Notas iniciais
Eu ainda preciso especificar o nome real e o nome de Storybrooke dos narradores dos capítulos narrados por várias pessoas? Espero que já estejam acostumados. Então nesse só coloquei de uma personagem em especial que está narrando pela primeira vez e ainda não tinha aparecido muito, então pode ser que não se lembrem da nova identidade dela. Nesse capítulo também não especifiquei nada mesmo além dos nomes dos narradores porque acho desnecessário. O 4º capítulo, "Gelo", foi o primeiro do tipo, e por se tratar de diferentes momentos de uma mesma noite em ordem aleatória, precisou de alguns complementos, mas creio que de agora em diante, por questão de manter uma ordem cronológica mais fácil, não vai ser preciso.

(Chris)

Terminar com Juliet não foi a única mudança que fiz em minha vida. Dispensar a espécie de “babá” que eu tinha em casa, foi algo que me ajudou a me sentir menos como um menino e mais como um homem. Embora eu não tivesse tido a chance de conversar com David como eu queria quando cheguei, foi espetacular passar a noite com ele e Neal outra vez. Agora David e eu eramos namorados e o garotinho adorava isso. Aliás, ele mesmo tinha conseguido arrancar do pai um pedido de namoro pra mim, depois de nos fazer dizer em voz alta que “gostávamos” um do outro. Sempre admirei a inocência das crianças, mas Neal em especial, era simplesmente a criança mais legal que eu já tinha conhecido. Eu adorava aquele menino. Como eu estava de férias da faculdade, estava fazendo muitos planos de programas que eu podia fazer com David e o garoto juntos.

— Eu vou descer lá no Granny’s pra buscar algo pra gente comer. Você fica de olho no Neal pra mim? – David disse por trás de mim no sofá.

— Claro, fico sim, vai lá. – respondi deitando a cabeça no sofá e olhando para cima, para vê-lo.

David hesitou por alguns segundos sorrindo pra mim, e então se abaixou e me deu um beijo no nariz antes de sair. Eu voltei a olhar pra frente e Neal estava virado pra mim sorrindo.

— Seu pestinha, não fique sempre olhando, eu tenho vergonha!

Isso só serviu para arrancar gargalhadas dele. Enquanto David estava lá em baixo, passei pelos canais de TV enquanto Neal brincava de massinha e uma notícia me chamou a atenção no canal local. “Mulher que acredita ser fada é levada para ala psiquiátrica do Storybrooke General Hospital”, estava escrito na legenda da reportagem. Uma tal “Maggie Summers”, uma bonita mulher loira de aproximadamente 30 anos, gritava ser Tinker Bell e pedia que acreditassem nela, pois só assim teria seus poderes de volta, no vídeo amador em que era colocada à força em uma van por vários homens de branco.

— Olha Neal, a Tinker Bell do filme que a gente viu! Ela é real! – brinquei com o garoto.

— É mesmo Chris! É ela mesmo! – o menino gritou caindo na risada.

— O que estão falando? – David entrou dizendo. – Estava escutando suas vozes lá de fora. – ele colocou uns pacotes na mesa da cozinha e se voltou pra nós de novo.

— Só estou mostrando pro Neal que a Tinker Bell existe, olha isso! – lhe respondi caindo na risada com Neal. Aumentei o volume da TV e por algum motivo David ficou nervoso.

— Que bobagem. Não faça meu filho acreditar em tolices. – ele pegou o controle da minha mão e desligou a televisão. – Eu não quero que ele acredite nessas porcarias de contos de fadas. Você não devia fazê-lo acreditar em pessoas loucas. Se ela está sendo internada é porque é perigosa.

Eu levei susto com a bronca dele. Não achava que era nada demais. – David, calma. Me desculpa, eu só achei que não faria mal brincar com isso. Ele sabe que é brincadeira, não sabe Neal? – eu olhei pra ele e ele concordou com a cabeça, com medo da reação do pai. Não sabia dizer se ele tinha acreditado ou não.

— Você não é o pai dele e você não decide o que é melhor pra ele ou não. – ele me respondeu tão rude que ele próprio ficou com vergonha do jeito que agiu e tentou corrigir em seguida. – Você é meu namorado, Chris. Mas não é pai dele. Desculpa, eu sei que não fez nada demais. Só que eu quero que meu filho cresça sem se iludir com ficção e pra ser sincero eu nem gosto que ele assista jornal porque tem muita violência pra uma criança da idade dele. Você entende, não entende?

— Sim David, tudo bem. – ele tinha razão, realmente não era o tipo de programa para a idade dele e eu não devia ter mostrado a ele a mulher sendo capturada como foi. E se ele achava melhor não fazer o menino acreditar em contos de fadas, eu devia respeitar, porque como ele disse, eu não era o pai da criança.

David nos chamou para comer uma torta que ele tinha comprado. Estava quentinha e realmente deliciosa. Ainda haviam chocolates de sobremesa. De alguma forma, eu sentia que ele queria me agradar tanto quanto o filho dele. Ele tinha seu ciúmes de nós dois, mas era um ciúmes controlado. Ele era um bom pai e eu acreditava que seria um bom namorado também. Não muito mais tarde Neal dormiu e David o levou para a cama. Poderíamos ter conversado sobre meu término com Juliet, mas estávamos com saudades demais um do outro para isso. Ele insistiu em me pedir desculpas outra vez por ter gritado comigo, mas não era necessário. Nos beijamos e trocamos carícias durante muito tempo.

