Dança com Demônios.
3 Histórias esquecidas.
— Você é retardado? — uma voz irritada irrompeu no silêncio daquela manhã fria. — O mato está todo lá ainda!
O sol ainda não havia nascido completamente ainda, por isso, pela pequena janela do quarto de Khain, apenas alguns poucos raios de sol entravam, acompanhados pelo frio e sereno. O garoto não entendeu direito o que estava acontecendo. Sua visão estava embaçada e a cabeça latejava, assim como a sua perna e seu ombro. As cobertas foram jogadas para longe de seu corpo e um vento gélido soprou, arrepiando a espinha do garoto.
— Anda logo e levanta daí, seu vagabundo de merda! — gritou a voz de forma estridente. Era Lemmy, cheio de ódio. Um homem alto e corpulento, calvo e com uma vasta barba negra cobrindo seu rosto quadrado. Seus olhos estavam vermelhos e pareciam esbugalhados de raiva.
Khain começou a levantar-se, apoiando-se com o braço no chão, mas Lemmy chutou sua mão. Não precisou de muita força para fazer o garoto cair, desengonçado. Estava cansado e seu corpo doía graças ao dia anterior. O garoto voltou da floresta direto para o seu quarto. Estava tarde demais e não viu ninguém para explicar o que havia acontecido. Quando deitou-se em sua pequena cama feita de trapos e restos de panos, só conseguiu jogar um pouco de água no machucado e dormir como uma pedra.
— Ainda não levantou? — resmungou Lemmy enquanto se abaixava e segurava Khain pelos cabelos. Seu rosto aproximou-se do rosto de Khain, que sentiu no mesmo instante o cheiro de cerveja do homem. Lemmy andou bebendo antes mesmo de amanhecer.
— Você é retardado? — perguntou novamente, enquanto Khain empurrava a mão do homem para longe. — Posso saber o motivo daquele mato não estar cortado?
O garoto jogou o cabelo para trás com a mão, penteando-o rapidamente com os dedos.
— Eu fui atacado. — respondeu, após pensar durante alguns segundos. Lemmy jamais acreditaria que ele foi até a floresta, e acreditaria menos ainda que esteve seguindo um cão-demônio até lá.
— Atacado? Pelo que? — riu o homem enquanto Khain lutava para colocar-se de pé e apontava para a ferida na perna. — uma abelha? Um rato?
A ferida não contribuiria muito para a história, pois era muito pequena. Um pequeno furo em sua perna. Não era muito profundo ou largo, mas certamente parecia um ferimento de flecha.
— Dois homens... eu acho. — Começou, enquanto atravessava lentamente o quarto para pegar suas roupas. — Eles falavam de um jeito esquisito, uma língua que eu nunca ouvi. E usavam umas espadas curvadas. Me atiraram uma flecha, mas não acertou bem. — Continuou, enquanto vestia sua camisa remendada de trabalho. Sabia que teria que cuidar mais tarde do serviço que não concluiu, então achou melhor já se preparar.
— Língua esquisita? — perguntou Lemmy, sem se preocupar sobre o machucado na perna de Khain.
— É. — disse, enquanto virava-se novamente para Lemmy. O homem, que antes estava totalmente enraivecido, agora exibia um semblante preocupado. Algo na expressão daquele homenzarrão havia mudado. — Ah, e os olhos deles eram brancos, talvez prateados. Pareciam demônios, não sei.
Lemmy parecia incrédulo. Como se estivesse ouvindo sobre algo que jurasse ser mentira. Era isso. Lemmy sabia o que estava acontecendo. Não era aquele olhar zombeteiro que ele sempre carregava quando alguém contava alguma história sobre serpes no mar ou uma manticora perdida nos fundos da masmorra.
— Escuta aqui moleque. Você tem certeza dessas coisas? Não tá inventando nada pra eu não te dar umas pauladas por você não ter feito o serviço?
Khain bufou.
— Isso aqui parece historinha pra você? — perguntou, enquanto mostrava o machucado na perna, coberto por uma faixa de pano.
— Parece. Espera. Espera ai, eu preciso chamar o velho Gaer, ele precisa ouvir isso. — disse o homem enquanto virava-se para a porta. — Fica aqui, sério. — completou, enquanto saia apressado pela porta.
