Dad's Boyfriend
6 Adorei o filme
(Mulan/"Emily Chang" POV)
“Ok, só respire fundo e tente não estragar tudo”, era o que eu dizia pra mim mesma.
Eu estava prestes a ter um encontro ou coisa assim. Eu não sabia dizer. Combinamos de tomar um café juntas, conversarmos. Eu não sabia o que aquilo queria dizer pra ela. Mas pra mim significava muito. Eu estava deixando a minha zona de conforto e adentrando no mundo real, um “grande pequeno passo”. Eu já imaginava um pouco o que ela ia me perguntar, então fiz listas de possíveis perguntas e respostas e decorei tudo. É careta, eu sei. Mas eu precisava estar preparada para responder perguntas que à primeira vista parecem tão simples, mas que exigem muito da resposta. Como “Que tipo de música você gosta?”. Porque quando alguém te pergunta que tipo de música você gosta, essa pessoa não quer realmente saber o tipo de música que você gosta. Ela está esperando que dentre sua resposta mencione algo que ela goste. E claro, eu deveria parecer acima de tudo, interessante. Interessante e eclética na verdade. Então eu não deveria mencionar nenhuma cantora pop dessas músicas “chicletes”, isso é muito clichê. Eu com certeza deveria mencionar pelo menos duas bandas ou grupos musicais, mas eu só tinha um em mente. E eu devia acima de tudo mencionar algum cantor das antigas, pra mostrar que sou culta. Algum astro do rock renomado seria boa escolha. O problema é que eu só ouvia músicas aleatórias, nunca fui fã de nenhum artista específico. E se ela me perguntasse de algum artista que eu dissesse gostar, mas não soubesse responder? Por isso eu acho encontros extremamente complicados. É muito difícil impressionar alguém.
Outra pergunta que me deixava preocupada e não era uma questão de "se" ela iria perguntar e sim de “quando” ela iria perguntar era sobre as pessoas com quem “tive” relacionamentos sérios. É de se imaginar que em encontros as pessoas perguntam de quanto tempo foi seu relacionamento mais longo, o que te fez romper seus relacionamentos passados, etc. A questão é que eu tinha a “ficha limpa” né. E bota limpa. Eu jamais, em hipótese alguma contaria do desastre e da frustração que tinham sido minhas tentativas de ter alguma vida amorosa. Eu tentava não pensar nisso, mas uma vozinha na minha cabeça sempre me lembrava “Que vergonha a sua, Emily! Mais de vinte anos e nunca sequer beijou alguém!”. Já passei muitas noites em claro chorando de ódio de mim mesma, mas agora eu estava em outra fase. Eu precisava ter confiança em mim mesma, deixar de lado aquela mentalidade ridícula da menininha que se achava feia, porque agora eu era uma mulher. E eu era muito bonita sim. Eu teria que me achar bonita em primeiro lugar, ou continuaria nunca sendo notada. Minha paixonite insensata pela minha amiga heterossexual, casada e com um filho, também tinha que ter um ponto final. Eu não tinha mais a mesma loucura por Lisa que um dia tive, mas as vezes, eu ainda sentia uma quedinha por ela. E tudo que eu estava fazendo, só iria me ajudar a desconstruir tal sentimento já infértil a essa altura.
Mesmo que eu não conseguisse atingir meus objetivos com aquele encontro, eu sairia de cabeça erguida porque ao menos teria me testado e qualquer resultado seria uma vitória. Eu tinha em mente que nunca mais ficaria chorando por nunca ter sido tocada, porque eu era bem mais que isso. Mas ninguém precisava saber meu segredo. Nunca fiquei feliz em compartilhá-lo. Por quê? As reações variavam de piadinhas à sentimento de pena e eu sempre odiei que sentissem pena de mim. Não há nada que me faça sentir mais fraca.
