Dança com Demônios.
4 Coragem de inverno.
Os próximos dias na ilha foram quase idênticos aos dias anteriores ao ocorrido. Apesar das mudanças, as rotinas continuaram basicamente as mesmas para quase todo mundo. Khain e Habel continuaram com seus trabalhos como antigamente e a única mudança nisso foi que tudo ficou um pouco mais árduo e cansativo, mas os dois quase não viram diferença nisso. O cansaço no final do dia era o mesmo. As mulheres não tiveram grandes alterações em seus trabalhos, então apenas Bella e Rose, uma garota mais velha, pareciam ligeiramente irritadas. Khain nunca trocou muitas palavras com Rose, mas sabia que ela brigava constantemente com os líderes da ilha por não suportar trabalhar com costura, entalhe e os outros ofícios que eram impostos para mulheres.
Laura e Bella não se falavam desde aquele dia. Elas nunca foram realmente próximas, mas agora pareciam inimigas declaradas. Habel tentava quebrar o gelo entre as duas, mas isso nunca terminava bem. O terreno que separava as duas era hostil e vazio.
O tempo passou vagarosamente para Khain e tudo o que ele passou na floresta, parecia um sonho distante, antigo e fantasioso. A única coisa que o fazia entender que o que passou foi real, era a marca em seu braço. As vezes, ela ficava fraca e sua cor se apagava até que ela sumisse quase que completamente. Mas ela sempre voltava. Voltava mais negra do que fora, ardendo, queimando como gelo frio que raspa na pele.
Junto com o tempo, passava também o calor do sol que brilhava sobre a ilha, empurrado por um vento frio, que trazia nuvens cinzentas e derrubada as folhas das árvores.
— Eu não aguento mais isso. – reclamava Khain, enquanto observava o rubro morango em sua mão. – queria um trabalho legal igual do Fetz. Sabia que ele já pode andar armado por aí? – resmungou, jogando a pequena fruta no cesto que carregava nas costas.
— Não fique amargurado. – respondeu Habel, colhendo um morango do pequeno galho de onde ele crescia e enfiando-o na boca rapidamente, após um rápido exame. – se você fosse forte igual ele, também estaria treinando pra ser um guarda.
Os dois caminhavam entre as morangueiras, colhendo as frutas antes que a neve caísse sobre as plantas e as matasse. Não era um trabalho realmente pesado, mas as costas dos garotos já doíam.
— Mas ser guarda também parece uma merda. Sei lá, eu queria fazer algo diferente. Mas e você? Você podia muito bem ser um guarda ou caçador.
Habel deu de ombros. Nunca havia contado realmente o motivo de estar ali com Khain, colhendo frutas, cortando mato e dando banho em cachorros. Ele era forte, alto e daria um exímio guerreiro. Quando ele e Khain brincavam de luta quando eram crianças, ele sempre vencia com facilidade.
— Ser guarda deve ser chato. – disse, comendo outro morango em vez de coloca-lo no cesto. – ficar andando pra lá e pra cá com uma espada de enfeite. E quanto a caçar, bom, eu não gosto de maltratar animais.
Os dois se olharam e continuaram a colher os morangos. Estava frio e um vento forte soprava, guiando pequenas gotículas de água para o rosto de Khain, que limpava os olhos com as costas da mão.
As folhas farfalhavam conforme o vento aumentava. Habel entrou em um pequeno corredor da plantação enquanto Khain seguiu reto, recolhendo as frutas. Algumas vezes, terra entrou em seus olhos e nas outras vezes, era a água da garoa que ficava cada vez mais forte. Mesmo assim, continuou. Ele poderia deixar o resto para mais tarde, mas alguma coisa lhe dizia que logo nevaria e, se nevasse e os morangos ainda estivessem em seus galhos, Lemmy ia mata-lo. A masmorra nunca pôde se dar o luxo de desperdiçar comida.
— Habel, você já terminou aí? – gritou, mas sentiu sua voz ser abafada pelo vento. Seu cabelo voava, dançando como chamas ao vento.