— Isso é real? Estou mesmo namorando você? – cheguei a lhe perguntar.

Ele me respondeu com sorrisos e beijos, mas depois ainda reforçou. – Sim Christopher Black. Eu, David Nolan, sou seu namorado. – ele me pegou pela mão, me levou até seu quarto e acendeu a luz. Ele apontou para um espelho grande no fundo do quarto com a mão livre, com a outra segurou forte a minha mão. – Tá vendo aquilo? Somos nós. E é de verdade. – então David levantou nossas mãos à altura de sua cabeça e deu um beijo por cima da minha mão.

— Você é tão idiota! – eu disse rindo daquilo.

Ele ficou um pouco vermelho. – Eu sei.

— Você também não precisava nos mostrar no espelho pra acreditar que é real, sabia? E eu te amo, idiota.

— Eu também te amo. – David soltou minha mão e levou a sua ao meu rosto, percorrendo-o com seu polegar. – Eu não fiz isso pra convencer você. Eu fiz isso por mim, porque eu também precisava acreditar que é real.

Oh céus, tinha como eu ficar ainda mais apaixonado por aquele homem? David era um príncipe, em todos os sentidos. Contei a ele que dispensei a mulher que cuidava de mim e imediatamente ele pediu que eu ficasse e passasse a noite ali com ele.

— Agora você não tem ninguém com quem se preocupar e ninguém vai se preocupar com o horário que chega em casa. Fica. E eu te levo de carro pela manhã se quiser. Ou podemos passear eu, você e o Neal. E você vai embora só mais tarde. Você que sabe.

— Eu não vou negar que quero. – respondi bastante receioso. – Mas se eu ficar, significa que faremos sexo? Porque eu não quero ainda. – eu me preparei para qualquer tipo de resposta. Afinal era algo que hora ou outra viria à tona e eu teria que saber lidar. Então eu preferia ser brutalmente honesto a enchê-lo de falsas esperanças.

— Não. Até porque eu também não estou pronto pra isso. Quando tiver de ser... será. – embora estivesse falando de sexo, as palavras saíram de sua boca com a mesma inocência que Neal tinha ao falar de seus dinossauros de brinquedo. – Ah, mas se você dormir aqui, não pense que vou te deixar dormir no sofá. Você vai dormir comigo na cama, eu vou abraçar você e vamos dividir um mesmo edredom.

Eu soltei uma risada alta e ele me acompanhou rindo baixinho. “Não acorde o Neal”, ele disse antes de segurar meu rosto e me dar um beijo.

— Ok. Eu fico. – saiu da minha boca quando ele finalmente me soltou. – Afinal, não pode ser tão ruim assim, não é? – brinquei.

Eu tive o final de semana mais maravilhoso da minha vida. Eu dormi abraçado com o cara que eu estava amando, fui ao parque com ele e Neal no outro dia, e ainda fomos a uma loja de discos e ganhei de David o álbum Thriller do Michael Jackson. No domingo, David e Neal foram me visitar em casa. Eu ensinei os dois a jogarem vídeo game e David era péssimo. Construímos uma cabaninha e brincamos com os dinossauros de Neal até David ter a maravilhosa ideia de mirar uma lanterna contra o rosto e contar histórias de terror. Eu tive uma crise de risos porque ele bateu a lanterna na cabeça e Neal começou a chorar de medo. Eu me levantei pra sair de perto querendo me acalmar e beber água, acabei derrubando a cabaninha e Neal ficou furioso. Mas no final do dia estávamos todos nos divertindo de novo. Uma pena que tinham que ir embora. Sabia que David odiava ter de deixar Neal com a mãe dele no final dos domingos e pressenti que agora odiaria quando esse momento da semana chegasse.

(Emily)

Eu não conseguia acreditar. A urna estava vazia. Quem diabos furtaria as cinzas de uma pessoa? Eu formulei mil teorias sobre o que podia ter acontecido, mas nenhuma delas realmente fazia sentido. Então comecei a refletir sobre a ideia de Lily sobre algo sobrenatural pairar a cidade não ser tão impossível assim. Não havia explicação cética para aquilo. Ao me questionar internamente sobre a urna com as cinzas do meu pai, cheguei à conclusão de que embora sempre soubesse que estavam ali, nunca tinha mexido antes na urna, até Lily me despertar curiosidade sobre a veracidade das minhas lembranças. E o recipiente estava tão vazio e limpo que não havia sequer sinal de que um dia tivesse sido cheio com algo como pó, que deixa tantos vestígios.

Foi o suficiente pra me fazer questionar a mim mesma, tudo que acreditava. Sobre minha vida antes de Storybrooke, os amigos que tive, a faculdade... Era como se eu tivesse uma resposta pronta pra tudo, e eu tinha certeza de que tinha vivido essas coisas, mas não conseguia me lembrar delas com exatidão. Eu estava assustada. E ao mesmo tempo queria poder contar pra Lily. Mas eu já tinha mandado duas mensagens pra ela e ela não tinha aparecido. Nada de visualizar. Eu não podia insistir uma terceira vez.

