Dando Voltas no Ponteiro
7 Capítulo VII – NOVOS TRIPULANTES
Notas iniciais
Após o bizarro sonho com a Rainha Hercília, percebi o que tinha de fazer: Procurar ajuda pra a minha avó. Existe alguém mais com quem eu poderia conversar? Corri até o quarto da minha avó, quando percebi que estava de madrugada e eu havia acabado de acordá-la. Contei sobre meu sonho e ela tampouco sabia o que fazer quanto eu.
– Fayel, eu realmente não sei o que dizer. – ela piscou amargurada para mim. É óbvio que ela sentia falta da filha e a queria muito aqui, mas isso era uma coisa pro meu coração seguir então ela simplesmente disse: — Não quero te pressionar a salvar seus pais.
– Vó, eu não sei o que fazer.
– Me desculpe... – ela tocou em meu rosto e um sorriso caridoso formou-se em seus lábios – Mas minha missão já foi feita. E a regra diz que eu não posso... – ela hesitou.
– Interferir?
– Isso.
Abaixei a cabeça.
– O que eu faço vó? Começo a tal guerra ou faço o tratado de paz? – a olhei por baixo.
– Fazer o tratado de paz nunca! Isso seria tremendamente horrível para a humanidade! Sem contar que você pode se tornar a Rainha se conseguir matá-la.
– Besteira – bufei – Ela é imortal.
– Mas todo mundo tem um ponto fraco.
– E qual seria o dela?
Minha avó sorriu sagazmente.
– Isso, querida, eu quero que você descubra.
Assim que eu pus os pés pra fora da minha casa, ouvi uns ruídos em arbustos. Algum animal. Segui pra a casa de Leah e quando cheguei, ela não estava lá. Sentei em algum lugar distante da minha casa quando o mesmo barulho se repetia várias vezes. Joguei uma pedra num maldito arbusto que não parava de chacoalhar. Arbustos... Esquisitos desde os primeiros filmes de terror.
Parou. O barulho parou. Quando, violentamente, uma figura grande e escamosa saiu dos arbustos, gritando e quebrando as coisas à minha volta. Eu só pensei numa palavra que poderia significar minha vida ou minha morte: “Corre”.
Foi o que eu fiz, e te juro que nunca na minha vida, corri com tanta velocidade. Subi na árvore mais próxima e senti o bafo de peixe. Olhei para os olhos vermelhos da criatura e vi meu próprio reflexo assustado, procurando freneticamente alguma coisa pontuda. Achei um galho e o ataquei, o que incitou o monstro a pular em cima de mim. Foi aí que minha mente começou a voltar ao seu estado são. E foi aí também que eu parei o tempo. Saí da árvore e fui em direção a casa mais próxima e peguei uma faca longa e pontuda na cozinha. Quando voltei, escalei as costas do monstro e cravei a fraca nas costas dele, rasgando desde seu ponto mais baixo, até a cabeça. Fechei os olhos e desejei que o tempo voltasse a funcionar. E lá tínhamos nós um peixe podre gigante e morto no meio de uma praça distante. E agora eu não sabia onde era minha casa. Liguei para Leah, mas ela não atendia. Revirei minha lista de contatos e lembrei de que Lupin estaria na cidade. Ouvi sua voz soar no telefone:
– Fayel? Algum problema?
– É... Bem grande. Me perdi.
– Ah, meu Deus. Tem alguma ideia de que rua é essa?
– Não. Me rastreie.
– Garota, você me causa problemas... – e ele riu calorosamente. Um calor que eu senti falta, porque na verdade, estava muito frio.
– Vem logo... Eu to com medo. – fiz uma voz de cachorrinho sem dono deplorável, e quase desejei pegar aquela e enfiar no meu próprio estômago.
– Já estou saindo de casa, até daqui a pouco.
– Até.
Enquanto eu esperava, refletia sobre o que eu acabara de presenciar. Monstro? O que era aquilo? Escamoso... Lembro-me de ter lido sobre ele naquele site bisonho. O nome... Não me recordo... Ah! Monstro de Netuno. Esse era o nome dele. Monstro de Netuno. Ele era o bichinho de estimação do deus romano que foi expulso após uma guerra esquisita lá no Olimpo... Mas o que importa é que a história não é exatamente verdade. Monstro de Netuno foi um dos filhos da Rainha Hercília com mortais. Foi seu primeiro elemento com água e ela sabia os riscos. Mas ela se apegou à sua feiurinha... Monstro de Netuno é uma semi-elemental. Uma garota que teve o privilégio de se tornar imortal por ser um monstro. Se isso é bom? Devia ser antes d’eu matá-la.
Quando Lupin apareceu, sorri abertamente. Ele saiu da moto e me abraçou.