A rajada de ar crescia cada vez mais, em golfadas incessantes, carregando consigo pó, terra e folhas. Khain precisou colocar o braço proximo ao rosto para proteger seus olhos enquanto caminhava.
— Habel?
Nenhuma resposta. Talvez fosse o vento abafando seus gritos. Talvez. Por isso, continuou andando até virar a curva que Habel havia entrado. As plantas cresciam altas ali, pois o pomar era coberto por vários tipos de árvores e arbustos frutíferos diferentes. Dessa forma, ficava difícil encontrar as pessoas olhando através dos galhos e folhas. Era como um pequeno labirinto natural.
Khain sentiu a marca em seu braço formigar levemente. Não era qualquer tipo de dor ou queimação, apenas um formigamento singelo. Ele olhou a sua volta, mas não encontrou nada de anormal. Ele ainda não sabia o motivo da marca estar ali, mas sabia que havia um significado por trás dela. Um motivo.
Tentou gritar novamente pelo amigo, mas naõ conseguiu. Não entendeu se a sua voz havia saído ou não, pois não conseguiu ouvi-la. O barulho do vento, dando rítmo a dança das folhas e dos galhos, fazia parecer que qualquer som que Khain fizesse, desaparecesse instantâneamente.
Algo entrou em seu olho, apesar de ele tentar protege-lo com a mão. Ele o fechou e começou a esfrega-lo incessantemente. E, enquanto passava os dedos sobre o olho, viu com sua visão turva e cheia de lágrimas, uma figura negra no outro extremo do corredor. Era um cão. Um cão grade e escuro. O cão de Bael.
Ele estava parado, sentado sob uma árvore, observando o garoto com seus olhos sombrios e misteriosos. Khain não se moveu. Não por medo, mas por cautela. Apenas observou a criatura ao longe. Ela ficou lá, parada, durante um certo tempo e depois levantou-se. Seus pelos moviam-se com o vento, como a grama de uma campina, porém negros como a noite.
Khain tentou gritar, mas seus pulmões não eram fortes o bastante para sobrepujar a ferocidade daquele vendaval.
— Eu não me esqueci! – sibilou com os lábios, porém o som não saiu.
O cão virou-se de costas e caminhou lentamente para dentro dos arbustos, desaparecendo entre as folhagens.
O garoto ficou perplexo. Sabia que aquilo havia sido algum tipo de aviso e que Bael estava o esperando, observando, seja lá como. Khain fitou a marca em seu braço, ela não estava muito escura naquele dia e já havia parado de formigar, mas algo sobre ela ainda o deixava pensativo.
Nossa, que vendaval. Você tá legal? – soou a voz de Habel, às costas de Khain, que virou-se e encontrou o amigo, enfiando outro morango na boca.
Ele certamente não viu nada ou teria comentado algo. Talvez fosse melhor para Habel que não soubesse do que estava ocorrendo com Khain, por isso balançou a cabeça afirmativamente.
— Só entrou um pouco de terra nos meus olhos.
— Dá pra ver. – respondeu Habel, encarando Khain nos olhos.
O garoto passou a manga da blusa no rosto para limpar e ambos continuaram o serviço. Nenhum dos dois falou muito após o vendaval e o clima entre os dois amigos ficou frio como o vento que ali soprava.
Havia algo de errado com Habel e Khain percebeu isso rapidamente. Será que ele havia visto o cão de Bael? Será que havia sentido alguma coisa? O garoto não ousou perguntar, mas algo nos olhos do amigo o assustava.
Ao chegarem na porta da masmorra, Fetz e Will estavam de guarda. Ambos sentados em dois banquinhos de madeira com três pernas. Fetz era um garoto corpulento, de cabelos ruivos e olhos escuros. Seu rosto já era emoldurado por alguns pelos que traziam a sombra de uma provável barba farta. Will era um homem bem mais velho e forte, porém delicado e gentil.
