Dando Voltas no Ponteiro

15 Capítulo XV – ADIANTANDO O RELÓGIO


Notas iniciais
Eu estive inspirada esses dias, como podem notar. Nunca escrevi tanto em quatro anos de desenvolvimento do enredo da história kkkk, e tenho que agradecer a vocês, pessoal. Se eu não tivesse nenhuma motivação pra continuar aqui, essa história nunca teria um final. Mesmo sem ter tantos comentários quanto eu esperava, eu gosto de quando as pessoas falam comigo, pessoalmente, sobre como a história está indo. De qualquer maneira, obrigada pelo apoio galera. Boa leitura!

Quatro meses mais tarde. Quatro meses mais tarde, muita coisa aconteceu. Pra começar: eu e Luke assumimos um namoro. “Assumimos” porque Luke ainda precisa do dinheiro que Julie fornece. Eu tento me conformar com isso, mas não dá. Deixei regras bem claras de: nada de beijo, nada de abraço, nada de segurar na mão. Um namoro de diálogo, só pode assim. Julie concordou com isso já que ela gosta mesmo dele e tudo o mais. Enfim, ossos do ofício. Além disso, fizemos um acampamento numa floresta na cidade seguinte. Cory construiu tudo rapidamente já que ele é o Elemento Terra e tudo o mais. Temos um mini exército de dezesseis adolescentes de idades que variam de 8 a 18. Venho os treinando há um tempo, mas tem sido difícil.

Eu já mencionei aquela criancinha que Kat sentiu que era da água não é? Então. Eu achei outras. Eu, Kat e Cory achamos outras crianças com os mesmos poderes que nós. Claro, não tão poderosos quanto a gente, mas não deixam de serem fundamentais.

A pior parte é que o ano está acabando e com isso vem o baile. Eu estou preocupada devido àquele sonho e venho tentando impedi-lo de diversas maneiras, como: fazendo protestos sobre beleza natural na frente da escola; causando intrigas entre os alunos no refeitório; destruindo os materiais da festa. Enfim, venho tentando. E não é só com o baile que tenho me preocupado mais, é claro. Tenho uma guerra sobrenatural marcada com a Rainha dos Elementos para não sei quando, mas deve estar perto porque ando tendo sonhos ruins com mais frequência do que antes. Tem sido difícil treinar crianças e adolescentes, sendo que eu tampouco sei manusear uma espada.

Agora mesmo, por exemplo, estou no acampamento ensinando Travis Manor, um garotinho de apenas oito anos, à usar uma espada. Travis tem domínio do ar, mas não é tão poderoso quanto um dos primários. Tem cabelos castanhos encaracolados, olhos castanhos e grandes e uma carranca incrível. Ele se recusava a falar com os outros, mas criamos uma ligação muito forte no decorrer desses quatro meses.

– Travis, o que houve dessa vez? Está triste pela mesma coisa de ontem? – ele negava com a cabeça repetidamente e eu estava começando a ficar frustrada – Você precisa pelo menos tentar. Eu não posso dizer que você não lutará nessa guerra, mas... Se pelo menos...

–... Se eu tentasse um pouco mais, talvez pudéssemos ter mais soldados? – ele completou, olhando para seu próprio reflexo na lâmina.

E aquilo me desestruturou. Como eu posso obrigar uma criança de oito anos a lutar? E como eu posso desconsiderar sua utilidade numa guerra tão importante? Mais de sete meses se passaram desde que proclamei a guerra e ainda não sei como fazer isso.

– Vamos começar de novo. Diferente agora. – me sentei de pernas cruzadas na frente dele e o olhei sorrindo – A gente pode chamar a Laura e a Bliss e brincar de jogos estratégicos, que envolverão o uso da espada, adaga e arco e flecha. O que você acha?

– Legal. – ele deu um sorriso e foi chamar as duas garotas.

Laura Stryks é o Elemento da Água, tem nove anos, cabelos curtos e negros, olhos azuis intensos. Como os da Kat. Não tem mais que 1,35m de altura e é uma criança animada e muito doce. Bliss, Elemento do Fogo, é a mais reservada de todas. Nunca nos disse seu sobrenome, nem sua idade. Mas achamos que tem 12, devido à altura e peso. Ela tem cabelos ondulados e loiros que vivem amarrados num rabo de cavalo e olhos pequenos e castanho claros. É magra e juro por Deus, eu nunca a vi esboçar um sorriso sequer. Mas é ótima com todas as armas e é muito corajosa.

