Notas iniciais
Valeu a pena ficar até de madrugada escrevendo isso. Aposto que vão gostar muito, bem como eu gostei de escrever! Só não revisei o texto ainda, to com preguiça e preciso dormir. Hahahaha Qualquer coisa eu arrumo depois.

(David Nolan POV)

Eis que finalmente era dia de pegar o Neal. Eu já estava louco de saudades do meu homenzinho. Decidi passar no supermercado pra comprar suco de laranja que ele tanto gostava e algum pote de sorvete. Para minha surpresa, lá estava Snow. Ela estava completamente distraída escolhendo detergentes.

— Snow. — cumprimentei-a, parando ao seu lado. Só então ela me viu.

— Charming. Ei. — Snow também com certeza não esperava me ver ali, e ela me olhou um tanto confusa, sem saber o que dizer. Ela sabia de Chris e eu, porque pedi que Emma lhe contasse, já que eu nunca conseguiria. Mas não trocamos nenhuma palavra sobre o assunto desde que ela tomou conhecimento. Já evitávamos contato de qualquer maneira, então esse era um daqueles momentos estranhos em que você sabe que a pessoa sabe do que você está pensando, mas você prefere não dizer nada sobre aquilo de vergonha e ela também sabe disso.

— David. — corrigi. — Melhor me chamar de David agora.

— Bem como é melhor você me chamar de Mary Margaret. — e lançou um sorriso irônico.

— Oh. Você tem um ponto. Então... eu ia comprar algumas coisas e passar lá pra pegar o Neal. Onde ele está?

Ela colocou alguns detergentes em seu carrinho de compras e fez um sinal pra que eu a acompanhasse. — Está na Ashley, brincando com a filha dela, Alex. Você pode pegá-lo lá se quiser, eu já ia buscar o Neal assim que saísse daqui mesmo. — Ela continuou falando algumas coisas aleatórias, mas não dei muita atenção.

Peguei o que eu ia comprar e saímos juntos do supermercado. — Posso te dar uma carona? — Eu já te deixo em casa e depois pego o Neal, é caminho.

— Ah, claro David. Obrigada. — Mary Margaret respondeu finalmente sorrindo de modo gentil pra mim.

Segurei suas sacolas e abri a porta para que ela pudesse entrar no carro. Mas por falar em sacolas, não sei expressar tamanha infelicidade em ter esquecido a sacola com os “presentes” de Regina Mills bem ali, no chão do banco do passageiro.

— Ah David, desculpe, eu sou tão estabanada! — ela disse ao perceber que derrubou a sacola com um de seus pés ao entrar no saco. — O que é isso, é alguma coisa sensível? — ela abaixou-se mexendo inocentemente na sacola.

— Não, não! Deixa isso aí, não tem problema, sério, pode deixar! — tentei impedi-la, mas não deu tempo.

— Oh meu Deus. — foi tudo que ela disse, ficando ainda mais branca que já era.

— I-Isso... isso não é meu. Isso... Eu quero dizer, é “meu” mas... não fui eu que comprei...

— David, está tudo bem. Você não tem que explicar nada pra mim. — ela me cortou como se tivesse invadido minha privacidade sem a intenção, mas eu queria que ela soubesse que eu não estava com aquilo porque queria, afinal era muito embaraçoso.

— Snow, por favor, me deixa explicar. Eu não comprei isso, eu...

— Mary Margaret. — ela corrigiu.

— Mary Margaret. Ouça, Regina me deu isso. Ela anda com um senso de humor um tanto... questionável ultimamente. Eu nem sei ainda o que vou fazer com isso. Talvez eu jogue fora, eu...

— Tudo bem, David. Está tudo bem. Mesmo que queira ficar, não é da minha conta. Podemos ir?

Eu estava desconfortável, mas não tinha o que falar. Liguei o carro e a levei em casa, sem trocarmos uma sequer palavra até lá. Mas quando chegamos precisei ser insistente, não queria que ficasse aquele clima estranho.

— Mary Margaret, me deixa só explicar uma coisa. — eu a segurei pelo braço quando ela estava entrando pela porta. Na verdade ela não tinha me convidado a segui-la até lá mas eu fui mesmo assim. — É normal que tenha se assustado com aquilo, reconheço que é estranho, mas eu realmente não tenho nada a ver com isso. A Regina...

— Me solta David! — ela se virou feroz e puxou o braço.