— Como foi o trabalho? – perguntou Will, sem levantar da cadeira. Estava estirado com as costas na parede e as pernas abertas enquanto exalava o conhecido odor do vinho de fora da ilha.
— Foi cansativo. – respondeu Khain, em um tom seco. Não estava realmente cansado, mas também não estava afim de jogar conversa fora.
— Eu posso ajudar vocês a levar as coisas lá pra dentro. – ofereceu-se Fetz gentilmente. Ele nunca foi muito amigo de Habel, mas Khain e ele conversavam bastante quando se encontravam. Era aquele tipo de amizade gostosa, sem compromissos, que não é necessário ficar lubrificando e cuidando o tempo inteiro.
Quando Fetz levantou-se e fez menção de pegar o saco que Habel carregava em mãos, Habel virou-se rapidamente e saiu caminhando, esbarrando seu ombro contra o ombro do garoto.
— Eu não preciso de ajuda. – resmungou, enquanto entrava na masmorra em passos velozes.
Fetz e Will olharam para Khain, surpresos, que deu de ombros.
— Ele tá esquisito assim o dia inteiro. Não sei o que aconteceu. – disse, enquanto entregava a pequena caixa que carregava para Fetz.
O cesto em suas costas pesava bastante, mas achou que iria parecer um fracote se desse o peso maior para o amigo.
— Bom, peça desculpas pra ele por mim, tá? – disse Fetz, enquanto entrava na masmorra, acompanhando Khain.
O garoto assentiu com a cabeça, descendo as escadas com cuidado. O piso estava escorregadio por causa da garoa e humidade, então Khain caminhava a passos firmes e duros, ao lado de Fetz. Estava de péssimo humor, mas não queria parecer mal educado com colega, que o estava ajudando, então deicidiu por puxar assunto.
— Você viu o vendaval que deu? Foi só lá no pomar?
Fetz demorou um pouco para responder. Parecia pensativo sobre como Habel o havia tratado, mas logo voltou seus olhos para Khain e sorriu.
— Tá maluco? Eu quase caí de armadura e tudo. – riu, enquanto caminhavam agora pelo corredor que dava na dispensa.
— Nossa, eu achei bizarro. É difícil essas coisas acontecerem por aqui. – disse Khain, pensando bem nas palavras que usaria. – Esse tipo de coisa não é tão comum, sabe?
— Sabe o que mais não é tão comum? – perguntou Fetz, agora parando no meio do corredor e abrindo uma porta com um empurrao de seu corpo. Era a dispensa. Um lugar amplo, cheio de prateleiras, onde era guardada a comida da masmorra. – Um barco, Khain. Tem um barco vindo pra cá. Ele deve chegar no meio da noite.
Um barco. Era muito difícil barcos virem de fora da ilha. Geralmente, isso queria dizer que novos habitantes estavam vindo.
Na ultima veze que os barcos haviam visto, Khain ganhou alguns livros de Phillip. Ganhou também uma pequena adaga, que permanecia em uma rachadura escondida em seu quarto. Mas fora os livros e a adaga, o barco trouxe também novos moradores. Eram poucos, três homens e uma garota.
Os garotos deixaram as frutas e legumes colhidos em um canto, perto de onde o cesto de Habel estava. Ele havia passado ali minutos antes e deixado tudo.
Khain e Fetz se despediram e foram para direções opostas. Fetz ainda havia um terço do seu turno de guarda para completar e Khain queria apenas se deitar.
O garoto caminhou pelo corredor, perguntando-se se Habel estaria bem. Talvez passasse no quarto dele no dia seguinte para conversar, mas naquela noite não. Não queria estar de pé quando os novos habitantes chegassem. Philip que o desculpasse.
Estava frio quando Khain acordou. Um sopro de vento transpassava a fresta da porta, gelando seus pés enquando suas mãos estavam agarradas com a sua velha e encardida coberta, como se fosse a coisa mais importante da sua vida.