Foi exatamente o que Lisa fez, apesar de ter sido a pessoa mais compreensiva e me dado bons conselhos. Ela sentiu pena. E eu não podia me esquecer de quanto tempo ela hesitou em abrir os olhos e perceber que eu era apaixonada por ela. Ela nunca me entendeu. Era como se vivesse num sono profundo, impossibilitada de ver o que realmente acontecia à sua volta. E como eu disse, o que eu sentia por ela tinha ficado para trás, apesar de eu ainda ter meus infelizes momentos de “paixonite” pela amiga comprometida. Mas chega de falar da Lisa. Eu estava ali esperando por uma garota incrivelmente linda e despojada. Em personalidade éramos bem opostas, já que ela parecia ser o tipo de pessoa festeira, experiente, desinibida e bom, eu... eu era eu.
Eu olhei as horas pela décima quarta vez. Ela estava atrasada e conferir as horas não ajudava em nada.
— Você tem certeza que não vai pedir nada, meu doce? — perguntou aquela senhora simpática do Granny’s que provavelmente já estava se sentindo mal em me ver ali plantada a tanto tempo. Porque claro, eu tinha chegado mais cedo do que combinamos, o que deixou minha espera mais longa.
— Muito obrigada. Estou esperando uma amiga, ela já deve estar chegando.
Foi quando meu celular vibrou. “Me desculpa, estou atrasada, eu sei! Problemas com o despertador, longa história... Já estou me trocando, logo te vejo. Bjs!”. Então eu fiquei incrivelmente nervosa porque ela estava chegando. Mas ela continuou me deixando esperando. Como nos conhecemos? Bem, nós duas estávamos hospedadas no Granny's Bed and Breakfast. Estávamos sempre nos esbarrando. Eu não podia deixar de encará-la. Seus olhos eram lindos e seu sorriso mais ainda. Mas os sorrisos nunca eram pra mim. Mesmo assim eu adorava a fitar de longe, na esperança de vê-la sorrindo.
Eu estava determinada a conhecê-la, apesar de não ter coragem de falar com ela. Então procurei por algum perfil seu na internet, mas era realmente difícil sem saber sequer seu primeiro nome. Eu já tinha perguntado pra Ruby, mas a garçonete não a reconheceu somente pela minha descrição e eu nunca conseguia mostrar a dita cuja para Ruby. Mas por muita sorte mesmo, consegui encontrar seu perfil no facebook, depois de uma semana ou duas procurando dentre amigos das pessoas da cidade. Assim eu poderia ter um primeiro contato com ela, como quem não quer nada e tentar fazer com que na próxima vez que nos vessemos, pudéssemos falar sobre algo.
Eu lhe enviei uma solicitação de amizade seguida de uma mensagem que quase hesitei em enviar. Lembro perfeitamente que dizia “Oi, tudo bem? Então, eu te vejo quase todos os dias e sinto como se já até te conhecesse, mas fico sem graça de falar um ‘oi’, então por isso estou tentando por aqui primeiro. Hahaha”. Foi extremamente idiota, eu só percebi depois que mandei. Eu não devia ter dito que queria dar um “oi” como se precisasse saber se tinha permissão pra isso. Achei que ela iria me ignorar para sempre, mas nos encontramos de manhã, alguns dias depois, justamente quando eu estava com a Ruby pra mostrar quem afinal era minha crush. Ruby disfarçou falando alguma coisa enquanto checava seu celular, mas eu olhei pra aquela garota e sorri. E ela sorriu de volta. Pela primeira vez, ela sorriu pra mim. Naquele dia um pouco mais tarde ela aceitou minha solicitação. E ela foi tão gentil na resposta! “Olá Emily, tudo sim e você? É verdade, sempre nos trombamos por aí né? Posso te passar meu número? Aí a gente conversa melhor, porque eu não entro muito aqui”. Eu perdi a cor quando li isso, mal podia acreditar. E ela já sabia quem eu era, caramba! Eu tinha certeza que ficaria muito tímida quando a vesse pessoalmente de novo. Nós passamos a conversar eletronicamente e eu só voltei a vê-la uns três dias depois. Ela estava conversando com duas senhoras, então eu não soube bem o que dizer. Só a cumprimentei, perguntei se estava tudo bem e logo inventei uma desculpa para continuar andando. Mas ela sorriu pra mim, de novo. E então as coisas fluíram melhor. Nosso contato se tornou mais frequente e embora nenhuma de nós falássemos de nossas sexualidades, ficava subentendido que estávamos à procura de uma mesma coisa. Quando combinamos de tomar um café juntas, se tornou oficial: eu tinha um encontro com ela.