Vi Kat caminhando calmamente até mim e acenei. Ela estava com um moletom colorido, uma calça jeans apertada e tênis rosa.

– Matthew esteve te procurando. – ela veio falando alto, com preguiça ou pressa de esperar até chegar ao meu encontro – Esse garoto... Acho que Luke não gosta muito dele. – à esse ponto ela estava sentada do meu lado, observando o lugar que Cory escolhera como acampamento. Ele disse que tinha solo fértil, bom para o plantio e essas coisas de Elemento da Terra.

– De novo? Eu já disse que estou treinando as crianças agora. Você sabe, Travis tem um problema sério com essas coisas de armas... Por causa do pai dele.

– Fayel, todos nós temos problemas com os pais. Não é como se ele fosse especial ou coisa assim – a olhei de soslaio e ela revirou os olhos e riu, entre uma frase e outra, se controlando – Ok, ele é. Mas o que eu quero dizer é que você tem que parar de agir com tanta fraqueza. Você é uma líder agora. Líderes não amolecem por nada.

– Eu sei Kat. Mas são só crianças. Eu não posso colocar crianças numa guerra, posso? – perguntei algo que tive vontade de perguntar a muito tempo.

– Eu não sei. – ela se levantou e me estendeu a mão – Mas pode tentar prepara-las para o pior. Vamos, você tem um super exército para treinar. – segurei sua mão e me levantei.

Por muito tempo, fiquei observando as crianças correrem de lado para o outro, brincando com as armas. Pedi para que parassem um pouco, pois ia chamar o restante do exército. Vi Matthew Host e Cory Adamanto conversando pela janela do chalé masculino (que não era lá o mais lotado). A ideia inicial era dividir os chalés por Elementos, mas Kat não gostou da ideia porque não queria que eu me sentisse sozinha. Então ficou dividido por sexo e idade.

Matthew é um rapaz educado de 17 anos. “Educado” não é bem a palavra certa, aliás. Ele é... Retraído. Não demonstra muitas emoções. Deve ser uma característica de seu Elemento, o Ar. É alto, magro, com cabelos bem cortados e pretos. Usa óculos, mas não esconde o quão belo aqueles olhos negros são. Não que Matthew seja bonito como Cory, que é definitivamente, a pessoa mais bonita viva. Matthew só é tão legal, que fica mais bonito.

– Rapazes – apareci na porta e sorri, chamando a atenção dos dois – O que estão fazendo?

– Conversando, apenas. – Matthew respondeu rapidamente – Sobre carros. E caminhões, rock pesado... Sabe? Coisas de homem.

Franzi as sobrancelhas, confusa.

– Ok... Treinamento na central. – Cory ficou me olhando, sorrindo, esperando eu sair – Agora!

Então eles se levantaram imediatamente e passaram por mim na porta, indo até onde estavam as crianças. Não é como se tivéssemos uma central super luxuosa, mas temos um campo vazio com armas então, chamamos de central. E é claro que estaríamos correndo o risco de caçadores ou policiais descobrirem nosso acampamento. Mas isso só aconteceria caso não tivéssemos magia ao nosso lado. Eu criei um véu que escondesse o acampamento de todo o mundo, senão os Elementos. Como eu fiz isso? Eu não sei mesmo, mas demorou um pouquinho de tempo pra isso acontecer. Eu não passo as semanas lá porque eu ainda tenho uma escola pra estudar. Estou praticamente reprovada em todas as matérias, então Kat tem me ajudado a estudar. Sim, a Kat. Eu não sabia, mas ela é um gênio. E realmente cobra muito de mim.

Outra dúvida a ser esclarecida é: os pais de Luke se lembraram dele. Candance demorou apenas algumas horas porque manipulei a mente dela. Eu nem sei quanto tempo ela ficaria duvidando do grau parentesco do seu próprio gêmeo se eu não tivesse feito isso. Ele parou os tratamentos frequentes há dois meses, só terá de comparecer ao médico de duas em duas semanas agora. E é claro, Julie está pagando. Eu queria ser rica como ela, então nós dois poderíamos... Andar de mãos dadas em público, nos beijar na frente de todo mundo, nos declarar um para o outro sem se importar com quem está ouvindo. Enfim, ser um casal.

