Dad's Boyfriend
15 Spray de Pimenta
Notas iniciais
(August — Noite antes de Lily quebrar o feitiço)
A criatura se atirou em mim. Poucos passos e um único salto foram suficientes para me alcançar. Pude ver com mais clareza o lobo cinzento e raivoso antes dele tentar atacar meu pescoço. Num impulso desesperado, consegui desviar a cabeça do animal com uma cotovelada. O bichano ficou zonzo por alguns minutos, que aproveitei para dominá-lo antes que voltasse a si e me devorasse. Eu tinha sido derrubado com o ataque, então só precisei envolver seu corpo com minhas pernas, imobilizando-o e sua cabeça com meus braços. Precisei abraçar sua cabeça bem forte contra meu ombro num ponto estratégico em que não conseguiria me morder. O animal resistiu e de fato tinha mais força que eu, mas eu não estava medindo esforços para mantê-lo ali.
— R-Ruby... — gaguejei, recuperando o fôlego. — Eu sei que é você aí dentro. Em algum lugar aí dentro. — a fera se sacudiu e se contorceu raivosa, tentando escapar. Seus olhos me encaravam fuzilantes. — Oh céus... — murmurei fechando os olhos por algum tempo. Eu jamais acreditaria em algo assim se me contassem. Mas estava acontecendo comigo naquele momento e era bem, bem real. Olhei piedosamente para Ruby, que já substituía o olhar raivoso por um de súplica. Eu afrouxei meus braços em torno de seu pescoço, mas ela grunhiu outra vez nervosa e tentou se soltar com mais violência, me forçando a segurar forte de novo.
O que eu faria agora? Se eu soltasse, com certeza aquele lobo iria me atacar. E ainda que eu conseguisse fugir, outras pessoas estariam em perigo. Eu temia não ter energia suficiente para segurar o animal a noite toda. Mas eu não tinha ideia melhor. Caramba. Ruby. Minha Ruby. Uma lobisomem. Então essas coisas eram pra valer mesmo.
P#ta merda. Ficamos naquela posição por horas, no frio daquela rua deserta. A chuva chegou leve e logo Ruby quase não lutava mais contra mim.
Com uma das mãos, qual eu podia mexer mesmo abraçando o animal, acariciei sua cabeça, na esperança de mantê-lo calmo. Logo a criatura feroz estava cansada demais para qualquer resistência e repousou sua cabeça em meus braços, como se fosse um filhote dócil. Mas seus olhos atentos e orelhas em pé, me mostravam que ela esperava qualquer descuido meu para escapar.
A chuva passou e vi uma garota de cabelos ruivos, talvez castanhos claros, se aproximar. Ela tinha uma trança jogada por cima do ombro e o resto do cabelo solto. Atravessou a esquina, chegando à rua escura onde eu continha minha namorada lobisomem. A princípio pareceu não nos notar. Estava ocupada demais praguejando alguém e limpando os olhos molhados, que brilhavam à distância. "Por favor não olhe pro outro lado da rua! Por favor, não olhe!", torci em pensamento quando ela passava por nós. Mas ela olhou. — Oh meu Deus! — ela exclamou assustada.
— Ei, oi! Calma, tá tudo sob controle. Só continue seu caminho e vá pra casa sem olhar pra trás! — tentei evitar que ela entrasse em pânico, mas já havia entrado.
Ela mexeu na bolsa nervosamente, tirando algum objeto. — Larga a moça seu... Seu... Desgraçado! — ela parecia ter juntado todas suas forças para dizer o palavrão. A julgar pelo escuro onde eu estava, não era difícil adivinhar o que a garota julgava ter visto. Algum cara segurando um vulto também escuro, numa posição estranha, em uma rua deserta e tão tarde... Realmente podia parecer algo horrível. — Olha só, — ela apontou o objeto que agora eu podia identificar como um frasco. — Eu tenho spray de pimenta... E não tenho medo de usá-lo! — ela tremia tanto que temi que suas pernas quebrassem.
Ruby ficou agitada outra vez. Formaram-se rugas em seu focinho quando ela mostrou os dentes. Soltou-se numa facilidade incrível e disparou rumo à moça que gritou aterrorizada. Eu podia jurar que Ruby tentava me proteger. Mas eu precisava proteger de Ruby, aquela que tentou a proteger de mim. Bastante confuso, na verdade. Eu me levantei o mais rápido que pude e corri junto da minha namorada.