– O que diabos você estava fazendo aqui, garota?
– Eu tava pensando em muitas coisas e quando eu dei por mim, eu havia me perdido. – Não era mentira.
– E por que está toda cortada?
– Tinha arbustos enquanto eu andava... Ou rastejava. – Isso era.
– Você se rastejou por quê?
– Por que... Ah, não importa. Vamos. – Não tinha mais nada pra inventar.
Paramos na sorveteria. O que ele foi fazer ali? Minha casa é daqui a dois quarteirões e vai chover em breve.
– Ei, por que parou? – ele não ouviu, então cutuquei seu ombro – Lupin, ei. Por que parou?
Ele se levantou e me tirou da moto. E então tirou meu capacete.
– Eu percebi o interesse daquele garoto, o garçom, em você. – ele olhou pra dentro. Luke estava com uma bandeja na mão, vazia. Ele estava com uma expressão contida, seu olhar representava pura confusão.
– Você não pode fazer isso. – o olhei nos olhos na esperança de que ele compreendesse. Mas ele apenas me puxou e me deu um longo beijo. Quando me soltei olhei para o lugar onde Luke estava parado e me surpreendi quando vi que ele não estava mais lá.
Dentro de alguns instantes começou a chover.
– Me leva pra casa.
– Vamos lá. – e me pôs de volta da na garupa.
Quando chegamos lá, ele me deu um beijo e esperei ele ir embora do lado de dentro casa. Lavei minha boca várias vezes pra tirar o gosto daquele garoto desprezível. Por que ele fez isso com Luke? O que ele o fez? Como ele deveria estar se sentindo agora? Devia estar no mínimo arrasado. Só vou saber quando eu o ver outra vez.
O dia já estava terminando, então fui preparar um lanche e em seguida dormi. Acordei numa paz enorme. Sem sonhos. Sem memórias ruins. Será que a Rainha Hercília está me dando um tempo para pensar? Como uma forma de... Recompensa? Não vai funcionar comigo. Eu já tenho minha decisão, não vou voltar atrás.
Tomei um banho de 2 minutos, coloquei uma blusa branca, jaqueta jeans e shorts de couro. A sapatilha branca com dourado da minha mãe para fechar. Penteei meus cabelos calmamente, como alguém que não tem horário e fiz uma maquiagem leve. Peguei meu material escolar e fui andando pra a escola. Estava um dia enevoado, então cheguei intacta na escola. Apesar de toda essa felicidade, eu não conseguia parar de pensar em como Luke deveria estar mal e...
Espera aí.
Aquele ali era Luke Edwin Johnston beijando Julie Michelle Richards? Eu disse beijando? Eu quis dizer “engolindo-em-cima-do-muro-da-escola”. A mão direita dele estava apertando a coxa dela e a esquerda estava a equilibrando pelas costas. Uma das mãos dela estava na nuca dele e a outra nas costas dele. Se eu ia deixar barato? Não mesmo. Além disso, tinha uma rodinha enorme em volta deles, comentando o quanto eles ficavam demais juntos. Leah chegou da rodinha com a maior cara de sem-graça que ela poderia ter.
– Oi, Fay. – ela me abraçou, com uma voz triste.
– Não vou deixar isso me derrubar assim, tão fácil. – tentei deixar minha voz firme, mas ficou clara a decepção e amargura contida nela.
Leah me abraçou mais forte. Senti meu rosto quente e minha visão estava ficando embaçada.
– Vamos ao banheiro, limpar esse rostinho.
Quando chegamos lá, comecei a me questionar porque diabos eu estava me importando tanto. A gente nem teve tanta coisa juntos ainda. Foi uma noite e só. Mas é que eu sinto esse fio elétrico entre nós quando estamos juntos. Não vou dizer que eu o amo, eu não amo. Mas eu sei que eu gosto. Devo gostar pra caramba pra estar desse jeito agora...
– Fay, vai passar rápido... Ela nem é tão bonita...
– Leah...
– Ok, ela é sim. Mas ela não é tão legal, nós duas sabemos que ele não vai ficar tanto tempo com ela.
– Ela é rica. Vai pagar o tratamento dele.
Ela me olhou atônita, hesitando cada palavra que dizia:
– Como você sabe disso?
– Eu não sei...
Um flash de imagens de Luke numa UTI e Julie com um cheque com uma grande quantia de dinheiro escrita nele. Ela estava chorando enquanto entregava o papel para o médico. É, que merda. Ela o ama.
– Hm... Teve uma visão?
– Sim. – Me sentei no chão do banheiro, atônita – Ela o ama, Leah.
Leah, que se olhava no espelho, se voltou para mim.
– Quê? – ela arregalou os olhos – O que você disse?
– Ela o ama pra valer mesmo.