Por sorte eu tinha Ruby pra conversar comigo. A Ruby é aquele tipo de pessoa que é amiga de todos e todo mundo adora. Foi uma das primeiras amizades que fiz em Storybrooke desde que cheguei. Ela era minha espécie de confidente, porque pra ela eu podia ser eu mesma, que ela não me julgava. Pelo contrário, achava tudo muito interessante e fazia tanta palhaçada que as vezes achava que ela também era lésbica. Sério, era só eu ficar tímida pra contar alguma coisa que ela começava com “Ah sua gostosa, não fica assim não, fala mais, gata! Se você não contar eu vou te beijar!”. Ela ainda fingia que ia me beijar mesmo, mas sempre desviava se acabando de rir de mim, que ficava toda iludida. Eu sabia que ela morria de amores pelo tal August, um rapaz realmente bonito e simpático, que sempre estava só “de passagem” pelo Granny’s e ela sabia que eu tinha uma quedinha por Lily e acompanhávamos sempre os avanços uma da outra. Ela tinha combinado de sair com o rapaz mas no dia houve uma confusão na lanchonete envolvendo o xerife e sobrou até pro pobre August que foi nocauteado. Depois, sei que ainda conseguiram sair decentemente, mas ele estava bastante tímido e apesar de agir romanticamente o tempo inteiro, não rolou nada entre os dois. Já comigo e Lily, só tínhamos ido ao cinema juntas e quase engolimos uma a outra. Ruby quase morreu de inveja quando eu contei, mas ela ficou feliz por mim.

Naquela tarde esquisita eu só podia contar com ela. Ruby. Precisava me desabafar.

“Amiga, preciso te falar de umas coisas muito estranhas que a Lily me fez perceber.”, eu enviei pra ela. “E responde logo, mulher. Já basta o vácuo que tô levando dela”, achei melhor acrescentar.

Ruby respondeu no minuto seguinte: “Emily, você me disse que se lembrou de um filme de ET enquanto beijava a pobre coitada. Defina estranho”.

Eu tive um pequeno ataque de risos. “Babaca”, respondi. E então contei toda a esquisitice e não poupei palavras.

Ela visualizou e só respondeu alguns minutos depois. “Pera aí amiga, vou lavar a louça aqui porque se minha vó me pegar no celular de novo eu fico sem salário esse mês. E avisa quando for mandar bíblia, credo!”.

Quando Ruby me respondeu, foi muito grosseira. Disse que eu estava ficando louca e que devia parar com essas esquisitices porque Lily provavelmente tinha dito as coisas que me disse como brincadeira e me acharia tola se dissesse acreditar nela. Eu fiquei chateada mas pra não demonstrar, mudei de assunto. Eu já estava parecendo uma tonta checando o celular quando Lily me respondeu. “Ei Emily, bom dia! Me desculpa pela demora, eu tava na rua. E queria te perguntar se não estaria a fim de vir aqui pra casa hoje, passar algum tempo comigo. Minha tia passou mal ontem e está no hospital, então eu vou ficar sozinha. Provavelmente não é nada, só alguma virose, mas ela vai ficar de observação. Enfim, você vem?”.

Sabe quando você tem uma explosão de sensações e não sabe ao certo o que fazer? Eu não sabia se ria, se sentia pena da tia dela, se ficava feliz pelo convite ou se me jogava da janela. Eu fiquei bastante nervosa.

Mesmo chateada com Ruby, achei que seria bom pedir ajuda à minha conselheira. Pedi que ela subisse pra conversar comigo, mas ela estava muito ocupada no Granny’s e a vó dela não a deixaria sair pra conversar com a lanchonete cheia. Ainda assim, Ruby me encorajou a ir e disse que eu seria muito boba em recusar o convite. Ela também disse que se August a convidasse assim para ir à casa dele, que ela iria e “devoraria” o rapaz. Tive medo de perguntar o que ela entendia por devorar.

Fiz meus afazeres domésticos com o celular grudado às mãos, conversando o tempo todo com Lilith e Ruby. Confirmei com a primeira que logo iria encontra-la, e informava tudo à segunda.

“Desculpe se estou demorando de novo. Eu estava aqui tocando e quando eu toco eu meio que me desligo do mundo, haha”

“Você toca? Que lindo, estou impressionada. O que você toca?”, respondi Lily derrubando acidentalmente a urna do meu pai no chão, despedaçando-a. Senti meu coração despedaçar da mesma forma, mas me forcei a concentrar em Lily. Então só varri a bagunça pra um canto pra resolver depois e continuei organizando as coisas.

“Impressionada?” – ela respondeu. – “Por que? É tão inacreditável assim que uma pessoa como eu goste de tocar? Hahaha”. Eu fiquei extremamente nervosa pensando no que responder e ela acrescentou: “Piano. Eu toco piano”.