— Você está nervosa? Espera, você está sim nervosa. — o olhar raivoso dela me deixou estressado. — Escuta aqui Mary Margaret, o que te incomoda é o fato de eu ter seguido em frente porque eu deveria ter ficado depressivo chorando por sua causa o resto da vida enquanto você fode com o doutorzinho ou o fato de eu ter seguido em frente com outro cara?

“SLAP!”, fez o tapa que levei na cara, me fazendo bambear.

— Não use essas palavras comigo David. Nunca mais, seu grosso! Se você quer mesmo saber, tudo me incomoda! Me incomoda mais ainda o fato de brincar de namorado com um garoto!

Eu ainda estava perplexo e surpreso com o tapa, mas lhe respondi. — Não somos namorados. E ele não é um garoto. Chris é um homem.

Ela caiu no chão de joelhos lentamente, arrastando as costas pela parede. — Você não entende, não é? Eu tenho ciúme de você, David. Muito ciúme. Você não é o tipo de pessoa que se esquece da noite pro dia. Eu... eu te amo.

— Não. Eu não estou ouvindo isso. Mary Margaret, quem você pensa que é pra brincar assim com meus sentimentos? — a essa altura nós dois estávamos chorando. — Você pensa que eu parei de amar você? Nem por um minuto. Posso ter perdido meu interesse por você, o romance da coisa. Mas meu amor de amigo, de família, continua aqui e é o mesmo. Então você não pode me dizer essas coisas e esperar que fique tudo bem. Porque eu te amo pra caramba e você acaba fazendo doer muito. Eu fiquei arrasado e em prantos por semanas, louco pra voltar com você. Mas você já estava toda saidinha com o Whale. Eu morri de ciúmes de você. E agora eu não posso ser feliz também? Só você pode seguir em frente?

— Apenas... vai embora logo David. Por favor. Vá buscar o Neal.

— Estou indo. — respondi enxugando os olhos. Eu já estava dando as costas quando pensei em algo e acrescentei. — Mas não pense que vou deixar você ficar brincando comigo. Não estou a fim de nenhum “vai e volta”. Você já era na minha vida. E sabe qual a pior parte de ter me dito o que disse hoje? Que eu não consigo odiar você, mas eu odeio te amar. Eu não devia me importar com você e nem te considerar mais como família. O único motivo de eu não desaparecer dessa cidade e te deixar sem notícias de mim pra sempre, é o Neal.

Eu saí dali com a intenção de nunca mais vê-la. Eu fui trêmulo e nervoso até a casa de Ashley, mas ao ver meu pequeno, mal pude conter minha felicidade e tudo passou. Me obriguei a esquecer tudo de ruim que pensava. E com aqueles olhinhos olhando pra mim não era nada difícil.

— Papai! — ele gritou histérico, correndo pra me abraçar.

— Oi Neal! Sentiu minha falta?! — me abaixei à sua altura para me abraçar. O agarrei muito forte e levantei ele comigo, pegando-o no colo. — Obrigado por ter cuidado dele Ashley. Espero que Neal tenha se comportado bem. — eu disse para a loira que o acompanhara até a porta.

— Imagina David. Foi um prazer, Neal é um doce.

Ambos sorrimos e eu estava prestes a me despedir quando a filha dela, Alex, um pouco mais velha que Neal veio correndo e gritando. — Tchau Neal! Volta pra gente brincar mais amanhã! — ela acenava com as duas mãozinhas e ainda mandou um beijo.

Eu deixei uma risada enorme escapar e Ashley me acompanhou. Neal ficou vermelho e se escondeu tímido no meu ombro.

— Ah Neal, não faz bobeira. Vai lá se despedir da sua amiguinha. — o coloquei no chão e o empurrei cuidadosamente na direção dela. Neal deu um abraço tímido na menina.

Nós nos despedimos ali, eu e Ashley tendo um ataque com tamanha fofura dos dois.

— Ela é sua namorada? — perguntei quando entravamos no carro, enquanto colocava o cinto nele. Nunca me lembrava de carregar a cadeirinha do garoto.

— Não pai! Eu sou criança, criança não namora! — Neal me explicou, como gente grande e cruzou os bracinhos, nervoso.

Mesmo com ele bravinho eu não conseguia deixar de sorrir. — Esse é meu garoto. — baguncei seu cabelo loiro — Só pode namorar quando tiver trinta anos, ok?

— Ok. — ele respondeu olhando pra janela. Era engraçado porque Neal não tinha noção alguma de idade, então nenhum número era extremamente alto ou baixo pra ele.