Enterrei meu rosto em minhas mãos.
– Como posso competir com isso?
Ela se agachou ao meu lado e me reconfortou com o calor de seus braços:
– Não vai... Até porque ele é só uma apaixonite, não é? – a olhei com os olhos marejados.
– Se fosse.
Na hora da aula, Julie ficava sorrindo de lado pra outro. No campo de visão de quem quisesse. O professor reclamava e ela sorria e mandava beijo. Seria até cômico pra mim, se não estivesse envolvendo o cara perfeito. Ele é meu, pensei. Você não vai tirá-lo de mim tão cedo.
Afastei os pensamentos insanos. Pelo menos tentei. Porque eu tive mais um flash de imagens na minha cabeça.
Luke morrendo nos meus braços, minha alma estava se desintegrando atrás de mim. E meu coração ia se partindo cada vez mais.
Então, comecei a chorar em horário de aula. Alto. Mais alto. A Rainha estava esmagando meu coração com os dentes. Senti tudo sangrar dentro de mim, eu gritava “Para!” inúmeras vezes e quanto mais eu gritava, mais doía. Tinha uma roda de pessoas em minha volta, outras ligando pra ambulância ou polícia, comentando várias coisas, me segurando, mas nada daquilo fazia a dor infernal parar. Leah não estava lá, e só ela me entendia. Só ela sabia. Precisei correr até ela, mas as minhas pernas não se moviam. Apertei as mãos sobre a cabeça enquanto gritava, desesperadamente:
– Chamem a Leah! Chamem ela agora! Aahhh!
O professor girava o corpo enquanto gritava as suas ordens. Quando Leah chegou, ela abriu o espaço e foi me ver. E foi com seu primeiro toque que a dor foi sumindo e o medo ficando.
– Não me solte Leah. – a abracei – Não me solte nunca mais.
– Calma Fay. Calminha! Tá tudo bem agora.
– Não, Leah! Não tá! Você não entende, a Rainha ela... – olhei em volta e sussurrei – Temos que sair daqui.
– Tudo bem, você está paranóica.
– Eles vão nos ouvir. As Vozes da Confusão sempre estão ouvindo. Temos que sair.
– Certo, então vamos.
E ela me levou pra longe do colégio. Sem me soltar. Sem jamais me soltar.
Dentro de 35 minutos estávamos em um campo aberto, dentro de uma floresta pequena. Sim, há florestas em Londres. Sentamos no chão de grama rala e comecei a orar.
– Fayel. – continuei rezando – Fayel olha pra mim. – ela puxou meu rosto em sua direção – No mundo em que vivemos, orações não mudam nosso destino.
– Mas a fé fica. Ela fica, Leah. – eu estava com um ar desesperado em minha voz. Eu preciso acreditar em algo. Se não, o que sobra pra mim?
– Tem razão. – e ela me abraçou forte.
Ficamos 3 minutos paradas, estudando o que me aconteceu até que Leah me sugeriu que ela me soltasse por alguns segundos, para ver se a dor voltava.
– Não! – pedi – Você não sabe o quanto é horrível essa dor.
Então ela me largou. E eu nunca senti uma dor tão aguda no meu coração antes. Tão aguda que eu mal conseguia gritar, tão aguda que eu mal conseguia me mexer. Apenas deitei no chão e vi tudo girando. E girando. E girando...
“Como está, Fayel Lynch?” a voz da Rainha Hercília ecoava no ambiente.
– Onde você está?! – gritei.
Ela deu uma risada apavorante que enfraqueceu meus músculos.
“Eu perguntei como você está.” Senti uma dor excruciante nos meus pés e mãos. Caí no chão liso, em completo desespero. Só então, na minha repleta dor, reparei no local. O teto tinha mais de 15 metros de altura e era tudo feito em mármore. Até o chão. Tudo branco. Menos a Rainha. A maldita Rainha que estava acabando comigo e eu sabia exatamente o porquê.
– Não vou... – gemi de dor – Fazer o Tratado de Paz.
A dor parou.
“O que disse?” a voz ecoou no salão, completamente fantasmagórica e melancólica. Ela não me dá medo.
– Eu não vou fazer o que você me manda fazer... Você não é nada, mas uma velha desocupada. – ela continuou calada – Diga-me, Hercília. Você lembra quem você foi na sua vida passada? Aliás, na sua vida? Isso aí que você diz ser viver... Não chega nem na superfície do sentido real de viver. E seus amigos? Seus melhores amigos, quem foram? Você já amou, Vossa Majestade? Você sabe o quanto dói perder cada uma das pessoas que ama? Sabe o que é isso? Claro que não. Você é um ser desprezível. Que nunca foi ou será amada. Ninguém realmente precisa de você. E se quer saber, eu declararei essa Guerra. E eu vencerei.