A lobisomem saltou e no ar consegui puxá-la pelo rabo, arremessando-a para trás de mim. Ruby caiu no chão pesadamente, choramingando. Na mesma hora eu corri até ela e me ajolhei pra ver se ela estava bem.
A garota diante de nós, derrubou o frasco e deu alguns passos em nossa direção com as mãos sobre a boca. Ela mesma se assustou com o que estava fazendo e voltou pra trás aos pulos. Ruby rosnou pra ela e tentou se levantar falhamente, tropeçando nas próprias patas. — Shhhh... Calminha, garota.
Eu esperava que a ruiva não tivesse ouvido. – V-você salvou minha vida! – ela disse tirando as mãos que cobriam a boca.
— E olha que você ia me atacar com um spray de pimenta. – brinquei, irônico.
— Ah, não, não na verdade. – ela olhou para o frasco caído no chão, abaixou-se e esticou seu braço para pegá-lo, rindo nervosamente.- É só desodorante! — eu estava esperando o momento em que ela daria o fora dali, afinal, ainda corria perigo, mas ela falava demais – Eu sempre carrego desodorante comigo. Eu costumo emprestar pro m... costumava emprestar pro meu ex-namorado. Bom, gosto de estar prevenida.
— Hã... é, você está certa.
Eu podia jurar que haviam lágrimas de dor nos olhos do lobo à minha frente.
— Eu estava voltando da casa do meu melhor amigo... – a garota tagarela começou outro discurso, me fazendo revirar os olhos — ...Bom, “melhor amigo” esse que foi um babaca comigo hoje. A princípio eu queria só ir pra casa. Mas pensei melhor e... não seria nada bom pra minha irmã me ver chorando. Então decidi dar uma volta. Aí veio essa maldita chuva e me atrasou mais ainda quando eu já tinha decidido ir pra casa! Acredita que fiquei um tempão parada debaixo de um toldo? E você, o que faz aqui?
Eu estava incrédulo. Que tipo de pessoa quer ficar parada conversando após ser quase atacada por um “animal feroz”? Um “animal feroz” que continuava bem ali? – Eu estou impedindo esse lobo enorme de comer você inteira, ou qualquer um.
— Ah! Sim! Sim! Claro! – ela ficou embaraçada por breves segundos, me fazendo acreditar que iria embora, mas cedeu à sua falação. – Sabe, esse bicho com certeza está muuuuuito bravo com alguém. – Ela examinou Ruby e eu sacudi a cabeça negativamente, sem saber se ria ou se gritava com ela pra ir embora. – Eu estou desse jeitinho com alguém também! Meu ex-namorado, que ao que parece me trocou por outra pessoa! Argh! Aliás, com ele e esse meu amigo babaca. Por que os homens tem de ser tão idiotas assim? – eu arqueei uma sobrancelha, evidenciando minha expressão de “Oi? Eu estou bem aqui” e ela se enrolou nas palavras. – Eu não quis dizer que... digo, é claro, eu percebi que você é um homem. Eu não percebi que falava com um homem. Caramba, isso não soou esclarecedor, não é? Por favor, não fique chateado. Você entendeu, certo? Me desculpe!
Apesar de irritante ela era de certa forma adorável. – Sim, entendi. – dei uma risadinha.
— Como eu disse, meu ex-namorado me deixou pra ficar com outra pessoa. E sabe o que esse meu amigo fez? Me tratou como lixo! L-i-x-o! E eu cheguei a pensar que estivesse gostando dele!
— Talvez seu namorado tenha te deixado pra ter um tempo sozinho, não porque necessariamente tem outro alguém. – não esperava que ela entendesse o motivo de eu dizer isso, mas eu não sabia como alguém conseguiria ficar cinco minutos perto dela sem pedir um tempo sozinho.
— Oh meu Deus, você está sendo tão gentil comigo! E eu até pouco tempo, enquanto usava das minhas táticas para desvendar você, cogitei chamar a polícia pra você!
Eu comecei a rir. Naquela cidadezinha retrógrada, a única figura policial era o xerife (eu me espantava que um local como aquele tivesse uma universidade). E a julgar pelo que a Ruby me dissera, a essa hora o xerife estaria aos amassos com o jovem namorado ou dormindo agarrado com ele.
“Auuuuuuuuuuu!” Ruby uivou, lembrando à garota de que ela ainda estava ali.
— Bom, eu devia ir andando... – a baixinha de cabelos claros finalmente disse, gesticulando com os polegares seu caminho a tomar.