Estávamos na metade do caminho quando um homem na calçada viu o carro e entrou na frente com tudo. Eu tive que frear bruscamente e Neal levou muito susto. Foi jogado pra frente, mas por sorte o cinto o segurou bem, apesar de não ser o apropriado pra idade dele.

Eu desci e bati a porta com força. Era Albert Spencer, o promotor. Ou o Rei George, meu “pai”, como preferir.

— O que você quer?

— Conversar. — ele me respondeu perfeitamente calmo.

— Você se joga na frente do carro das pessoas pra conversar? Meu filho está lá dentro, eu podia ter te matado e não seria algo agradável pra uma criança ver.

— É sobre isso que quero falar com você, Nolan. Você é meu filho e quero acertar as coisas com você. Quero que meu neto tenha um avô.

Parecia que eu tinha levado outro tapa. Eu estava muito surpreso. Como assim ele se lembrava de ser “meu pai”? Então ele não tinha esquecido como os outros? Eu não sabia o que entender.

— Você está louco Spencer? Você não é meu pai, eu odeio você. Você matou um sujeito inocente pra incriminar uma amiga minha e você pode estar impune, mas eu nunca vou te perdoar por isso. Acha que eu deixaria meu filho perto de uma pessoa como você?

Eu estava pronto pra lhe dar um soco na cara, mas sua cara de paisagem me deixou confuso.

— Mas do que diabos você está falando?

— Você... não se lembra?

— Eu não faço ideia do que você está falando, mas você sabe que o que acabou de fazer é uma acusação grave, não sabe? Você está caluniando o promotor dessa cidade.

— M-me desculpe. Eu estou com a cabeça um pouco longe hoje. — eu passei a mão pela testa, nervoso e confuso.

— Eu vou esquecer isso. Você parece ter visto um fantasma. Olha, vou te dar meu telefone. — ele tirou um papel do bolso da calça e uma caneta de algum lugar do paletó. Rabiscou um número e me entregou. — Sei que sou só seu padrasto e que você não teve nenhum apoio ou suporte da minha parte depois que sua mãe morreu. Mas sou um homem velho e solitário, David. Me sinto sozinho. Quero arrumar as coisas. Estou há tempos querendo falar com você. Só vá pra casa, pense direito e quando puder, me ligue.

Era muita surpresa pra um só dia. Fiquei tão atordoado que só saí dali sem responder nada, liguei o carro e assim que ele saiu da rua, segui em frente. Algumas ruas depois, depois de Neal me perguntar o que tinha acontecido pensei bem é só pude responder uma coisa. — Aquele homem é mau. Se um dia você ele se aproximar de você na rua, grite por um adulto. Se puder, ligue para o papai ou para a mamãe. E na pior das hipóteses, corra. — Neal se encolheu no banco.

Já em casa, consegui fazer o menino sorrir e brincar de novo. Fizemos guerra de cócegas rolando pelos sofás, quebramos um vaso juntos e nos lambuzamos de sorvete. Nos divertimos até ele me cansar, quando me atirei no sofá.

— Papai, liga pro Chris! Fala pra ele terminar de ver Tinker Bell comigo! — o garoto me disse, sacudindo meu braço.

— Não filho, ele não pode.

— Não pode por quê?

Não tinha um porquê. Eu fiquei tímido só de ver o entusiasmo do garoto para ver Chris outra vez. E depois do que houve com Regina... não sabia como me comportar com Chris. As coisas estavam tão complicadas entre nós... Isso inclusive acabou me lembrando de ligar pra Regina. Eu precisava urgente falar com ela sobre Spencer.

— Neal, liga a TV e fica quietinho que eu ligo pro Chris, tá? Eu já volto. — eu disse indo pra cozinha com o celular, mas pra fazer a ligação pra Regina.

— Você tá indo ligar pro Chris agora, papai? — ele levantou-se do chão e a carinha dele mudou. Abriu um sorriso cheio de esperanças.

— Agora não, daqui a pouco. Primeiro tenho que falar com a Regina.

— Tá bom, mas depois liga pra ele?

Deixei a sala e Neal comemorou hiperativo. Eu diria pra ele que liguei e Chris estava ocupado.

— Olá David. — a voz de Regina soou apreensiva do outro lado da linha.

— Relaxa. Eu não quero e não vou falar sobre aquilo. Eu tenho que te contar uma coisa que aconteceu hoje.