E acordei.
– Mas o que foi isso? – sussurrei enquanto Leah me chacoalhava, gritando meu nome.
– FAYEL! Ah, graças ao meu bom Deus. Onde é que você estava? – agora ela me abraçava muito, muito apertado.
– Dói, me larga. – ela me soltou e eu contei a história.
– O que você acha que ela queria?
– Leah, é um péssimo sinal. Hercília tinha uma vida passada horrível e sofrida. Deve ter tido algo parecido com a minha vida e... O poder lhe subiu a cabeça. Acabou se esquecendo de como era toda sua vida. Esqueceu de seu nome verdadeiro, que ano nasceu, que ano morreu... Tudo.
– E você declarou guerra, Fayel.
– Sim. Sabe o que isso quer dizer?
– O quê?
– Que eu preciso achar os outros Elementos o mais rápido o possível.
Leah me deixou em casa e eu procurei minha avó, mal abri a boca e ela disse:
– Me pediram pra te entregar isso. – peguei o bilhete rosa da mão dela e li:
Fayel, quero que me perdoe pelo meu comportamento infantil hoje, na escola. Sei que você gosta de mim ainda mas... Eu sempre a amei. Perdão. Ela é pra mim, o dobro que você foi.
xxLuke
Desconfiei da tal carta logo de cara. Aquela letra não era de Luke e ele nunca falaria daquele jeito com ninguém. E, aquele perfume de rosas vermelhas só podiam ser de uma garota. O que me leva à...
– Julie. – falei séria.
– Ela enviou essa carta não é?
– Sim. E além do mais, Luke detesta rosa.
Amassei o cartãozinho e joguei no lixo. Subi para o meu quarto e tranquei a porta, pesquisei na internet como achar elementos perdidos no mundo, e é claro, deu zero resultados.
Então fiquei parada, tentando imaginar onde estariam. Comecei a imaginar uma água correndo pelas ruas de Londres, descendo até um beco, que caía num esgoto, do esgoto, caía em um lago e do lago, virava mar. Do mar ia à praia. E vi uma garota de cabelos coloridos e cortados radicalmente, olhos tão azuis quanto o mar e lábios carnudos.
Era Katherine Woods.
Corri pra minha avó e comecei a tagarelar sobre isso. Ela me acalmou e me deitou no sofá.
– Conecte-se com a aura dela. Pense no que ela deveria estar fazendo e estimule-a a fazer isso.
– Vó eu não sei como isso...
– Relaxe. Durma. E conecte-se com Katherine. – ela me faz massagem até eu pegar no sono.
E nesse sonho, Katherine estava envolta de uma luz azul. “A aura”, pensei. “Tenho certeza de que ela é água, só vou... Conferir” e fui para mais perto. Ela estava com um garoto magro de aparência intelectual e desenhava na areia da praia.
– Kevin...
– Sim?
– Não acho certo isso de enganar as pessoas. Você acha?
– Eu só acho que é certo com aquelas que merecem.
– Ele não mereceu... – Katherine pegou uma pedra e jogou longe – Aquela viagem que ele fez foi só uma vingancinha por aquilo que eu fiz.
– Ele foi por que quis. – ele sorriu – Você fez por que quis.
– Fiz.
– Fez e fez direitinho. – Kevin sorriu ainda mais. Tentei estimular Kat a contar-me mais.
– Eu só quero que ele volte pra mim. Eu o amo sabe? Pra valer mesmo
– Entendo.
Quando Kevin virou o rosto, Kat levantou o dedo indicador e uma onda pequena veio correndo até os pés dela.
– Uou. A maré está subindo. Vamos? – Kevin se levantou e lhe deu a mão.
– Não. Vou ficar mais um pouco. Pode ir indo. Te encontro no Henry’s.
– Tudo bem – Kevin suspirou – Até lá. – e foi embora.
A medida que Katherine ouvia os passos do garoto desaparecendo, ela levantava seu dedo indicador e o girava, sorrindo. Demorei um tempo para perceber o que ela estava fazendo.
Tinha uma linda esfera d’água salgada flutuando na minha frente.
Água. Katherine Woods era a água. Eu havia recebido esse sinal óbvio quando a maré tinha subido, eu só queria ter certeza. E agora bola d’água... Era O sinal. E era linda.
Minha avó estava cochilando no outro sofá. A cutuquei e a perguntei:
– Por quantas horas dormi?
– Hmm – ela se mexeu e olhou o relógio – Cerca de 4 horas.
– Tenho que sair de casa.
– Por que?
– Vou começar a organizar minha tropa de Elementos.
– São muitos, Fayel. – ela arqueou as sobrancelhas e segurou meu braço.
– Um dos riscos que vou ter que cometer. – me soltei dela e saí.
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