Finalmente ela chegou. Ela estava linda, toda produzida e com roupas bonitas. Eu também não estava de se jogar fora. Era um simples café da manhã na lanchonete do lugar onde estávamos morando há um tempão, onde nos cruzamos infinitas vezes. Mas pra mim era especial.
— Oi, tudo bem Emily? — ela disse um pouco sem graça, me cumprimentando com um beijo no rosto. — Eu te deixei esperando muito? Me desculpa, por favor! — e exibiu o sorriso que eu tanto admirava.
— Oi, tudo sim, Lily. — respondi radiante — E com você? Ah, problema algum, eu nem esperei tanto assim. Já estava até distraída aqui assistindo aquele cara que canta baixinho ouvindo música nos fones enquanto come. — realmente tinha um cara fazendo isso. Eu mostrei pra ela e nós rimos juntas dele.
— Tudo bem também. — Lily disse se sentando. — Se bem que acabei de levar uma má resposta daquelas. — Eu perguntei “O quê?” pra ela, mas ela iria contar de qualquer jeito. — Sabe aquela mulher alta, negra com um cabelão loiro super bonito? Acho que é “Ursula” o nome dela. Eu quase sempre vejo ela com um mesmo colar de prata que parece um monte de letras “V”, uma sobre a outra, já reparou? Sempre fiquei curiosa pra saber o motivo de usar tanto. E tipo, hoje eu a vi segurando e olhando pro colar num sentimentalismo tão grande que não aguentei e perguntei o porquê.
— Você é louca!? — perguntei entre risos — e o que ela disse?
— Ué, eu não, louca é ela de ficar olhando pra um colar e quase chorando! Ela falou que não era da minha conta e ainda olhou de cara feia, como pode uma coisa dessas?
Até que não estava sendo tão difícil como eu esperava. Conseguíamos assunto com uma facilidade imensa e ríamos de tudo. E sim, a parte ruim chegou, mas eu consegui responder omitindo alguns detalhes, acho que soube contornar bem a situação e ela não precisou saber que eu era uma completa inexperiente. Lily por outro lado, contou suas aventuras com ex-namorados e ex-namoradas, o que me deixou um pouco desconfortável. E ela demonstrou ser bissexual por ainda ter interesse em ambos os sexos. Apesar disso, falamos sobre várias coisas legais e completamente aleatórias. Em um dado momento, Ruby que nos olhava por trás do balcão, fez um sinal com as mãos, juntando os dois dedos indicadores e os dois polegares, passando a língua pelo meio do losango que se formou, insinuando um ato obsceno. “Palhaça!”, eu murmurei sorrindo, e mostrei o dedo do meio pra ela. — O que disse? — Lily me perguntou confusa e tive que explicar, morta de vergonha.
Mudávamos de assunto com extrema facilidade e logo ela estava me perguntando o que eu fazia em Storybrooke.
— Ah. Bom, estranho você perguntar isso. Estou aqui há tanto tempo e acho que ninguém nunca me perguntou. — sorri pra ela, que me lançou um olhar engraçado. — Ok, eu te conto. Eu vim pelo meu pai. Ele estava muito doente, até deixou seu emprego no corpo de bombeiros. E embora nenhum de nós admitisse, ambos sabíamos que ele poderia partir a qualquer momento. Então eu larguei tudo, meus estudos, minha vida onde eu morava e vim pra cá na esperança de passar meus últimos momentos com ele. Minha intenção era conseguir qualquer emprego que fosse e cuidar dele. – Mas... eu... eu não cheguei a tempo.
— Caramba Emily... eu sinto muito.
— Não, está tudo bem. — enxuguei os olhos. — Eu só fiquei chateada porque ninguém soube me explicar aqui o que tinha acontecido com ele. Só recebi uma certidão de óbito e as cinzas dele. Mais nada. Eu estava no avião no dia da morte dele, chegando aqui. E logo ele era só pó. É muito azar, não acha?
— Acho. Qual vôo você pegou?
Eu estranhei aquela pergunta. Não entendi o que tinha a ver com a história. — Oceanic Flight 926. Por quê?