— Sou toda ouvidos.

— Eu encontrei Albert Spencer hoje. O meu pai adotivo da Floresta Encantada, se lembra? Ele me contou uma história muito maluca sobre ter me abandonado quando minha mãe morreu. Não é como se a memória dele de Storybrooke tivesse sido restaurada, ou ele tivesse sua memória da Floresta Encantada. Ele simplesmente acredita em algo novo.

— Sim, não é uma surpresa pra mim. Eu estive revirando meus livros de magia, inclusive algumas coisas da minha mãe aqui. O que fiz foi muito arriscado. Vejamos... como vou te explicar? — Regina deixou algum objeto sobre uma mesa e se preparou para me dar uma verdadeira aula. — Eu não poderia lançar uma maldição de tamanha proporção sem o coração de quem mais amo. No caso, Henry. Bom, posso te dizer que o que fiz foi uma espécie de “gambiarra” no mundo da magia. Você já passou pela maldição do sono, certo? Você sabe então que ela nunca é cessada por completo. Uma vez amaldiçoado, você carrega consequências por toda vida, e é por isso que a maioria das vítimas continuam tendo pesadelos reais e se queimando com fogo mesmo depois de acordadas. Maleficent usou esse tipo de magia pra fazer a cidade praticamente toda dormir uma vez. Ok, agora imagine os vestígios dessa maldição do sono que ela usou, como uma espécie de “vírus” no ar. Eu usei dessa força. Eu converti essa magia em minha vantagem. Foi isso que trouxe à cidade os efeitos da primeira maldição de novo.

Wow, muita informação. — respondi tentando absorver tudo.

— Vou explicar melhor pra você, David. A maldição do sono é até quebrada, mas continua em você como um vírus, sem se manifestar. Ela é permanente, só não produz efeitos. Eu poderia pessoalmente fazer uma pessoa ou duas terem a memória que eu quisesse, como fiz com French quando apareceu na época da primeira maldição, mas a cidade inteira? Então eu pesquisei nos meus livros e descobri que podia canalizar a energia da maldição de Maleficent. Aproveitando-a para fazer o que fiz. Mas veja bem, os efeitos do que fiz são muito instáveis. Só agora pude enxergar isso. Não li a fundo sobre e não medi as consequências. — sua voz estava ainda mais tensa agora. — David, não temos o mesmo número de pessoas da primeira maldição para restaurar tudo como era a começar por Graham. Quatro pessoas não dormiram com a maldição da Mal, incluindo Aurora. A “energia” em vocês, por assim dizer, já estava fraca por terem passado pela experiência há muito tempo. E mesmo assim, tive que usá-la. Pense que para cada número de pessoas que dormiram, pude converter em identidades ou lembranças novas. Para vocês que não dormiram, eu aproveitei no número excedente para as novas pessoas que vieram para a cidade. Mas vieram muito mais de quatro pessoas. E Aurora apesar de já ter “dormido” como você, também precisou de uma nova identidade. Então é como se as pessoas tivessem menos dessa magia que realmente precisam, pra dar pra todo mundo. Ou seja, está tudo irregular. Se prepare para mais pessoas reagindo diferente ou pior...

— Ou pior o que? — me encostei no armário da cozinha, me preparando pro que ela diria. “Papaaaaai! Já ligou pro Chris?”, Neal gritava lá da sala.

— Creio que cedo ou tarde alguns vão acabar se lembrando. Uma pessoa pode “acordar” outra desse novo feitiço fazendo-a acreditar. É como um efeito dominó. E tudo vai desmoronar.

— Você só pode estar brincando comigo.

— Não estou. E eu nem queria te contar, mas tem mais. Descobri hoje em anotações da minha mãe que qualquer feitiço convertido em outro pode ser quebrado da mesma forma que o original.

— Um beijo de amor verdadeiro? Se fosse assim nenhum casal apaixonado poderia se beijar nessa cidade, já teria muita gente “acordando”.

— Não entre quaisquer pessoas. A magia em si escolhe uma chave. Uma pessoa para desencadear tudo.

— Uma “salvadora” ? — precisei pegar um copo d’água.

— Sim. Tudo que essa pessoa precisa é dar um beijo de amor verdadeiro em alguém que está sob a magia também e toda a cidade vai despertar de uma só vez. Mas fique calmo, todos vão se voltar contra mim como sempre, não vai sobrar nada pra você.

