Dad's Boyfriend
18 Bastidores da Guerra dos Deuses pt. 1
Notas iniciais
Ursula nunca teve intenção de fugir para Storybrooke como um ato de covardia. Ursula nunca teve como real intenção, pedir socorro aos meros mortais da cidade, embora alguns como Regina, soubessem fazer alguns truques de mágica. Tirar um coelho da cartola ou coisas do tipo.
Não. Ursula não foi se esconder, ela sabia que seria encontrada cedo ou tarde. Ela não estava com medo. Ela sequer temia a morte, que para a semideusa era certa. Na verdade, ela esperava se sentir aliviada quando tudo acabasse. Afinal, ela se reencontraria – ou assim esperava esperançosamente – com pessoas tão queridas.
O motivo dela escolher Storybrooke como o lugar que passaria seus últimos dias, era justamente pra se sentir próxima de uma dessas pessoas queridas. Pisar onde ela pisou, sentir o ar que ela sentiu... Visitar seu túmulo.
Cruella sempre foi uma pessoa de humor ímpar quando estava com Ursula. Mesmo o sarcasmo que a mulher usava para falar mal do jeito que outras pessoas se vestiam, fazia Ursula rir. E ainda que a relação das duas não tivesse sido sempre assim initerruptamente, Ursula se arriscava a dizer que Cruella fora sua única e verdadeira amiga. Bom, Maleficent e Regina tiveram seus momentos com ela, mas não era a mesma coisa.
Talvez a semideusa tivesse se apegado tanto à Cruella por conta de um conselho que sua mãe lhe dera ainda na infância. Ursula era uma sereiazinha robusta e desajeitada. Sua mãe arrumava seu cabelo com fitas cor-de-rosa, fazendo cada dia um novo penteado. As duas apostavam corridas, a mãe sempre deixava a filha ganhar. Um dia, numa dessas corridas, as duas nadaram até a superfície e avistaram um amontoado de pedras gigantes, bem perto de uma ilha, onde decidiram se sentar para descansar e apreciar a paisagem. Ursula adorava observar a natureza e especialmente as belezas marinhas. Quando estava na superfície, gostava de apontar pros animais e plantas que podia ver por baixo d’água e perguntar seus nomes para a mãe.
— Mãe, olha! – a garotinha apontou com o dedo indicador, sacudindo a pequena mãozinha e sua cauda ao mesmo tempo. – Aquele bicho! Aquele!
A sereia mais velha riu. – Ursula, esse você já sabe. Já vimos vários desses na praia, lembra? É fácil de se ver na água rasa.
— Caranguejo! – a pequena exclamou levantando os bracinhos para o ar, se desfazendo de rir.
— Sim, minha peixinha. É um caranguejo. Se você sabe, é só me mostrar e dizer o nome.
— Eu sei. – ela riu tímida e se escondeu entre os ombros. – É que eu gosto quando você fala. Eu gosto da sua voz.
— Oh, obrigada, querida! – a mãe juntou a cabeça da filha ao seu peito, depositando um breve beijo no topo e a soltando depois. – Mas eu nem estou cantando ainda. – ambas riram. – Ugh, eu acho que tinha uma alga no seu cabelo quando beijei você! – ela simulou uma tosse e passou a mão pela boca com a língua pra fora, como se limpasse a sujeira.
A garotinha gargalhou travessa e depois fixou seu olhar na mãe. Sua mãe tinha longos cachos castanhos de cabelo bem crespo. Sua pele, também era negra, ainda que num tom bem mais claro que o da filha. Seus olhos eram pretos e a sereia tinha o sorriso mais lindo que a menina já vira. Ela usava uma tiara presa aos cabelos, como de uma rainha, por ser esposa do deus dos mares. Usava ainda, vários colares sobre os seios nus, de diferentes coisas encontradas no mar. De pérolas amarradas em pedaços de anzol à plantas marinhas mais resistentes. As sereias não tinham vergonha de seus seios. Não era sequer um objeto de erotização masculina. Eram simplesmente... seios. Várias delas até usavam conchas para cobri-los, os pintavam com corantes naturais ou até os cobriam com tecidos furtados de navegantes que caiam ao mar, mas sempre como uma forma de adorno. Usavam para se enfeitar, com a mesma naturalidade que uma mulher humana passa batom. Mas não a mãe de Ursula. Ela se orgulhava do seu corpo e não sentia necessidade de esconder os seios, ainda que fosse para enfeitá-los. Mas entendia a necessidade da filha tímida de parecer com as outras garotas de sua idade.
