – Cory arqueou a sobrancelha direita e deu um sorriso – Que sim, é o humano que está brincando com sua planta.
– Garoto, seguinte: a gente não tem muito tempo. – Kat apoiou os braços no joelho e começou a falar daquele jeito... Kat – Você tem que se decidir logo. Lembrando que precisamos mesmo de você lutando ao nosso lado.
– Precisamos mesmo. – terminei o discurso de Kat dando um sorriso amarelo.
Cory olhou para cima e relaxou na cadeira, massageando a pálpebra dos olhos. Depois ficou batendo o indicador nos lábios, que eu não conseguia parar de olhar e Luke, bem, ele notou. Me deu uma cotovelada e me olhou com uma cara tipo “Sério?!”. Pus a mão no rosto e arrastei, exausta. Levantei do sofá e disse:
– Agora é sério, precisamos de uma resposta. Tivemos um dia e tanto hoje e estamos muito cansados. – ele me olhou por baixo e deu um meio sorriso – Muito mesmo.
– Ok. Estou dentro. Mas só porque achei a de cabelo colorido muito bonita. – Kat cerrou os olhou e enrubesceu.
– Certo. Te pegamos aqui amanhã de manhã. Sete horas. – declarei e acenei para Kat e Luke se levantarem – Durma bem, porque você não saber mais qual é a sensação.
Quando eu estava saindo, Cory pôs o braço à cima do meu ombro, me prendendo na parede, como uma ameaça. Luke se mexeu, desconfortável com a cena e Cory sussurrou no meu ouvido:
– Eu nunca soube. – então me deixou ir. Fechou a porta e nós três, fomos para o motel.
Essa é a melhor parte: como iríamos dormir. Só tinha uma cama de casal e um sofá. A ideia era eu e Kat dormirmos na cama e Luke no sofá. Mas Kat interveio dizendo que Luke precisa dormir num lugar confortável pra dormir, mas só de pensar na possibilidade dela dormindo na mesma cama que ele eu fiquei meio... Louca. Logo Kat, com aqueles seios fartos e coxas grossas? Logo Kat, com aquela boca carnuda e olhos lindos? Ah não. Então eu disse:
– Eu e Luke na cama e você no sofá então! – não soou como eu queria, ou seja, nada humilde e seguro de si.
– Tá com ciúme... De mim? – Luke apontou pra si mesmo com o polegar e começou a rir. Mas ao ver meus olhos cintilando pro preto ele parou na hora.
– Por mim, tudo bem. – Kat pegou um travesseiro e um cobertor no armário e jogou no sofá – Só que eu não sou nenhum pouco discreta.
– O que você quer diz... – fui interrompida pela cena de Kat despindo-se até ficar de calcinha e sutiã na nossa frente.
Entrou debaixo das cobertas e tirou o sutiã, jogando-o nos pés de Luke, que estava boquiaberto.
– Boa noite. – então ela desligou a luz, virou-se para o lado e dormiu.
Luke deu de ombros e tirou a blusa e a calça jeans, me perguntando se eu tinha trazido um moletom pra ele e eu neguei.
– Você viaja com o namorado no seu subconsciente e não trás nenhuma das minhas roupas?
– Só pra você saber, você sequer existia. – dei um sorriso cínico. Tirei minhas roupas e fui para o banho. Saí ainda enrolada na toalha e peguei minhas roupas e voltei para o banheiro. Mas é claro que Luke não iria deixar aquilo passar por passar.
– Já li seus pensamentos. Você já é nua pra mim. Não tem pra quê voltar pro banheiro. – consegui ver aquele sorrisinho malicioso na minha cabeça, mas o ignorei e pus minhas roupas no banheiro.
Deslizei pra debaixo do edredom junto com Luke e ele me abraçou por trás. Pude sentir seu coração bater mais rápido e sua respiração quente descontrolada. Ri do seu nervosismo virei para olhá-lo. Ele me encarava franzindo a testa, surpreso. Toquei no seu queixo devagar e sorri.
– Eu não sou assim.
– Assim como? – ele piscou e se aproximou.
– Fraca. Boba. – rolei os olhos – Ciumenta.
– Esse deve ser o meu superpoder. – então ele finalmente me beijou. Um beijo quente, saudoso e confortável.
– Eu te odeio muito. – tive que me concentrar muito para dizer isso já que ele beijava meu pescoço e do pescoço, ia pro lóbulo da orelha.