— E o que você estudava e onde estudava? Consegue se lembrar dos seus colegas de classe? — Lilith me perguntava num tom muito sério, como se fosse um interrogatório.
— Ei, ei, calma, hã... vamos devagar, ok? Eu estava cursando Engenharia na UW em Seattle. E... por que está perguntando essas coisas? Qual a importância se eu lembro dos meus colegas de classe ou não?
— Emily, você vai me achar realmente louca quando eu disser. Mas por favor, me responde primeiro.
— Claro que eu lembro. De vários. Deixe me ver. Tinha a... Espera. Nossa. Como era mesmo o nome daquela menina tão legal que...? Eu vou lembrar, espera.
— Você fala que seu pai estava doente. Mas que doença ele tinha afinal? — Ela estava me deixando perdida e assustada. Pela primeira vez tudo pareceu absurdamente falho. O que estava acontecendo comigo? Que tipo de pessoa eu era já que não me lembrava de nenhum amigo e nem sequer da doença do meu pai? Eu não respondi e ela continuou. — O laudo médico diz alguma coisa? O que diz a certidão de óbito? Emily? — eu realmente estava fora de mim. Eu a ouvia mas não sabia o que responder, fiquei olhando pasma. Realmente os documentos eram muito confusos pelo que eu me lembrava. Mas nunca tive o interesse de checar a fundo antes. E eu não sabia como. Lily precisou me sacudir pra eu responder alguma coisa.
— Eu não sei. Não sei nada. — foi o que saiu. — O que tem de errado comigo?
— Não com você. — Lily colocou sua mão sobre a minha, o que me fez desviar completamente o olhar pra sua mão. — Com essa cidade. Sinto que desde que cheguei aqui tudo está estranho. Minha própria vida não faz sentido, tudo está cheio de buracos. A única pessoa que conheço aqui é Emma Swan, ficamos juntas em um orfanato quando éramos crianças. E há um borrão bem grande entre o que aconteceu depois disso e o dia em que ela foi me buscar dizendo que minha tia biológica estava me procurando. Bom, pelo menos é disso que eu me lembro. E todo mundo tem dificuldade em lembrar coisas do seu passado. Todo mundo aqui tem dúvidas sobre o que lembra ou não lembra. É muito estranho, quase como se fosse algo... sobrenatural. — Eu murchei. A conversa tomou um rumo totalmente inesperado. — Estou te assustando, não é? — suspirou, fechou os olhos por alguns segundos e disse sorrindo. — Deixemos minhas teorias de conspiração com um toque macabro pra depois. Desculpa. Estamos aqui pra falar sobre nós, certo?
Eu sorri de canto pra ela, bem boba com a palavra “nós”. Ela pegou na minhas mãos com ambas as suas e as acariciou de leve com o sorriso que adorava ostentar. Logo voltamos a conversar como antes, tomamos nosso café e nos despedimos com a promessa de vermos juntas um filme na tarde daquele mesmo dia.
Eu estava extremamente animada. Vamos por partes. Eu fui pro quarto procurar os documentos que tinha sobre meu pai, mas não achei eles. Eu sabia onde sempre estiveram guardados, mas naquele momento simplesmente pareciam nunca ter existido, como se fosse invenção da minha cabeça. Onde diabos estava aquilo? Todo o papo confuso e sobrenatural dela me deixou intrigada, mas tentei fazer o possível para esquecer e focar no nosso programa da tarde.
Eu saí não muito depois, porque ainda estava à procura de um emprego. A decisão de largar tudo e vir pelo meu pai tinha sido um tanto sem planejamento e eu ainda não tinha conseguido um emprego. Eu havia sido inocente como uma criança, mas ainda assim me sentia na obrigação de honrar seu nome, então encontraria um trabalho digno e me sustentaria de modo a deixá-lo orgulhoso se estivesse vivo, ainda que eu tivesse deixado meus estudos.
Eu bati em várias portas naquele dia, mas posso dizer que nenhuma delas “se abriu” pra mim. Eu já estava no centro por conta disso, bem antes do que tinha combinado com Lily para irmos ao cinema juntas. O filme não importava, nós duas tínhamos admitido que era só um pretexto para termos um momento nosso. Foi difícil pra mim, concordar com isso em voz alta, mas eu consegui. E embora ela não tivesse mencionado, eu sabia que isso significava a possibilidade de nos beijarmos.