Ok, agora eu estava realmente impressionada. A garota era uma caixinha de surpresas e ela nunca parava de mostrar mais e mais atributos, me deixando pra trás. E ela ainda tocava piano? Eu podia não entender nada sobre pianos ou música, mas achei a coisa mais linda do mundo o fato dela tocar piano. Digo, eu era capaz de imaginar Lilith desafiando uma amiga a enfiar uma garrafa de vodka na vagina, mas tocando piano? Caramba, ela era uma pessoa mais doce e romântica do que eu podia esperar. Eu brinquei com ela que queria ouvi-la tocar e ela me disse que gravaria um vídeo dela tocando pra me mandar. Eu fiquei muito, muito empolgada. “Então se você gostar, quando estiver aqui em casa, eu vou tocar uma música especialmente pra você”, ela disse. Eu comecei a pular que nem criança. Eu enviei prints da conversa pra Ruby que não escondeu entusiasmo ao dizer “Arrasa, gata! Sei bem o tipo de “piano” que essa mulher vai tocar hoje”. Eu comecei a rir nervosamente. Sabia que no fundo ela tinha razão. Lilith com certeza tinha segundas intenções. E eu não estava pronta. Mas achei melhor não tentar lidar com isso naquele momento, e deixar para que na hora, acontecesse o que tivesse de acontecer.

Eu fui tomar banho, enquanto Lily gravava o trecho de alguma música. Eu sabia que qualquer coisa que ela tocasse seria simplesmente uma música ao piano, nada diferente pra mim de qualquer outra que já tivesse ouvido, porque não entendia nada daquilo. Mas diria que adorei para todo caso, porque realmente adoraria. Simplesmente pelo fato de ter sido tocada pra mim e claro, garantiria que ela tocasse pra mim quando estivéssemos juntas.

(Teresa/Elsa)

Juliet estava arrasada, pobrezinha. Mas ela se recusava a parecer fraca. Queria bancar a durona o tempo todo. Ela não falava do assunto e fugia de todas minhas investidas. Mas eu precisava saber como ela realmente se sentia. Eu não podia evitar de me preocupar com minha irmã. O pior de tudo é que eu precisava contar algo a ela com urgência, mas ela tinha sido chutada pelo namorado num péssimo momento para termos o tipo de conversa que eu queria. Eu estava ansiosa pra contar pra ela do meu encontro, com um jovem a princípio encantador que conheci na biblioteca. E ela conhecia esse rapaz. Descobri que Peter estudava com minha irmã antes mesmo de combinarmos nosso encontro para nos conhecermos melhor, porque ele havia me dito que estava no seu segundo período no curso de jornalismo da Universidade de Storybrooke, bem como Juliet estava. Mas eu tive medo de contar a ela. O que minha irmã pensaria de mim se soubesse que eu tinha saído com um de seus colegas da faculdade? Se bem que eu não mantive meu interesse. Ele se mostrou um mentiroso compulsivo. Eu percebi quando ele me contou da última “namorada” dele. Ele descreveu Juliet com perfeição. Fisicamente e interiormente. Depois ainda disse seu nome. E eu conhecia minha irmã mais que a mim mesma. Sabia que ela estivera com Christopher todo o tempo em que estivemos na cidade e que jamais seria da índole dela se relacionar com duas pessoas ao mesmo tempo. Óbvio que não contei a Peter que conhecia e muito bem a garota em questão e que ela era minha irmã. As mentiras dele não pararam, depois disso foi fácil notar. Ele era uma pessoa estranha, misteriosa e com certeza perigosa. Eu não o queria perto da minha irmã, mas não sabia como conversar disso com ela no momento. Primeiro eu precisava ajuda-la a sair da fase depressiva.

— Ok Juliet, já chega, agora você vai se abrir pra mim. – eu soei intimidadora ao me sentar perto dela no sofá e desligar a televisão. Ela não fez nada senão olhar pra mim inexpressiva. – O que foi? Acha que vou deixar você ficar hoje o dia todo em frente essa TV de novo? Comendo... o que é isso que está comendo? – eu puxei a mão dela e vi um grande pote de sorvete com chocolate quente por cima. Sim, chocolate quente com sorvete. O sorvete já estava cerca de 70% derretido. Ela o tomava como se fosse sopa na colher.

— Para com isso, Esa. Eu não quero falar nada. Chris me trocou por outra garota e não há mais nada que possa ser dito sobre.

— Não Juliet, sejamos realistas. – dizer isso doía em mim, mas era meu papel de irmã mais velha e ela precisava de um choque de realidade. – Caras não dizem que estão apaixonados por “outra pessoa” quando estão apaixonados por outra garota. Bom, quando nós mulheres dizemos que estamos apaixonadas por uma pessoa, isso quer dizer mesmo uma pessoa, independente do sexo. Mas quando um cara diz isso, ele definitivamente está se esquivando de dizer que se apaixonou por outro homem.

— Você não sabe disso! – ela me respondeu zangada. – Ele poderia ter dito inocentemente que se apaixonou por uma pessoa com a intenção de dizer que essa pessoa era mulher.

— Você está enganando a si mesma. Ele disse sete vezes a palavra “outra pessoa”. Eu contei. Você se lembra o quanto foi constrangedor pra mim escutar tudo aquilo da cozinha e ter que passar por vocês pra ir pro quarto. Você disse “Quem é essa garota? Eu não tenho o direito de saber?” nove vezes, sim, eu continuei ouvindo do quarto, vocês gritam muito. E em todas vezes que você disse isso ele deu respostas confusas e que não respondiam nada com nada. Ele ficou nervoso cada vez que você perguntou sobre outra garota. Porque Juliet, não era uma garota.