— Não Regina, para com isso. Não é só problema seu, é NOSSO. Mas eu... Isso é tão confuso... como que...?

Regina suspirou. — Magia sempre encontra um meio.

Deixei escapar um risinho. — Hã, estranho, por um momento achei que ia dizer “magia sempre vem com um preço”, mas você meio que citou Jurassic Park. – eu pude sentir que ela também sorria do outro lado da linha.

— Não seja bobo. — ela respondeu. — Eu teria citado se dissesse que a vida sempre encontra um meio. Não estou falando de natureza. Estou falando de algo muito mais complexo e perigoso, a magia.

“Paaaaaaaaaaai!”, Neal insistia em gritar.

— Regina, eu vou desligar. Neal não vai me deixar falar com você. Até logo, ok? Vamos dar um jeito de “remendar” isso. Juntos. — e desliguei o telefone.

Eu fui até ele e ele estava me olhando com um enorme sorriso forçado.

— Neal, o que eu te ensinei? Você não deve atrapalhar o papai quando estiver ao telefone.

— Você já ligou pro Chris?

— Nãããããaooo. — eu fiz uma careta pra ele e então Neal pulou em cima de mim e foi me escalando até se pendurar em meu pescoço.

— Liga papai, liga, liga, liga! Eu quero ver meu amigo Chris!

— Espera. — eu o coloquei no sofá e peguei meu celular que vibrou em meu bolso.

— É ele? — o garoto perguntou ansioso.

— Não. — respondi já com os olhos no celular. “Emma Swan: Pai, estou indo pra NY. Deu tudo certo para a prótese do Hook. Achávamos que estava demorando mas ele me explicou que antes tiveram que tirar todas suas medidas e fazer uma série de coisas. Ele vai poder movimentar mão de novo! Estou tão feliz! Acho que vão colocar nele amanhã, provavelmente voltamos essa semana ainda. Cuide bem da família, abraços.” — É a Emma, filho.

— Ela é mesmo minha irmã? Por que todo mundo fala que ela não é minha irmã?

Senti pena daqueles olhinhos miúdos. Era um peso não poder contar as coisas pra ele. — Você a ama como sua irmã de verdade?

— Uhum. — ele respondeu balançando a cabeça.

— Então pronto, ela é sua irmã de verdade. — Eu estava curioso pra ver o que ele iria responder, mas o interfone tocou. — Ué, quem será? — olhei para Neal e ele me olhou com a mesma cara de dúvida que eu.

— Alô?

— Oi David, boa tarde. — Granny respondeu do outro lado. — Aquele garoto, o seu hã... colega de trabalho, está aqui e quer te ver. Disse que é urgente. Posso mandá-lo subir?

— Chris!? — questionei surpreso. “Chris! Chris! Chris!”, Neal comemorou aos pulos no sofá. — Neal, desce daí, você vai cair!

— Sim. Posso manda-lo subir? — ela repetiu.

Eu hesitei por alguns instantes, mas não tive coragem de negar ao ver a carinha contente do meu filho. — Sim, por favor.

Em menos de um minuto Chris estava batendo na porta.

Confesso que fui correndo abrir, mas Neal correu pra porta ainda mais rápido que eu. Só não abriu porque não alcançava a maçaneta. Mas ficou inquieto me esperando abrir.

— Oi Chris. — eu disse abrindo a porta, pego de surpresa por seus olhos brilhando.

— David, eu preciso falar com você.

— CHRIIIIIIIIIIS! — Neal gritou lá de baixo.

— Eu acho que não é uma boa hora pra “conversas de adulto”, sabe?

Chris piscou seus olhos molhados. — Eu posso voltar outra hora, desculpa.

— Não! — eu o segurei pela roupa. — Fica. O Neal não para de pedir pra te ver. Também estou com saudades.

— É Chris! — Neal o puxou pra dentro pelo bolso da calça. — Vem terminar de ver Tinker Bell comigo.

Assim que entrou, fechei a porta e fui atrás deles. Fiz um carinho no cabelo de Chris e olhei pra ele num sorriso torto, tentando demonstrar que o que quer que fosse, ficaria tudo bem e depois conversaríamos sobre. Eu realmente tive que por o mesmo filme da fada verde, que assistiram da primeira vez, quando tudo começou. Neal assistia atento e queria comentar tudo com Chris, que só olhava pra mim com uma cara triste o tempo todo. Depois de muito perguntar a opinião de Chris sobre cenas do filme e não obter respostas satisfatórias, o menino deu as costas para TV e encarou nós dois que dividíamos um sofá.