— Mãe, eu quero ser como você quando eu crescer! Eu amo seu cabelo! Por que o meu não é como o seu? Se fossem iguais, quando eu alcançasse sua idade, poderíamos ser melhores amigas idênticas! Eu amo quando você está fora da água e seu cabelo fica enoooorme conforme o sol vai secando ele.
— Ora, você nunca vai alcançar minha idade, querida. Todas as pessoas envelhecem com a medida do tempo. Você vai envelhecer, mas eu vou envelhecer mais também...
Ela estava tomando ar para iniciar uma nova frase mas foi interrompida pela garota em tom peralta. – Mais ainda!?
— Olha lá como brinca, mocinha! – a mãe fingiu zangar-se, mas riu em seguida. – Sim, mais ainda. E é por isso que eu não posso ser sua única amiga pra sempre, Ursula. Porque não estarei aqui ao seu lado pra sempre. Bom, é claro que ainda vamos ser melhores amigas. Você não encontraria uma amiga mais esperta e legal que eu, não é? – deu uma piscadinha – Mas você precisará de outras, querida. Não precisam ser sereias. Podem ser os peixinhos, náiades, deuses, espíritos da água, oras, nem precisam ser da água! Você pode até mesmo ser amiga de humanos. E seu cabelo é lindo também. Todos temos belezas diferentes. Quem dera eu conseguisse fazer tantos arranjos de fita no meu cabelo como consigo fazer no seu!
— Hm. Eu ainda gosto mais do seu. Espera, você disse... “humanos”?
— Sim, eu disse. Nem todos são maus. Eu acredito que devíamos cantar para eles e alegrá-los, assim, veriam que nosso povo não é mau também. Mas seu pai não me ouve.
— Uau mamãe! Eu quero ter um amigo humano! Eu quero ter um amigo humano! Mesmo não sendo eles todos maus, vou arrumar um amigo bonzinho pra juntos fingirmos que somos maus. Todas as sereias chatas que implicam comigo irão temer a gente! Vão morrer de medo! Vão se curvar a nós!
— Ei! De onde tirou essa ideia maluca, Ursula? Não, você não deve fazer ninguém temer você. Deve ser amável e todos vão gostar de você. Por que essas meninas implicam com você?
Ursula desviou o olhar, desanimada.
— Elas falam que a cor da minha cauda é feia. Dizem que roxo não é cor de nenhum peixe que elas conhecem e por isso riem de mim.
— Oh querida... – a mãe acariciou o ombro da pequena – Você é uma sereia, não um peixe. Mas ainda assim. Nem todos os peixes são de tom verde ou prateado. Os peixes mais bonitos são os coloridos. E você conhece um monte, não conhece? Elas que estão precisando estudar mais.
— Sim! Sim! – ela gritou empolgada, enquanto começava a listar mentalmente nomes de peixes coloridos que gostava antes de expô-los verbalmente. – Como a moreia, que é amarela mas cheia de manchinhas marrons! Ou os frades e frades-reais que tem tons azuis lindos! E o mais bonito é o Budião, com aquele vermelho elegantíssimo e um toque de amarelo no final. Mamãe, acha que eu posso acrescentar algumas cores na minha cauda?
A rainha riu. – Talvez quando você ficar mais velha, desde que use os poderes que herdou do seu pai para fazer o bem. Aposto que seu amigo humano vai adorar.
— Vai sim! Mãe... Eu posso me casar com um humano também?
A mãe da tagarela semideusa hesitou por alguns segundos.
— Bem minha filha... Acredito que não há limites para o verdadeiro amor. Para tudo existe uma solução.
— Que nem você e o papai, né? Ele é um deus e você uma sereia. E vocês são melhores amigos! – de fato, seus pais eram um grande exemplo de melhores amigos para a garota. Sempre amorosos e carinhosos, se divertiam juntos como ninguém. O que salvou Poseidon depois de ter perdido a ex-mulher, com quem também tivera uma filha, Morgana. – E se eu devo ter melhores amigos fora você e o papai e se posso casar com um melhor amigo humano, é isso que vou fazer!
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