– Eu sei que sim. – e adormecemos mais ou menos assim: em meio à beijos e carinhos.
O problema foi a hora de acordar: Ninguém colocou o despertador pra tocar e já era meio dia. Mas não foi um problema, já que eu sou o Tempo não é? Foi o que eles me disseram. Assim eu o fiz: consertei o erro e acordamos de novo às sete horas. Mas, devido ao susto do despertador que tinha o toque de uma galinha sendo depenada, Kat levantou de uma vez com os seios à mostra. E claro, eu tampei os olhos do Luke. Tão forte que ele caiu na cama de novo. Kat estava tão envergonhada quanto eu. Pegou o sutiã rapidamente e pôs umas roupas. Só depois d’eu ter certeza de que até o ultimo fio de cabelo dela estava “no lugar”, tirei a mão do rosto dele.
– Anda Luke! Põe suas roupas! – ordenei, enquanto procurava umas pra usar também.
– Eu já teria as colocado, se você não tivesse usando uma força de ser humano saudável no rosto de alguém doente! – um Luke sarcástico me olhou com deboche.
– Verdade. Dá próxima vez eu imobilizo esses seus ossos fraquinhos! – estava terminando de colocar a bota quando Kat gritou para a gente parar.
– Temos que arrumar um exército e vocês estão discutindo sobre quem é mais forte? Esse garoto te deixa mesmo boba. – enrubesci quando percebi que ela escutou a conversa de ontem.
Terminamos de arrumar tudo e colocamos nossas malas no carro. Dei início e fomos ao encontro de Cory, que é claro, não estava acordado. Kat subiu uma árvore ali perto e escalou ao encontro da janela do quarto do moço. Eu não sei quanto tempo levou até eu ouvir os gritos de Cory. Água gelada? Um chute no saco? Um berro? Eu nunca vou saber. Mas aquilo ajudou no desenvolvimento da operação.
A parte mais difícil foi dizer adeus para a mãe adotiva de Cory. Ele estava assustado, mas acreditou no que dissemos, desde o princípio. Na verdade, era como se ele já soubesse. Talvez Carter tivesse adiantado para nós. No caminho para o aeroporto, Cory falou pouca coisa. Só o que o perguntávamos e eram respostas bem rápidas e sem chances de prolongar uma conversa. Percebi a tortura que estive fazendo e parei. Luke estava do meu lado e Kat e Cory estavam atrás. Fiquei imaginando como seria fossemos apenas quatro adolescentes normais, sem superpoderes ou missões... Ou doenças incuráveis no caso de Luke. Como tudo seria maravilhoso.
Enquanto estávamos no aeroporto, comprando passagens, pedindo a permissão do governo e toda aquela coisa de viagem internacional, estive tentando fazer Cory entender o quanto aquilo era importante e que se tinha alguma coisa na qual ele estava incomodado ele devia me dizer.
– Você devia começar a usar delineador nos olhos. – arqueei as sobrancelhas, tentando me lembrar se a pergunta que eu tinha feito correspondia com a resposta – Isso tá me incomodando. Eu estou ciente de todas as minhas responsabilidades.
– Certo. – olhei para todos os cantos possíveis, simplesmente porque eu estava morrendo de vergonha do olhar de cachorrinho sem dono dele. Eu sabia que ele estava mal, só não entendia porque ele não queria me contar o que acontecia com ele – Olhe, é realmente importante que você me diga o que está te deixando triste para que eu possa limpar sua mente de todas as dores possíveis e...
– Não! – ele protestou imediatamente, colocando as mãos entre nós dois, uma barreira – Tirar minhas dores seria como me perder. Até as memórias ruins fazem de nós quem somos hoje. Me diga, você tiraria suas piores memórias?
Aquilo foi, definitivamente, um tapa na minha cara. Pensei nos meus pais, nas despedidas dolorosas que já fiz e principalmente, em Luke. Luke deve ser uma das lembranças mais dolorosas que eu tenho, pois sempre penso na possibilidade doentia de deixá-lo com o peso de um mundo inteiro nas costas. Na possibilidade de nunca achar a cura. Se eu perdesse essas memórias, eu me perderia também. Cory foi sábio ao me lembrar disso.
– Não. Eu não faria isso. – dei um sorriso e me levantei. Quando eu estava saindo, Cory me chamou novamente.