O Gaer? Aquilo realmente era tão importante assim? Todos sabem que existem coisas na floresta e que ninguém deveria perambular entre suas árvores. Era uma floresta velha. Velha como a ilha e a ilha era velha como o mundo. Era um local intocado pelo tempo ou pelas forças dos homens e, em locais desse tipo, as trevas do começo dos tempos permanecem.
Que novidade havia no que Khain contou ao Lemmy? E se tivesse contado sobre seu encontro com Bael?
Khain foi até seu balde e molhou o rosto para despertar de vez. Seu corpo doía como se seus ossos tivessem sido moídos. Talvez um pouco menos, mas ainda doía. Estava exausto como certamente não estaria se tivesse ficado apenas fazendo o trabalho que haviam lhe dado na manhã anterior. O que havia dado nele? Sair correndo desesperado atrás de algo que nem sabia o que era. Entrar na floresta sozinho... negociar com um demônio.
— Khain? — Era Lemmy, na soleira da porta. Gaer estava ao seu lado, apoiando-se no braço do homem. O velho, quase completamente cego pela catarata, era completamente calvo, com uma rala barba branca contornando seu rosto enrugado e seco. Na mão livre, trazia uma espécie de cajado, que usava mais para se guiar do que como apoio.
Os dois não entraram, então o garoto se aproximou.
— Khain, venha até aqui, garoto. — disse Gaer, com sua voz calma e pacata, enquanto Khain caminhava em direção aos dois. — Você está bem? Como você está?
Fazia muito tempo desde que conversou com Gaer, por isso, sentiu-se um pouco sem jeito.
Gaer era o homem mais velho na ilha. Habel costumava dizer que, quando ele havia chegado na ilha, a masmorra era um lugar cheio de espíritos do antigo povo que vivia ali e os outros habitantes dali eram selvagens, perdidos nas entranhas da floresta. Ninguém sabia o que aconteceu e o motivo de Gaer ser o único vivo daquela época e o próprio nunca contava as historias antigas da ilha para ninguém. Era sensato e sábio, como poucas pessoas da ilha se davam ao luxo de ser e, quando ainda enchergava, ditava as leis para todos os moradores da masmorra, colocando ordem nas confusões e trazendo paz nas brigas.
— Eu estou bem. — Disse Khain, apesar de não ter sido exatamente isso o que sentia. — Apenas um pouco cansado. E você?
Lemmy fechou os olhos com raiva por Khain não ter chamado Gaer de senhor. Mas o próprio não pareceu se incomodar.
— Eu estou ótimo. Ótimo para alguém que não encherga e que geme de dor a cada passo que dá. — riu Gaer. Então voltou-se a Lemmy. — Você pode nos deixar a sós durante um momento?
— Mas... — tentou retrucar Lemmy, incrédulo.
— Khain é um bom garoto, vai cuidar bem de mim. Vá buscar um pouco de leite pra esse pobre velho vá.
— Tudo bem. — Disse Lemmy, em um tom de desaprovamento, enquanto esticava o braço ao qual Gaer se segurava para que Khain o ajudasse. — Fiquem bem. Eu volto em uns quinze minutos.
Khain abriu um pequeno riso malicioso, o que deixou Lemmy com o humor ainda pior. Mas o homem saiu pela porta e fechou-a sem floreios.
O garoto encaminhou com Gaer até sua cama, onde o velho sentou-se lentamente, estalando vários ossos de seu corpo com esse pequeno esforço. Jogou o cajado para o lado e puxou um pedaço de bolo do bolso. Estava muito esmigalhado, mas parecia bom.
— Quer um pedaço? — perguntou, estendendo a mão, oferecendo.
— Estou bem, obrigado. — respondeu Khain, confuso. Não esperava por aquilo.
— Tudo bem. Direto ao assunto, né? — disse Gaer, quebrando um pedaço do bolo com a mão e enfiando na boca, cuja surpreendentemente era cheia de dentes brancos. — Desculpe. É que eu quase não saio do meu quarto mais e me esqueço de como as coisas são por aqui. Todos sempre irritados.
O garoto sentiu-se envergonhado durante um momento. Talvez até culpado, mas não demonstrou. Apenas respirou fundo e continuou encarando o velho. Realmente não estava muito afim de conversar. Queria apenas contar tudo e acabar com aquilo logo.
— Me desculpe. É que ontem foi um dia complicado pra mim.
— Complicado?
— Sim... — respondeu Khain, pensando por onde começaria a contar a história. Talvez o velho não acreditasse na primeira parte, na qual seguia uma espécie de cão negro entre as árvores até a floresta, mas não se importou muito com isso.