Foi difícil se levantar naquele dia. Os olhos do garoto estavam pesados e o frio o empurrava novamente para a cama, mas ele o enfrentou e, por algum motivo, sentiu nisso uma grande vitória. Lavou o rosto e a boca no balde de água que guardava em seu quarto, se trocou, colocou uma blusa de frio, seu sapato e só então deixou o recinto.
Era dia de retornar ao pomar, mas antes precisava comer alguma coisa e por isso, passou na cozinha.
A cozinha era um lugar amplo e vasto, com várias mesas compridas de madeira tosca. Ao fundo dela, havia um balcão onde Etsy estava, com uma faca em mãos, enquanto descascava uma maçã vermelha e suculenta. Etsy era uma das encarregadas pelo funcionamento e administração da cozinha, fora o fato de fazer ótimas tortas e bolos.
Claro que Khain saiu de lá com uma maçã em mãos, mas mesmo há vários metros de distância, enquanto andava rapidamente para longe da cozinha mordendo a fruta, ainda podia ouvir Etsy rugindo de raiva por ter outra fruta roubada pelo garoto.
Após a terceira mordida, quando chegou em uma curva no corredor, deparou-se com Laura.
— Oi Laura. – disse, enquanto mastigava um pedaço da fruta, tentando não parecer surpreso ou feliz em encontra-la ali.
A garota, que vinha caminhando apressada na direção oposta, apenas sibilou.
— Oi Khain, depois a gente conversa, estou com um pouco de pressa. – e com uma piscadela, continuou seu caminho.
O garoto, porém, nada disse. Deu de ombros de continuou caminhando. Ela sempre lhe dava atenção e, se isso não aconteceu naquele momento, talvez ela realmente estivesse ocupada.
Seguindo seu caminho em direção ao pomar, Khain passou pela saída da masmorra. Will estava lá, parado com um olhar preguiçoso, mas Fetz não. Talvez fosse sua folga. Khain cumprimentou Will com um balanço de cabeça e seguiu seu caminho.
— Ainda não havia encontrado Habel. Ambos trabalhariam no pomar juntos, mas ontem, após a ventania, Habel agiu de modo estranho. Khain não era bobo, sabia que algo havia acontecido com o garoto e isso também o envolvia. Havia encontrado o cão de Bael e, alguns minutos depois, Habel apareceu agindo esquisito. Algo de errado estava acontecendo ali e não precisava ser um gênio para perceber isso.
O caminho para o pomar foi tedioso e, junto ao vento gélido, algumas gotas de uma fina garoa começavam a cair do céu pálido.
— Ótimo. – resmungou Khain, seguindo pela pequena estradinha que ligava a masmorra ao pomar.
Seus osso ainda estalavam e seus músculos estavam doloridos da noite de sono. Havia dormido muito mal naquela noite, mas não sabia bem o motivo. Não teve nenhum sonho esquisito que pudesse se lembrar. Ultimamente, seu sono parecia render cada vez menos e o garoto acordava cada vez mais cansado.
Quando arremessou o resto da maçã para longe, ouviu um barulho entre as árvores que cobriam as laterais da estrada. Não era nada realmente espesso, mas dava para se perder.
O barulho parecia com um grunhido, mas Khain não conseguiu entender bem o que era ou do que era. Curioso, ergueu-se nas pontas dos pés para olhar entre as folhagens, mas não conseguiu ver nada. Porém, antes que se virasse para continuar seu caminho, ouviu novamente o som e desta vez conseguiu distinguir. Era uma mulher.
O garoto parou e pensou durante alguns segundos sobre o que deveria fazer. Will estava na entrada da masmorra, mas seja lá o que estivesse acontecendo com a mulher, talvez não desse tempo de pedir ajuda. A dúvida continuou na mente de Khain enquanto ele abria espaço entre as folhagens com suas mãos esticadas para a frente.
Por Eltharys, o que eu estou fazendo? Pensou durante um momento, mas antes que pudesse sequer pensar em desistir, encontrou o que procurava.
