Dama Da Noite
33 Mundo Humano
Notas iniciais
"O preço foi pago
E parte do futuro, realizado
Tentar com afinco é o que se deve fazer
Pois agora é viver; matar ou morrer."
Outra vez fui jogada na terra, a floresta me cercando. A voz dele ainda ecoava vividamente em meus ouvidos, chamando por mim, querendo que eu ficasse.
Mas se eu o tivesse feito, não ia querer sair de lá de jeito nenhum. Talvez tudo fizesse mais sentido, tudo exceto meu futuro. Eu quis ficar, só que não podia.
Estava escuro e fazia frio, as lágrimas corriam por meu rosto junto com a chuva mas não me atrevi a sequer tentar levantar. Chamei por Andy e ela veio.
–O que aconteceu?
–Não pergunte... nada. –Digo, a abraçando com força.
“Minha pequena Guardiã, eu queria que você fosse capaz de me proteger de mim mesma.” Se Andy estivesse comigo naquele momento... O que eu teria feito? Ela teria me deixado fugir? Se eu tivesse esperado mais um pouco, pelo menos para olhar para ele...
Eu tinha que esquecer tudo antes ou não conseguiria. Tinha de me recuperar primeiro. Mas a lógica pouco importava quando meu coração destroçava a si próprio. Quis morrer e apenas isso.
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Momentos antes ela estivera bem ali, ao alcance de minhas mãos. Mas agora se fora de novo, e dessa vez talvez seja para sempre.
–Porque não me deixou vê-la, Mitchell?
–Foi a vontade dela.
–Não posso acreditar nisso.
–Ela não vai voltar, Sebastian, esqueça.
“Como? Nem sei direito como cheguei aqui. Não sabia nem que ela estava aqui. Alguma coisa só me disse parar vir e eu vim.”
–Vou embora. Não tem porque eu ficar aqui. –Disse á ele.
E pouco tempo depois me vi jogado na minha cama, olhando para onde devia estar meu teto, mas eu o cobrira com fotos. Pequenas lembranças que minhas sombras podem trazer do mundo humano.
–Porque elas podem ir e voltar e eu tenho de ficar preso aqui? Isso não é justo.
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–Andy, procure por uma cidade e descubra que dia é hoje.
–Certo, volto em um instante.
O dia não me importava muito, aquilo era só um pequeno estratagema para fazê-la sair e me deixar sozinha por um tempo. Mesmo com uma mão só, eu podia fazer alguma coisa ali.
Pensei em voltar. Não para o Outro Mundo, para meu apartamento. Voltar para junto de meus amigos ou qualquer outra pessoa que me confortasse agora, mesmo sem saber da verdade, talvez até meu pai.
Mas meus amigos fariam perguntas e meu pai só suporia que uma gangue por aí quebrara meu braço. Nenhum deles poderia entender a situação, então Andy teria de solucionar todos os meus problemas.
–Avery! Hoje é dia... Ah, como conseguiu fazer isso? Uma fogueira é legal, mas você nunca aprendeu a acender uma com pauzinhos e tal.
–Habilidades novas, Andy. Mas então, quanto tempo ainda tenho?
–Duas semanas.
–Quanto isso dá no Outro Mundo?
–Alguns meses, eu acho. Que vamos fazer enquanto isso?
–Ficar aqui até eu me recuperar. Sei lá, não tenho um plano.
–E o que faremos para passar o tempo?
–Ora, nada, Andy. –Sorrio, deitada no chão.
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–Será que estou ficando doente?
Reuni alguma força e um pouco de coragem para me arrastar da cama e buscar um livro de medicina qualquer na estante, por sinal, devia ser um de psicologia, acho eu. Mal prestei atenção na capa, fui folheando-o para ver se achava o que eu queria.
–Deve ser isso que eu tenho, esse negócio de depressão. –Joguei o livro para o lado da cama e ele se juntou a pilha dos que eu já havia lido e relido á procura de algo que fosse compatível com o que eu estava sentindo. Eu sabia que não era depressão nenhuma, na verdade era algo bem diferente. Só que me custava admitir isso.
Quando se está sempre sozinho, você começa a falar tudo o que pensa em voz alta, só para ter a sensação de que desse modo pode diminuir a solidão. Eu já falava sozinho antes de sequer saber ler alguma coisa.
Minhas sombras eram inúteis em termos de conversa, exceto uma. A maioria só sabe falar por onde seus humanos andaram, o que fizeram, o que falaram e mais nada além disso. Sempre achei isso muito idiota até começar a tirar vantagem de uma determinada sombra.
Por isso aquele monte de fotos pregadas no meu teto, as quais posso olhar sempre que me deitar. As pessoas normais não considerariam isso fotos. Isso são mais considerados como momentos da vida de alguém que extraí de sua sombra e registrei em papel. Era um processo difícil e chato, mas valera muito a pena desenvolvê-lo.
Infelizmente, leias antigas não me permitiam ir além. As sombras trazem consigo algo como um pacto com seus humanos. Elas nunca traem os segredos deles.