— Complicado como? O que aconteceu? — perguntou Gaer, enfiando outro pedaço de bolo na boca e Khain contou tudo.
Bom, quase tudo. Omitiu completamente a conversa que teve com Bael, mas o velho não pareceu desconfiar. Khain era bom em contar histórias e se orgulhava disso. Sabia como preencher lacunas de forma eficaz e torna-las críveis, mesmo elas parecendo estranhas.
Gaer não transpareceu em seu rosto um pingo de preocupação quando Khain citou os homens sombrios da floresta. Não como Lemmy, que pareceu preocupado como nunca.
— E foi isso.
— Muito interessante. — disse o velho, finalmente, que havia permanecido quieto durante toda a história. — Muito mesmo. Você sabe quem eles eram, Khain?
— Não. Eles não falavam nada que eu pudesse entender.
— Eles são lembranças, Khain. Lembranças do passado dessa ilha. — disse Gaer, em um tom cansado. — São seres que caminham pela floresta, errantes, caçando e se alimentando do que encontram. Por muitos anos eu pensei que eles tivessem desaparecido nas entranhas da floresta para sempre, mas vejo que não.
— Quer dizer que eles não são pessoas como nós? — Perguntou Khain, confuso. Não estava entendendo direito onde Gaer queria chegar. Ninguém nunca falava muito sobre o que via de longe caminhando pela floresta, então pouco sabiam sobre o que quer que vivia lá. Mas Gaer não. Gaer é velho e antigamente as coisas deviam ser mais claras.
— Não sei. — respondeu o velho e parecia realmente não saber. — Só espero que eles não voltem a sair da floresta. Você viu apenas dois e eu realmente espero que apenas eles ainda estejam por aí. Antes havia mais. Muitos mais. E vez por outra, eles deixavam a floresta e nos caçavam como cães caçam esquilos.
A porta se abriu e o rosto de Lemmy apareceu em uma fresta, com um olhar desconfiado.
— Está tudo bem aí? — perguntou, enquanto entrava lentamente no cômodo, acompanhado pelo rangido das dobradiças do aço velho da porta. — Gaer, eu trouxe um pouco de leite em um copo para o senhor.
O velho começou a levantar-se, apoiando-se no cajado, enquanto Khain se apressava para ajuda-lo.
— Está tudo ótimo, Lemmy. Tudo ótimo. — disse Gaer pausadamente enquanto Lemmy caminhava até ele e lhe dava o braço como apoio. — Os homens que o Khain viu na floresta eram apenas dois e eles não saíram de lá. Tudo está como deveria estar.
Lemmy lançou um olhar preocupado para khain, que assentiu com a cabeça calmamente.
— Bom, obrigado pela conversa, Khain. E trate de não voltar mais naquela floresta. Você viu o que caminha por lá e eu rezo aos deuses que nunca mais tenha de estar na presença de algo tão horrendo.
— Eu que agradeço por acreditar em mim. — disse Khain, enquanto virava-se para ajeitar a cama.
— Ah, quase me esqueci. Hoje você está dispensado do seu trabalho. Descanse, vou arrumar outra pessoa pra cuidar de tudo.
O garoto sorriu, mesmo o velho não podendo ve-lo.
— Obrigado.
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— Khain! O que diabos você foi fazer na floresta? — perguntou Laura, incrédula, arregalhando os olhos.
Khain, Laura e Habel estavam sentados na beirada da ponte de pedra que atravessava um pequeno riacho afastado da masmorra. Era cedo e um fraco vento soprava do norte, criando pequenas ondas na água. O sol estava ameno e gostoso, mostrando que seria um dia quente e calmo.
— Ah, até parece que você não conhece ele. — riu Habel, enquanto balançava os pés. — Sempre arruma uma desculpa pra quebras as regras da ilha.
Khain empurrou o amigo levemente emburrado. Apesar de tudo, era verdade.
— Qual o motivo de existirem regras se elas não podem ser quebradas? Se não pudessem ser quebradas, não seriam regras, seriam leis.
— Você ainda não me respondeu. — disse Laura, virando-se para o lago. — E pior, nem nos chamou pra ir junto.
Habel levantou-se com um salto repentino e balançou a cabeça.