Bella estava no chão, deitada e suas roupas estavam rasgadas. Seus olhos escuros como duas pedras negras, olhavam horrorizadas para um homem que estava sobre ela, com uma mão tapando sua boca e a outra mão em sua perna. Khain não o conhecia. Nunca o havia visto. Era um homem grande, com várias tatuagens em seus braços grossos e peludos. Não havia cabelo em sua cabeça, mas uma grossa barba cobria seu maxilar quadrado.
— Fica quieta ou eu te mato antes e estupro depois. – disse ele. Sua voz era grossa e áspera, feroz e cheia de maldade. – Agora abre essas suas pernas.
Khain, chocado com a cena, ficou imóvel, mas logo voltou a si. Nem Bella e nem o homem o haviam notado ali. Ele poderia simplesmente fugir e fingir que não viu nada, mas gostava de Bella. Gostava de Bella e já estava odiando aquele homem que nem ao menos sabia o nome. Logo, o receio que sentiu no começo, tornou-se um impulso forte de violência. Precisava fazer algo e precisava fazer algo logo. Os dois estavam enroscados no chão e Khain precisava se aproveitar disso. Khain precisava salva-la.
Seus olhos percorreram os arredores velozmente e logo encontrou um galho partido no chão. Não era muito grosso e também não parecia forte ou resistente, mas serviria. O garoto sabia que, se batesse em alguém com muita força na cabeça, não importava a força que a pessoa tivesse ou o seu tamanho, ela desmaiaria e, com esse pensamento na cabeça, avançou.
Em meio a adrenalina, o garoto irrompeu na direção do homem e acertou-o em cheio na cabeça, com toda a força que possuia, mas o galho simplesmente partiu-se ao meio, espalhando lascas para todos os lados.
O homem ergueu-se lentamente, tornando clara a diferença de altura e peso entre ele e Khain.
Morri. Refletiu o garoto, olhando para o homem e para o galho partido que segurava em mãos.
Khain afastou-se com alguns passos, ainda apontando o galho para o homem que o encarava friamente.
— Agora tenho mais um pra matar. – rosnou, enquanto avançava na direção do garoto.
Khain colocou os braços em volta da cabeça para se proteger enquanto o homem lhe dava um soco. O garoto conseguiu esquivar-se, abaixando-se e bateu com o resto do galho no tronco do homem, mas nada aconteceu.
O homem desferiu outro golpe e, dessa vez, o soco acertou-lhe no pé da orelha, arremessando-o para o chão. Tonto e com a visão turva, tentou apoiar-se com a mão em uma árvore para se erguer, mas um forte chute acertou-lhe no estômago. O garoto desabou no chão. Sentiu um forte gosto de sangue em sua boca, mas engoliu. Seus olhos, cheios de lágrimas, estavam fechados e seus braços protegiam o rosto enquanto outro chute o acertava com força, dessa vez nas costelas, fazendo-o rolar de barriga para cima.
Khain nunca sentiu uma dor tão grande. Os ossos esmigalharam dentro dele, romperam-se em uma explosão de agonia. Tentou abrir os olhos, mas a visão estava muito embaçada e ele não sabia dizer se era por causa das lágrimas ou pela dor.
Morri. Pensou novamente. Era a única coisa que passava pela sua cabeça. Era a única coisa em que conseguia se concentrar. Era. Pois logo em seguida, sentiu uma dor ainda maior que a de suas costelas quebrando. Maior do que o chute que veio posteriormente em direção ao seu estômago. Era a marca em seu braço. Ela começou a queimar incessantemente, sobrepujando todas as outras dores, mas logo passou. Dispersando-se como água em um campo aberto e, entre os chutes do homem, a visão de Khain clareou-se momentaneamente.
— Morre seu desgraçado! Seu merda!
Ali ao seu lado, estava Bella, apoiada em uma árvore, tremendo, seminua, com suas roupas rasgadas. Seus olhos, temerosos, vidrados em Khain. Mas havia algo mais. Próximo ao galho partido, estava algo que Khain conhecia. Uma forma familiar.