— É, você devia. – concordei num sorriso simpático.
— Sou Juliet, a propósito! – ela disse num último aceno.
— August.
— August. Obrigada outra vez por salvar minha vida! Te vejo por aí.
— Não precisa agradecer. – eu fiz um sinal de saudação militar e lhe lancei um sorriso torto.
Eu assisti Juliet dobrar a próxima esquina, sumindo de vista, enquanto acariciava as orelhas peludas de Ruby. – Oh lobinha... Você não consegue andar, consegue? – Eu sabia que ela não me responderia, mas falar com ela me dava um conforto mesmo assim. Eu me arrisquei ao chegar a minha cabeça próxima demais à dela. Seus olhos assentiam como se me respondessem que não, não podia andar. Uma das patas dianteiras devia estar quebrada. – Ruby, eu sinto muito... eu sinto mesmo... me desculpa.
Eu não podia estar me arriscando mais. Num movimento rápido, beijei a testa do bichano.
Não precisava mais ficar com ela ali. Ruby estava contida, eu conseguiria leva-la pra casa e escondê-la pelo resto da noite se a trancasse comigo no quarto.
Decidi mesmo levá-la para casa. Era até melhor pra proteger as pessoas dela e proteger ela mesma que na rua. A essa altura, meu pai estaria dormindo, então com um pouco de sorte, eu conseguiria entrar em silêncio e levá-la comigo pro quarto sem que meu velho acordasse e morresse de susto com a cena.
Como eu não imaginava uma maneira de colocá-la na moto, resolvi deixar o veículo ali mesmo para buscar no dia seguinte. Carregaria minha namorada nos braços, não tinha outra escolha. Escondi os capacetes em meio a quaisquer arbustos que achei por ali e em seguida, peguei Ruby com cuidado. Inicialmente, sim, ela tentou me morder, mas percebeu que eu só queria ajudar e me deixou carregá-la.
Nós chegamos à minha casa consegui executar meu plano com perfeição. Ao entrar em meu quarto, repousei Ruby no grande e fofo tapete diante da minha cama. Fechei a porta vagarosamente, tentando evitar que rangesse, mas era impossível. Ouvi meu pai resmungar algo enquanto dormia, mas não tinha acordado, então tranquei a porta aliviado. Diferente da loba que já tinha a pelagem seca por ter se sacudido várias vezes enquanto a carregava, eu estava bastante úmido porque minhas roupas estavam molhadas. Eu estava exausto e com frio, tudo o que queria era um bom banho quente e dormir. Mas se eu ligasse o chuveiro, corria o risco de acordar meu pai e estragar tudo.
Tirei minhas roupas e as joguei num canto, ficando somente com minha cueca boxer preta. Eu teria que dormir daquele jeito mesmo. No dia seguinte colocaria as roupas pra lavar e também a coberta que usaria, porque era chato com essas coisas. Eu estava com o corpo sujo e me recusava a vestir roupas limpas. Já bastasse ter que lavar uma coberta de bobeira. Sequei meu corpo com um roupão e depois peguei um cobertor e fui pra cama. O lobo no chão apenas observava meu ritual. Então, deitei na cama, me cobri e encolhi meu corpo de frio. “Droga August, você realmente devia cogitar vestir alguma roupa agora”.
A chuva voltou, desta vez furiosa, fazendo bastante barulho no telhado. Definitivamente era uma noite muito fria. Eu fiquei por algum tempo encolhido naquela posição fetal e logo comecei a tremer. Ok, o que aconteceu a seguir foi inédito. Acreditar no fato de que lobisomens existiam e minha namorada era um deles, era mais fácil que acreditar no que eu estava vendo.
Ruby se levantou com imensa dificuldade por conta da pata quebrada e com a mesma dificuldade, subiu na minha cama e deitou-se cuidadosamente sobre mim, o que me fez sentir instantaneamente mais aquecido. Não vou negar que o animal cheirava um pouco mal por ter tomado chuva antes. Mas eu também com certeza não estava com meu melhor cheiro e aquele gesto era tão fofo que eu simplesmente não podia me importar com o cheiro.
— Oh, Ruby... – sibilei para a fera. – Que olhos grandes você tem.
Pude jurar que por uma fração de segundo, vi a enorme criatura por cima de mim, abrir um sorriso. A porta estava bem trancada. A chuva fazia um barulho gostoso. Ruby estava comigo. Estava tudo bem.
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