— Isso é pior do que quebrar as regras, Khain. — começou, enquanto caminhava para a outra extremidade da ponte. O garoto percebeu que ele só estava fazendo um drama brincalhão. — Você quebrou as leis de uma verdadeira amizade. Colocar a vida em perigo é algo para ser feito em duas pessoas. Digo, em três.
— Vocês acham que eu planejei tomar uma flechada na perna? — perguntou Khain, entrando na brincadeira. — Eu poderia ter morrido!
— E deveria ter morrido. — respondeu Laura, levantando-se também. Mas, em vez de ir pra longe, virou-se para o garoto e encarou-o nos olhos. — Você é um idiota. — completou antes de empurrar Khain para trás, tentando faze-lo desequilibrar e cair, mas o gaoroto foi mais hábil e se segurou antes.
— E se eu tivesse morrido? O que seria de vocês sem a minha ilustre presença?
Habel virou-se.
— Seriamos pessoas com uma preocupação a menos. — disse, em tom de deboche e Khain percebeu que, apesar do tom brincalhão, aquilo era pelo menos meia verdade.
Khain era um mestre em se meter em situações perigosas, apesar de nunca entender direito o motivo de tudo aquilo acontecer com ele. Havia algo no destino traçado pelos deuses para ele que o fazia questionar se realmente era pra estar vivo. Claro, ele era bom em evitar a morte, mas de qualquer forma, parecia ser o único a ter de evita-la. Habel era extremamente cauteloso e Laura, apesar de um pouco confusa com praticamente tudo, sempre estava longe do perigo. Mas Khain não. Pelo menos de algo não podia discordar, ele sempre tinha muita sorte e, apesar das coisas sempre darem errado, ele sempre conseguia se safar. Sempre.
— Eu já disse que não tive culpa. Vi algo estranho e fui ver o que era, só isso. — resmungou, levantando-se também, antes que Laura tentasse empurra-lo novamente para o riacho. — Vocês teriam feito o mesmo.
Habel e Laura o encaravam.
— Não, não teriam. Mas eu não tive culpa. As coisas simplesmente aconteceram e... — mas antes que pudesse completar a frase, Laura o avançou sobre ele repentinamente. Seus braços o circundaram, envolvendo o garoto em um abraço forte e caloroso.
Khain, por cima dos ombros da garota, viu Habel sorrir e virar-se de costas, encarando o horizonte.
— Seu retardado. Eu devia te matar por você quase morrer.
— Isso não faz nenhum sentido. — respondeu Khain, retribuindo o abraço.
Khain fechou os olhos. Sentiu o rosto de Laura tocando seu peito. Talvez ela estivesse ouvindo os batimentos do coração do garoto. Tão acelerados... Abriu os olhos e viu Habel sentando-se na mureta do outro lado da ponte, ainda virado para o horizonte.
— Eu sei. Nada faz sentido em relação a você. — disse Laura baixinho.
Khain deu um beijo rápido e silencioso na testa da garota.
— Se eu morresse, quem você ia xingar de tudo que é nome? O Habel? — perguntou Khain baixinho.
— Ninguém.
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Os três caminharam de volta para a masmorra, conversando sobre como Khain era estúpido de entrar na floresta sozinho e ele sabia que esse assunto iria durar pra sempre. Não que isso o incomodasse. Habel e Laura estavam apenas brincando e ele sabia disso. Não sentia vergonha dos dois. Eles eram mais do que irmãos para o garoto.
A caminhada foi prazerosa, era bom relaxar um pouco depois de uma noite tão perturbada. Sua perna doía por causa do machucado, mas nada que não pudesse suportar, mas para compensar isso, seu ombro latejava vez ou outra. A marca de Khain queimava bem levemente, mas logo a dor passava como se nada tivesse acontecido. Quase não havia resquícios do que aconteceu na floresta, mas ele se lembrava. Se lembrava do que havia prometido para Bael e se lembrava do que aconteceria se não cumprisse o combinado.
Olhou para Laura, que sorria enquanto contava do sapo esquisito que achou no dia anterior. Seus olhos brilhavam enquanto ela contava sobre as cores estranhas na pele escamosa do bicho.
— Sério, ele parecia brilhar no escuro! — dizia. — Mas de uma forma meio esverdeada, era muito esquisito.
— Laura. — interrompeu Habel, rindo. — sapos não emitem luz própria. Você acha o que? Que tem fogo verde entro deles?
A garota fechou a cara e empurrou Habel com força, fazendo-o se desequilibrar.