Perdida em meus próprios pensamentos, quase não reparei a respiração ofegante de alguém atrás de mim.

– Controla esses olhinhos. – eu me virei e Cory estava sorrindo como quem estava prestes a fazer algo de errado.

– Obrigada. Estava em outro lugar. – peguei a garrafa d’água que ele estava segurando e tomei um gole.

– Passado, presente ou futuro?

– Não no sentido literal. Só estava pensando.

– Hm, de qualquer modo... Olhos azuis são mais bonitos. E menos assustadores. – ele me deu um beijo na testa e estava saindo quando gritou, lembrando-se de algo – Luke te ligou. Muitas vezes.

Ah meu Deus. Luke havia me chamado pra um encontro na praia. Naquela praia. Ele me disse pra ir de vestido para a casa de praia dos meus pais. Saí correndo em busca do meu celular e tentei o avisar que havia ocorrido um imprevisto e eu estava indo. Dirigi até a minha casa numa velocidade absurda e me ocorreu que sou o Tempo. Estacionei em casa, parei o tempo e conseguir me arrumar em paz. Quando tudo voltou, eu estava arrumada: havia escolhido um vestido púrpura com uma alça só, costura que acentuava a cintura, no comprimento dos joelhos e com muitos babados. Usava um salto alto que Leah me deu no meu aniversário de dezessete anos, preto com detalhes dourados e finalmente, meu penteado: Fiz uma trança embutida e escamada, como as que aprendi no Youtube (as coisas que eu não faço para impressionar Luke) e pra terminar, minha maquiagem se resumiu em sombra purpura, delineador e um gloss rosa. Não, não fui quem fiz a maquiagem. Kat insistiu em deixá-la correr aqui em casa para fazê-la.

E então, finalmente, cheguei à praia. Luke estava meio que cochilando em cima de um edredom na areia e eu fiquei desapontada. O fiz esperar demais. Fui chegando de fininho e me ajoelhei ao seu lado fiz carinho no seu rosto e tive que garantir-me de que a primeira coisa que ele visse quando abrisse os olhos seria eu maquiada como uma garota normal. E assim o fez. Quando ele foi abrindo os olhos, sorriu abertamente e disse:

– Você está absurdamente linda.

– Obrigada. Você também não está nada mal. – ele se levantou e parecia incomodado com alguma coisa.

Foi então que ele estendeu sua mão e deu tapinhas no meu rosto, ao longo da bochecha esquerda, atravessando o dorso do meu nariz, até a bochecha direita.

– Por que tirou as sardas? Eu amo as sardas. – ele franziu a sobrancelha, indignado.

– Kat me maquiou. A culpa é dela. – então o beijei.

Ficamos nessa por um tempo. “Nessa” eu quero dizer: o beijo. Ele parava e lambia os próprios lábios, devido ao gosto do gloss.

– Eu não gosto do gloss. – ele começou a esfregar minha boca, tirando-o e quando finalmente viu que não tinha mais nada ali – só um pouco de sangue e sofrimento – ele parou e disse bem pertinho da minha boca – Eu já disse que o gosto é melhor assim?

– Talvez. – sorri, lembrando-me daquela vez que o encontrei na sorveteria e ele estava morrendo de ciúme de Lupin. Não o culpo. Ele estava certo.

– Pensando no Lupin? No nosso encontro? Sério? – então ele me largou e deixou de novo.

– Como você sabe...?

– Você disse isso. Na terceira pessoa. – ele rolou os olhos e virou pro outro lado, de mal.

– Não, eu não disse. Eu pensei. – calei a boca assim que lembrei de Carter – Ah não.

– O que?

– Você está conectado comigo agora. Desde que você me soltou no meu Elemento, estamos mais conectados.

– Isso é bom não é? – ele sorriu, feliz.

– Eu não teria tanta certeza.

Ele arqueou as sobrancelhas e expliquei o que tinha lido num livro uma vez: uma vez que alguém está conectado psiquicamente com você, um laço inquebrável se forma entre as duas pessoas. Você pode sentir se alguém está em apuros, apaixonado, feliz... Enfim, você entende mais a pessoa.

– E por que isso é ruim? – ele me perguntou, fazendo carinho na minha bochecha.