— Você com certeza não está me ajudando.

— Desculpe, eu sei. Mas isso não deveria te fazer se sentir pior. Pense por outro lado, Juliet. Se Christopher era interessado por garotos esse tempo todo...

— Ele não era. – Juliet me interrompeu.

— Ok. Então, pense que ele pode ter descoberto recentemente. Você ao menos sabe que a culpa não é sua, afinal ele não conseguiria se manter capaz de se relacionar com uma garota por muito tempo.

— Ah ele conseguia se relacionar muito bem, obrigada. – agora sim minha irmã estava irritada.

— Hã, esse é o tipo de comentário que eu realmente não precisava ouvir, mas tudo bem. Eu só quero minha irmã de volta, Juliet. Alegre, comunicativa. Você que sempre desempenhou bem o papel de madura e sempre disposta a ajudar. E conseguiu todas as vezes. – ela ficou sentimental e me olhou com os olhos de um cachorrinho perdido. – Só quero retribuir te ajudando também. Sinto falta de poder falar com você. Você parece que... está fechando portas pra mim.

(Emily)

Eu bati na porta numa pilha de nervos. Eu estava no meu pior estágio de apreensiva. Ouvi Lily se levantar de algum sofá e logo ela abriu a porta.

Eu tinha adorado o vídeo que ela me mandou. Não dava pra ver muito o seu rosto, mas fiquei encantada com os movimentos de suas mãos tocando. Até Ruby achou fofo quando encaminhei o vídeo pra ela. Eu mal podia esperar para que ela tocasse pra mim pessoalmente. Esperava que isso não fosse apenas uma desculpa pra me trazer à sua casa.

— Oi Emily. – ela me disse com seu sorriso lindo, branco e perfeito.

— Oi. – minha resposta não escondeu meu nervosismo.

Ela se aproximou e beijou meu rosto, eu fiz o mesmo. Não sabia se ela estava fazendo isso porque podia passar alguém ali e nos ver ou se realmente não nos beijaríamos outra vez como no cinema. “Não se preocupe demais, Emily”, disse a mim mesma em pensamento.

Ela me perguntou se eu queria alguma coisa, mas eu estava legal. Ela iria tomar um café e pediu para que eu me sentasse com ela. Lilith cuidava rigorosamente de seu corpo. Ela tinha uma dieta extremamente equilibrada e ia todos os dias à academia. Eu fiquei até com vergonha porque minha última refeição tinha sido um salgado do Granny’s cheio de bacon e ela estava comendo um sanduíche de atum. E eu estava cheia demais pra experimentar um sanduíche como o dela. Meu corpo também não era bonito como o dela, embora eu estivesse longe de ser uma pessoa sedentária. Me “lembrava” de ter feito aulas de lutas marciais antes de me mudar para Storybrooke, mas isso não me deixava com um corpo definido. Em Storybrooke eu sempre fazia caminhadas ou corridas e mesmo assim nunca fiquei gostosa como Lily. Academias não eram bem uma coisa pra mim. Eu precisava parar de pensar. Eu só conseguia nos comparar. Mas era só olhar pra ela que eu sentia vergonha. Ela era tão “muito” em tudo e eu era tão “quase nada”. Por exemplo os peitos dela. Ela tinha seios maravilhosamente adequados pra ela. As vezes me perdia olhando pra eles.

— Hmm. – ela murmurou limpando a boca quando terminou seu sanduíche. – Eu vou só escovar os dentes e toco uma música pra você. Ok?

— Claro.

Eu fiquei batendo as unhas na mesa e observando o relógio enquanto ela escovava os dentes. Eu sempre achei relógios de parede máquinas perversamente curiosas. Me acostumei tanto com relógios digitais que tinha dificuldade de olhar as horas em um relógio mecânico. Convenhamos, aqueles pauzinhos dos minutos são tão próximos! Eu sempre tinha vergonha quando alguém me perguntava as horas sem que eu estivesse com um celular por perto, porque teria que contar os minutos de cinco em cinco com bastante atenção nos ponteiros e depois somá-los. Fora que tinha medo de confundir a hora, já que o ponteiro menor as vezes já estava sobre o comecinho de algum algarismo, mas ainda não era aquele período de hora. Relógios são confusos. Quem os criou devia tê-los feito de forma mais exata, para que os ponteiros ficassem perfeitamente sobre os números que devessem indicar. E que todos tivessem números, principalmente. Fica mais fácil entende-los. Eu via os relógios como as pessoas. Difíceis de se entender à primeira vista. Relógios e pessoas são o tipo de coisa que requer atenção e um pouco de calma para entender o que estão querendo lhe transmitir.

Para minha sanidade mental, Lily chegou e me salvou da minha esquisitice. No mesmo minuto eu já havia esquecido completamente dos relógios.

— Vem comigo, vou te mostrar o meu quarto. É lá que eu toco o piano.

Seu quarto era pequeno e o piano era de frente para a sua cama, onde me sentei. Na verdade não era um piano, agora que eu o via de perto. Eu não quis soar indelicada, mas acabei sendo mesmo assim. – Isso não é um piano de verdade, é?