— Eu estou falando que vi um sapo que brilhava no escuro, então eu vi um sapo que brilhava no escuro. Vou mentir pra que? — retrucou, então virou-se para Khain. — Você acredita né? Esse babaca do Habel que nunca acredita em nada.
Khain jogou os cabelos para trás e desviou o olhar para a direita.
— Sabe... as únicas coisas que brilham no escuro que eu conheço são as tochas da masmorra e os meus lindos olhos.
Habel riu.
— O seu narcisismo também brilha no escuro. Dá pra ver lá do outro lado do mar.
Laura bufou. Mas antes que pudesse retrucar, os trio avistou uma garota correndo em sua direção. Suas madeixas ruivas dançavam no ar em um ritmo apressado enquanto seus pés, aos tropeços, avançavam pela singela estrada de terra batida.
Bella parecia assustada. Seus olhos negros estavam arregalados quando parou em frente aos três. Suas mãos, muito alvas e delicadas, apoiavam-se nos joelhos, tremendo, enquanto ela respirava profundamente.
— Cacete, vocês não vão acreditar. — disse ela, entre as golfadas de ar.
Khain e Laura olharam desconfiandos para Bella enquanto Habel tomou a frente e colocou a mão sobre o ombro da garota.
— Só podemos não acreditar em algo se você começar a contar. — disse em tom brincalhão. Estava claro em sua voz, para quem o conhecia bem, que era apenas uma piadinha para descontrair aquele momento esquisito. Mas Bella não riu, apelas olhou para Habel com os olhos estáticos.
— O Daren e a Gweny estão mortos. O Lemmy e o Fahir os encontraram perto da plantação agora pouco.
Laura levou a mão à boca e Khain colocou o braço em torno do ombro da garota. Aquilo foi bem repentino. Ainda ontem o garoto os havia visto passeando com os cachorros pela praia. Não havia nada de esquisito ou anormal com eles.
— Jura? — perguntou Khain, mas logo percebeu que não havia qualquer sentido em duvidar daquilo. — Digo... Como? O que aconteceu com eles?
— Venham comigo, vamos voltar pra masmorra. O Gaer disse que queria todos lá e me mandou busca-los. Acho que aquele velho chato vai falar alguma coisa.
Habel riu, apesar do momento inoportuno. Ele nunca conseguia não rir quando achava algo no mínimo divertido. Laura deu um empurrão em Habel, que olhou para a garota e deu de ombros, lançando um olhar de culpa. Então, os três seguiram Bella enquanto ela virava-se para o caminho que usou para chegar aos garotos e todos caminharam.
— Eu não entendi bem o que aconteceu. — dizia ela, ainda esforçando-se para respirar. Parecia ter corrido bem rápido e durante batante tempo para alcançar os garotos. — Não me deixaram chegar perto, mas de longe eu vi muito sangue e, sei lá, umas tripas.
— Nossa. — disse Laura e todos voltaram seus olhos para ela. A garota olhou para o lado, parecendo preocupada. — será que foi alguém da masmorra? Sabe, não temos muitos animais selvagens que matariam alguém dessa forma. E o Daren é um cara grande né.
Khain roía a unha enquanto pensava no que havia acabado de escutar. Os dois eram pessoas sem problemas com inimizades. Claro que havia algumas brigas e discussões na masmorra, isso é normal quando se convive por tanto tempo, mas nada que pudesse resultar em algo tão macabro. E quando parou para pensar, a ultima briga do tipo havia sido entre Habel e o próprio Daren, mas resolveu não falar nada quanto a isso.
Habel puxou a mão de Khain, para que ele paresse de roer e lançou-lhe um olhar acusador. Khain soltou-se e voltou a roer.
As coisas estavam acontecendo muito rápido. Era relativamente comum as pessoas morrerem na ilha. É um lugar sombrio e há poucos modos de se cuidar de ferimentos ou doenças, por isso, o choque não foi tão grande. Estavam quase que acostumados a esse tipo de coisa, mas nunca eram mortes brutais como essa estava parecendo. Ontem, Khain havia passado por tantas coisas bizarras que mudaram completamente sua percepção da ilha e agora, dois moradores haviam sido mortos. O período de tempo entre essas coisas era muito curto, levando em conta que, apesar da grande quantidade de mortes e coisas esquisitas que ocorrem por lá, elas sempre são afastadas umas das outras. Quase que em um padrão.