— Morre seu lixo imundo! – rosnava o homem, pisando com força no estômago de Khain, quebrando ainda mais suas costelas, fazendo o garoto virar o rosto e vomitar sua bilis.
O garoto não conseguia respirar, pois o ar não chegava em seus pulmões. Estava perdido, lutando entre golfadas de ar, quando reconheceu o que estava ali ao seu lado. Era uma foice. A foice que ele usava para cortar o matagal que se formava na costa. Não havia motivos para aquilo estar ali. Devia ser alguma alucinação. Só podia ser. Mas sendo ou não, o garoto esticou o braço e a agarrou. Agarrou com toda a força que conseguiu juntar e, desesperado, cortou o ar em um movimento reto e veloz.
Não foi apenas o ar que foi cortado, mas a perna em que o homem se apoiava para chutar Khain, agora estava pendurada por um pequeno pedaço de carne e pele. Ele urrava de dor, enquanto despencava no chão como uma árvore velha.
Khain apoiou-se em uma árvore próxima a ele e ergueu-se. Seu corpo doía como nunca havia doído, mas ainda conseguiu manter-se de pé. Bella estava horrorizada, mas aos poucos parecia estar recobrando a consciência. Precisava ser forte, tanto por ele mesmo quanto por ela e, por isso, avançou em direção ao homem.
— SEU MALDITO, EU VOU TE COMER VIVO! – gritava, enquanto agarrava a perna decepada. – EU VOU ARRANCAR SEUS OLHOS!
O garoto abaixou-se e desferiu outro golpe, agora abrindo o estômago do homem, deixando as entranhas à mostra.
Khain nunca havia feito algo daquele tipo e nunca havia visto tanto sangue na vida. Era uma cena terrível. O homem engasgava em seus insultos com seu próprio sangue enquanto sua voz ficava cada vez mais baixa. A morte é um presente dos deuses para os homens. Lembrou-se Khain da frase do Primeiro Livro.
O garoto não vomitou, não ficou extremamente perplexo ou abalado com o que havia acabado de fazer, como as pessoas ficavam nas histórias. De fato, suas mãos tremiam, suas pernas estavam bambas, mas nada que realmente lhe afetasse. Tudo aquilo era muito mais pela dor que estava sentindo de seus ferimentos. Mas ao aproximar-se do homem, percebeu que ele ainda respirava. Por algum motivo, ele ainda respirava. Mesmo decepado e perdendo vários litros de sangue.
A marca de Khain novamente queimou e logo ele percebeu o que deveria fazer.
— Bella, me ajuda a carregar ele? Eu tenho uma coisa pra fazer com o corpo.
A garota estava quieta, imóvel junta a uma árvore e, sem dizer qualquer palavra, caminhou até os dois. Seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar e suas mãos tremiam. Um de seus seios estava à mostra, mas ela não pareceu se incomodar.
— Você pode me ajudar? — Khain perguntou. Ela assentiu com a cabeça. — Segura ele pela perna que ainda está inteira, tá? Eu preciso levar ele para a floresta.
Bella não retrucou. Talvez estivesse achando tudo aquilo esquisito demais pra retrucar ou estava tão chocada que não conseguia pensar no quão estranho aquilo soava. Em vez de agir como qualquer pessoa sã agiria, ela simplesmente obedeceu Khain. Agarrou o homem pelo pé, junto ao garoto e ambos saíram arrastando o homem floresta a dentro.
Khain segurava a foice em uma das mãos enquanto segurava a canela do homem com a outra. O garoto gostaria muito de colocar a mão em seus prórios ossos quebrados para, de alguma forma, tentar se sentir mais confortável com a dor que sentia, mas não podia. Tinha que carregar o homem para o lago e, com a outra mão, recusou-se a largar aquela foice milagrosa.