Havíamos nos conhecido há tão pouco tempo e tínhamos tido tão pouco contato pessoalmente desde então, mas mesmo assim as coisas fluíam muito rápido e com naturalidade, que eu não cansava de dizer para mim mesma em pensamento, para reforçar a ideia de que eu estava sendo interessante para alguém. Tínhamos tomado somente aquele café juntas, mas já nos sentíamos próximas por tudo que conversamos por telefone.
Enfim chegou a hora tão esperada. Na verdade ela se atrasou um pouco, de novo. Mas eu não me importei. Só conseguia sorrir. Eu com certeza não estava apaixonada, mas tudo mexia comigo de um jeito único, eu estava tendo uma primeira experiência no que eu talvez pudesse num futuro breve, chamar de “relacionamento”. E ainda que isso não acontecesse, eu não me importava. Ainda assim, teria adquirido experiência.
— Você não vai comprar pipoca? — Lilith me perguntou quando estava na nossa vez da fila e eu só tinha pedido por um refrigerante e um pacote de balas. Na verdade eu preferiria um suco e não fazia a menor questão das balas, mas ela comprou balas também e eu não querer pipoca já mostrava suficientemente minha personalidade idosa.
— Ah... não. Eu não gosto muito de pipoca.
— Não podemos dividir a minha?
Eu queria dizer sim pra soar simpática, mas eu sabia que não ia gostar de ter que comer aquilo e tinha certeza de que se fossemos nos beijar, eu ficaria com algum pedaço de milho preso entre meus dentes.
Nós subimos as escadas para a sala do filme e ela não parava de falar sobre escolhermos um lugar bem afastado no fundo, pra ficarmos longe do restante das pessoas, o que reforçava ainda mais minha teoria de que eu seria beijada. Mas eu tinha o seguinte raciocínio: ainda que ela quisesse me beijar, eu seria lerda o suficiente para não perceber o momento e não iria colaborar, então eu tinha que criar coragem e ser direta.
— Então Lily, me responde uma coisa. — tínhamos acabado de nos sentar nas últimas poltronas de um canto à esquerda que era muito mal iluminado por sinal. — Eu gosto de me sentar no fundo, mesmo. Acho melhor para ver o filme. Mas... você disse o tempo todo que não queria ficar ao alcance da vista de curiosos. Pode me dizer o motivo disso?
Ela ficou vermelha. Eu achei ironicamente fofo, eu tinha conseguido deixar aquela pessoa que era super descolada, com vergonha.
— Bom, Emily... — ela sorria sem graça, mas me olhava nos olhos. – É pra caso eu queira te dar um beijo.
Bingo! Eu tinha a sensação de ter ganhado na loteria. Finalmente, depois de tantos anos sendo uma pessoa “atrasada”, eu finalmente teria o que por tanto esperei. Eu tinha criado por muito tempo uma expectativa romântica de que meu primeiro beijo seria com alguém especial por quem eu estivesse extremamente apaixonada mas que se danasse isso. Se as pessoas podiam “ficar” com quem mal conheciam, por que eu não poderia também? Sem falar que Lily era exageradamente linda, sexy e minha quedinha por ela só aumentava.
— Você bem que podia querer. — eu disse decididamente, mas me arrependi da tonalidade desesperada no segundo depois.
Ela começou a rir. — Tá bom. Espera só apagarem a luz, ok?
Eu não sabia o que responder, só virei pra frente nervosa e fingi assistir o trailer que estava sendo exibido. E na mesma hora o resto das luzes se apagaram. Percebi ela olhando pra mim. Eu olhei pra ela. Ela estava sorrindo convidativamente. Eu me aproximei.
Certo, vamos resumir essa primeira parte do beijo. A princípio foi estranho. Ela não hesitou em inserir sua língua na minha boca e involuntariamente fiz associações grotescas sobre o que aquele ser invasor fazia na minha boca. Por um momento, pensei estar beijando aquele alienígena do filme, “Predador”. Eu queria ter parado de associar coisas por aí, mas infelizmente acabei me lembrando da genitália de um cachorro. Foi bem nojento, mas me forcei a pensar em algo feliz ou fofo e logo consegui me concentrar no beijo e esquecer completamente as primeiras impressões assustadoras.