— Você não acha que podem ser os caras que eu encontrei na floresta, né? — perguntou Khain, baixinho.
Os outros três olharam para ele, pasmos. Principalmente Bella, que além de pasma, parecia confusa.
— Oi? — disse ela. Claro, ela não sabia que nada que havia acontecido com Khain na noite passada e talvez fosse melhor continuar assim. Era uma história muito longa e ele estava com preguiça de recontar.
— Ah, deixa pra lá. É que eu vi uns caras na floresta e que não pareciam da ilha. — resumiu o garoto, mas antes que pudesse continuar, Bella parou e todos pararam em seguida.
Ela virou-se para Khain, parecendo ainda mais confusa.
— Você é louco? Você tem problema mental? O que você tem? — disse ela repentinamente. Pareceu realmente preocupada em seu modo de falar. — Você chegou perto daquela merda de floresta? Não sabe o que aquele velho conta sobre aquele lugar?
Habel interrompeu e eles voltaram a caminhar.
— Calma lá, florzinha. Que ele é meio burro todo mundo sabe, não precisa falar desse jeito. Agora temos outra coisa a nos preocupar e o Khain aqui todo mundo tá acostumado com as besteiras que ele faz.
Bella olhou para ele e franziu a boca, emburrada. Depois voltou-se para Laura.
— Da um jeito nesse seu namorado. Não quero que ele seja o próximo a ser encontrado com o estômago longe do corpo.
Laura semicerrou os olhos, encarando Bella. Pareceu levemente irritada e Khain não entendeu se ela pelo modo dela falar ou por chamar o garoto de namorado dela. Mas por fim, ela respirou fundo.
— Ele não tem jeito. Parece que já morreu e o cérebro que foi pra longe.
— Vamos para de me insultar, está bem? — interrompeu Khain. — Vamos xingar o Habel, sei lá.
Habel sorriu e levantou uma sobrancelha.
— Você não conseguiria me insultar nem em um milhão de tentativas. Você gosta demais de mim pra isso.
— Quando nós gostamos, é aí que nós xingamos. — disse Khain com uma voz atenuada. — está nas leis não escritas da vida. E quando não gostamos, odiamos em silêncio.
Todos se entreolharam.
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O resto da caminhada foi silênciosa, mas logo estavam na porta da masmorra. Havia uma pequena multidão dos moradores em volta do pequeno palanque de madeira que os mais velhos usavam para discursar ou ditar regras. Estavam quase todos ali. Eram pelo menos umas setenta pessoas. Figuras que, uma vez pacatas e simples, agora estavam receosas e sussurravam em murmúrios umas as outras. Sobre o palanque estava Beronn, com um papel em mãos. Era um homem adulto, por volta de seus trinta anos de idade. Seu cabelo era ralo e escuro, assim como sua barba, onde pelos nasciam em uma parte ou outra de sua face. Seus olhos, cansados e amargurados, rodeados por olheiras profundas, encaravam a multidão que também o encarava.
Os garotos se juntaram ao resto das pessoas e lá encontraram Tristan, outro garoto da masmorra. Tristan era um pouco mais velho que Khain e Habel e tinha o cabelo muito baixo, o qual mantinha raspado por, como ele próprio dizia, não gostar de se preocupar com isso. Seu rosto forte e de queixo quadrado voltou-se para os garotos. Seu olhar parecia triste e distante, mas sorriu.
— Bella, finalmente você voltou com os grupinho da tristeza. — disse ele, dando uma piscadinha para a garota. Sua voz era ligeiramente mais grossa que a de Khain e Habel.
— Eles estavam na ponte, chorando e se lamentando. — disse ela em tom zombeiro. — O Habel tá até com os olhos inchados.
Khain sentiu-se satisfeito pela brincadeira não ter sido com ele.
— O que que o Beronn tá fazendo lá em cima? — disse Laura espontâneamente. — Não é o Lemmy que geralmente fala com o pessoal?
— Talvez o Gaer tenha achado melhor o Beronn falar dessa vez. O Lemmy é meio esquentado, não é bom pra falar sobre morte. — brincou Habel, mas ninguém pareceu sentir que era uma brincadeira. Todos se divertiram internamente. Beronn é um homem mais sensato e centrado, certamente era uma escolha melhor.
— Habitantes da masmorra. — disse Beronn, com uma voz alta e clara. Toda a multidão calou-se instantâneamente. Era um homem que sabia lidar com público muito bem. — Como todos sabem, algo muito triste aconteceu hoje. Daren e Gweny estão mortos.