Havia matado um homem. Claro, ele não havia morrido ainda, mas esse era o seu destino. Estava escrito já pelas três irmãs. Eltharys o aguardava. E Khain, mesmo mandando o homem para as profundezas do abismo, não sentia nada sobre isso. Estava feliz por ter ajudado Bella. E, levando o homem para o lago, também estaria ajudando Laura.
A garota não o agradeceu, mas Khain não esperava por isso. Ela não estava em condições de falar muito. Alguns machucados cobriam seu corpo seminu, com marcas roxas de golpes. Fora uma grande mancha vermelha próxima a têmpora, de onde escorria um pouco de sangue.
O caminho para o lago era desconhecido, mas o garoto sabia que, entrando na floresta, conseguiria chegar até lá. Sua marca estava escura e começava, lentamente, a queimar. Não que servisse realmente como uma espécie de bússola para o lago, mas Khain teve a impressão de que ela estava o guiando, de alguma forma que não compreendia.
O homem era pesado, mas quando começou a pensar em falar para Bella solta-lo para que descansassem, reconheceu o lugar em que estavam. Um pouco mais pra frente, seria a clareira onde havia visto o lago... e onde havia encontrado aquelas duas criaturas errantes.
Não hesitou, apenas continuou. A floresta era densa e alguns galhos estavam cheios de espinhos, mas nada que os fizessem parar durante seu caminho. Não haviam visto qualquer animal ou criatura, apenas uma coruja negra que voou de uma árvore para outra, silenciosa, em uma cautela sutil.
A clareira estava exatamente como antes. Um grande campo aberto, cercado por enormes e poderosas árvores, que pareciam erguer-se como torres e, no meio, um lago escuro e incólume. Liso como se fosse vidro.
O garoto olhou durante algum tempo para o lago e depois para o homem. Voltou seus olhos para Bella e pediu que a garota se afastasse. Ela o obedeceu.
Khain deixou a foice em um canto, apoiada em uma das pedras que circundavam o lago e agarrou a perna do homem os as duas mãos. Estava surpreso pelo fato de ele ainda respirar. Nunca achou que alguém sobreviveria tanto tempo naquele estado.
Sua marca queimava e estava negra como se tivesse sido pintada com carvão. Bella caminhou até uma das pedras e sentou-se sobre ela. Talvez ela tivesse sentido que ali, o ar era estranho, que o tempo passava de forma diferente e que havia uma estranha sensação de companhia, pois ela fechou os olhos e deitou sobre a pedra, enquanto respirava fundo.
Khain, usando toda a força que lhe restava, entrou no rio até que a água ficasse em suas canelas enquanto puxava o homem junto. Quando o homem ficou completamente submerso, o garoto voltou e sentou-se na pedra ao lado de Bella.
— Fico feliz que tenha ficado tudo bem...
Khain nunca foi bom com palavras. Nunca sabia quais usar e, quando sabia, engasgava ou gaguejava e, como não havia engasgado ou gaguejado...
A garota se levantou lentamente. Estava muito machucada e Khain não havia reparado muito bem nisso. Não sabia o que havia ocorrido antes de a encontrar e não queria nem pensar no que poderia ter ocorrido se não tivesse chegado onde ela estava naquela hora. Ela não disse nada. Apenas ficou parada, sentada, com as roupas rasgadas, enquanto Khain tentava não olhar para o seio desnudo da garota.
Ela o observava. Seus olhos estavam abertos e vermelhos, encarando os olhos esverdeados de Khain profundamente. Era um olhar calmo, triste, mas reconfortante. Após alguns segundos observando o garoto, ela se aproximou e tocou os lábios do garoto com os próprios lábios. Então deitou-se novamente sobre a pedra e apoiou a cabeça na coxa de Khain.
Khain permaneceu parado, confuso. Confuso, porém feliz e, mesmo com as mãos tremendo, com todas as dores que sentia e todos os machucados que queria curar na masmorra, apenas respirou fundo e começou a acariciar os cabelos avermelhados de Bella. Nunca tinha percebido como ela era bonita.
Nunca imaginei que o meu primeiro beijo seria assim.
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