– Por que... Quando uma das duas pessoas morre, a outra morre também. – ele empalideceu e me soltou.

– Eu já disse que não vou morrer.

– Eu sei que não. – olhei para baixo e desviei do assunto – Então, qual o proposito do encontro?

– Eu tinha trazido vinho, queijos e frutas cítricas. – ele se levantou e me estendeu a mão – E está tudo lá dentro. Vamos?

Agarrei sua mão e entramos juntos na casa dos meus pais. E a arrumação que Luke havia feito foi de tirar o fôlego. Estava tudo desligado, porém as velas perfumadas espalhadas pelos moveis davam um ar de conforto. Havia pétalas de rosas de diferentes cores jogadas em todos os cantos, fotos nossas espalhadas nas paredes, e uma musica baixa tocando no fundo.

– Há oito meses estávamos tendo nosso primeiro encontro aqui. – ele falou, me abraçando por trás e beijando minha nuca – É uma pena só termos percebido que a vida fica mais difícil a cada dia só alguns meses depois.

– Realmente. – eu estava enrubescida dos pés a cabeça, pode-se dizer – Quatro meses de namoro e oito meses que estou apaixonada por você e por esses olhos azuis.

Me virei e o envolvi, colocando meus braços envolta dos seus ombros e mexendo no seu cabelo. Ele pôs os braços envoltos na minha cintura e me beijou sorrindo. Eu o olhei e tudo o que eu conseguia pensar era no quanto ele me deixa fraca. O quanto ele me desarma por inteiro, só olhando pra mim daquele jeito.

– Você deveria mandar uma mensagem avisando que só volta amanhã – ele sussurrou pra mim e eu o olhei espantada, mas claro, tentando disfarçar.

– Ah, claro. Vou pedir a ela que treine os garotos e os ponha pra dormir às 20h. – me soltei dele e mandei a mensagem rapidamente e joguei meu celular em algum canto.

Ele fechou a porta da sala e me guiou até o quarto. Eu não queria mesmo, mesmo fazer aquilo. Muito cedo e eu não estava pronta e...

– Filmes? – soltei todo o ar dos meus pulmões quando falei aquilo e me virei para ele.

– Sim, claro. – ele andou até a cama e levantou alguns – “Os Estagiários” ou “Antes que Termine o Dia”? Eu particularmente prefiro comédia, mas eu trouxe todos os gêneros caso você não goste de nenhum dos que eu trouxesse e...

– Ah, graças a Deus são só filmes. – me apoiei na parede, branca de tanto susto que eu levei. Levei a mão ao coração e tentei controlar minha respiração ao máximo, só que não deu. Caí no chão e comecei a rir desesperadamente.

– Qual... – ele parecia não estar entendendo nada do que eu estava fazendo, o porquê d’eu ter quebrado o clima tão rápido – Qual é a graça?

– Eu achei que você estivesse tentando fazer outra coisa.

– Ah. Entendi. – ele ficou vermelho como pimenta e me levantou – Bem, eu não estou lá muito ansioso pra isso, devido às minhas doenças, mas se você quiser por mim tudo bem.

– Não, pelo amor de Deus. – arregalei os olhos e o soltei, já de pé – Eu quero tampouco quanto você.

– Credo. – Luke abaixou o rosto envergonhado e disse baixinho – Sou tão mal assim?

– Claro que não!

O beijei e pude sentir ele mais feliz e mais aliviado. Bendita seja a conexão psíquica que me fez sentir isso sem ele precisar dizer. Sentamos na cama e escolhemos um filme de comédia romântica e nos aninhamos na cama. Eu havia tirado aquele vestido pesado e os sapatos, pegando uma blusa dele. Ele havia colocado um casaco e uma meia de lã. Você sabe... A hipotermia e tudo o mais.

Adormeci no peito de Luke e acordei em paz. Ele me olhava do mesmo que me olhou no nosso primeiro encontro. Os lábios rosados dele se abriram para falar alguma coisa e então abafou um grito com sua própria dor. E antes que eu pudesse fazer alguma coisa, a cama já estava coberta de sangue que escorria de seu peito.

Luke estava morrendo. Meu tempo está acabando.

Notas finais
Antes de tudo: eu amo vocês, não me matem. Hahaha. Como vocês podem ter notado, o nome do capítulo tem duplo sentido. E... Adoro um suspense. Até mais!