A multidão, se já estava calada anteriormente, agora parecia que estavam realmente em um silêncio profundo. Khain não resistiu e tossiu e aquele foi o único som que se ouviu durante alguns segundos
— Ninguém sabe exatamente como ou o que aconteceu. Sabemos apenas que, seja o que ou quem os matou, o fez com extrema raiva e violência. Havia muito tempo que algo do tipo não acontecia na ilha, então tenham cuidado. Algo perigoso está caminhando por aí ou até mesmo entre nós.
Em meio a um murmúrio da multidão, Khain cucutou o ombro de Habel.
— O que será que aconteceu com os cachorros que estavam com eles? – perguntou, preocupado.
Habel levou a mão a boca para abafar um riso seco
— Dois caras fortes pra cacete são mortos à beira da praia, tem o corpo dilacerado em plena luz do dia e você está preocupado com os cachorros que estavam com eles?
Antes que pudessem continuar a conversa, Bella deu uma cotovelada de leve no braço de Khain e quando o garoto a encarou, ela simplesmente continuou a olhar para Beronn, que permanecia sobre o palanque
— Deixa o otário falar. – murmurou ela. – quanto antes ele terminar, mais rápido a gente vai embora daqui.
— Diante de tal acontecimento, temo que medidas terão de ser tomadas. – disse Beronn, após um educado pigarreio. – Os horários dos moradores comuns serão mudados e o tempo de ar livre será diminuído drásticamente. Os trabalhos terão de ser feitos em menos horas, por isso, o descanso e as pausas serão menores.
A multidão começou a protestar. Entre as palavras de revolta, Gurir, o homem que administrava as plantações, falou mais alto, sobrepujando todas as outras vozes, trazendo o povo novamente ao silêncio.
— Isso é um absurdo! – reclamou com sua voz grossa e cheia de indignação. – Nós já trabalhamos o dia inteiro e agora teremos que trabalhar mais?
Laura aproximou-se de Khain e sussurrou ao ouvido dele.
— Será que isso tudo realmente é necessário?
— Se é necessário, eu não sei. Só sei que eles estão se aproveitando dessa merda que aconteceu pra fazer a gente trabalhar mais. – disse Bella, aproximando-se também.
Laura a encarou ferozmente com seus olhos claros, porém de um modo sutil que apenas as mulheres sabem. Khain não percebeu nada. Habel, porém, pareceu ter percebido, pois aproximou-se também, virando-se de costas para o palanque, onde Beronn discutia com Gurir.
— Eu não estou nem aí pras regras. Não importa quem morra, eu não vou abrir mão da minha liberdade.
Laura o encarou, confusa.
— Você não tem medo disso que atacou eles te atacar também?
Khain colocou a mão sobre o ombro da garota. Ela virou-se e olhou para ele.
— Isso que matou o Daren e o Gweny, pode não ser bem algo novo. – disse, com uma voz baixa e calma. – Pode ter sido um de nós.
A intenção do garoto foi assustar, em uma brincadeira descontraída, mas todos se entreolharam de forma preocupada. Claro que essa ideia havia passado pela cabeça de todos ali presentes, mas ninguém pareceu querer falar sobre isso abertamente.
— Além disso, para sair de dentro da masmorra, o morador deverá estar acompanhado. Todos estão terminantemente proibídos de sairem sozinhos, ao menos que tenha uma autorização para isso. Apenas pares ou grupos maiores poderão transitar pela ilha e, claro, a segurança será reforçada. Os guardas terão turnos maiores e rondas mais longas.
Bella virou-se para Khain fazendo uma careta.
— Eu sou burra e não sei contar ou o Daren e o Gweny juntos formam um par?
Khain riu baixinho. É claro que aquelas medidas não significavam nada. Ele sabia que era apenas para passar uma leve sensação de segurança para os habitantes da ilha e, talvez, para tirar um pequeno proveito da situação. Talvez isso tudo ajudasse a acalmar as pessoas, a fazer com que elas se sintam melhor. Talvez.
— Bom, apesar de todos os problemas, a ilha continua a funcionar normalmente. Demais informações estarão escritas no quadro de avisos da sala comum. – terminou Beronn e, ao virar-se de costas e começar a descer as escadas da parte de trás do pequeno palco de madeira, parou no meio do caminho. Virou-se e completou. – Tenham uma boa tarde.
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