Ela riu. – É um eletrônico. Não tenho grana o suficiente ainda para comprar um decente. Mas quando eu comprar, com certeza tocarei pra você outra vez.

Eu não tinha uma resposta formulada em mente, então ela apenas começou a tocar sorrindo. Foi lindo, absolutamente lindo. Demorou um pouco, mas eu gostei de cada minuto da música. Eu prestei atenção nas mãos dela o tempo todo. Elas se moviam tão delicadamente e com tanta classe! Era elegante, magnífico. Lily era definitivamente uma pessoa cheia de particularidades estranhas e tão desinibida e despojada que me fazia parecer a pessoa mais sem graça e inexperiente do mundo perto dela, mas ela também tinha incansáveis atributos que me agradavam.

— O quê? – perguntei quando ela terminou e me encarou sorrindo.

— Você gostou?

— Eu amei. – foi a primeira coisa que respondi a ela com segurança.

Ela levantou, eu me levantei. Não precisou andar muito pra se aproximar de mim e me beijar. Sua língua invadiu minha boca, e tentei usar a língua também. Não sabia se estava fazendo certo, mas ao menos ela não reclamava. Foi ótimo beijá-la de novo. Meu primeiro beijo tinha sido com ela, dias atrás, e como é de se esperar de mim, eu não tinha beijado mais ninguém desde então. Com Lilith eu me sentia uma pessoa normal, como qualquer outra. Que beijava e que se divertia.

— Senti sua falta Emily. – ela me disse ao cessar o beijo.

— Também senti a sua.

Eu lhe dei um selinho e sorri com os lábios fechados. Aquela garota era muito linda.

Nós duas fomos para o sofá e conversamos sobre filmes de terror mal feitos, música, sobre veganos e uma infinidade de coisas, que surgiam do nada. Tudo isso claro, entre olhares e alguns outros beijos. Então eu resolvi contar pra ela sobre o que tinha notado naquele dia sobre minhas lembranças. Inclusive sobre a urna de cinzas do meu pai, que encontrei vazia. Ela ficou desconfortável, disse que se arrependeu de me meter na maluquice dela, mas que se eu realmente acreditasse e quisesse respostas, que ela me ajudaria a busca-las.

Por mim estava tudo ok, nada me assustaria mesmo. Eu já estava atolada até a testa de perguntas, quaisquer respostas que surgissem, por mais insanas que parecessem, seriam melhores que minhas próprias especulações.

— Bem, então há algo que devo te contar. Sobre o voo que você pegou, não houve um voo 926 da Oceanic Flight na época que veio pra cá. Você estava assistindo televisão antes de descer pra me ver, não é?

— Sim, eu estava vendo o jornal local.

— Eles estavam fazendo uma reportagem sobre a queda o Oceanic Flight 815 que ocorrera no mesmo dia há não sei quantos anos atrás. Tudo que seu cérebro precisou fazer foi absorver a informação e aumentar cada algarismo daquele número para que você tivesse uma desculpa sobre o avião que pegou. 815 virou 926. Talvez você nunca tenha pego um avião.

— Ah mas eu não disse que peguei um avião diretamente pra cá. Em Storybrooke não há aeroporto afinal. Eu vim para uma cidade maior aqui perto e depois peguei um táxi.

— Emily. Estou dizendo que nunca houve o voo que você mencionou. Eu liguei para a companhia aérea.

— Você o quê!? – naquele momento Lilith me assustou. Ela podia ser alguma maníaca ou coisa assim. Que tipo de pessoa investiga assim a vida de outra? Que obsessão!

— Eu também falei com alguém do corpo de bombeiros de Storybrooke. Nunca trabalhou nenhum homem de sobrenome “Chang” aqui. Emily, toda a sua vida é uma mentira. Nossas vidas. Tudo que acreditamos ter vivido é mentira.

Eu respirei fundo pra não sair correndo dali. Me acalmei e prestei atenção porque queria saber o que ela tinha pra falar. – Ok. E como você chegou a essa conclusão?

— Você acredita em mágica?

Eu não respondi.

Lilith me contou sobre coisas estranhas que tinha visto pela cidade. Desde pessoas criando água no ar a pessoas sendo curadas pela prefeita. Ela tinha um livro de contos de fadas e acreditava ter alguma relação com o que estava acontecendo. Ela dizia que o livro contava de forma metafórica sobre a maioria dos habitantes da cidade, correlacionando-os com personagens de uma chamada “Floresta Encantada”. Ela queria descobrir uma forma de usar o livro para devolver a todos moradores de Storybrooke as verdadeiras memórias que eram suas por direito e então punir o responsável ou responsáveis por tirá-las.

— Devo dizer, isso parece muita maluquice, mas também confesso que por algum motivo tento e não consigo me convencer de que é impossível. Estou assustada. Mas quero ajudar você.

Ela sorriu pra mim, satisfeita. – Eu posso ser maluca, mas pra acreditar em mim e se dispor a me ajudar dessa forma... Você só pode ser mais maluca que eu.

Ela se aproximou e a beijei. Nos beijamos por um longo tempo, e as mãos dela começaram a percorrer meu corpo. – Espera, vamos nos deitar, essa posição está me incomodando. – Eu disse já mudando de posição. Ela me esperou paciente e veio por cima de mim me beijando. Desceu pelo meu pescoço, me mordiscando e nossas mãos se encontraram, entrelaçando nossos dedos. Ela se afastou e me olhou sorrindo. “Você é muito linda”, ela disse.