– Por que você não tenta me dizer o que está te deixando tão mal? – ele deu um sorriso fechado, como um desafio e eu, é claro, retribuí com um semelhante.
– Minhas memórias, minhas regras.
No avião, pude ver o quanto Kat e Cory estavam passando mal. Aliás, passando péssimos. Ambos são pertencentes do chão. Kat estava especialmente assustada. Agarrou-se aos braços da poltrona e estava pálida como folha de papel, com os olhos azuis arregalados até dizerem “chega”. Cory, no entanto, conseguia disfarçar sua ansiedade. Ficava lendo a mesma página do manual de instruções milhões de vezes, como se estivesse se certificando de que amarrou o cinto certo. Olhei para o meu lado esquerdo e vi Luke dormindo como uma criança cansada de tanto brincar no parquinho. Foi complicado conseguirmos um passaporte para ele de ultima hora, já que até um dia atrás ele sequer existia. Muita manipulação fora necessária para que isso pudesse acontecer.
O que me leva ao pensamento de que talvez os familiares e amigos de Luke não se lembrem mais dele. Isso deixaria ele frustrado e bem, eu também. A família dele é a coisa mais importante na vida dele e eu não quero que ele se sinta “abandonado”. Se eu tiver de manipular algumas memórias, eu manipulo.
– O que foi Fay? – pude ver Luke espiando-me com um de seus olhos e sorrindo, ainda sonolento – Por que está me olhando tanto?
– Nada. – sorri – Eu não sei se eu posso te amar. Só isso.
Ele arregalou os olhos e imediatamente ficou desperto. E eu, imediatamente fiquei arrependida de ter dito aquilo. Espero que eu não tenha ficado tão vermelha quanto acho que fiquei.
– Você acha? – ele engasgou e depois riu – Você deve. Não acredito que tive que ficar preso na sua consciência pra você me dizer isso.
– Eu não disse nada ainda.
– Mas sugeriu.
Me aproximei e o beijei. Eu pude sentir a quentura tomando conta tanto dele quanto de mim, e eu não sei o porquê, mas tem alguma coisa me dizendo que eu vou sentir falta disso. E esse é o motivo por eu não querer parar agora. Volto à realidade quando sinto uma lágrima escorrendo na minha bochecha. Me afasto para secá-la e ele me pergunta:
– Algo errado? O que houve? – ele puxou meu rosto e me forçou olhar para ele – Me conta.
– Eu não quero te perder. – e isso desencadeou um choro muito alto que eu tentei silenciar.
– Você não vai. – ele me apoiou no peito dele e fez carinho até eu começar a ficar realmente cansada. Muito cansada. E então eu dormi.
E é claro que eu não posso ter uma noite de sono tranquila. Não nesse mundo. Com isso, eu quero dizer que eu sonhei com fogo. Muito fogo. Eu podia sentir o calor entrando na minha pele, derretendo meus ossos. Era tão doloroso, eu não conseguia respirar. Tentei olhar para os lados e tudo o que eu pude ver era a coloração alaranjada do elemento. Tinha fitas pendendo no teto, balões estourados queimando, muitas luzes quebradas pelo chão. Era o baile. O baile que Leah sonhara quando eu a apresentei pro meu Elemento. Eu devia ter aprendido que isso de trazer pessoas para o meu mundo não dá certo.
Kat estava “imune” ao fogo. Tentou estourar os canos e os extintores, mas não conseguia sair de baixo de uma das mesas que voaram. Eu gritava seu nome muitas, muitas vezes. O fogo vinha de baixo pra cima, o que me fez cair no chão muitas vezes. Me arrastei até o corpo de Leah que estava jogado debaixo do palco onde seriam anunciados o rei e rainha do baile, e a sacudi. Ela estava com o rosto todo queimado, seus cabelos viraram fumaça. Pus a cabeça no seu peito e tentei me concentrar no barulho de seu coração, o que não era fácil considerando que tinham centenas de pessoas atrás de mim gritando e correndo tentando achar uma saída. Senti uma respiração forte balançando meu penteado, perto da orelha. Virei o rosto e vi Leah, falando com dificuldade:
– Por favor. Você precisa sair... Busque – derramou uma lágrima e com um último suspiro, ela suplicou – Busque ajuda.
Então acordei assustada e me deparo com a expressão de extrema dor no rosto de Luke.
– Você está bem? – ele me perguntou.