Tinha sido ótimo depois que me acostumei com a ideia de que eu estava beijando e parei de imaginar coisas estranhas. Mas foi relativamente rápido, porque quando ela “moderou” a intensidade do beijo, entendi por parar e me afastei. Eu fiquei bastante tímida, e ela me olhava maliciosamente.
— O quê? — eu perguntei tendo certeza de que ela tinha achado horrível e percebido na mesma hora que eu não sabia beijar.
Ela sacudiu a cabeça, ainda rindo. — Você é muito fofa.
— Ah. Obrigada...
Nós duas ficamos bastante perdidas entre nos olharmos ou assistir ao filme que já tinha começado. Eu queria beijá-la de novo, mas como eu devia proceder, isso eu não sabia. Lily voltou a me fitar, e eu me virei pra ela dizendo "Me beija de novo?" como uma mendiga pedindo esmola, o que era absolutamente desnecessário, ela estava justamente me esperando olhar pra ela pra me beijar de novo. Mas claro, eu tinha que passar vergonha.
O segundo beijo foi mais intenso e nos ajeitamos nas poltronas de modo a ficar mais confortáveis uma de frente pra outra. — Bem que podia ter como tirar isso aqui né? — ela disse cessando rapidamente o beijo, mostrando o suporte para apoiar o braço, que nos separava uma da outra. Eu mal concordei e ela voltou a me beijar. Intencionalmente ou não, ela colocou uma de suas mãos sobre o meu joelho. Foi quando eu me senti em liberdade para acaricia-la melhor. Eu não vou mentir, tudo que tive vontade de um dia fazer com a Lisa, eu descontei ali, naquele beijo. Minhas mãos percorriam por seus cabelos, seu pescoço, seus braços e costas. Ela ficou bastante ofegante, me entusiasmando ainda mais. Eu estava com dificuldade em lhe fazer uma diferente carícia, quando ela desviou seu rosto do meu, oferecendo seu pescoço. Eu estava embaraçada, mas sabia o que tinha de fazer. Beijei de seu pescoço à orelha, mordiscando-a de um jeito sensual. Céus, aquela não era eu. Sempre tão tímida, nunca me imaginei fazendo esse tipo de coisa num ambiente tão cheio de gente. Realmente não estávamos sendo vistas, mas quanto ao som de nossos beijos, eu não podia garantir nada.
— Emily. — ela se afastou carinhosamente. — Eu preciso ir ao banheiro. Me espera um minuto?
Entrei em pânico. — Hã... c-claro... claro, vai lá.
Eu tinha sido vulgar demais? Caramba, que vadia eu tinha sido! No nosso primeiro encontro! Eu tinha estragado tudo, com certeza. Não podia imaginá-la indo fazer outra coisa no banheiro senão ligando pra alguém pra contar a situação desastrosa e voltando pra se despedir, com alguma desculpa improvisada com a pessoa.
E ela voltou bastante séria, me deixando aflita. Mas ela se sentou novamente do meu lado. — Demorei?
— Não. — eu tentei não me demonstrar nervosa. — E você não perdeu nada, só disseram que a mulher matou o irmão pra mostrar que ela é muito malvada. — era a única coisa que eu tinha prestado atenção no filme desde que ela saiu.
Ela não queria saber do filme. Ela me beijou de novo. E então o beijo durou uma eternidade. “Eu devo parar?”, me perguntava de vez em quando. Abri os olhos algumas vezes e observei ao redor, feito uma idiota, e ela estava empenhada a me beijar. Sim, eu preciso admitir, trocamos muitas carícias e fomos muito fogosas para uma primeira vez. Talvez eu tivesse pegado no jeito. Lily estava gostando e eu, nossa, nem tenho palavras para descrever o quanto estava contente e satisfeita com aquele “filme”.
Ela só parou outra vez pra ir no banheiro de novo. — Mas de novo? — eu fiz cara de cachorrinho sem dono.