Lily não quis ficar por cima o tempo todo. Mudamos de posição várias vezes para trocar “amassos”, mas na verdade ela gostou de ficar a maior parte do tempo deitada comigo por cima dela, tomando conta da situação. Eu podia jurar que ela fazia isso porque sabia que eu era tímida e me desafiava dessa forma a quebrar minhas barreiras. Mas eu estava gostando. Tudo estava perfeitamente bem até as mãos dela subirem pelas minhas costas, por baixo da minha camiseta. Ela começou discretamente, como fosse sem querer, mas aos poucos passou a me arranhar de leve. Não sei dizer se gostei daquilo ou não. Era uma sensação esquisita e eu temia que ela quisesse mais que isso. Se ela pretendia ter sexo, eu iria a deixar frustrada. Não estava pronta pra isso e não iria rolar. Mas foi divertido estar com ela mesmo assim. Me senti na liberdade de apertar sua bunda, o que me deixou bastante “alegre”. Nossa sessão de beijos foi ainda melhor que da primeira vez no cinema. E quando eu disse que teria que ir embora, ela realmente ficou muito triste e insistiu muito para que ficasse e dormisse com ela. Disse que não precisávamos dormir na mesma cama e que faria tudo para que eu me sentisse confortável. Mas não seria daquela vez. “Quem sabe na próxima”, eu disse. Lily na verdade acabou por me elogiar sobre o lance de deixar claras minhas intenções mais inocentes. Segundo ela, era um saco sair com caras que só pensavam em transar com ela no primeiro encontro. Outras mulheres também. Mas eu era diferente. Eu estava a conhecendo e por hora era o suficiente pra mim. Afinal de contas meu ritmo bateu com o dela. Talvez não fossemos tão diferentes assim, embora ela tivesse tido mais sorte na vida que eu e consequentemente tivesse a experiência que nunca tive. Acabei enrolando mais um pouco, porque Lily realmente me fazia querer ficar. Depois de trocar mais alguns doces beijos, ficamos sentadas ali naquele sofá por mais um tempo, olhando uma pra outra. A televisão ficou ligada o tempo todo e não sabíamos o que estava passando. Eu acariciei seus cabelos, seu rosto, ela sorria pra mim. Ruby tinha me dito uma vez que eu devia me abrir logo pra ela sobre minhas inseguranças antes que ela percebesse pelo meu comportamento. Eu não queria que ela pensasse que eu era uma pessoa que não sou, então achei que aquele momento era ideal pra contar meu “segredo” pra ela. Eu no fundo não queria, mas era melhor fazer logo, antes que a coragem passasse. E o fiz. Ela não sabia o que dizer, mas ficou me olhando sorrindo maravilhada com o fato de ter sido a primeira pessoa a me beijar. Ela fez o mesmo discurso de que cada um tinha seu tempo, discurso este que eu já tinha escutado outras vezes das poucas pessoas pra quem acabei me queixando dos meus problemas em me expressar e me aproximar das pessoas amorosamente falando. E ela acabou me contando dos “poucos” namorados e namoradas que teve. Porque segundo ela, também era uma pessoa tranquila e queria mostrar sua seriedade me contando que era bem mais o tipo de pessoa que namora sério e que tinha repulsa por gente que só quer saber de sexo e transa com qualquer um. Ela me contou de sua primeira vez. Eu fiquei tipo “Hã? Sério que você vai me contar da primeira vez que você transou e ainda com um cara? Mulher, eu não estou nem um pouco interessada em saber quão nervosa você ficou com a mangueira do cara entrando na sua vagina”. Lógico que eu não disse nada disso, mas ela podia ler na minha cara se quisesse. Eu mantive um falso sorriso pendurado no rosto, descombinado coma expressão de pânico que minhas sobrancelhas desenhavam.

Quando a toda a conversa estranha acabou, nós nos despedimos e ela me pediu um último beijo antes que eu fosse pra casa. Nos beijamos e eu já não tinha nenhum receio de fazer isso com as mãos entre os cabelos macios dela. Ela abriu a porta, eu disse “tchau” outra vez e ela me puxou pra ela e me beijou outra vez, com a porta aberta mesmo. Eu não esperava por isso, mas eu adorei. Pode parecer bobeira, mas o medo de sermos vistas ali, fez minha adrenalina subir de um jeito muito louco e meu coração bateu mais forte, entregando nervosismo outra vez.

(David)

Henry foi me procurar aquela manhã, antes de que eu saísse para o trabalho. Ah sim! Enfim eu voltaria para a delegacia, afinal Emma tinha saído da cidade.

Eu realmente tinha um bocado de coisas para falar com o garoto, mas não sabia se realmente devia, por isso não o procurei antes.

— Oi vô. Precisamos conversar. – Henry disse já entrando, assim que abri a porta pra ele.

— Claro, entre. – eu respondi gesticulando com a mão, embora ele já tivesse entrado.