– Se eu estou bem? Foi só um pesadelo. – analisei seu corpo contraído e perguntei – Você está bem?
– Só um pouco de dor. – o olhei descrente e ele repetiu – É sério. Só um pouco de dor.
– Levanta a blusa. – ordenei.
– Aqui? – ele se forçou a fazer uma cara maliciosa e antes que ele pudesse fazer mais piada da situação, levantei a blusa dele.
Imediatamente, levei a mão na boca, exasperada. Ele abaixou a blusa e tentou me garantir que tudo ficaria bem, que aquilo aparecia sempre, mas eu me lembrei de quando eu sonhei com ele morrendo de dor e Candance o forçou a fazer a mesma coisa. E o levou para o hospital imediatamente. Mas estamos em pleno voo e não tenho um hospital. Comecei a gritar pelas aeromoças e aquilo causou um pequeno desespero nos passageiros, que foi ficando maior quando implorei por um médico. Eu não estava chorando, mas estava vermelha devido aos berros.
Finalmente um homem de aproximadamente 47 anos, calvo e com óculos quadrados levantou, dizendo que era oncologista. Médico de câncer. Nunca entendi o que Luke tinha exatamente, eu sempre achei que fosse câncer então encarei assim por toda uma vida.
– Não... Não é câncer. – ele dizia desesperadamente pra mim, como se soubesse o que eu estava pensando – É só hipotermia.
Franzi as sobrancelhas e o olhei.
– Mas... Não está frio assim.
– É uma coisa... De nascença. – à essa altura, várias pessoas haviam trazido cobertores e coisas quentes para aumentar a temperatura de seu corpo – Quer dizer... Quando eu era bebê, fui deixado por acidente no carro com o ar condicionado.
Todos os passageiros do avião pararam pra ouvir a história que do nada, pareceu merecer um filme e um Oscar.
– Isso me deixou suscetível à ataques de hipotermia. – ele viu meu olhar confuso e me respondeu – Sim, eu tive que passar anos fazendo tratamento. Eu tossia sangue, aquilo era como meu corpo respondia às gripes e doenças. Tentava expulsar o elemento cancerígeno, isso se chama tuberculose.
– Você tem hipotermia e tuberculose? – ele assentiu – Então, nunca acharam uma cura para os dois. Certo?
– Certo. Quer dizer... Errado. – eu ainda sentia como se só houvesse nós dois naquele avião. Talvez seja melhor pensar assim, disfarça o constrangimento dele – Eu fiz tratamentos. Muitos. Eu descobri muitas coisas, e eu tenho trabalhado nisso. Mas eu estou bem. Só com muito frio.
Depois que as coisas se ajeitaram, arrumamos uma bolsa de água quente para por na cabeça do Luke e muitos cobertores. Claro que ele não gostou daquela atenção e me insultava constantemente com palavrões muito feios.
– Ok, perdão. Não me preocupo mais com você. – me virei pro outro lado e fiquei encarando Kat dormir que nem uma pedra.
– Não é isso, Fay. Você sabe. Aquela vez no meu quarto já foi constrangedor o suficiente. – ele tentava se explicar, mas sempre tropeçava nas próprias palavras – Garotos não gostam de se sentir impotentes.
– Eu sou o Tempo, Luke. Qualquer pessoa é impotente perto de mim. – eu posso me gabar de vez em quando, não é? É.
– Eu sei disso! Eu só quero dizer que eu queria te proteger. Não o contrário.
Aquilo amoleceu o meu coração, porque nós dois sabíamos que eu não era o tipo de pessoa que precisava de proteção. Me virei e ao olhar para ele, vi o cansaço estampado no rosto lindo dele. Lindo demais. Sorri e passei a mão na sua bochecha, fazendo carinho.
– Você me protege de não fazer besteira. Não existe nada melhor que isso. – ele arqueou as sobrancelhas – Ok, talvez ser o Elemento mais poderoso da Terra seja um pouquinho mais legal. – ele riu fraco e isso me fez rir também – Mas eu prefiro muito mais você a qualquer super poder. Agora dorme. Você está morrendo de sono.
– Você também está.
– Eu não quero dormir. Tenho sonhado coisas assustadoras. – então ele me beijou e sorriu.
– Não se preocupe. São apenas sonhos.
Sorri e virei pra minha frente.
– Quem dera se fosse.
Fale com o autor