–Leis idiotas, pacto estúpido. Elas deveriam fazer o que eu quisesse. Então eu sairia daqui e poderia ver com meus próprios olhos o mundo humano e como ele é de verdade.
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–Avery.
–Hum?
–Não quer me dizer o que aconteceu?
Suspirei pesadamente. Desvio minha visão do céu claro da manhã para o céu noturno dos olhos dela. “Uma hora ela ia perguntar, de qualquer jeito”.
–Ele. –Digo apenas.
–O Sebast...
–É. –Corto, para que ela não pronuncie seu nome. Ouvir isso era como levar um soco e ficar sem ar. –Ele apareceu e eu fugi. Só isso.
–Mas por quê? Eu sei que você teria ficado lá e junto dele se pudesse.
–Você sabe o que eu sinto, porque fica me perguntando essas coisas?
–Porque você é muito cabeça-dura para admitir sem ser forçada.
–Não fique me forçando a falar dele. Dói.
Ela estava séria e preocupada. As perguntas me incomodavam porque realmente doía muito. Algo tão grande que eu preferia me matar a suportar sequer mais um segundo daquela dor.
Mas o pior não era nada assim. O pior era querer viver. Sustentar uma esperança mais abrasadora que a dor, que me faz pensar que tudo vai dar certo, mesmo que eu não saiba como. Quero voltar e lutar pelo meu futuro, qualquer que ele seja.
Ainda quero vê-lo.
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–Para de vir aqui, Drake.
–Hum... Não.
–Saia do meu trono.
–Tambem não.
–Pelo menos tire essa expressão de tédio da cara.
–Sabe o que me deixaria mais feliz? Matar você. –E ver ela.
–Cai fora antes que eu parta para a ignorância. Não quero te ver no meu castelo por um bom tempo. Vá fazer algo produtivo ao invés de ficar aqui me seguindo com essa cara como se eu tivesse feito algo de errado.
Mas você fez! Me impediu de vê-la! Tem algo mais errado que isso que Mitchell anda fazendo ultimamente? Ele sai furioso e me deixa rindo sozinho por ter conseguido irritá-lo. A última vez que ele “partira para a ignorância“ fora muito tempo atrás, mas isso deixara os outros muito mais cautelosos perto dele.
Tudo bem se ele não queria me ver. Já que ele não era quem eu queria ver mesmo. Eu faria uso de um truque que andava treinando. “Onde há luz, há trevas”. Desapareço nas sombras.
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–Não se preocupe, logo seu braço vai ficar bom de novo.
–Sinto que estamos perdendo tempo, Andy.
–Você quis voltar para o mundo humano. Escolheu isso.
–Eu sei. E também, abrir o portal de ida é mais difícil e preciso das duas mãos para conseguir.
–Certo. -Ela assentiu, solene. –Espera ai. Como sabe disso?
Me olhou toda desconfiada e ri. Para mim, era super normal aquilo. O olhar familiar de desconfiança.
–Já tentou, não é? –Ela me apontou um dedo acusador – Fica me mandando ir fazer essas idiotices como ver o Joey e então põe em prática seus esqueminhas maquiavélicos. Saquei tudo agora.
–Demorou muito mesmo. –Debochei.
–Se você não estivesse assim, pode apostar que eu te daria um bom tapa.
–Pff... Te venço com uma mão só, Guardiãzinha de nada.
–Ah, então é assim é? Vou te mostrar umas coisas, humana convencida, vem cá.
“Corra. O mais rápido que puder, para longe. Corra até não aguentar mais.” Rodeando as árvores, evitando raízes, apenas brincando de pegar. “Como Marguery, Kat e Rick. Ou como eu e Drake.”
–Rápido!
–Hey, Avery! -Chamou-me.
Virei para trás, para vê-la. Mas bato em algo e caímos. Era Andy.
–Teletransporte! Não é justo!
–Não disse nada sobre ser justa.
–Ainda assim, eu venci.
–Como?!
–Eu peguei você.
–Não pegou nada. Você trombou comigo. E também caiu, aliás.
–Mas tudo isso foi precisamente calculado. Seu cérebro pequeno não entende isso. –Expliquei, me levantando.
–Fica dizendo isso só porque agora sou meio loira.
–Pode ser que sim.
–A culpa disso é sua.
–É verdade. –Concordei.
–Então... Então pare, oras!
–Não acho que seja tão fácil assim. Isso te magoa? Prometo que paro, se a deixa chateada.
–Magoa um pouco. –Ela cedeu.
–Prometo que faço seus cabelos ficarem negros de novo, como estavam antes.
–Como?
–Shhh. É segredo. –Sussurrei, sorrindo.
Eu ri e lhe disse que era melhor voltar, já que começara a chover e estava ficando escuro. Andy concordou, e juntas caminhando para meu abrigo provisório, trilhando o caminho de volta.
Notas finais
Mitchell, pode me xingar, mas eu optei por não dar spoiler nenhum. Eu quero reações em primeira mão. Gomenasai.
Agora se me permitem, eu vou terminar de ver Free! e jogar Dota 2.
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