— Pai, você e o Chris são namorados?

Eu e ele nos entreolhamos, sem saber o que dizer para aquela criança. A resposta logicamente era não, mas como ele chegara àquela pergunta?

— Não filho. Nós não somos. — respondi depois de refletir alguns segundos.

— Mas vocês se amam, não se amam? — ele se mostrava indignado com a resposta negativa, o que me deixou emotivamente abalado. — Sabiam que existem meninos que gostam de meninos? Aí eles namoram. Eu acho que vocês dois gostam um do outro.

— Por qu... — eu ia perguntar mas fui interrompido por Christopher, que lançou a pergunta que estava na ponta da minha língua.

— Por que você acha isso?

— Pelo jeito que vocês se olham ué. Chris, você gosta do papai?

Ele ficou vermelho. — Gosto sim Neal, mas...

— Papai, você gosta do Chris?

— Gosto, filho.

— Tá vendo!? Vocês deviam namorar!

Eu estava morrendo de vergonha, mas ver uma criança inocente com uma mente tão aberta me fazia sorrir como se não houvesse amanhã.

— Mas o Chris tem namorada, filho. — eu disse acariciando seu rosto, orgulhoso do meu garotinho.

— David, na verdade... É sobre isso que eu queria falar com você. — Chris se virou pra mim, bastante nervoso e acanhado. — Eu terminei com a Juliet. Por você.

Eu fiquei bastante envergonhado em ouvir aquilo, especialmente por ele ter falado na frente do meu filho, mas Neal adorou. — Viu pai!? Agora vocês podem namorar. Chris! Chris! — Neal sacudia o braço dele.

— Oi Neal. — o rapaz já mais tranquilo, olhou para ele.

— Você quer namorar o papai? — Sem saber se chorava ou se ria, Chris concordou com a cabeça. Nesse momento em que meus olhos também lacrimejaram. — Papai, você quer namorar o Chris?

Eu respirei bem fundo e olhei para os dois, sorrindo pra eles. Neal esperava histérico a resposta e Chris abaixou a cabeça, rindo de vergonha. — Eu quero. Eu quero muito.

Puxei Neal pra perto de Chris e abracei os dois muito forte, sorrindo cada vez mais bobo. Então Neal nos empurrou e se afastou.

— Ai pai, não é assim. Agora é a hora que vocês se beijam.

Eu olhei pra Chris e ele me olhou e não sabíamos se nos beijávamos ali mesmo pra satisfazer a vontade do garoto ou não.

— Hã... então isso é de verdade mesmo? — perguntei. — Somos namorados?

— Bem... — Chris coçou os olhos — Na verdade quem nos pediu em namoro um pro outro foi seu filho, mas se dispensa as formalidades...

Nós dois rimos daquilo e Neal nos acompanhou, embora provavelmente não tenha entendido o que Christopher quis dizer. — Não, não, espera. — eu me aproximei dele no sofá. — Quero que tenha um pedido especial então. Christopher. Quero poder estar sempre ao seu lado, cuidar de você e te dar o máximo do meu amor. Não vou medir esforços pra te fazer feliz, e isso fará de mim o homem mais feliz no mundo. Você aceita ser meu namorado?

Ele simplesmente pulou em cima de mim me abraçando. — Eu aceito. — ele respondeu baixinho ao meu ouvido.

— Ebaaaaaaa! — Neal gritava ao assistir a cena que era muito melhor que o filme da Tinker Bell.

Chris me soltou e nos olhamos bem de perto por milésimos de segundos, e então nenhum de nós resistiu a um beijo carinhoso e apaixonado. Percebi uma movimentação na sala, mas não abri os olhos para ver. No momento seguinte ouvi o som do violãozinho de brinquedo de Neal. O garoto tinha corrido pra buscar seu instrumento para nos proporcionar uma “agradável” música de fundo.

Chris parou de me beijar aos risos. Nenhum de nós conseguia parar de rir. Mas por mais feliz que eu estivesse, ao mesmo tempo sentia uma pontinha de culpa por ter feito sexo com Regina. Chris tinha terminado com a namorada dele por mim e eu tinha transado bêbado no dia anterior. De repente eu me senti a pior pessoa do mundo.

Notas finais
Sobre Albert Spencer: tenho grandes planos para ele. Sobre Iceman Charming: tudo que é bom dura pouco