Henry me contou sobre o sumiço do livro, o que eu já sabia graças a Ursula. Na verdade, não tinha sido tirado diretamente dele. Fiquei feliz em saber que ele havia seguido nosso conselho e se livrado do livro, seguindo em frente em relação aos contos de fadas. Era uma medida de segurança pra todos nós, já que nossa intenção era viver novamente sem nenhuma inconveniência causada por nossas vidas passadas. Henry doou o livro para o acervo da biblioteca da escola. Ele me disse que outras crianças podiam precisar dele, de forma diferente da que precisou. Que livros eram refúgios e que ele esperava que seu livro ajudasse alguém.

Eu já estava quase orgulhoso quando ele me contou que não era capaz de se manter longe do livro. Ele visitava a biblioteca da escola apenas para checá-lo e garantir que lá estivesse.

— Henry! Você nunca assistiu Senhor dos Anéis não? – exclamei indignado, cobrindo meu rosto com as mãos. Então o encarei e ele expressava em seu rosto o quão careta me achou por aquela frase. – Henry, o que estou querendo dizer é que objetos mágicos são perigosos. E acredito que aquele livro seja. Você devia ter ficado longe dele. Aliás, não só longe, você devia tê-lo destruído. Você foi covarde em destruí-lo porque o queria perto de si. E veja o que aconteceu. Lily o furtou.

— Lily o quê? – o garoto caiu no sofá.

— Ursula me contou que Lily tem investigado. Ela acredita que há algo sobrenatural na cidade, embora não saiba o quê. Mas ela deve ter pesquisado em todo lugar e bom, agora que ela tem seu livro, creio que ela esteja perto de descobrir o que é.

— Como ela sabe? Ursula?

— Sobre o livro? Não perguntei, mas provavelmente deve ter visto Lilith com ele. A garota chegou a abordar Ursula, pressionando-a para que contasse o que soubesse.

Henry ficou tão preocupado quanto eu quando soube da notícia. – E Ursula contou?

— Não. Não, ela não contou mas teme que a filha de Maleficent descubra por si mesma. Como eu te disse, agora ela está perto de descobrir, ela tem o livro, a pista mais “quente” por assim dizer.

Henry murmurou algumas ideias sobre como recuperar o livro e então finalmente destruí-lo mas não dei muita atenção, porque sabia que ele não era capaz. Havia um grande preço sentimental pra ele. Então aproveitei para tomar meu café e terminar de me arrumar.

— Eu devo ir agora, Henry. – eu disse pegando a carteira. – Você quer ficar aqui mais um pouco e depois levar as chaves para a Granny ou pode sair pra que eu tranque a porta?

— Espera vô! – ele se levantou e veio depressa na minha direção. – Tem mais uma coisa que preciso conversar com você. Eu prometo que vai ser rápido.

Minhas pernas tremeram e eu fiquei nervoso. – Se quer falar sobre o meu namorado, eu não tenho nada a dizer sobre isso. – eu despejei, tropeçando um pouco com as palavras.

— Não vô, não é bem isso, eu... Espera namorado? Vocês estão mesmo namorando então? Disso a vó não me contou.

— Bem, é. – lhe respondi bastante inseguro. – Na verdade é algo bem novo. Nós começamos a namorar nesse final de semana.

— Hã, ok. Isso não me incomoda... – Henry dizia cada palavra com receio de que eu me irritasse a qualquer momento, dava pra ver em seus olhos. — ... embora eu tenha de admitir que gostaria de ver você e a vó juntos outra vez. Tenho o coração de um verdadeiro crente, afinal. – ele deu de ombros. Sou a personificação de esperança, pode me culpar? – Henry sorriu de canto, bastante tímido e eu fiz o mesmo, mas senti pena dele. Sabia que o que ele realmente queria era sua velha família de volta, mas ele nunca mais teria isso outra vez. – Mas realmente não vou tentar te forçar a nada, vô. Digo, você tá feliz com esse cara, então assim que deve ser, certo? Eu só queria te pedir pra você e a vó não se tornarem inimigos. Por favor. Ela está chorando muito e teme que a inimizade de vocês interfira na criação moral do Neal. E eu... eu acho que ela tem razão. Eu sei que vocês brigaram, ela me contou tudo, apesar de superficialmente. Eu não vou tomar nenhum partido, eu amo vocês dois. Só quero que se esforcem pra se entender e se não puderem ser pelo menos amigos, que se tratem bem na frente do garoto. Eu já tive problemas familiares demais. Fui abandonado pela minha primeira mãe, cresci sem nenhum pai, fui raptado pelo meu bisavô, e aliás meu outro vô sempre fui um sujeito instável e agora está desaparecido, e ah sim, quando tive a chance de conhecer meu pai, ele morreu. Mas o que mais me marcou foi ver minhas duas mães percorrerem um looongo caminho se odiando e se maltratando. Eu não quero que Neal tenha problemas familiares como eu tive.

Eu não sabia o que dizer. O que ele disse mexeu comigo e me deixou de olhos molhados. Eu simplesmente agarrei Henry, dando a ele o abraço mais forte que já dera em toda minha vida.

Notas finais
Pra finalizar só quero mendigar uns comentários mesmo porque só vejo comentários das mesmas pessoas sempre e pelas visualizações tem bem mais gente lendo e não sei o que esses seres silenciosos estão achando. Por favor galera, dá uma força aí, tá? Até o próximo capítulo!