— Desculpa, é rapidinho. — ela respondeu envergonhada. Só então percebi que ela realmente precisou ir ao banheiro essas duas vezes, porque tinha bebido bastante refrigerante enquanto eu fiquei inerte sem perceber que devíamos nos beijar. Eu tinha me preocupado atoa. Já a pipoca dela, eu olhei e parecia intocada. Iria murchar e provavelmente Lily teria que jogar tudo fora.
Logo estávamos beijando de novo, e nos beijamos até o final do filme então, sem nenhuma interrupção. Não sabíamos de nada que tinha acontecido no filme, só estávamos ali, uma pra outra. Foi tudo maravilhoso. O beijo que se estendeu até o final da sessão foi maravilhoso. Nos beijamos por praticamente duas horas seguidas, de forma romanticamente sexy, como se fossemos namoradas de longa data. Quando as luzes se acenderam e tudo parou, nos olhamos por longos segundos até que eu cortei o silêncio.
— Adorei o filme.
Nós rimos juntas. — Eu também, Emily. Adorei “o filme”.
Saímos juntas do cinema e perguntei pra onde ela iria. “Pra casa, e você?”. Eu também iria pra casa, mas estava de moto e ela estava estacionada um pouco longe. Nós caminhamos por uma rua onde ela me perguntou pra onde eu estava indo.
— Eu vou pegar a moto ué. — eu já tinha explicado pra ela onde a moto estava estacionada e não entendia o estranhamento.
— Ah. Ok. — ela arqueou as sobrancelhas me achando louca. — Então... você vai pra lá agora?
— Vou. E você?
— Pra cá. — ela indicou pra trás com o polegar o sentido contrário.
— Bom, acho que é isso então. A gente se fala.
— É. — ela concordou desconfortável em se despedir de mim. — Chato isso né? Não dá pra gente se despedir direito assim na rua. — e veio em minha direção dar um beijo no rosto de despedida, já que não poderia despedir com um beijo mesmo.
Eu cedi à despedida dela, mas acrescentei. — Ah, a gente pode dar um abraço também, oras. Assim ó, até com um tapinha nas costas. — fui abraçando-a enquanto dizia, um abraço forte e carinhoso. “Verdade. Como ‘irmãs’ ou coisa assim, haha”, ela murmurou durante o abraço. A apertei muito, temente de que não tivéssemos um segundo encontro.
— Gostei muito de sair com você. Obrigada.
— Você não tem o que agradecer, Emily. Eu também gostei muito de sair com você. E pra falar a verdade, acho que nunca fiquei tanto tempo beijando alguém. — eu fiquei vermelha- Você foi a primeira.
Nos demos um “tchauzinho” e seguimos nossos rumos em direções opostas. Depois de atravessar algumas esquinas, achei o cenário noturno do lugar um tanto diferente daquele por onde andei durante o dia e onde estacionei a moto.
— Ai não!!! — eu exclamei no meio da rua. — Eu saí na direção contrária da que falei, ela deve pensar que eu sou retardada!
Eis o que aconteceu. Eu me esforcei demais pra não parecer nervosa durante tudo o que aconteceu. Mas assim que saímos do cinema, todo nervosismo que contive antes, veio à tona e fiquei tão desorientada que errei o caminho. Eu devia ter ido justamente na direção que ela foi. Podíamos ter continuado num mesmo caminho, conversando e caramba! Eu podia ter oferecido uma carona! Como não pensei nisso antes? Eu imediatamente peguei o celular e enviei uma mensagem pedindo desculpas e admitindo o erro pelo nervosismo. “Prometo não ser tão estranha na próxima vez”, acrescentei. E saí em disparada na direção certa, na esperança de ainda encontra-la, mas não a vi mais. E ela não visualizou a mensagem.
“Emily, você é oficialmente a pessoa mais esquisita que eu conheço”, eu me dizia em pensamento, chegando ao real lugar da moto.
Mais tarde, já em casa, recebi uma resposta dela. Ela foi bastante simpática e compreensiva, disse que achou muito engraçado e fofo o fato de eu ter errado o caminho, embora eu quisesse cavar um buraco e me esconder.

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